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Acidente Vascular Encefálico (AVE)


Conceitos Iniciais

O Acidente Vascular Encefálico (AVE) é caracterizado pelo desenvolvimento de um déficit neurológico focal súbito, que pode, em algumas situações, ser global. Este evento ocorre devido a uma interrupção do fluxo sanguíneo para uma área do cérebro (AVE isquêmico) ou a um sangramento dentro ou ao redor do tecido cerebral (AVE hemorrágico).

🧠 Lembre-se: A principal manifestação clínica que nos direciona para a suspeita de AVE é um déficit neurológico focal súbito. Isso significa que, de forma abrupta, o paciente perde a capacidade de realizar uma função específica, como mover um membro, falar ou compreender.

Ataque Isquêmico Transitório (AIT)

O Ataque Isquêmico Transitório (AIT) é definido como um episódio de disfunção neurológica focal causada por isquemia cerebral, medular ou retiniana, sem evidência de infarto agudo em exames de neuroimagem. Antigamente, a reversão dos sintomas em menos de 24 horas era o critério diagnóstico. No entanto, essa definição é considerada ultrapassada, pois estudos demonstraram que muitos pacientes com sintomas transitórios apresentavam áreas de infarto cerebral em exames de imagem.

🚨 Atenção: Qualquer deficiência neurológica focal súbita que se prolongue por mais de 10-15 minutos deve ser considerada um AVE e tratada como tal, visando a intervenção precoce e a minimização de danos.

Etiologia do AVE

O Acidente Vascular Encefálico pode ser classificado em dois tipos principais, com diferentes prevalências:

Tipo de AVE Prevalência Característica Principal Achado Inicial na TC de Crânio
Isquêmico ~80% Obstrução do fluxo sanguíneo cerebral Geralmente normal nas primeiras horas; hipodenso após 24-72h
Hemorrágico ~20% Sangramento intracraniano Hiperdenso desde o início
Hemorrágico Subaracnoide (AVCH SAH) Subtipo de AVEh Sangramento no espaço subaracnoide Hiperdenso no espaço subaracnoide
Hemorrágico Intraparenquimatoso (AVCH IP) Subtipo de AVEh Sangramento dentro do parênquima cerebral Hiperdenso dentro do parênquima

Exame Inicial para Diferenciar os Tipos de AVE

A diferenciação entre AVE isquêmico e hemorrágico é crucial para o manejo adequado e deve ser feita rapidamente. O exame de imagem de escolha para essa distinção inicial é a Tomografia Computadorizada (TC) de crânio sem contraste.

🔎 Diagnóstico: A TC de crânio sem contraste é a ferramenta diagnóstica inicial mais importante para o AVE, principalmente para excluir hemorragia, que contraindica a trombólise em casos de AVE isquêmico.

Vantagens da Ressonância Magnética (RNM) em Relação à TC no AVE Isquêmico

Embora a TC seja o exame inicial de escolha devido à sua disponibilidade e rapidez, a Ressonância Magnética (RNM) oferece maior sensibilidade e especificidade para a detecção de AVE isquêmico, especialmente em certas situações.

💡 Dica High Yield: A identificação da penumbra isquêmica através das técnicas de difusão e perfusão na RNM é fundamental para guiar decisões terapêuticas, especialmente em janelas de tempo estendidas para trombólise ou trombectomia mecânica.

Acidente Vascular Encefálico (AVE) Isquêmico

Patogênese

O Acidente Vascular Encefálico (AVE) isquêmico é desencadeado pela obstrução do fluxo sanguíneo em uma artéria cerebral, geralmente por um trombo. Essa interrupção do suprimento de oxigênio e nutrientes leva a uma cascata de eventos celulares, resultando em isquemia tecidual.

🧠 Conceito Chave: Os neurônios são as células mais sensíveis à isquemia. Em poucos minutos de privação sanguínea, eles começam a sofrer danos irreversíveis, culminando em infarto neuronal.

No contexto de um AVE isquêmico, o cérebro desenvolve duas regiões distintas:

A importância clínica da área de penumbra é crucial na fase aguda do tratamento do AVE isquêmico. O objetivo terapêutico principal não é salvar a área já infartada, mas sim restaurar o fluxo sanguíneo para a penumbra isquêmica. A rápida reperfusão dessa área pode prevenir a progressão do dano neuronal, minimizando a extensão do infarto e, consequentemente, as sequelas neurológicas.

