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Asma


Fisiopatologia e Fenótipos

Fisiopatologia

A asma é uma doença respiratória crônica caracterizada por uma inflamação persistente das vias aéreas, predominantemente mediada por eosinófilos, que resulta em episódios recorrentes e reversíveis de hiperreatividade brônquica. Esses episódios são comumente referidos como "crises asmáticas" ou exacerbações.

Diversos fatores podem atuar como gatilhos ou agravantes, contribuindo para a inflamação e a broncoconstrição. Os principais incluem:

🧠 Conceito Chave: A asma é definida pela inflamação crônica eosinofílica das vias aéreas, levando à hiperreatividade brônquica e obstrução do fluxo aéreo reversível, que se manifesta em crises.

Fenótipos da Asma

A asma não é uma condição homogênea, apresentando diferentes fenótipos que influenciam a apresentação clínica, a resposta ao tratamento e o prognóstico. Os principais fenótipos reconhecidos são:


Manifestações Clínicas

Os sintomas clássicos da asma são resultado da broncoconstrição, edema da mucosa e hipersecreção de muco. Eles são tipicamente variáveis, intermitentes e frequentemente pioram à noite ou nas primeiras horas da manhã. Os principais sintomas incluem:

Uma história pessoal ou familiar de atopia (alergias) é um dado clínico relevante que reforça a suspeita de asma.

⚠️ Atenção para a Prova: Pontos Cruciais!

🔎 Sibilo: O sibilo pode estar ausente no início da doença e, paradoxalmente, em crises asmáticas muito graves, onde o fluxo de ar está tão restrito que não há som audível. Lembre-se: nem tudo que sibila é asma, e nem toda asma sibila!
🚨 Sibilo em Adulto sem História de Asma: Um paciente adulto que se apresenta no pronto-socorro com sibilância, mas sem histórico prévio de asma, deve levantar a suspeita de outras condições graves. Considere diagnósticos diferenciais como insuficiência cardíaca (IC), tromboembolismo pulmonar (TEP), obstrução de vias aéreas superiores (VAS) ou doença do refluxo gastroesofágico (DRGE).
🧬 Diagnósticos Diferenciais Importantes com Sibilo:
🚨 Tórax Silencioso: Este é um sinal de asma extremamente grave e indica uma iminente falência respiratória. Significa que o fluxo de ar está tão severamente comprometido que não há sibilo audível nem murmúrio vesicular. Não se prenda à ideia de que sibilo inspiratório ou expiratório indica maior gravidade; o tórax silencioso é o achado mais alarmante.
💡 Tosse Isolada: No início da doença, especialmente em crianças, a tosse (principalmente noturna) pode ser o único sintoma presente, sem sibilância evidente. Fique atento a essa apresentação atípica.
🤝 Asma e Rinite: Existe uma forte e intrínseca associação entre asma e rinite. A grande maioria dos pacientes asmáticos também apresenta rinite, e cerca de 40% dos indivíduos com rinite podem desenvolver asma. Ambas são consideradas manifestações de uma "via aérea única".

Diagnóstico e Avaliação

O diagnóstico da asma é estabelecido pela combinação da história clínica característica, exame físico e, crucialmente, por testes de função pulmonar que demonstrem obstrução variável e reversível do fluxo aéreo.

Testes Diagnósticos Principais

Os principais exames complementares para o diagnóstico e monitoramento da asma incluem:

Espirometria Inicial

É o exame padrão-ouro para avaliar a função pulmonar e identificar a obstrução das vias aéreas.

Prova Broncodilatadora (PBD)

Realizada após a espirometria inicial, tem como objetivo avaliar a reversibilidade da obstrução do fluxo aéreo, que é uma característica fundamental da asma.

Teste de Broncoprovocação (com Metacolina, Histamina ou Carbacol)

Este teste é indicado quando a suspeita clínica de asma é elevada, mas a espirometria inicial e a prova broncodilatadora são normais (ou seja, o paciente está assintomático no momento do exame).

Pico de Fluxo Expiratório (PFE - Peak Flow)

O PFE é um método simples, portátil e de baixo custo para monitorar a função pulmonar em casa. Embora não substitua a espirometria para o diagnóstico inicial, pode ser útil em situações onde a espirometria não está disponível ou para o acompanhamento do controle da doença.

