Síndrome Epiléptica e Convulsão Febril
Epilepsia
Conceitos Essenciais
A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por uma predisposição duradoura do cérebro para gerar crises epilépticas, que são manifestações clínicas de descargas elétricas neuronais excessivas e síncronas. Para o diagnóstico de epilepsia, consideram-se os seguintes critérios:
- Duas ou mais crises epilépticas não provocadas (ou reflexas) ocorrendo com um intervalo superior a 24 horas.
- Uma crise epiléptica não provocada (ou reflexa) com uma probabilidade de recorrência superior a 60% ao longo dos próximos 10 anos, similar ao risco observado após duas crises não provocadas.
- Diagnóstico de uma síndrome epiléptica específica.
🧠 Lembre-se: Crises epilépticas de repetição que são claramente provocadas por fatores reversíveis (como hiponatremia grave, uso de drogas ilícitas, encefalite aguda) não configuram diagnóstico de epilepsia.
Classificação das Crises Epilépticas (ILAE-2017)
A Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) classifica as crises com base no seu início, que pode ser focal (em um hemisfério) ou generalizado (em ambos os hemisférios). A perda de consciência é um fator importante para a subdivisão das crises focais.
Crises de Início Focal
Originam-se em uma rede neuronal limitada a um hemisfério cerebral. Podem ser:
- Focal Perceptiva (Antiga Parcial Simples): O paciente mantém a consciência e a percepção durante a crise. As manifestações podem ser motoras (abalo em um membro), sensoriais (cacosmia, desconforto epigástrico, parestesias), autonômicas ou psíquicas. São geralmente breves e autolimitadas.
- Focal Disperceptiva (Antiga Parcial Complexa): Há alteração ou perda da consciência. O paciente pode apresentar automatismos (movimentos repetitivos e sem propósito, como mastigar, engolir, manipular objetos), perseveração (repetição de palavras ou ações), ou alterações psíquicas (medo, fúria). Embora a consciência esteja alterada, os olhos podem permanecer abertos.
- Focal Evoluindo para Tônico-Clônica Bilateral (Antiga Generalização Secundária): A crise inicia-se focalmente em um hemisfério e, em seguida, propaga-se para o outro hemisfério, resultando em uma crise tônico-clônica generalizada, com perda de consciência e manifestações motoras bilaterais.
💡 Dica: A distinção entre crises focais perceptivas e disperceptivas reside na presença ou ausência de alteração da consciência.
Crises de Início Generalizado
Envolvem redes neuronais em ambos os hemisférios cerebrais desde o início da crise. Geralmente, há perda de consciência.
- Crises Motoras:
- Tônico-Clônica: Mais comum, com fase tônica (rigidez muscular) seguida de fase clônica (contrações rítmicas).
- Mioclônica: Contrações musculares breves e súbitas.
- Atônica: Perda súbita do tônus muscular, levando a quedas.
- Outras: Tônica, Clônica.
- Crises Não Motoras (Ausência): Caracterizadas por interrupção súbita da atividade, com olhar fixo e ausência de resposta, sem componentes motores proeminentes.
Etiologia da Epilepsia
A causa da epilepsia pode ser variada e, em muitos casos, não é identificada. A distribuição da epilepsia é bimodal, com picos de incidência em crianças e idosos.
- Primária/Criptogênica: Quando não há evidência de lesão estrutural cerebral ou causa genética conhecida.
- Secundária/Sintomática: Associada a doenças ou lesões cerebrais prévias.
As causas variam conforme a faixa etária:
- Neonatal: Anóxia perinatal, malformações congênitas do sistema nervoso central, distúrbios metabólicos.
- 3 meses a 5 anos: Convulsão febril, síndromes epilépticas primárias (idiopáticas).
- 5 a 12 anos: Fatores genéticos (muitas vezes associados a crises de bom prognóstico).
- Adultos: Traumatismo cranioencefálico (TCE), neurocisticercose, uso de drogas (lícitas ou ilícitas), tumores cerebrais, epilepsia do lobo temporal.
- Idosos: Acidente Vascular Encefálico (AVE), especialmente o isquêmico (causa mais comum e importante em provas), tumores cerebrais, doenças neurodegenerativas.