Principais Subtipos (Classificação TOAST)

A classificação TOAST (Trial of Org 10172 in Acute Stroke Treatment) é amplamente utilizada para categorizar os subtipos etiológicos do AVE isquêmico, o que auxilia na escolha da estratégia terapêutica e profilática.

1. Embólico

Neste subtipo, o trombo que oclui a artéria cerebral não se forma in situ, mas sim em um local distante, desloca-se pela corrente sanguínea e atinge a circulação cerebral, atuando como um êmbolo.

Cardioembólico

O êmbolo tem origem no coração. As condições cardíacas mais comuns que predispõem à formação de trombos e subsequente embolização incluem:

Arterio-Arterial (Aterosclerose de Grandes Artérias)

Neste caso, o êmbolo se origina de uma placa aterosclerótica instável em uma artéria de grande calibre, geralmente extracraniana, como a artéria carótida. A ulceração da placa forma um trombo que se desprende e migra para a circulação cerebral, obstruindo uma artéria de menor calibre (ex: artéria cerebral média).

2. Trombótico

O trombo se forma diretamente na artéria cerebral, causando a oclusão.

Médio Calibre

Refere-se à formação de um trombo in situ em artérias cerebrais de médio calibre, como as artérias cerebrais média, anterior ou posterior. A aterosclerose é a principal causa subjacente, levando à estenose e eventual oclusão.

Lacunar (Infarto de Pequenas Artérias)

Este subtipo ocorre devido à oclusão de pequenas artérias perfurantes, como as artérias lenticulo-estriadas, que irrigam estruturas profundas do cérebro (ex: cápsula interna, gânglios da base). Por definição, um infarto lacunar tem um tamanho inferior a 1 cm. A lipo-hialinose e a microateromatose são as patologias mais comuns dessas pequenas artérias, frequentemente associadas a hipertensão arterial e diabetes.

3. Criptogênico (Origem Indeterminada)

Este diagnóstico é atribuído quando, após uma investigação diagnóstica completa, não é possível identificar a causa do AVE. Embora o termo "criptogênico" sugira uma causa oculta, este subtipo não é incomum e representa uma parcela significativa dos casos de AVE isquêmico.

💡 High Yield Notes - Classificação TOAST Resumida:

Quadro Clínico

As manifestações clínicas do AVE isquêmico variam amplamente dependendo da artéria cerebral acometida e da área do cérebro que sofre isquemia. A identificação do território vascular afetado é fundamental para o diagnóstico topográfico.

Território Acometido Manifestações Clínicas Típicas
Artéria Cerebral Média (ACM)
  • Hemiparesia e/ou hemiplegia contralateral (face e membro superior mais afetados que o inferior).
  • Hipoestesia tátil e proprioceptiva contralateral (fasciobraquicrural).
  • Afasia (de Broca ou Wernicke) se o hemisfério dominante for afetado.
  • Negligência unilateral se o hemisfério não dominante for afetado.
Artéria Cerebral Anterior (ACA)
  • Paresia e/ou hemiplegia contralateral com predomínio crural (membro inferior mais afetado que o superior).
  • Déficit sensitivo contralateral, também com predomínio crural.
  • Alterações comportamentais: abulia (falta de iniciativa), mutismo, bradipsiquismo (lentidão do pensamento).
Artéria Cerebral Posterior (ACP)
  • Hemianopsia homônima contralateral (perda da visão no campo visual oposto ao lado da lesão).
  • Pode haver ataxia (incoordenação motora).
  • Alterações de memória, agnosia visual, alexia sem agrafia.
Território Vertebrobasilar
  • Síndromes cruzadas (déficits em um lado da face e no lado oposto do corpo).
  • Ataxia, disartria (dificuldade na fala), disfagia (dificuldade para engolir).
  • Vertigem, nistagmo, diplopia.
  • Assimetria pupilar, rebaixamento do nível de consciência.
  • Desvio do olhar conjugado.
Artéria Oftálmica
  • Amaurose fugaz (perda transitória e monocular da visão, "cortina descendo").