Teste Diagnóstico Critério de Positividade (Adultos) Critério de Positividade (Crianças) Principal Aplicação / Observação
Espirometria Inicial VEF1/CVF < 0,7 VEF1/CVF < 0,9 Identificação de obstrução do fluxo aéreo
Prova Broncodilatadora (PBD) Aumento VEF1 > 200 mL E > 12% do basal Aumento VEF1 > 12% do basal Avaliação da reversibilidade da obstrução
Teste de Broncoprovocação Queda VEF1 > 20% do basal Queda VEF1 > 20% do basal Detecção de hiperreatividade brônquica (em espirometria normal)
Pico de Fluxo Expiratório (PFE) Variabilidade > 10% OU Melhora > 20% pós-tto OU Aumento > 20% pós-BD Variabilidade > 13% OU Melhora > 15% pós-tto OU Aumento > 20% pós-BD Monitoramento domiciliar, útil na indisponibilidade de espirometria

⚠️ Maldades de Prova e Situações Especiais:

💊 Broncoespasmo Induzido por Betabloqueadores: Betabloqueadores, mesmo em formulações tópicas como colírios, podem induzir broncoespasmo em pacientes asmáticos. Nesses casos, o tratamento de escolha para reverter o broncoespasmo é o brometo de ipratrópio (um anticolinérgico), pois os receptores beta-2 estarão bloqueados, tornando os beta-2 agonistas ineficazes.
💊 Broncoespasmo Induzido por AINES: Os anti-inflamatórios não esteroides (AINES), em particular o ácido acetilsalicílico (AAS), são a principal causa de broncoespasmo induzido por drogas na prática clínica. O mecanismo envolve a via da ciclooxigenase e a produção de leucotrienos.
🏃 Broncoespasmo Induzido por Exercício (BIE): Geralmente ocorre em climas frios e secos. A abordagem não é tratar a crise *durante* o exercício, mas sim preveni-la. A estratégia recomendada é a utilização de um beta-2 agonista de curta duração (SABA) antes da atividade física.
🤰 Asma na Gravidez:

Avaliação Contínua do Paciente com Asma

Recomendações para Monitoramento e Tratamento Não Farmacológico

A avaliação e o monitoramento contínuos são essenciais para garantir o controle da asma e otimizar a qualidade de vida do paciente.


Tratamento da Asma (GINA 2024)

O tratamento da asma, conforme as diretrizes da GINA (Global Initiative for Asthma) 2024, é escalonado e individualizado, visando o controle dos sintomas e a prevenção de exacerbações. A escolha da terapia é guiada pela gravidade da doença e pela resposta do paciente.

Princípios da Terapia

A terapia preferencial para o alívio e, em muitos casos, para a manutenção, envolve a combinação de Budesonida inalatória (BUD) e Formoterol (FORM). É crucial entender que o formoterol, embora seja um beta-2 agonista de longa duração (LABA), possui um rápido início de ação, o que o torna adequado para uso como medicação de alívio, além de sua função como controlador.

💡 Dica GINA: A combinação BUD-FORM é a base da terapia MART (Maintenance And Reliever Therapy), onde o mesmo inalador é usado tanto para manutenção diária quanto para alívio dos sintomas.

Tratamento em Adultos e Adolescentes (≥ 12 anos)

O manejo da asma nesta faixa etária segue um sistema de passos escalonados, onde a terapia é ajustada (intensificada ou reduzida) com base no nível de controle dos sintomas e na frequência das exacerbações, conforme as diretrizes da GINA 2024.

Critérios para Progressão dos Passos em Adultos e Adolescentes:

Detalhes do Tratamento por Passo:

Passo 1/2

Nesses passos iniciais, a terapia de manutenção diária fixa geralmente não é necessária. O foco principal é no tratamento de alívio.

Passo 3

Neste passo, introduz-se uma terapia de manutenção diária para controlar os sintomas mais frequentes.

Passo 4

Para pacientes com sintomas mais persistentes e impacto na função pulmonar, a dose do controlador é aumentada.

Passo 5

Este passo é para casos de asma grave ou de difícil controle, exigindo terapias adicionais e, frequentemente, avaliação especializada.

Terapia de Alívio (SOS)

A adminstração da terapia de alívio independe do passo do tratamento em que o paciente se encontra no quesito tratamento de manutenção.

A opção preferencial é a combinação de Budesonida/Formoterol (BUD-FORM) em dose baixa (200-400mcg de Budesonida + 6mcg de Formoterol), utilizada conforme a necessidade. Uma alternativa é o uso de um beta-2 agonista de curta ação (SABA) em conjunto com um corticoide inalatório (CI) de dose baixa, administrado sempre que o SABA for utilizado.

🧠 Conceito Chave: A terapia MART (Maintenance And Reliever Therapy) com BUD-FORM simplifica o regime e demonstrou ser mais eficaz na redução de exacerbações em comparação com o uso de CI fixo mais SABA SOS. O formoterol, apesar de ser um LABA, tem início de ação rápido, permitindo seu uso como alívio.

Tratamento em Crianças Maiores (6-11 anos)

O manejo da asma em crianças de 6 a 11 anos também é escalonado, com foco no controle dos sintomas e na prevenção de exacerbações, adaptando as doses e as opções terapêuticas à idade e às diretrizes da GINA 2024.

Critérios para Progressão dos Passos em Crianças Maiores (6-11 anos):

Detalhes do Tratamento por Passo:

Passo 1

Para sintomas leves e infrequentes, o tratamento é focado no alívio e na prevenção de inflamação.

