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Hipertensão Intracraniana e Abscesso Cerebral


Hipertensão Intracraniana

A hipertensão intracraniana (HIC) é uma condição neurológica grave caracterizada pelo aumento da pressão dentro do crânio.

Fisiopatologia

A hipertensão intracraniana é definida como um aumento sustentado da pressão intracraniana (PIC) acima de 20-22 mmHg por um período de 10 minutos, ou por medições seriadas que excedam 22 mmHg em qualquer intervalo. É crucial reconhecer que níveis elevados de PIC estão diretamente associados a um aumento significativo na morbidade e mortalidade dos pacientes.

A Pressão de Perfusão Cerebral (PPC) é um parâmetro vital na avaliação da HIC, sendo calculada pela diferença entre a Pressão Arterial Média (PAM) e a Pressão Intracraniana (PIC):

O cérebro possui um mecanismo intrínseco de autorregulação do fluxo sanguíneo cerebral (FSC), que permite manter o FSC relativamente constante, mesmo diante de variações na PAM. Esse fenômeno funciona eficazmente dentro de uma faixa de PAM de aproximadamente 50 a 150 mmHg. No entanto, em situações de choque ou hipotensão grave, quando a PAM se encontra fora dessa faixa, o mecanismo de autorregulação pode ser comprometido, levando a uma redução crítica do FSC e, consequentemente, ao rebaixamento do nível de consciência.

🧠 Conceito-chave: A HIC é um sinal de alerta para disfunção cerebral. A manutenção de uma PPC adequada é essencial para garantir a oxigenação e nutrição cerebral, prevenindo danos isquêmicos.

Etiologia e Diagnóstico Diferencial

O volume intracraniano é composto principalmente por três elementos: o parênquima cerebral (aproximadamente 80%), o líquido cefalorraquidiano (LCR) (cerca de 10%) e o sangue (também cerca de 10%). A elevação da PIC ocorre quando há um aumento no volume de um ou mais desses componentes, ou a introdução de um volume adicional, como uma massa.

A Hipótese de Monro-Kellie é um princípio fundamental que explica o equilíbrio dinâmico desses volumes. Ela postula que, em um crânio rígido e fechado, o volume intracraniano total permanece constante. Assim, um aumento no volume de um dos componentes deve ser compensado pela diminuição do volume de outro para que a PIC se mantenha inalterada. Por exemplo, se houver um tumor (aumento do parênquima), o corpo tenta deslocar LCR ou sangue para fora do crânio. Quando essa capacidade compensatória é excedida, a PIC começa a subir, resultando em hipertensão intracraniana.

💡 Lembre-se: A Hipótese de Monro-Kellie é a base para entender a dinâmica da PIC. Os três componentes principais do volume intracraniano são parênquima, LCR e sangue.

Para aprofundar a compreensão, alguns pontos-chave sobre a hemodinâmica cerebral são cruciais:

Considerando a cefaleia como um sintoma comum, podemos diferenciar as causas da HIC da seguinte forma:

Tipo de Cefaleia Componente Afetado Sinais e Sintomas Possíveis Causas
Progressiva Parênquima Com sinais focais inflamatórios Abscesso cerebral
Progressiva Parênquima Com sinais focais, sem inflamação Neoplasia/Tumor
Progressiva Líquor Ausência de sinais focais Hidrocefalia/Meningite
Súbita Sangue/Obstrução Venosa Com sinal focal Hemorragia intraparenquimatosa
Súbita Sangue/Obstrução Venosa Sem sinal focal Hemorragia subaracnoide
Progressiva/Arrastada ou Súbita Sangue/Obstrução Venosa Com ou sem sinal focal Trombose venosa central

Quadro Clínico

As manifestações clínicas da hipertensão intracraniana podem variar, mas alguns sinais e sintomas são clássicos e devem ser prontamente reconhecidos:

🚨 Alerta: A Tríade de Cushing é um sinal de emergência neurológica, indicando descompensação grave da PIC e risco iminente de herniação.

Monitorização

A monitorização da PIC é crucial para o manejo da hipertensão intracraniana, permitindo a avaliação da resposta ao tratamento e a detecção precoce de deterioração.

🔎 Diagnóstico: A monitorização intraventricular da PIC é o método mais preciso e versátil, permitindo tanto a medição quanto a intervenção terapêutica através da drenagem de LCR.