Abordagem Terapêutica e Diagnóstica Inicial

A abordagem do AVE isquêmico é dividida em duas frentes principais:

Na fase aguda, a prioridade máxima é a salvaguarda da penumbra isquêmica. Como mencionado, a área de infarto já estabelecida é irrecuperável. Portanto, todas as intervenções urgentes são direcionadas a restaurar o fluxo sanguíneo para os neurônios viáveis na zona de penumbra, impedindo sua progressão para infarto.

A avaliação inicial deve ser rápida e sistemática, incluindo:

🚨 Atenção: Não se esqueça de verificar a glicemia capilar imediatamente! A hipoglicemia pode mimetizar um déficit neurológico focal, e sua correção pode resolver o quadro sem necessidade de intervenções para AVE.

Escalas de Avaliação e Neuroimagem

Após a avaliação clínica inicial, a confirmação diagnóstica e a determinação da elegibilidade para terapias de reperfusão dependem de escalas padronizadas e exames de neuroimagem.

Escala NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale)

A NIHSS é uma ferramenta padronizada para quantificar a gravidade do déficit neurológico em pacientes com AVE. É aplicada rapidamente e fornece um escore objetivo que auxilia na decisão terapêutica e no prognóstico.

Item Avaliado Escore Máximo
Nível de Consciência3 pontos
Orientação2 pontos
Resposta Motora a Comandos2 pontos
Olhar (Movimentos Oculares)2 pontos
Campo Visual3 pontos
Paralisia Facial3 pontos
Função Motora (Membro Superior)4 pontos
Função Motora (Membro Inferior)4 pontos
Ataxia dos Membros2 pontos
Sensibilidade2 pontos
Linguagem (Afasia)3 pontos
Disartria2 pontos

Escore Total: Varia de 0 a 42 pontos. Quanto maior o escore, mais grave é o déficit neurológico e, consequentemente, o AVE.

Escore ASPECTS (Alberta Stroke Program Early CT Scoring)

O ASPECTS é um sistema de pontuação utilizado para avaliar sinais precoces de isquemia em tomografias de crânio sem contraste, especialmente na região da artéria cerebral média. Ele divide o território da ACM em 10 regiões e atribui um ponto para cada região normal.

Neuroimagem na Fase Aguda

A neuroimagem é o pilar da abordagem diagnóstica do AVE isquêmico, permitindo diferenciar o tipo de AVE e identificar a extensão do dano.

Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio sem Contraste
Angiotomografia (Angio-TC) de Crânio e Pescoço
Ressonância Magnética (RM) de Encéfalo

Abordagem na Fase Aguda (Primeiros 3 dias)

Estabilização Clínica

Na fase aguda do AVEi, a estabilização clínica é fundamental para otimizar o prognóstico do paciente. As principais medidas incluem:

⚠️ Atenção à PA no AVEi Agudo: 💊 Drogas de escolha para redução da PA: Labetalol (preferencial) ou Nitroprussiato. Lembre-se desses valores, são frequentemente cobrados em provas!

Terapia Antitrombótica

A terapia antitrombótica é um pilar fundamental no tratamento do AVE isquêmico, visando a reperfusão da área afetada e a prevenção de novos eventos.

🚨 Importante sobre AAS e Trombolítico: Se o paciente recebeu terapia trombolítica, o AAS deve ser adiado por 24 horas para reduzir o risco de complicações hemorrágicas. A heparinização plena não é indicada na fase aguda do AVEi.
Trombolítico (RTPA - Alteplase)

A trombólise intravenosa com ativador do plasminogênio tecidual recombinante (RTPA) é o tratamento de escolha para o AVE isquêmico agudo, quando indicado. É crucial seguir os critérios de elegibilidade e exclusão rigorosamente.

🚫 Principais Contraindicações da Trombólise:
Trombectomia Mecânica (Endovascular)

A trombectomia mecânica é uma intervenção endovascular que se tornou um tratamento padrão para casos selecionados de AVE isquêmico agudo, especialmente em oclusões de grandes vasos.