Passo 2

Com sintomas mais frequentes, um controlador diário é introduzido.

Passo 3

Para um controle mais robusto, a dose do CI é aumentada ou um LABA é adicionado.

Passo 4

Para asma persistente e com impacto significativo, a terapia é intensificada e a avaliação especializada é recomendada.

Passo 5

Este passo é para asma grave e refratária, exigindo manejo por especialista e terapias avançadas.

Terapia de Alívio (SOS)

A adminstração da terapia de alívio independe do passo do tratamento em que o paciente se encontra no quesito tratamento de manutenção.

Um SABA (Beta-2 de curta ação) é utilizado conforme a necessidade. Uma opção é a combinação "BUD-FORM" (200-400mcg de Budesonida + 6mcg de Formoterol) conforme necessidade.

Tratamento em Crianças Menores (≤ 5 anos)

O manejo da asma em pré-escolares exige considerações especiais devido às particularidades da idade, à dificuldade de diagnóstico e avaliação, e à importância da técnica inalatória. O foco é na redução dos sintomas e exacerbações, conforme as diretrizes da GINA 2024.

Critérios para Progressão dos Passos em Crianças Menores (< 5 anos):

Detalhes do Tratamento por Passo:

Passo 1

Para sibilância leve e associada a infecções virais.

Passo 2

Para sintomas mais frequentes ou padrão de sibilância que sugere asma.

Passo 3

Para asma não controlada com CI de dose baixa.

Passo 4

Para asma persistente e de difícil controle, com necessidade de avaliação especializada.

Terapia de Alívio (SOS)

A adminstração da terapia de alívio independe do passo do tratamento em que o paciente se encontra no quesito tratamento de manutenção.

Um SABA (Beta-2 de curta ação) é utilizado conforme a necessidade.

Alguns Cuidados Importantes na Pediatria:

A técnica de inalação é fundamental para a eficácia do tratamento em crianças, especialmente com o uso de espaçadores:

⚠️ Atenção: Para todas as faixas etárias, antes de intensificar o tratamento (step-up), é crucial verificar a técnica inalatória, a aderência ao tratamento e a exposição a fatores de risco modificáveis. Demonstre e reforce a forma correta de uso do dispositivo inalatório!

Avaliação dos Níveis de Controle da Asma

A avaliação regular do controle da asma é essencial para guiar os ajustes terapêuticos. Baseia-se na frequência dos sintomas e no impacto na qualidade de vida do paciente nas últimas 4 semanas.

Critério (Últimas 4 semanas) Asma Controlada (Adequado) Asma Não Controlada (Inadequado)
Atividades limitadas Não Sim
Uso de broncodilatador de alívio ≤ 2x/semana > 2x/semana (ou > 1x se ≤ 5 anos)
Acordou à noite (ou tosse noturna se < 5 anos) Não Sim
Sintomas diurnos ≤ 2x/semana > 2x/semana (ou > 1x se ≤ 5 anos)

Nota: O uso inalatório de beta-2 de curta ação como profilaxia de broncoespasmo induzido por exercício NÃO é considerado na avaliação do controle.

🚨 Ponto Crucial: Antes de aumentar o passo terapêutico, é imperativo verificar o ambiente do paciente, a aderência ao tratamento e a técnica de uso do dispositivo inalatório. Demonstre e reforce a forma correta de uso!

Crise Asmática (Exacerbação Aguda)

A crise asmática é uma piora aguda ou subaguda dos sintomas de asma, exigindo intervenção imediata. A avaliação é feita pela clínica e pelo Pico de Fluxo Expiratório (PFE/Peak Flow).

Manejo da Crise Asmática

⚠️ Atenção GINA 2024: As diretrizes da GINA 2024 não consideram ou indicam o uso de Terbutalina (IV, SC) nas crises refratárias, apesar de seu uso rotineiro em algumas práticas médicas.

Critérios para Alta Hospitalar

Após a resolução da crise, a alta deve ser cuidadosamente planejada:

Classificação da Gravidade da Crise Asmática

A gravidade da crise é determinada por uma combinação de sinais clínicos e parâmetros objetivos, como o PFE.

Característica Crise Leve-Moderada Crise Grave Crise Muito Grave
Fala e Estado Mental Fala frases completas Frases incompletas, possível agitação Sonolência e confusão
Frequência Cardíaca (FC) 100-120 bpm > 120 bpm > 120 bpm
Frequência Respiratória (FR) ≤ 30 irpm > 30 irpm > 30 irpm
Saturação de O2 (SatO2) e Gasometria SatO2 90-95% SatO2 < 90% SatO2 < 90%, Acidose respiratória
Aparelho Respiratório Dispneia leve ou ausente Uso de musculatura acessória Tórax silencioso, insuficiência respiratória
Pico de Fluxo Expiratório (PFE) > 50% do previsto ou melhor pessoal < 50% do previsto ou melhor pessoal < 50% do previsto ou melhor pessoal