Diagnóstico da Epilepsia
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em uma anamnese detalhada, que deve incluir a descrição da crise por testemunhas. É crucial diferenciar crises epilépticas de pseudocrises (eventos não epilépticos psicogênicos) e outros paroxismos não epilépticos.
| Idade do Paciente |
Primeira Crise: Investigação Inicial |
Exames Complementares |
| Criança/Jovem (até 18 anos) |
EEG (Eletroencefalograma) > Ressonância Magnética (RM) |
RM cerebral indicada apenas se houver anormalidades na história neurológica pregressa ou no exame físico. |
| Adulto (> 18 anos) |
Ressonância Magnética (RM) > EEG |
RM é prioritária para identificar lesões estruturais subjacentes. |
- Eletroencefalograma (EEG): Pode identificar padrões de atividade elétrica cerebral anormais, como complexos ponta-onda, que são sugestivos de epilepsia. Um EEG normal não exclui o diagnóstico.
- Ressonância Magnética (RM) ou Tomografia Computadorizada (TC) de Crânio: Indicadas para todos os adultos na primeira crise e para crianças com história neurológica pregressa anormal ou achados suspeitos no exame físico, a fim de descartar lesões estruturais (tumores, malformações, sequelas de AVE).
Tratamento da Epilepsia
O tratamento da epilepsia visa controlar as crises com a menor quantidade de efeitos adversos possível, melhorando a qualidade de vida do paciente. Os princípios gerais incluem:
- Início do Tratamento: Não se inicia o tratamento após uma única crise epiléptica não provocada, a menos que haja uma lesão cerebral estrutural identificada ou um risco de recorrência muito elevado (superior a 60%). O tratamento geralmente é iniciado após a segunda crise não provocada.
- Monoterapia: Iniciar com um único fármaco antiepiléptico (FAE) em dose baixa, aumentando-a progressivamente até o controle das crises ou o surgimento de efeitos adversos intoleráveis. A monoterapia é preferível devido à menor incidência de efeitos colaterais e interações medicamentosas.
- Suspensão do Tratamento: A retirada dos FAEs deve ser gradual (desmame) e só deve ser considerada após um período prolongado sem crises, geralmente dois anos. A suspensão abrupta pode precipitar crises.
Escolha do Fármaco Antiepiléptico (FAE)
A escolha do FAE depende do tipo de crise epiléptica e de características individuais do paciente.
| Tipo de Crise |
Fármacos de Primeira Linha (e alternativas) |
Observações |
| Tônico-Clônica Generalizada |
Valproato, Lamotrigina, Levetiracetam |
Valproato é eficaz, mas com perfil de efeitos adversos a considerar. |
| Focal (Perceptiva ou Disperceptiva) |
Carbamazepina, Oxcarbazepina, Lamotrigina, Levetiracetam |
Carbamazepina e Oxcarbazepina são indutores enzimáticos. |
| Mioclônica/Atônica |
Valproato, Lamotrigina, Topiramato |
Valproato é frequentemente a primeira escolha. |
| Ausência |
Etossuximida, Valproato, Lamotrigina |
Etossuximida é específica para crises de ausência. |
| Gestantes |
Lamotrigina, Carbamazepina |
⚠️ Evitar Valproato devido ao alto risco teratogênico (especialmente espinha bífida). |
| Crises Neonatais |
Fenobarbital |
Apesar de ser de segunda/terceira linha em outras idades devido a alterações comportamentais, é a droga de escolha no período neonatal. |
💊 Tratamento High Yield:
- Início: Monoterapia em dose baixa, com aumento progressivo.
- Parada: Após 2 anos sem crises, com desmame gradual.
- Tabagismo/Bupropiona: Evitar associação com FAEs que diminuem o limiar convulsivo. Preferir Vareniclina para cessação do tabagismo.
Principais Síndromes Epilépticas
A seguir, detalhamos algumas das síndromes epilépticas mais relevantes, com suas características clínicas e de manejo.
Crise de Ausência (Pequeno Mal ou Ausência Infantil)
É uma síndrome epiléptica generalizada não motora, comum na infância.
- Início: Geralmente entre 3 e 12 anos, com pico de incidência entre 5 e 8 anos.
- Características Clínicas: Episódios súbitos e breves de "desligamento" ou "apagamento", com interrupção da atividade e olhar fixo, sem queda. O paciente não responde a estímulos e não se lembra do evento.
- Impacto: Pode levar a baixo rendimento escolar e dificuldades de aprendizado devido às interrupções frequentes na atenção.
- Fatores Desencadeantes: Hiperventilação (muito característico e utilizado no EEG), privação de sono, estresse, hipoglicemia.
- Diagnóstico: EEG típico com complexos ponta-onda de 3 Hz.