💡 Dica Importante: A trombectomia mecânica não deve atrasar a trombólise intravenosa se esta for indicada. Os tratamentos são complementares, e um paciente pode receber ambos se houver indicação.
Regra do AV6 (Critérios para Trombectomia Mecânica)

A "Regra do AV6" é um mnemônico útil para lembrar os principais critérios de elegibilidade para a trombectomia mecânica:

Escala de Rankin Modificada (mRS)

A Escala de Rankin Modificada é uma ferramenta para avaliar o grau de incapacidade ou dependência funcional de pacientes após um AVE. Embora não seja necessário decorar cada ponto, é importante entender sua aplicação na seleção de pacientes para trombectomia (mRS 0-1 pré-AVE).

Pontuação Descrição
0 Assintomático; regressão completa dos sintomas.
1 Sintomas sem incapacidade significativa; capaz de realizar atividades habituais prévias.
2 Incapacidade leve; incapaz de realizar todas as atividades habituais, mas independente para necessidades pessoais.
3 Incapacidade moderada; requer alguma ajuda para atividades, mas é capaz de andar sem assistência de outra pessoa.
4 Incapacidade moderada a grave; incapaz de andar sem ajuda.
5 Incapacidade grave; acamado, incontinente, requer cuidados constantes.
6 Óbito.

Abordagem para "Wake-up Stroke" ou Tempo Incerto

Quando o tempo exato de início dos sintomas do AVE isquêmico é desconhecido (ex: paciente acorda com déficit neurológico), a Ressonância Magnética (RM) torna-se crucial para determinar a elegibilidade para trombólise.

🔎 Mismatch DWI-FLAIR: A presença de incompatibilidade DWI-FLAIR (DWI+ e FLAIR-) indica uma lesão inicial com área de penumbra viável, permitindo a consideração da trombólise, mesmo sem um tempo de início preciso.

Tratamento Crônico e Prevenção Secundária

Após a fase aguda, o foco se volta para a prevenção secundária, ou seja, evitar a recorrência de novos eventos isquêmicos. A estratégia terapêutica depende fundamentalmente da etiologia do AVE.

Abordagem Diagnóstica

Para identificar a causa subjacente do AVE isquêmico, são essenciais os seguintes exames:

Tipos de AVE Isquêmico e Conduta

AVE Aterotrombótico (aproximadamente 35% dos casos)

Caracteriza-se por um evento mais gradual, com piora progressiva dos sintomas ao longo das horas. Geralmente associado a:

💊 Conduta:

AVE Cardioembólico (aproximadamente 45% dos casos)

Tipicamente um evento súbito, com déficit neurológico máximo desde o início. As principais fontes são cardíacas:

💊 Conduta:

Tamanho do AVE (NIHSS) Recomendação AHA/ASA (dias para iniciar) Recomendação ESC (dias para iniciar)
AIT Não especificado (geralmente imediato) 1 dia
Pequeno (< 8) 4-14 dias (depende do tamanho) 3 dias
Moderado (8-15) 4-14 dias (depende do tamanho) 6 dias
Grande (> 15) 4-14 dias (depende do tamanho) 12 dias

Resumo das Síndromes Topográficas no AVE

A identificação rápida da topografia da lesão e do vaso acometido é crucial para o diagnóstico e manejo do AVE. Podemos resumir a avaliação em dois passos:

1. Localização da Lesão (Lado)

2. Vaso Culpado (Síndrome Específica)

A apresentação clínica orienta para o vaso cerebral acometido:


Ataque Isquêmico Transitório (AIT)

Definição e Importância

O Ataque Isquêmico Transitório (AIT) é definido como um episódio de disfunção neurológica causada por isquemia cerebral, medular ou retiniana sem evidência de infarto agudo em exames de imagem. É um sinal de alerta crucial para um AVE isquêmico iminente.

Escala ABCD2 para Avaliação de Risco

O escore ABCD2 é uma ferramenta clínica utilizada para estratificar o risco de um paciente com AIT desenvolver um AVE isquêmico nas 48 horas subsequentes.

Critério Pontos
Age > 60 anos 1
Blood Pressure (PA sistólica > 140 mmHg ou diastólica > 90 mmHg) 1
Clínica (distúrbio da fala ou paresia/plegia) 2
Duração (10-59 minutos) 1
Duração (> 60 minutos) 2
Diabetes Mellitus 1
🧠 Interpretação do ABCD2: 🚨 Conduta: Pacientes com escore > 3 pontos, que se apresentem em até 72 horas após o evento, devem ser hospitalizados para monitorização, controle de fatores de risco e início do tratamento.

