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Fraqueza Muscular: Polineuropatias, Miopatias e Distrofias


Conceitos Iniciais sobre Fraqueza Muscular

A fraqueza muscular é um sintoma neurológico comum que pode indicar disfunções em diferentes níveis do sistema neuromuscular. Para uma compreensão didática, podemos categorizar as causas da fraqueza muscular com base na localização anatômica da lesão, abrangendo desde o sistema nervoso central até o próprio músculo.

🧠 Lembre-se: A identificação do nível da lesão (central, periférica, placa motora ou muscular) é fundamental para o diagnóstico diferencial da fraqueza muscular.

Síndromes Clínicas: Panograma Geral

A diferenciação entre as síndromes que causam fraqueza muscular é crucial para o diagnóstico e manejo. Abaixo, um resumo das características clínicas que auxiliam na distinção entre lesões do primeiro neurônio motor (síndrome piramidal), segundo neurônio motor (neuropatia periférica), placa motora e o próprio músculo.

Característica 1º Neurônio Motor (Síndrome Piramidal) 2º Neurônio Motor (Neuropatia Periférica) Placa Motora Músculo (Miopatias/Distrofias)
Força Paresia/Plegia Paresia/Plegia Fraqueza que varia com o movimento, fatigabilidade Fraqueza com enzimas musculares elevadas (TGO, CPK, Aldolase, LDH). Pode haver sinal de Gowers.
Reflexos Hiperreflexia Hipo/Arreflexia Normais ou diminuídos (sempre preservados no início) Normais ou diminuídos
Tônus Aumentado (espástico) Flacidez Normal Normal ou diminuído
Atrofia Hipotrofia (moderada, tardia) Atrofia (acentuada, precoce) Ausente Ausente ou leve (exceto em distrofias avançadas)
Sinal de Babinski Presente (extensão do hálux) Indiferente Ausente Ausente
Miofasciculações Ausente Presente Ausente Ausente

O sinal de Babinski, caracterizado pela extensão do hálux, é um achado clássico de lesão do primeiro neurônio motor, indicando um problema no trato piramidal.

Particularidades da Transmissão e Área Efetora

Aprofundando nas características da placa motora e do próprio músculo, observamos distinções importantes que guiam o raciocínio clínico.

Transmissão (Placa Motora)

As disfunções na placa motora são marcadas por uma característica peculiar da fraqueza muscular:

💡 Dica: A fatigabilidade é a marca registrada das doenças da junção neuromuscular, como a miastenia gravis.

Área Efetora (Músculo)

Quando o problema reside no próprio músculo (miopatias), as manifestações incluem:

🧪 Exame Chave: A dosagem de CPK é um exame laboratorial fundamental na investigação de miopatias.

Polineuropatias

As polineuropatias representam um grupo heterogêneo de doenças que afetam múltiplos nervos periféricos, resultando em fraqueza, alterações sensitivas e, por vezes, disfunções autonômicas.

Esclerose Múltipla (EM)

A Esclerose Múltipla é uma doença neurológica crônica, inflamatória e desmielinizante que afeta o sistema nervoso central (SNC). É caracterizada por uma resposta autoimune contra a bainha de mielina, a estrutura que envolve os axônios e permite a condução rápida dos impulsos nervosos.

Conceitos Essenciais

🧬 Genética e Autoimunidade: A EM é um exemplo clássico de doença autoimune com predisposição genética e fatores ambientais envolvidos, resultando em um ataque à mielina do SNC.

Manifestações Clínicas

A EM é conhecida por sua apresentação clínica variada e imprevisível, frequentemente descrita como uma "bagunça neurológica" devido à disseminação das lesões em diferentes áreas do SNC. Os sintomas podem surgir em surtos e remissões ou ter um curso progressivo.

🔎 Diagnóstico Clínico: "Mulher jovem, fraca, dormente, que não está enxergando" é um mnemônico útil para lembrar a apresentação clássica da EM.

Padrão de Evolução

A EM é caracterizada por sua disseminação no tempo e no espaço, o que significa que as lesões ocorrem em diferentes momentos e em múltiplas localizações do SNC.