- Prognóstico: Geralmente excelente, com remissão na adolescência em muitos casos.
- Tratamento:
- Primeira escolha: Etossuximida.
- Alternativas: Valproato, Lamotrigina.
- ⚠️ Fármacos a evitar: Carbamazepina, Gabapentina, Vigabatrina (podem piorar as crises de ausência).
🔎 Diagnóstico Rápido: A hiperventilação é um potente gatilho para crises de ausência e é utilizada para provocá-las durante o EEG.
Epilepsia Rolândica (Epilepsia Focal Benigna da Infância com Pontas Centro-Temporais)
É a síndrome epiléptica focal mais comum na infância, caracterizada por ser benigna e autolimitada.
- Faixa Etária: Predominantemente entre 3 e 13 anos.
- Características Clínicas: Crises focais perceptivas, frequentemente ocorrendo durante o sono ou ao despertar. Manifestam-se com movimentos clônicos ou parestesias na face, língua, lábios e bochechas, podendo dificultar a fala e a deglutição. Pode haver salivação excessiva.
- EEG: Complexos ponta-onda de alta amplitude nas regiões centro-temporais, que se ativam ou exacerbam durante o sono.
- Prognóstico: Muito bom. A maioria das crianças tem remissão espontânea na adolescência, e o desenvolvimento neuropsicomotor é geralmente normal.
- Tratamento: Nem sempre é necessário, especialmente se as crises são raras e leves. Quando indicado, Levetiracetam é a principal escolha. Outras opções incluem Carbamazepina ou Oxcarbazepina.
Crise Mioclônica (Síndrome de Janz ou Epilepsia Mioclônica Juvenil)
Uma síndrome epiléptica generalizada que se manifesta tipicamente na adolescência.
- Faixa Etária: Início geralmente entre 13 e 20 anos.
- Características Clínicas: Caracterizada por crises mioclônicas (contrações musculares breves e súbitas) que ocorrem principalmente ao despertar. Podem afetar os membros superiores, causando quedas de objetos.
- Consciência: Embora seja uma crise generalizada, a consciência pode ser mantida durante as mioclonias.
- Gatilhos: Privação de sono, estresse, consumo de álcool.
- Evolução: Frequentemente evolui para crises tônico-clônicas generalizadas.
- EEG: Complexos ponta-onda de 4-6 Hz, frequentemente generalizados.
- Tratamento:
- Primeira escolha: Valproato.
- Alternativas: Lamotrigina, Levetiracetam, Topiramato.
- ⚠️ Fármacos a evitar: Carbamazepina e Fenitoína (podem agravar as crises mioclônicas).
Crise Atônica
A crise atônica é caracterizada pela perda súbita do tônus muscular, resultando em uma queda abrupta do paciente. É frequentemente associada a sustos ou estímulos inesperados, e o indivíduo pode sofrer lesões devido à queda.
🧠 Conceito Chave: A perda de tônus muscular é o traço distintivo da crise atônica, levando a quedas inesperadas.
Crise Tônico-Clônica Generalizada
Conhecida popularmente como "Grande Mal", a crise tônico-clônica generalizada é uma das formas mais dramáticas de crise epiléptica. Ela se desenvolve em duas fases distintas:
- Fase Tônica: O paciente fica "duro", com contração muscular generalizada, podendo emitir um grito e cair.
- Fase Clônica: Segue-se à fase tônica, caracterizada por abalos corporais generalizados e rítmicos.
Durante a crise, podem ocorrer sintomas como sialorreia (salivação excessiva) e liberação esfincteriana (incontinência urinária ou fecal). Após a fase clônica, o paciente entra no período pós-ictal, que pode durar cerca de 30 minutos, durante o qual há uma recuperação gradual da consciência e do estado neurológico normal. É importante lembrar que qualquer tipo de crise epiléptica, seja focal ou de ausência, pode evoluir para uma crise tônico-clônica generalizada.
💡 Dica: O período pós-ictal é crucial para diferenciar uma crise epiléptica de outros eventos paroxísticos, como síncope.
Paralisia de Todd
A paralisia de Todd é uma condição neurológica transitória que pode ocorrer após uma crise epiléptica, manifestando-se como hemiplegia (paralisia de um lado do corpo) ou hemiparesia (fraqueza de um lado do corpo). Sua duração pode variar de alguns minutos a vários dias. É fundamental ter cuidado para não confundir a paralisia de Todd com um Acidente Vascular Cerebral (AVC), pois a etiologia e o manejo são distintos.