Investigação e Tratamento

Durante a internação, a investigação etiológica é fundamental e inclui:

O tratamento visa a prevenção de um AVE isquêmico subsequente e é guiado pela causa do AIT:


Acidente Vascular Encefálico Hemorrágico

O Acidente Vascular Encefálico (AVE) hemorrágico representa uma condição neurológica grave, caracterizada pelo sangramento dentro do cérebro ou nos espaços que o circundam. Diferente do AVE isquêmico, onde há interrupção do fluxo sanguíneo, o tipo hemorrágico envolve a ruptura de um vaso sanguíneo, levando à extravasamento de sangue e consequente dano tecidual. Existem duas principais formas de AVE hemorrágico: a hemorragia intraparenquimatosa, que ocorre diretamente no tecido cerebral, e a hemorragia subaracnoide, onde o sangue se mistura com o líquor no espaço subaracnoide. Embora ambas sejam críticas, a hemorragia intraparenquimatosa é a mais comum na prática clínica.

Hemorragia Subaracnoide (HSA)

A Hemorragia Subaracnoide (HSA) é definida pelo extravasamento de sangue para o espaço subaracnoide, onde normalmente circula o líquor. Esta condição pode levar a um déficit neurológico focal caso ocorram complicações secundárias.

Definição e Etiologia

A HSA é predominantemente causada pela ruptura de um aneurisma, que, ao contrário das hemorragias intraparenquimatosas, não está localizado no parênquima cerebral, mas sim em artérias extraparenquimatosas, geralmente congênitas, que compõem o polígono de Willis. O sangramento ocorre diretamente no espaço subaracnoide.

Causas Principais
🧠 Conceito Chave: A maioria dos aneurismas que causam HSA são saculares e congênitos, localizados nas artérias do polígono de Willis. A artéria comunicante anterior é o local mais comum de ruptura.

Quadro Clínico

A apresentação clínica da HSA é frequentemente dramática, refletindo a natureza súbita e intensa do sangramento.

A cefaleia excruciante e o início súbito são marcas registradas da HSA. O sangramento significativo pode levar à perda transitória da consciência (síncope). A irritação meníngea pelo sangue no líquor causa a rigidez de nuca, um sinal que se manifesta com algumas horas de latência.

Escalas de Avaliação

Para classificar a gravidade e auxiliar no prognóstico da HSA, são utilizadas escalas clínicas e radiológicas.

Escala de Hunt-Hess

Esta escala clínica avalia o estado neurológico do paciente no momento da admissão, correlacionando-o com o prognóstico.

Grau Descrição Clínica
1 Paciente lúcido, com cefaleia leve ou assintomático.
2 Cefaleia moderada a grave, rigidez de nuca, sem déficit neurológico focal (exceto paralisia de nervo craniano).
3 Sonolência, confusão ou déficit neurológico focal leve.
4 Torpor, hemiparesia moderada a grave, possível rigidez de descerebração precoce.
5 Coma, rigidez de descerebração.
Regra de Ottawa para HSA

Esta regra é aplicada a pacientes com mais de 15 anos que apresentam cefaleia grave não traumática, atingindo sua intensidade máxima em até 1 hora. A presença de pelo menos um dos critérios abaixo indica a necessidade fundamental de neuroimagem para excluir HSA.

⚠️ Atenção: A Regra de Ottawa é uma ferramenta valiosa para triagem, ajudando a identificar pacientes com alto risco de HSA que necessitam de investigação por neuroimagem, mesmo com uma TC inicial normal.

Diagnóstico

O diagnóstico da HSA é primariamente baseado em neuroimagem, com a punção lombar sendo um método complementar em casos específicos.

Neuroimagem

A TC sem contraste é fundamental para identificar o sangramento. O sangue no espaço liquórico realça estruturas que normalmente não são tão nítidas, como o mesencéfalo, conferindo-lhe um aspecto de "coração" ou "cabeça do Mickey".

