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Introdução à Neurologia


Conceitos Fundamentais em Neurologia

Antes de aprofundarmos no estudo das patologias neurológicas, é crucial solidificar as bases da neurologia.

Os quatro pilares iniciais que exploraremos são:

💡 Foco do Estudo: Embora todos os conceitos sejam importantes, este material se aprofundará no Sistema Motor, fundamental para a compreensão de diversas patologias neurológicas.

O Sistema Motor

Para a realização de qualquer movimento voluntário, o sistema motor recruta minimamente dois neurônios: o primeiro e o segundo neurônio motor.

🧠 Conceito Chave: A lesão em qualquer um desses neurônios compromete a capacidade de movimento, resultando em déficits motores.

Déficits de Força Muscular

A avaliação da força muscular é crucial na neurologia, e os termos abaixo descrevem a extensão da deficiência:

Componentes Essenciais para a Função Motora

O funcionamento adequado do sistema motor depende da interligação harmoniosa de diversas estruturas:

Característica Lesão de 1º Neurônio Motor (Síndrome Piramidal) Lesão de 2º Neurônio Motor (Neuropatia Periférica)
Causas Comuns AVE, lesões focais (córtex, cápsula interna, tronco encefálico) Neuropatias, lesões de nervos periféricos, poliomielite
Força Muscular Paresia/Plegia Paresia/Plegia
Reflexos Profundos Hiperreflexia Hipo/Arreflexia
Tônus Muscular Aumentado (Espasticidade) Diminuído (Flacidez)
Atrofia Muscular Moderada e tardia Acentuada e precoce
Sinal de Babinski Presente (extensão do hálux) Indiferente (ausente ou flexor normal)
Miofasciculações Ausente Presente

Síndrome Cerebelar

A disfunção cerebelar manifesta-se por um conjunto de sinais e sintomas característicos:

Detalhes do 1º Neurônio Motor

Trajeto do 1º Neurônio Motor

Os axônios dos primeiros neurônios motores, que se originam em diversas áreas do córtex motor de um hemisfério cerebral, convergem e se agrupam em estruturas específicas durante seu trajeto descendente.

⚠️ Atenção: Devido à sua densidade de fibras, pequenas lesões na Cápsula Interna podem causar déficits motores extensos e graves.

Implicações Clínicas da Localização da Lesão

A localização da lesão no trajeto do 1º neurônio motor determina o lado das manifestações clínicas:

Síndrome do 1º Neurônio Motor (Síndrome Piramidal)

A lesão do primeiro neurônio motor resulta em um conjunto de sinais e sintomas característicos:

🚨 Alerta na Fase Aguda: Nos primeiros 3-4 dias após uma lesão aguda (ex: AVE), a síndrome piramidal pode se apresentar com flacidez, hiporreflexia e hipotrofia muscular, antes de evoluir para a espasticidade e hiperreflexia.

Síndrome do 2º Neurônio Motor

A lesão do segundo neurônio motor, que inerva diretamente o músculo, leva a uma síndrome com características distintas:


Sistema Sensitivo

O sistema sensitivo é responsável por transmitir informações do ambiente externo e interno para o sistema nervoso central, permitindo a percepção e interpretação das sensações. Diferentemente do sistema motor, que possui vias descendentes, o sistema sensitivo opera através de vias ascendentes.

Características Fundamentais do Sistema Sensitivo

Trajeto dos Neurônios Sensitivos

O percurso da informação sensitiva envolve uma cadeia de três neurônios:

  1. O primeiro neurônio sensitivo tem seu corpo celular localizado nos gânglios da raiz dorsal e capta o estímulo na periferia, enviando seu axônio para a medula espinhal.
  2. Na medula, o axônio do primeiro neurônio faz sinapse com o segundo neurônio sensitivo. É neste ponto que ocorre um evento crucial: a maioria das fibras sensitivas cruza para o lado oposto da medula espinhal (na comissura branca anterior), com exceção das vias do cordão posterior.
  3. O axônio do segundo neurônio ascende pelo lado contralateral da medula e faz sinapse no tálamo com o terceiro neurônio sensitivo. O tálamo atua como uma estação retransmissora vital, onde ocorrem todas as sinapses entre o segundo e o terceiro neurônio sensitivo, sendo fundamental para a consciência das sensações.
  4. O terceiro neurônio, localizado no tálamo, projeta-se para o córtex sensitivo, onde a sensação é finalmente interpretada e percebida.
🧠 Conceito Chave: Uma lesão talâmica pode resultar em uma deficiência sensitiva intensa e generalizada, dada a sua função central na retransmissão de informações sensitivas.