⚠️ Atenção: A paralisia de Todd é um déficit neurológico pós-ictal e transitório. Sua reversibilidade é a chave para diferenciá-la de um AVC.
Epilepsia do Lobo Temporal
A epilepsia do lobo temporal é a síndrome epiléptica mais comum no adulto, com início geralmente por volta dos 16 anos de idade. É frequentemente associada à esclerose hipocampal ou esclerose mesial temporal, uma alteração estrutural no hipocampo.
🧬 Fator de Risco: A ocorrência de convulsão febril na infância é um importante fator de risco para o desenvolvimento posterior da epilepsia do lobo temporal.
As crises características são as crises focais disperceptivas (anteriormente chamadas de parciais complexas), que se manifestam principalmente por alterações no comportamento. O paciente pode "desligar", "congelar", ficar olhando para o nada, ou apresentar comportamentos mais complexos como agressividade ou desinibição. Em aproximadamente um terço dos casos, essas crises podem evoluir para uma crise tônico-clônica generalizada. Podem ser precedidas por auras, como sensações de frio na barriga, parestesias, paralisias (sensação de "congelamento") ou irritabilidade, devido ao envolvimento da região do hipocampo. A liberação esfincteriana também pode ocorrer.
Diagnóstico
- Ressonância Magnética (RNM): Evidencia a esclerose mesial temporal no hipocampo.
- Eletroencefalograma (EEG): Demonstra atividade epileptiforme no lobo temporal.
Tratamento
A Carbamazepina é a principal escolha terapêutica para a epilepsia do lobo temporal. Em casos refratários ao tratamento medicamentoso, a síndrome apresenta uma boa resposta ao tratamento cirúrgico, que pode envolver a ressecção da área esclerótica.
💊 Tratamento: Carbamazepina é a primeira linha. Considerar cirurgia em casos refratários.
Síndrome de West (Espasmos Infantis)
A Síndrome de West, também conhecida como "espasmos infantis", é uma encefalopatia epiléptica grave que afeta bebês menores de 1 ano, com início típico entre 4 e 7 meses de vida. A principal causa orgânica associada é a anóxia neonatal, embora também possa ser decorrente de alterações cromossômicas ou outras lesões corticais congênitas.
A tríade clínica clássica inclui:
- Espasmos: Contrações musculares súbitas e breves, frequentemente em flexão, que afetam pescoço, tronco e membros (especialmente os superiores). Esses espasmos são dolorosos e podem fazer a criança chorar.
- Retardo no Desenvolvimento Neuropsicomotor: A criança apresenta regressão ou estagnação das aquisições do desenvolvimento.
- Hipsarritmia no EEG: Um padrão eletroencefalográfico caótico e desorganizado.
Eletroencefalograma (EEG)
O EEG é diagnóstico, revelando um padrão de hipsarritmia, caracterizado por um ritmo bilateral e caótico, com ondas lentas de alta voltagem e descargas multifocais.
Tratamento
O tratamento de primeira linha é com ACTH (Hormônio Adrenocorticotrófico). A Vigabatrina é uma segunda opção, mas seu uso a longo prazo pode estar associado a problemas visuais. O prognóstico da Síndrome de West é, infelizmente, péssimo, com alto risco de sequelas neurológicas graves.
💊 Tratamento: ACTH (primeira opção), Vigabatrina (segunda opção).
Síndrome de Lennox-Gastaut
A Síndrome de Lennox-Gastaut é outra encefalopatia epiléptica grave, mais comum em pré-escolares (2 a 10 anos). Pode ser uma consequência da Síndrome de West em alguns casos, mas também pode ter outras etiologias, como encefalopatia hipóxico-isquêmica (frequentemente relacionada a problemas no parto), trauma ou meningite.
A tríade clínica característica é:
- Qualquer tipo de crise: O paciente pode apresentar múltiplos tipos de crises (tônico-clônicas generalizadas, tônicas, clônicas, focais com ou sem alteração da consciência, atônicas, ausências atípicas).
- Retardo no desenvolvimento mental: Compromete as funções cognitivas.
- Distúrbios comportamentais: Alterações significativas no comportamento da criança.
Eletroencefalograma (EEG)
O EEG típico da Síndrome de Lennox-Gastaut apresenta um padrão de espícula-onda lenta, com uma frequência inferior a 2,5 Hz (ou ciclos por segundo).
