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Síndrome Epiléptica e Convulsão Febril


Epilepsia

Conceitos Essenciais

A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por uma predisposição duradoura do cérebro para gerar crises epilépticas, que são manifestações clínicas de descargas elétricas neuronais excessivas e síncronas. Para o diagnóstico de epilepsia, consideram-se os seguintes critérios:

🧠 Lembre-se: Crises epilépticas de repetição que são claramente provocadas por fatores reversíveis (como hiponatremia grave, uso de drogas ilícitas, encefalite aguda) não configuram diagnóstico de epilepsia.

Classificação das Crises Epilépticas (ILAE-2017)

A Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) classifica as crises com base no seu início, que pode ser focal (em um hemisfério) ou generalizado (em ambos os hemisférios). A perda de consciência é um fator importante para a subdivisão das crises focais.

Crises de Início Focal

Originam-se em uma rede neuronal limitada a um hemisfério cerebral. Podem ser:

💡 Dica: A distinção entre crises focais perceptivas e disperceptivas reside na presença ou ausência de alteração da consciência.

Crises de Início Generalizado

Envolvem redes neuronais em ambos os hemisférios cerebrais desde o início da crise. Geralmente, há perda de consciência.

Etiologia da Epilepsia

A causa da epilepsia pode ser variada e, em muitos casos, não é identificada. A distribuição da epilepsia é bimodal, com picos de incidência em crianças e idosos.

As causas variam conforme a faixa etária:

Diagnóstico da Epilepsia

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em uma anamnese detalhada, que deve incluir a descrição da crise por testemunhas. É crucial diferenciar crises epilépticas de pseudocrises (eventos não epilépticos psicogênicos) e outros paroxismos não epilépticos.

Idade do Paciente Primeira Crise: Investigação Inicial Exames Complementares
Criança/Jovem (até 18 anos) EEG (Eletroencefalograma) > Ressonância Magnética (RM) RM cerebral indicada apenas se houver anormalidades na história neurológica pregressa ou no exame físico.
Adulto (> 18 anos) Ressonância Magnética (RM) > EEG RM é prioritária para identificar lesões estruturais subjacentes.

Tratamento da Epilepsia

O tratamento da epilepsia visa controlar as crises com a menor quantidade de efeitos adversos possível, melhorando a qualidade de vida do paciente. Os princípios gerais incluem:

Escolha do Fármaco Antiepiléptico (FAE)

A escolha do FAE depende do tipo de crise epiléptica e de características individuais do paciente.

Tipo de Crise Fármacos de Primeira Linha (e alternativas) Observações
Tônico-Clônica Generalizada Valproato, Lamotrigina, Levetiracetam Valproato é eficaz, mas com perfil de efeitos adversos a considerar.
Focal (Perceptiva ou Disperceptiva) Carbamazepina, Oxcarbazepina, Lamotrigina, Levetiracetam Carbamazepina e Oxcarbazepina são indutores enzimáticos.
Mioclônica/Atônica Valproato, Lamotrigina, Topiramato Valproato é frequentemente a primeira escolha.
Ausência Etossuximida, Valproato, Lamotrigina Etossuximida é específica para crises de ausência.
Gestantes Lamotrigina, Carbamazepina ⚠️ Evitar Valproato devido ao alto risco teratogênico (especialmente espinha bífida).
Crises Neonatais Fenobarbital Apesar de ser de segunda/terceira linha em outras idades devido a alterações comportamentais, é a droga de escolha no período neonatal.
💊 Tratamento High Yield:

Principais Síndromes Epilépticas

A seguir, detalhamos algumas das síndromes epilépticas mais relevantes, com suas características clínicas e de manejo.

Crise de Ausência (Pequeno Mal ou Ausência Infantil)

É uma síndrome epiléptica generalizada não motora, comum na infância.

🔎 Diagnóstico Rápido: A hiperventilação é um potente gatilho para crises de ausência e é utilizada para provocá-las durante o EEG.

Epilepsia Rolândica (Epilepsia Focal Benigna da Infância com Pontas Centro-Temporais)

É a síndrome epiléptica focal mais comum na infância, caracterizada por ser benigna e autolimitada.

Crise Mioclônica (Síndrome de Janz ou Epilepsia Mioclônica Juvenil)

Uma síndrome epiléptica generalizada que se manifesta tipicamente na adolescência.

Crise Atônica

A crise atônica é caracterizada pela perda súbita do tônus muscular, resultando em uma queda abrupta do paciente. É frequentemente associada a sustos ou estímulos inesperados, e o indivíduo pode sofrer lesões devido à queda.

🧠 Conceito Chave: A perda de tônus muscular é o traço distintivo da crise atônica, levando a quedas inesperadas.