Principais Vias Sensitivas Ascendentes

As vias sensitivas são classificadas de acordo com o tipo de informação que transportam e seu trajeto:

Trato Orientação Trajeto do Cruzamento Função Principal Clínica da Lesão Medular
Corticoespinhal (Motor) Descendente (Eferente) Decussação das pirâmides (Bulbo) Motricidade voluntária Déficit ipsilateral
Espinotalâmico (Sensitivo) Ascendente (Aferente) Comissura branca (Medula) Tato protopático, pressão, temperatura e dor Déficit contralateral
Cordão Posterior (Sensitivo) Ascendente (Aferente) Direto (não cruza na medula, cruza no bulbo) Propriocepção, vibração e tato epicrítico Déficit ipsilateral
🧠 Lembre-se: O córtex motor e a maioria das vias sensitivas (exceto o cordão posterior) de um lado do cérebro são responsáveis por comandar ou receber informações dos lados contralaterais do corpo. As vias do cordão posterior são uma exceção importante, pois sua lesão medular causa déficit ipsilateral.

Córtex Cerebral

O córtex cerebral é a camada mais externa do cérebro, responsável pelas funções cognitivas superiores, percepção sensorial, controle motor voluntário e linguagem. Suas funções são organizadas em áreas especializadas dentro de cada lobo cerebral.

Lobo Frontal

Localizado na porção anterior do cérebro, o lobo frontal é crucial para o planejamento, tomada de decisões, personalidade e controle motor.

Lobo Parietal

Localizado posterior ao lobo frontal, o lobo parietal é essencial para o processamento de informações sensoriais, navegação espacial e integração multissensorial.

Lobo Temporal

Situado abaixo do lobo parietal, o lobo temporal desempenha papéis cruciais na audição, memória, emoções e compreensão da linguagem.

Lobo Occipital

Localizado na porção posterior do cérebro, o lobo occipital é dedicado principalmente ao processamento visual.

Tronco Encefálico e Cerebelo

Embora não sejam parte do córtex cerebral, o tronco encefálico e o cerebelo são estruturas vitais com funções neurológicas distintas:

💡 Dica para Prova: A localização medial da representação dos membros inferiores tanto no córtex motor quanto no sensitivo é um ponto frequentemente cobrado, especialmente em questões que envolvem lesões parassagitais ou vasculares.

Vascularização Cerebral

Organização Geral do Sistema Arterial Encefálico

A irrigação do encéfalo é realizada através de um sistema vascular sofisticado que, embora apresente duas vias de acesso distintas anatomicamente, funciona como uma unidade integrada e interdependente. Este sistema dual proporciona redundância fisiológica crucial para manutenção da perfusão cerebral em situações de comprometimento vascular parcial.

O sistema vascular cerebral origina-se de dois territórios principais que ascendem pela região cervical através de trajetos distintos, porém convergem em uma estrutura anastomótica central de grande importância clínica.

Circulação Posterior (Sistema Vértebro-Basilar)

A circulação posterior inicia-se na artéria subclávia, que emite bilateralmente as artérias vertebrais. Estas estruturas ascendem pela região posterior do pescoço, penetram o crânio através do forame magno e convergem na linha média para formar uma estrutura única: a artéria basilar.

A artéria basilar, após seu trajeto pelo tronco encefálico, bifurca-se originando as duas artérias cerebrais posteriores (uma de cada lado), responsáveis pela perfusão das regiões occipitais e posteriores do encéfalo.

🧠 Lembre-se: Circulação posterior = Subclávia → Vertebrais → Basilar → Cerebrais posteriores. Trajeto posterior do pescoço.

Circulação Anterior (Sistema Carotídeo)

A circulação anterior origina-se na artéria carótida comum, que sofre bifurcação em dois ramos distintos com funções diferenciadas:

A artéria carótida interna, após entrar na cavidade craniana, sofre bifurcação originando duas artérias principais: a artéria cerebral anterior (que se dirige anteriormente e medialmente) e a artéria cerebral média (que se dirige lateralmente). Ambas estão presentes bilateralmente.

🧠 Lembre-se: Circulação anterior = Carótida comum → Carótida interna (entra no crânio) → Cerebrais anterior e média. Trajeto anterior do pescoço.

O Polígono de Willis

Embora as circulações anterior e posterior ascendam por trajetos anatomicamente distintos, existe um ponto de convergência vascular de importância extraordinária denominado polígono de Willis. Esta estrutura representa uma rede de pequenas artérias comunicantes que interconectam os dois sistemas, permitindo fluxo colateral compensatório em situações de oclusão parcial ou progressiva de um dos sistemas.

O polígono de Willis é composto por:

Esta configuração anatômica permite que, na eventualidade de comprometimento de uma circulação, a circulação contralateral possa suprir parcialmente as necessidades metabólicas da região afetada, funcionando como um mecanismo de proteção fisiológica. Clinicamente, a presença de anastomoses adequadas pode determinar a extensão e severidade de um acidente vascular encefálico.

⚠️ Atenção: O polígono de Willis nem sempre está completamente desenvolvido em todos os indivíduos. Variações anatômicas podem comprometer a eficácia do fluxo colateral, aumentando a vulnerabilidade a eventos isquêmicos.