Tratamento
A Lamotrigina é uma das principais drogas utilizadas no tratamento da Síndrome de Lennox-Gastaut. Assim como na Síndrome de West, o prognóstico é desfavorável.
💊 Tratamento: Lamotrigina é uma opção importante.
| Característica |
Síndrome de West |
Síndrome de Lennox-Gastaut |
| Idade de Início |
Menores de 1 ano (4-7 meses) |
Pré-escolares (2-10 anos) |
| Etiologia Comum |
Anóxia neonatal, alteração cromossomial |
Encefalopatia hipóxico-isquêmica (problemas no parto) |
| Tipo de Crise Predominante |
Espasmos infantis |
Múltiplos tipos de crises |
| EEG Típico |
Hipsarritmia |
Espícula-onda lenta (< 2,5 Hz) |
| Tratamento de Escolha |
ACTH, Vigabatrina |
Lamotrigina |
| Prognóstico |
Péssimo |
Péssimo |
Estado de Mal Epiléptico
O estado de mal epiléptico é uma emergência neurológica definida por uma crise epiléptica que persiste por mais de 5 minutos, ou pela ocorrência de duas ou mais crises sem recuperação completa da consciência entre elas. É uma condição que exige intervenção imediata para prevenir danos cerebrais permanentes.
Tipos
O estado de mal epiléptico pode ser classificado em:
- Estado de Mal Convulsivo: Geralmente tônico-clônico, com manifestações motoras evidentes.
- Estado de Mal Não Convulsivo: Pode se apresentar como ausência prolongada, crises focais contínuas ou um estado de confusão mental persistente, sem as manifestações motoras típicas.
Tratamento
O tratamento do estado de mal epiléptico é uma sequência de passos que visa controlar a crise e prevenir complicações:
- Suporte Básico de Vida (BLS): Garantir a via aérea, respiração e circulação do paciente é a prioridade inicial.
- Medidas Iniciais: Administrar Glicose 50% IV e Tiamina IV (se a causa não for conhecida ou houver suspeita de deficiência de tiamina, como em etilistas).
- Primeira Linha Farmacológica (Benzodiazepínicos):
- Diazepam IV (1 ampola de 10mg) ou retal.
- Midazolam IM.
- Lorazepam IV (não disponível no Brasil).
O benzodiazepínico pode ser repetido uma ou duas vezes, dependendo da resposta e da literatura consultada. Importante: Não administrar Diazepam pela via intramuscular devido à absorção errática.
- Segunda Linha Farmacológica (Anticonvulsivantes): Se a crise não ceder após os benzodiazepínicos:
- Fenitoína (Hidantal) IV: 20 mg/kg, administrada a uma velocidade máxima de 50 mg/min. Pode-se repetir uma vez com metade da dose.
- Opções alternativas: Levetiracetam ou Ácido Valproico IV.
- Terceira Linha Farmacológica (Fenobarbital): Se a crise persistir:
- Fenobarbital IV: 20 mg/kg, a uma velocidade máxima de 50 mg/min.
- Nota: Em crianças menores de 4 semanas, o Fenobarbital é a droga inicial. Atualmente, alguns guidelines podem "pular" esta etapa, passando diretamente para a anestesia em casos refratários à Fenitoína.
- Anestesia Geral: Se todas as etapas anteriores falharem, o paciente deve ser intubado e submetido à anestesia geral com Midazolam, Propofol ou Pentobarbital/Tiopental para controle da crise.
🚨 Emergência: O tratamento do estado de mal epiléptico é uma corrida contra o tempo para proteger o cérebro. Siga o protocolo rigorosamente.
Convulsão Febril
A convulsão febril é a crise convulsiva mais comum da infância, ocorrendo em crianças com idade entre 6 meses e 5 anos (segundo Nelson, ou 3 meses a 6 anos pela Academia Americana de Pediatria). É importante ressaltar que a convulsão febril não é epilepsia, pois não há alteração estrutural no córtex cerebral que gere disparos elétricos anômalos. O córtex da criança é normal, e o EEG entre as crises é tipicamente normal.
Conceitos Iniciais
- Idade: Ocorre tipicamente entre 6 meses e 5 anos.
- Natureza: Não é epilepsia; o córtex cerebral é normal.
- Características da Crise: Geralmente é uma crise tônico-clônica generalizada (TCG) ou clônica, de curta duração (menos de 15 minutos).
- EEG: O eletroencefalograma é normal entre as crises, confirmando a ausência de epilepsia.