Crise Tônico-Clônica Generalizada

Conhecida popularmente como "Grande Mal", a crise tônico-clônica generalizada é uma das formas mais dramáticas de crise epiléptica. Ela se desenvolve em duas fases distintas:

Durante a crise, podem ocorrer sintomas como sialorreia (salivação excessiva) e liberação esfincteriana (incontinência urinária ou fecal). Após a fase clônica, o paciente entra no período pós-ictal, que pode durar cerca de 30 minutos, durante o qual há uma recuperação gradual da consciência e do estado neurológico normal. É importante lembrar que qualquer tipo de crise epiléptica, seja focal ou de ausência, pode evoluir para uma crise tônico-clônica generalizada.

💡 Dica: O período pós-ictal é crucial para diferenciar uma crise epiléptica de outros eventos paroxísticos, como síncope.

Paralisia de Todd

A paralisia de Todd é uma condição neurológica transitória que pode ocorrer após uma crise epiléptica, manifestando-se como hemiplegia (paralisia de um lado do corpo) ou hemiparesia (fraqueza de um lado do corpo). Sua duração pode variar de alguns minutos a vários dias. É fundamental ter cuidado para não confundir a paralisia de Todd com um Acidente Vascular Cerebral (AVC), pois a etiologia e o manejo são distintos.

⚠️ Atenção: A paralisia de Todd é um déficit neurológico pós-ictal e transitório. Sua reversibilidade é a chave para diferenciá-la de um AVC.

Epilepsia do Lobo Temporal

A epilepsia do lobo temporal é a síndrome epiléptica mais comum no adulto, com início geralmente por volta dos 16 anos de idade. É frequentemente associada à esclerose hipocampal ou esclerose mesial temporal, uma alteração estrutural no hipocampo.

🧬 Fator de Risco: A ocorrência de convulsão febril na infância é um importante fator de risco para o desenvolvimento posterior da epilepsia do lobo temporal.

As crises características são as crises focais disperceptivas (anteriormente chamadas de parciais complexas), que se manifestam principalmente por alterações no comportamento. O paciente pode "desligar", "congelar", ficar olhando para o nada, ou apresentar comportamentos mais complexos como agressividade ou desinibição. Em aproximadamente um terço dos casos, essas crises podem evoluir para uma crise tônico-clônica generalizada. Podem ser precedidas por auras, como sensações de frio na barriga, parestesias, paralisias (sensação de "congelamento") ou irritabilidade, devido ao envolvimento da região do hipocampo. A liberação esfincteriana também pode ocorrer.

Diagnóstico

Tratamento

A Carbamazepina é a principal escolha terapêutica para a epilepsia do lobo temporal. Em casos refratários ao tratamento medicamentoso, a síndrome apresenta uma boa resposta ao tratamento cirúrgico, que pode envolver a ressecção da área esclerótica.

💊 Tratamento: Carbamazepina é a primeira linha. Considerar cirurgia em casos refratários.

Síndrome de West (Espasmos Infantis)

A Síndrome de West, também conhecida como "espasmos infantis", é uma encefalopatia epiléptica grave que afeta bebês menores de 1 ano, com início típico entre 4 e 7 meses de vida. A principal causa orgânica associada é a anóxia neonatal, embora também possa ser decorrente de alterações cromossômicas ou outras lesões corticais congênitas.

A tríade clínica clássica inclui:

Eletroencefalograma (EEG)

O EEG é diagnóstico, revelando um padrão de hipsarritmia, caracterizado por um ritmo bilateral e caótico, com ondas lentas de alta voltagem e descargas multifocais.

Tratamento

O tratamento de primeira linha é com ACTH (Hormônio Adrenocorticotrófico). A Vigabatrina é uma segunda opção, mas seu uso a longo prazo pode estar associado a problemas visuais. O prognóstico da Síndrome de West é, infelizmente, péssimo, com alto risco de sequelas neurológicas graves.

💊 Tratamento: ACTH (primeira opção), Vigabatrina (segunda opção).

Síndrome de Lennox-Gastaut

A Síndrome de Lennox-Gastaut é outra encefalopatia epiléptica grave, mais comum em pré-escolares (2 a 10 anos). Pode ser uma consequência da Síndrome de West em alguns casos, mas também pode ter outras etiologias, como encefalopatia hipóxico-isquêmica (frequentemente relacionada a problemas no parto), trauma ou meningite.

A tríade clínica característica é:

Eletroencefalograma (EEG)

O EEG típico da Síndrome de Lennox-Gastaut apresenta um padrão de espícula-onda lenta, com uma frequência inferior a 2,5 Hz (ou ciclos por segundo).

Tratamento

A Lamotrigina é uma das principais drogas utilizadas no tratamento da Síndrome de Lennox-Gastaut. Assim como na Síndrome de West, o prognóstico é desfavorável.