Diagnóstico

O diagnóstico da EM é baseado em critérios clínicos, achados de neuroimagem e análise do líquido cefalorraquidiano (LCR).

🔬 Exames Complementares: A RNM com "dedos de Dawson" e as bandas oligoclonais no LCR são pilares diagnósticos da EM.

Tratamento

O tratamento da EM visa controlar os surtos agudos, modificar o curso da doença para reduzir a frequência e gravidade dos surtos, e manejar os sintomas.

💊 Terapêutica: Corticosteroides são a base do tratamento agudo dos surtos, enquanto as terapias modificadoras da doença visam a longo prazo.

Síndrome de Guillain-Barré (SGB)

A Síndrome de Guillain-Barré é uma polirradiculoneuropatia inflamatória aguda desmielinizante, caracterizada por um ataque autoimune à bainha de mielina dos nervos periféricos e raízes nervosas. É uma emergência neurológica que pode levar à insuficiência respiratória.

Conceitos Essenciais

🚨 Emergência Neurológica: A SGB é uma condição grave que requer atenção imediata devido ao risco de insuficiência respiratória.

Manifestações Clínicas

O quadro clínico clássico da SGB é de uma fraqueza muscular progressiva que se desenvolve rapidamente.

⚠️ Atenção: A fraqueza ascendente e a arreflexia são sinais de alerta para SGB. A ausência de atrofia muscular significativa é um diferencial importante em quadros agudos.
Variante de Miller-Fisher

Uma variante importante da SGB, a Síndrome de Miller-Fisher, apresenta uma tríade clínica específica:

Diagnóstico

O diagnóstico da SGB é essencialmente clínico, mas é suportado por exames complementares.

🩸 Marcador Diagnóstico: A dissociação proteinocitológica no LCR é um achado laboratorial crucial para o diagnóstico da SGB.

Tratamento

O tratamento da SGB é de suporte e visa modular a resposta autoimune para acelerar a recuperação e reduzir a gravidade da doença.

💊 Tratamento Essencial: Plasmaférese ou IVIG são as terapias de escolha. Lembre-se: corticosteroides são contraindicados!

Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA)

A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta os neurônios motores superiores (1º NMS) e inferiores (2º NMI), resultando em fraqueza muscular e atrofia. É uma condição de natureza degenerativa, distinta das doenças autoimunes, e representa um desafio diagnóstico e terapêutico.

Conceitos Essenciais

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da ELA é marcada pela fraqueza muscular progressiva, que reflete a lesão dos neurônios motores. A coexistência de sinais de lesão do 1º e 2º neurônio motor é um achado característico devido à natureza assimétrica da doença.

⚠️ Atenção: Conceitos frequentemente cobrados em prova! Na ELA, NÃO HÁ:

Diagnóstico

O diagnóstico da ELA é essencialmente clínico e de exclusão, baseado na identificação de sinais de lesão do 1º e 2º neurônio motor em múltiplos segmentos, na ausência de outras causas que justifiquem o quadro.

Tratamento

O tratamento da ELA é principalmente de suporte, visando melhorar a qualidade de vida e prolongar a sobrevida, uma vez que não há cura para a doença.

💡 Dica de Prova: Em questões de tratamento, o suporte multidisciplinar (fisioterapia, fonoaudiologia) é crucial e frequentemente a resposta correta para manejo sintomático, em contraste com terapias imunomoduladoras que não são eficazes na ELA.

A sobrevida média após o diagnóstico é de 3 a 5 anos.


Distúrbios da Junção Neuromuscular

Miastenia Gravis

A Miastenia Gravis (MG) é uma doença autoimune crônica que afeta a junção neuromuscular, resultando em fraqueza muscular flutuante e fatigabilidade. É caracterizada pela produção de autoanticorpos que atacam componentes da placa motora pós-sináptica.

Conceitos Essenciais

Manifestações Clínicas

A MG se manifesta por fraqueza muscular e fatigabilidade, que pioram com a atividade repetitiva e ao longo do dia, melhorando com o repouso e pela manhã.