- Recorrência: Não se repete em um período de 24 horas.
- Febre: Associada a febre alta e/ou que aumenta rapidamente. A velocidade de variação da temperatura (tanto para cima quanto para baixo) é um fator crucial, não apenas a temperatura máxima atingida.
- Pós-ictal: O período pós-ictal é marcado por uma alteração breve do nível de consciência.
🧠 Lembre-se: A convulsão febril é um evento benigno e autolimitado, diferente da epilepsia.
Crise Febril Atípica/Complexa
Uma crise febril é considerada atípica ou complexa se apresentar uma ou mais das seguintes características:
- Tipo Focal: A crise não é generalizada, mas sim localizada em uma parte do corpo.
- Duração Prolongada: Dura mais de 15 minutos.
- Pós-ictal Duradouro: O período pós-ictal é prolongado ou apresenta um sinal neurológico focal persistente.
- Recorrência: Ocorre mais de uma crise em um período de 24 horas.
Etiologia
As causas mais comuns de febre que desencadeiam convulsão febril incluem infecções virais e bacterianas comuns da infância:
- Otite Média Aguda (OMA)
- Amigdalites
- Laringites
- Exantema Súbito (Roséola infantil)
- Outras infecções respiratórias ou gastrointestinais.
⚠️ Atenção: Crises provocadas por meningites, encefalites, distúrbios hidroeletrolíticos e glicêmicos, ou intoxicação exógena NÃO SÃO consideradas crises febris. Nesses casos, a convulsão é um sintoma da doença de base, e não uma convulsão febril benigna.
Diagnóstico
O diagnóstico da convulsão febril é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico. Exames complementares são geralmente desnecessários, exceto em situações específicas.
Punção Lombar
A punção lombar (PL) para investigar meningite deve ser considerada ou realizada nas seguintes situações:
- Idade Inferior a 6 meses: Crianças muito pequenas podem ter meningite sem sinais de irritação meníngea evidentes.
- Suspeita de Meningite: Qualquer sinal ou sintoma que sugira infecção do sistema nervoso central.
- Não Vacinados: Crianças entre 6 e 12 meses não vacinadas para Haemophilus influenzae tipo b ou pneumococo (considerar PL).
- Em Tratamento com Antibiótico: Antibióticos podem mascarar os sinais de meningite.
É crucial lembrar que uma convulsão febril pode ser a primeira manifestação de meningite em crianças muito jovens, justificando a cautela na indicação da PL.
🔎 Diagnóstico: O diagnóstico é clínico. A PL é reservada para casos de alto risco ou suspeita de infecção do SNC.
Tratamento
O tratamento da convulsão febril foca no suporte e no manejo da febre. Se a criança chega ao pronto-socorro convulsionando, a prioridade é controlar a crise com um benzodiazepínico (como Diazepam). Se a criança já teve a convulsão em casa e chega afebril ou apenas com febre, a prioridade é tratar a febre e investigar a causa.
- Suporte e Acalmar os Pais: Oferecer tranquilidade e informações claras aos pais é fundamental.
- Diazepam: Administrar se a crise estiver em andamento.
- Tratamento da Febre: Utilizar antitérmicos e medidas físicas para reduzir a temperatura.
Fatores de Risco
Alguns fatores aumentam o risco de desenvolvimento de epilepsia após convulsão febril, ou de recorrência da própria convulsão febril:
- Maior Risco de Epilepsia:
- História familiar de epilepsia.
- Anormalidades do desenvolvimento neurológico pré-existentes.
- Crise febril atípica (focal, prolongada, pós-ictal duradouro).
- Crise com febre de duração inferior a 24 horas antes da convulsão.
- Maior Risco de Recorrência (30-50%):
- Idade inferior a 1 ano no primeiro episódio.
- Crise em febre baixa (38-39°C).
- Crise com menos de 24 horas de febre.
- História familiar de convulsão febril.
Profilaxia
A profilaxia contínua com anticonvulsivantes não é recomendada para convulsão febril simples devido aos efeitos adversos das medicações. No entanto, em casos de ansiedade extrema ou preocupação excessiva dos pais, o Nelson menciona a possibilidade de prescrição de benzodiazepínico profilático para ser administrado durante episódios febris. Esta é uma conduta de exceção e deve ser avaliada individualmente.
💊 Profilaxia: Não é rotineira. Benzodiazepínico profilático pode ser considerado em casos excepcionais de ansiedade parental.