Territórios de Irrigação Arterial

Cada uma das três artérias cerebrais principais (anterior, média e posterior) é responsável pela perfusão de territórios específicos do encéfalo, com distribuição topográfica característica:

Artéria Cerebral Região Anatômica Perfundida Localização Relativa
Cerebral Anterior (ACA) Regiões anteriores e mediais do encéfalo Medial
Cerebral Média (ACM) Regiões laterais do encéfalo; maior território de irrigação Lateral
Cerebral Posterior (ACP) Regiões posteriores e occipitais do encéfalo Posterior

Ramos Perfurantes e Artérias Lenticulo-Estriadas

À medida que a artéria cerebral média progride lateralmente, emite pequenos ramos denominados ramos perfurantes, que penetram o parênquima cerebral irrigando estruturas profundas. Entre estes ramos, destacam-se as artérias lenticulo-estriadas, pequenas mas clinicamente significativas estruturas vasculares.

As artérias lenticulo-estriadas são responsáveis pela perfusão da cápsula interna, estrutura de importância crítica que contém as vias motoras piramidais (primeiro neurônio motor) e outras vias de condução essenciais. Apesar de seu pequeno calibre, um acidente vascular encefálico envolvendo estas artérias resulta em manifestações clínicas desproporcional e dramaticamente graves.

🚨 Ponto crítico: Oclusão de artérias lenticulo-estriadas causa hemiplegia contralateral pura, apesar do pequeno tamanho do infarto. A cápsula interna é uma "encruzilhada" neurológica onde pequenas lesões causam grandes déficits.

A importância clínica destas artérias reside no fato de que a cápsula interna representa uma via de passagem obrigatória para praticamente todas as fibras motoras descendentes que originam-se do córtex motor. Uma lesão nesta região, mesmo que pequena, compromete a totalidade da motricidade contralateral.


Correlação Clínica - Identificação da Artéria Afetada no Acidente Vascular Encefálico

Manifestações Clínicas por Território Arterial

A identificação clínica da artéria responsável por um acidente vascular encefálico é fundamental para o manejo terapêutico e prognóstico. As manifestações neurológicas refletem diretamente o território vascular comprometido e as estruturas neurológicas nele contidas.

Acidente Vascular Encefálico da Artéria Cerebral Anterior

O comprometimento da artéria cerebral anterior resulta em manifestações clínicas características relacionadas às estruturas por ela irrigadas:

Acidente Vascular Encefálico da Artéria Cerebral Média

A artéria cerebral média, sendo a de maior calibre e maior território de irrigação, é a mais frequentemente acometida em eventos isquêmicos. Suas manifestações refletem a extensa área por ela perfundida:

🔎 Dica diagnóstica: Face-braço alterados com perna preservada = suspeitar de ACM. Lembre-se: ACM é a artéria mais frequentemente afetada em AVC isquêmico.

Acidente Vascular Encefálico da Artéria Cerebral Posterior

O comprometimento da artéria cerebral posterior resulta em manifestações predominantemente visuais, refletindo sua responsabilidade pela irrigação do córtex visual occipital:

Acidente Vascular Encefálico das Artérias Lenticulo-Estriadas

Apesar do pequeno calibre, o comprometimento destas artérias resulta em manifestações clínicas severas e desproporcionalidade entre o tamanho da lesão e a magnitude do déficit:

💡 Padrão clínico: Hemiplegia pura sem alteração sensitiva = infarto lacunar de cápsula interna por oclusão de artérias lenticulo-estriadas.

Acidente Vascular Encefálico da Circulação Vertebrobasilar

O comprometimento da circulação posterior apresenta características clínicas distintas, refletindo a anatomia do tronco encefálico e estruturas adjacentes:

⚠️ Atenção: Síndrome cruzada (déficit motor/sensitivo contralateral + par craniano ipsilateral) é patognomônica de lesão troncoencefálica. Sempre considerar circulação vertebrobasilar.
Artéria Afetada Manifestações Clínicas Principais Características Distintivas
Cerebral Anterior Déficit motor/sensitivo em perna; alterações comportamentais; incontinência urinária Distribuição inferior; síndrome frontal medial
Cerebral Média Déficit motor/sensitivo em face-braço; afasia; desvio do olhar; possível hemiplegia total Distribuição superior; artéria mais frequentemente afetada; possibilidade de afasia
Cerebral Posterior Hemianopsia homônima; alterações visuais complexas Déficit predominantemente visual; preservação motora
Lenticulo-Estriadas Hemiplegia contralateral pura; sensibilidade preservada Infarto lacunar; pequeno tamanho com grande impacto clínico; sem alterações corticais
Vertebrobasilar Síndrome cruzada; ataxia; múltiplos pares cranianos Padrão cruzado; alterações cerebelares; pares cranianos ipsilaterais

Conceitos Sobre a Abordagem Diagnóstica

A identificação precisa da artéria culpada em um acidente vascular encefálico repousa na análise sistemática das manifestações neurológicas apresentadas pelo paciente. O padrão de distribuição dos déficits motores e sensitivos, associado à presença ou ausência de alterações corticais (afasia, negligência, alterações visuais), fornece pistas clínicas valiosas.

A abordagem clínica deve considerar:

🧠 Algoritmo prático: Déficit motor/sensitivo contralateral + alterações corticais (afasia) = ACM. Déficit motor/sensitivo contralateral + par craniano ipsilateral = circulação vertebrobasilar. Hemiplegia pura sem alterações sensitivas ou corticais = artérias lenticulo-estriadas.