Diagnóstico

O diagnóstico da MG é baseado na clínica, exames eletrofisiológicos e detecção de autoanticorpos.

Tratamento

O tratamento da MG visa controlar os sintomas, reduzir a produção de autoanticorpos e, em alguns casos, remover o timo.

Síndrome de Eaton-Lambert (LEMS)

A Síndrome de Eaton-Lambert (LEMS) é um distúrbio autoimune raro da junção neuromuscular, caracterizado por fraqueza muscular que melhora com a atividade repetitiva. Em cerca de 50% dos casos, é uma síndrome paraneoplásica, frequentemente associada ao câncer de pulmão de pequenas células (CPPC ou oat cell).

Conceitos Essenciais

Manifestações Clínicas

A LEMS apresenta fraqueza e fatigabilidade, mas com uma característica peculiar: a força muscular tende a melhorar com o esforço repetitivo, um fenômeno conhecido como "incremento" ou "facilitação".

Diagnóstico

O diagnóstico da LEMS é feito pela clínica, eletroneuromiografia e detecção de autoanticorpos.

Tratamento

O tratamento da LEMS envolve o manejo da doença subjacente (se paraneoplásica) e o controle dos sintomas neuromusculares.

Característica Miastenia Gravis (MG) Síndrome de Eaton-Lambert (LEMS)
Local da Lesão Pós-sináptica (receptores de ACh) Pré-sináptica (canais de cálcio)
Autoanticorpos Anti-AChR, Anti-MuSK, Anti-LRP4 Anti-P/Q-VGCC
Fraqueza Muscular Piora com repetição (fatigabilidade) Melhora com repetição (facilitação)
Acometimento Inicial Ocular (ptose, diplopia) Proximal de MMII, autonômico
Associação Hiperplasia/Timoma Câncer de Pulmão de Pequenas Células (50%)
Reflexos Tendinosos Normais Diminuídos ou ausentes (com facilitação)
Manifestações Autonômicas Raras Comuns (boca seca, hipotensão postural)

Botulismo

O botulismo é uma doença neuroparalítica grave causada pela neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum. Essa toxina impede a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular, resultando em paralisia flácida.

Conceitos Essenciais

Tipos de Botulismo

Manifestações Clínicas

O botulismo se caracteriza por uma paralisia flácida simétrica e descendente, com acometimento inicial da musculatura craniana e progressão para o tronco e membros.

Diagnóstico

O diagnóstico é confirmado pela detecção da toxina ou da bactéria.

Tratamento

O tratamento é focado na neutralização da toxina e no suporte vital.


Miopatias

As miopatias representam um grupo heterogêneo de doenças que afetam primariamente a musculatura esquelética, resultando em fraqueza. Podem ser classificadas de diversas formas, incluindo causas genéticas, inflamatórias, metabólicas, endócrinas, tóxicas (induzidas por drogas) e infecciosas.

Miopatias Induzidas por Drogas

Diversas substâncias farmacológicas e recreativas podem desencadear lesão muscular, manifestando-se como miopatia. É crucial reconhecer os agentes etiológicos mais comuns e suas particularidades clínicas e diagnósticas.

Drogas Associadas a Miopatias

As drogas mais frequentemente associadas ao desenvolvimento de miopatias incluem:

💡 Dica de Prova: As miopatias induzidas por álcool, corticoides e estatinas são as que mais frequentemente aparecem em questões de residência!

Miopatia Induzida por Álcool

A miopatia alcoólica é a forma de miopatia induzida por drogas com maior prevalência, sendo o álcool a substância que mais causa dano muscular.

🧠 Conceito Chave: Em ambas as formas (aguda e crônica), a fraqueza muscular costuma ser mais proeminente na musculatura das panturrilhas.
⚠️ Atenção: Ao prescrever estatinas, evite a associação com fibratos, especialmente o genfibrozil, devido ao risco aumentado de miopatia. Se a associação for indispensável, a combinação de fenofibrato com pravastatina é considerada a mais segura.

Miopatia Induzida por Corticoides

A miopatia por corticoides pode se desenvolver tanto com o uso agudo quanto crônico desses medicamentos.