Punção Lombar (PL)

Se a clínica for altamente sugestiva de HSA (cefaleia súbita excruciante, síncope), mas a TC de crânio for normal (especialmente em casos de sangramento de baixa intensidade), a punção lombar (PL) é o próximo passo diagnóstico.

🔎 Dica Diagnóstica: A xantocromia no líquor é um achado crucial na punção lombar, confirmando a HSA mesmo quando a TC é inconclusiva, pois indica que o sangramento ocorreu há tempo suficiente para a degradação da hemoglobina.
Escala de Fisher (TC)

A escala de Fisher classifica a HSA com base nos achados da TC, correlacionando a quantidade de sangue com o risco de vasoespasmo.

Grau Achado na TC Risco de Vasoespasmo
1 Sem sangue visível na TC (diagnóstico feito por punção lombar). Baixo
2 Lâmina de sangue fina no espaço subaracnoide (< 1mm). Moderado
3 Lâmina de sangue espessa no espaço subaracnoide (> 1mm). Alto
4 Hemorragia intracerebral ou intraventricular, com ou sem HSA difusa. Muito Alto

Uma vez confirmado o diagnóstico de HSA, o próximo passo é identificar a fonte do sangramento. Isso é realizado por meio de exames de imagem mais detalhados, como AngioTC, AngioRNM ou Arteriografia, para localizar o aneurisma ou a malformação vascular responsável.

Complicações e Manejo

As complicações da HSA são frequentes e podem ser devastadoras, exigindo monitoramento e intervenção ativos.

Ressangramento

O ressangramento é uma complicação precoce e de alta mortalidade, ocorrendo principalmente nos primeiros 7 dias após o evento inicial, com o maior risco nas primeiras 24 horas.

Ao contrário da hemorragia intraparenquimatosa, onde a causa é um aneurisma microscópico e profundo, na HSA o aneurisma é extraparenquimatoso e acessível. A intervenção neurocirúrgica ou endovascular precoce é crucial para evitar um novo sangramento, que pode ser fatal.

🚨 Emergência: O ressangramento é uma das complicações mais temidas da HSA, com mortalidade elevada. A estabilização da pressão arterial e a oclusão do aneurisma são medidas urgentes.
Vasoespasmo

O vasoespasmo é uma complicação tardia, geralmente ocorrendo entre o 3º e o 14º dia após a HSA, e pode levar à isquemia cerebral tardia (ICT).

O acompanhamento diário com Doppler Transcraniano é fundamental para monitorar o fluxo sanguíneo nas artérias cerebrais e identificar o vasoespasmo antes que ocorram manifestações isquêmicas.

Critérios de Vasoespasmo no Doppler Transcraniano
Critério Valor
Velocidade na Artéria Cerebral Média (ACM) > 120 cm/segundo
Índice de Lindegaard > 3
Aumento na velocidade > 50 cm/segundo/dia
Tratamento e Profilaxia

O manejo do vasoespasmo visa otimizar a perfusão cerebral e prevenir a isquemia.

💡 High Yield: A Nimodipina é um bloqueador de canal de cálcio que, embora não reduza a incidência de vasoespasmo, atua como neuroprotetor, melhorando o desfecho funcional em 3 meses e prevenindo a isquemia cerebral tardia.
Hidrocefalia

A hidrocefalia é a complicação neurológica aguda mais frequente da HSA, afetando até 50% dos pacientes.

Hiponatremia

A hiponatremia ocorre em 30-50% dos casos de HSA e pode ser causada por dois mecanismos distintos:

🩸 Monitorização: Grandes insultos neurológicos podem alterar a natremia devido à liberação de hormônios como ADH (levando a SIADH) e BNP (causando natriurese). A monitorização regular da natremia é essencial.
Crises Epilépticas

A ocorrência de crises epilépticas é uma complicação potencial. A profilaxia anticonvulsivante é um tema controverso, mas pode ser considerada em pacientes de alto risco, como aqueles com aneurisma da artéria cerebral média (ACM), hidrocefalia ou hemorragia intraparenquimatosa associada.