Tratamento

O objetivo principal do tratamento da HIC é manter uma Pressão de Perfusão Cerebral (PPC) entre 60-70 mmHg, através da redução da PIC para valores abaixo de 20 mmHg e, se necessário, um leve aumento da PAM.

As medidas terapêuticas incluem:

⚠️ Atenção: O efeito da hiperventilação na redução da PIC é transitório (1-12 horas). O uso prolongado pode levar à isquemia cerebral devido à vasoconstrição excessiva.

Em casos graves e refratários às medidas iniciais, outras abordagens podem ser necessárias:

💊 Tratamento: Para memorizar as medidas de tratamento da HIC, lembre-se do mnemônico "VÊ O DESVIO":

Abscesso Cerebral

O abscesso cerebral é uma infecção focal supurativa dentro do parênquima cerebral, caracterizada pela formação de uma cápsula vascularizada ao redor do processo infeccioso. É uma condição grave que requer diagnóstico e tratamento rápidos.

Principais Etiologias

A etiologia do abscesso cerebral varia significativamente entre pacientes imunocompetentes e imunocomprometidos:

Grupo de Pacientes Agentes Mais Comuns Características
Imunocompetentes Estreptococos (40%) > Anaeróbios (30%) > Enterobactérias > S. aureus Predominantemente bactérias
Imunocomprometidos Nocardia, Toxoplasma gondii, Aspergillus, Candida, Criptococos Maioria não bacteriana (fungos, parasitas)

Abscesso Bacteriano

As bactérias podem atingir o cérebro por diversas vias, resultando na formação de abscessos:

Como as bactérias chegam ao cérebro?
Localização

A localização do abscesso pode fornecer pistas sobre a sua origem:

Quadro Clínico

A apresentação clínica do abscesso cerebral pode ser insidiosa e inespecífica, e a tríade clássica é observada em uma minoria dos pacientes:

🧠 Lembre-se: A ausência da tríade clássica não exclui o diagnóstico de abscesso cerebral. A suspeita clínica deve ser alta em pacientes com febre, cefaleia e déficits neurológicos.

Diagnóstico

O diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento:

⚠️ Atenção: Nunca realize uma punção lombar em pacientes com suspeita de abscesso cerebral ou outros efeitos de massa sem antes excluir a presença de lesão expansiva por neuroimagem. O risco de herniação é alto!

Tratamento

O tratamento do abscesso cerebral é multifacetado e geralmente envolve uma combinação de abordagens:

  1. Drenagem: A drenagem estereotáxica é a abordagem de escolha, permitindo a aspiração do conteúdo do abscesso para cultura e alívio da pressão. A drenagem cirúrgica aberta pode ser necessária para abscessos maiores ou multiloculados. O Harrison indica que abscessos menores que 2-3 cm em pacientes oligossintomáticos podem não necessitar de drenagem.
  2. Antibioticoterapia: Deve ser iniciada empiricamente e de forma imediata, sem aguardar os resultados das culturas, devido à gravidade da condição. O regime antibiótico deve ser de amplo espectro e cobrir os patógenos mais prováveis, com ajuste posterior conforme a cultura e o antibiograma. O tratamento geralmente dura de 6 a 8 semanas.
  3. Anticonvulsivantes: São indicados por pelo menos 3 meses, especialmente se o paciente apresentar crises convulsivas. A continuidade da medicação deve ser reavaliada após esse período, com base em eletroencefalograma (EEG).
  4. Dexametasona: Administrada em doses de 4-10 mg a cada 6 horas, se houver edema cerebral significativo associado ao abscesso, para reduzir a inflamação e o efeito de massa.
  5. Acompanhamento: Monitorização com TC/RNM a cada 15-30 dias é essencial para avaliar a resposta ao tratamento e detectar possíveis complicações.
💊 Tratamento: Não se deve esperar os resultados das culturas para iniciar a antibioticoterapia empírica no abscesso cerebral. O tempo é crucial para evitar danos neurológicos irreversíveis.

Tuberculoma

O tuberculoma cerebral é uma forma de neurotuberculose que se manifesta como uma lesão expansiva no parênquima cerebral. É importante diferenciá-lo do abscesso bacteriano comum.

🧬 Genética/Patologia: Tuberculomas cerebrais são lesões granulomatosas que podem ou não apresentar calcificação central na neuroimagem e não são exclusivas de pacientes imunocomprometidos.