Corticoide Potência Relativa Dose Equivalente (mg)
Prednisona 4 5
Hidrocortisona 1 20
Dexametasona 30 0,75
Betametasona 30 0,75

Miopatia Induzida por Estatinas

Embora seja um efeito adverso clássico e frequentemente abordado em provas, a miopatia induzida por estatinas é relativamente rara na prática clínica.

⚠️ Atenção: A miopatia por estatinas é um tema frequente em provas, mas sua incidência real é baixa.

Miopatia Induzida por Antipsicóticos: Síndrome Neuroléptica Maligna

A Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM) é uma complicação rara, mas grave, associada principalmente ao uso de antipsicóticos de primeira geração e antieméticos.

Miopatias em Doenças Infecciosas

Infecções por diversos agentes (vírus, bactérias, parasitas) podem afetar diretamente a musculatura, causando miopatias. É importante diferenciar a mialgia comum de uma miopatia inflamatória.

Principais Agentes Infecciosos

As miopatias infecciosas mais relevantes incluem aquelas associadas a:

Miopatia Associada ao HIV

A miopatia em pacientes com HIV pode ser diretamente relacionada ao vírus ou ao uso da terapia antirretroviral (TARV).

Característica Miopatia Associada ao HIV Miopatia Associada ao Uso de TARV
Causa Diretamente pelo vírus HIV Inibidores da transcriptase reversa nucleosídeos (ex: AZT)
Clínica Fraqueza proximal e simétrica (principalmente em membros inferiores) Fraqueza proximal e simétrica (principalmente em membros inferiores)
Imunossupressão Não tem relação direta com o grau de imunossupressão Não especificado, mas relacionada à toxicidade da droga
Laboratório Aumento de CK Aumento de CK
ENMG Padrão semelhante ao da polimiosite Padrão semelhante ao da polimiosite
Diagnóstico Final Biópsia muscular Biópsia muscular (para diferenciar da miopatia viral ou HIV-associada)
Tratamento 💊 Corticoide 💊 Suspensão da droga (TARV)

Miopatia Viral

A mialgia é um sintoma extremamente comum em infecções virais. A miopatia viral (miosíte) ocorre quando há inflamação direta do tecido muscular.

Miopatia Bacteriana

As miopatias bacterianas são menos comuns que as virais e geralmente resultam de disseminação hematogênica ou por contiguidade.

Miopatia por Parasitas

A triquinose é um exemplo clássico de miopatia parasitária.


Distrofias Musculares

As distrofias musculares são um grupo de doenças genéticas caracterizadas por fraqueza muscular progressiva e degeneração das fibras musculares.

Conceitos Gerais

As distrofinopatias, que incluem as distrofias de Duchenne e Becker, são as formas mais frequentes de distrofias musculares. Elas são causadas por defeitos na proteína distrofina, essencial para a integridade estrutural da fibra muscular.

🧬 Genética: As distrofias de Duchenne e Becker são doenças ligadas ao cromossomo X, o que as torna praticamente exclusivas do sexo masculino.

Mulheres podem ser portadoras do gene anômalo e transmiti-lo, mas raramente desenvolvem a doença de forma grave, podendo apresentar manifestações clínicas leves. Em contraste, todo homem que herda o cromossomo X afetado manifestará a doença. A degeneração muscular esquelética, lisa e cardíaca ocorre devido a perdas ou duplicações no DNA que codifica a distrofina.

Distrofia Muscular de Duchenne

A Distrofia Muscular de Duchenne (DMD) é a distrofinopatia mais grave e comum, com uma incidência de aproximadamente 30 para cada 100.000 nascidos vivos do sexo masculino (XY).

Distrofia Muscular de Becker

A Distrofia Muscular de Becker (DMB) é uma forma mais branda e de progressão mais lenta que a DMD, com uma incidência de aproximadamente 3 para cada 100.000 nascidos vivos do sexo masculino (XY).

🧠 Conceito Chave: A Distrofia de Becker é frequentemente descrita como uma "Distrofia de Duchenne mais lenta", devido à sua apresentação clínica mais tardia e progressão menos agressiva.