💊 Tratamento: Lamotrigina é uma opção importante.
Característica Síndrome de West Síndrome de Lennox-Gastaut
Idade de Início Menores de 1 ano (4-7 meses) Pré-escolares (2-10 anos)
Etiologia Comum Anóxia neonatal, alteração cromossomial Encefalopatia hipóxico-isquêmica (problemas no parto)
Tipo de Crise Predominante Espasmos infantis Múltiplos tipos de crises
EEG Típico Hipsarritmia Espícula-onda lenta (< 2,5 Hz)
Tratamento de Escolha ACTH, Vigabatrina Lamotrigina
Prognóstico Péssimo Péssimo

Estado de Mal Epiléptico

O estado de mal epiléptico é uma emergência neurológica definida por uma crise epiléptica que persiste por mais de 5 minutos, ou pela ocorrência de duas ou mais crises sem recuperação completa da consciência entre elas. É uma condição que exige intervenção imediata para prevenir danos cerebrais permanentes.

Tipos

O estado de mal epiléptico pode ser classificado em:

Tratamento

O tratamento do estado de mal epiléptico é uma sequência de passos que visa controlar a crise e prevenir complicações:

  1. Suporte Básico de Vida (BLS): Garantir a via aérea, respiração e circulação do paciente é a prioridade inicial.
  2. Medidas Iniciais: Administrar Glicose 50% IV e Tiamina IV (se a causa não for conhecida ou houver suspeita de deficiência de tiamina, como em etilistas).
  3. Primeira Linha Farmacológica (Benzodiazepínicos):

    O benzodiazepínico pode ser repetido uma ou duas vezes, dependendo da resposta e da literatura consultada. Importante: Não administrar Diazepam pela via intramuscular devido à absorção errática.

  4. Segunda Linha Farmacológica (Anticonvulsivantes): Se a crise não ceder após os benzodiazepínicos:
  5. Terceira Linha Farmacológica (Fenobarbital): Se a crise persistir:
  6. Anestesia Geral: Se todas as etapas anteriores falharem, o paciente deve ser intubado e submetido à anestesia geral com Midazolam, Propofol ou Pentobarbital/Tiopental para controle da crise.
🚨 Emergência: O tratamento do estado de mal epiléptico é uma corrida contra o tempo para proteger o cérebro. Siga o protocolo rigorosamente.

Convulsão Febril

A convulsão febril é a crise convulsiva mais comum da infância, ocorrendo em crianças com idade entre 6 meses e 5 anos (segundo Nelson, ou 3 meses a 6 anos pela Academia Americana de Pediatria). É importante ressaltar que a convulsão febril não é epilepsia, pois não há alteração estrutural no córtex cerebral que gere disparos elétricos anômalos. O córtex da criança é normal, e o EEG entre as crises é tipicamente normal.

Conceitos Iniciais

🧠 Lembre-se: A convulsão febril é um evento benigno e autolimitado, diferente da epilepsia.

Crise Febril Atípica/Complexa

Uma crise febril é considerada atípica ou complexa se apresentar uma ou mais das seguintes características:

Etiologia

As causas mais comuns de febre que desencadeiam convulsão febril incluem infecções virais e bacterianas comuns da infância:

⚠️ Atenção: Crises provocadas por meningites, encefalites, distúrbios hidroeletrolíticos e glicêmicos, ou intoxicação exógena NÃO SÃO consideradas crises febris. Nesses casos, a convulsão é um sintoma da doença de base, e não uma convulsão febril benigna.

Diagnóstico

O diagnóstico da convulsão febril é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico. Exames complementares são geralmente desnecessários, exceto em situações específicas.

Punção Lombar

A punção lombar (PL) para investigar meningite deve ser considerada ou realizada nas seguintes situações:

É crucial lembrar que uma convulsão febril pode ser a primeira manifestação de meningite em crianças muito jovens, justificando a cautela na indicação da PL.

🔎 Diagnóstico: O diagnóstico é clínico. A PL é reservada para casos de alto risco ou suspeita de infecção do SNC.

Tratamento

O tratamento da convulsão febril foca no suporte e no manejo da febre. Se a criança chega ao pronto-socorro convulsionando, a prioridade é controlar a crise com um benzodiazepínico (como Diazepam). Se a criança já teve a convulsão em casa e chega afebril ou apenas com febre, a prioridade é tratar a febre e investigar a causa.

Fatores de Risco

Alguns fatores aumentam o risco de desenvolvimento de epilepsia após convulsão febril, ou de recorrência da própria convulsão febril:

Profilaxia

A profilaxia contínua com anticonvulsivantes não é recomendada para convulsão febril simples devido aos efeitos adversos das medicações. No entanto, em casos de ansiedade extrema ou preocupação excessiva dos pais, o Nelson menciona a possibilidade de prescrição de benzodiazepínico profilático para ser administrado durante episódios febris. Esta é uma conduta de exceção e deve ser avaliada individualmente.

💊 Profilaxia: Não é rotineira. Benzodiazepínico profilático pode ser considerado em casos excepcionais de ansiedade parental.