⚠️ Cuidado: O uso de fenitoína para profilaxia de crises epilépticas em HSA é desaconselhado, pois pode aumentar o risco de vasoespasmo, infartos cerebrais e está associado a piores desfechos cognitivos.
Complicações Sistêmicas

Além das complicações neurológicas diretas, a HSA pode desencadear uma série de problemas sistêmicos.

Tratamento da Hemorragia Subaracnóide

O tratamento da HSA visa prevenir o ressangramento, controlar a pressão arterial e oferecer neuroproteção.

Intervenção Precoce do Aneurisma
Controle da Pressão Arterial (PA)
Neuroproteção

Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP)

A Hemorragia Intraparenquimatosa (HIP) é um tipo de Acidente Vascular Encefálico (AVE) hemorrágico que se inicia com um déficit neurológico focal. É o segundo tipo de AVC mais comum, superado apenas pelo AVC isquêmico.

Conceitos Iniciais

Causas da Hemorragia Intraparenquimatosa

As principais etiologias da HIP incluem hipertensão crônica e angiopatia amiloide, além de outras causas secundárias.

Quadro Clínico

Diagnóstico

Localização do Sangramento e Déficits Neurológicos

A localização do hematoma intraparenquimatoso determina os déficits neurológicos específicos:

⚠️ Sinais de Pior Prognóstico na HIP:

Tratamento da Hemorragia Intraparenquimatosa

O tratamento da HIP é predominantemente de suporte, uma vez que os aneurismas de Charcot-Bouchard são microscópicos e profundos, tornando a intervenção neurocirúrgica direta no aneurisma inviável. O objetivo é controlar as complicações e permitir a reabsorção natural do hematoma.

Reversão de Anticoagulação em HIP

Em pacientes anticoagulados, a reversão da anticoagulação é crucial e deve ser feita com agentes específicos:

Anticoagulante Agente Reversor Observações
Varfarina Complexo Protrombínico (PCC) e Vitamina K IV Se PCC indisponível, pode-se usar Plasma Fresco Congelado (PFC).
Heparina (HNF e HBPM) Protamina Mais eficaz para Heparina Não Fracionada (HNF) do que para Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM).
Dabigatrana Idarucizumabe Antídoto específico.
Rivaroxabana Andexanet Alfa Não disponível no Brasil.
Ingestão Recente (qualquer oral) Carvão Ativado Considerar se a ingestão foi muito recente.

Síndromes Cruzadas do Tronco Encefálico

As síndromes cruzadas são caracterizadas por déficits neurológicos que afetam a face de um lado do corpo e o tronco/membros do lado oposto, indicando uma lesão no tronco encefálico. Elas são cruciais para a localização topográfica da lesão.

Lesões na Ponte

Síndrome de Foville

Resulta de lesões na ponte e apresenta:

Lesões no Mesencéfalo

Síndrome de Weber

Causada por lesões no mesencéfalo, manifesta-se com:

Síndrome de Claude ou Benedikt

Associada a lesões que afetam o núcleo rubro e a substância negra no mesencéfalo:

Lesões no Tálamo Dorsolateral

Síndrome de Dejerine-Roussy

Caracteriza-se por um acometimento exclusivamente sensitivo:

Lesões no Bulbo Lateral

Síndrome de Wallenberg (Síndrome Medular Lateral)

É a principal síndrome neurovascular da circulação posterior, resultante de isquemia no território da Artéria Cerebral Posteroinferior (PICA) ou da Artéria Vertebral, causando danos na região dorsolateral do bulbo. Apresenta:

🧠 Conceito: Síndrome Alterna

A Síndrome de Wallenberg é um exemplo clássico de síndrome alterna, onde a hipoestesia afeta a hemiface de um lado e o hemicorpo (braquiocrural) do lado oposto à lesão.

Lesões no Bulbo Medial

Síndrome de Dejerine (Síndrome Medular Medial)

Caracterizada por:

💡 Macetes para Síndromes Cruzadas

Nervos Cranianos e Níveis do Tronco Encefálico
Nível do Tronco Encefálico Pares Cranianos Associados
Mesencéfalo III (Oculomotor), IV (Troclear)
Ponte V (Trigêmeo), VI (Abducente), VII (Facial), VIII (Vestibulococlear)
Bulbo IX (Glossofaríngeo), X (Vago), XI (Acessório), XII (Hipoglosso)