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Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)


Conceitos Iniciais

Definição

A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é caracterizada por uma obstrução crônica e geralmente irreversível das vias aéreas. Conforme a definição do GOLD (Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease), trata-se de uma obstrução do fluxo aéreo que não é totalmente reversível, apresentando uma natureza progressiva e, infelizmente, sem cura definitiva. O objetivo principal no manejo da DPOC é retardar a velocidade de perda da função pulmonar e, idealmente, estancar sua progressão, mas nunca curar a doença.

Essa obstrução progressiva e incurável está intrinsecamente ligada a uma resposta inflamatória pulmonar. Diferentemente de outras condições, o gatilho inflamatório na DPOC não é a infiltração de eosinófilos, mas sim a inalação de partículas (como poluição) ou gases tóxicos, sendo o tabagismo a causa mais proeminente.

🧠 Lembre-se: DPOC é uma doença progressiva e incurável, caracterizada por obstrução do fluxo aéreo não totalmente reversível, desencadeada principalmente pela inalação de substâncias nocivas, como a fumaça do cigarro.

Fisiopatologia

A DPOC manifesta-se através de dois mecanismos distintos de lesão pulmonar, frequentemente coexistindo no mesmo paciente:

O tabagismo é capaz de induzir ambas as formas de lesão. É crucial compreender que bronquite crônica e enfisema não são doenças separadas, mas sim manifestações extremas da mesma patologia. A maioria dos pacientes com DPOC apresenta um quadro misto, com graus variados de ambas as condições. Essa complexidade contribui para que a DPOC seja uma doença frequentemente subdiagnosticada, especialmente porque os sintomas costumam surgir após cerca de 20 anos de tabagismo.

Característica "Pink Puffers" (Sopradores Róseos) "Blue Bloaters" (Inchados Azuis)
Tipo predominante Enfisema Bronquite Crônica
Aparência Magros, pletora facial, tórax em tonel Obesos, cianóticos, edemaciados
Dispneia Grave, expiratória ("sopradores") Presente, mas menos proeminente que a cianose
Hipoxemia/Cianose Geralmente sem hipoxemia significativa Grave, com cianose evidente
Cor Pulmonale Raro ou tardio Frequente, com insuficiência ventricular direita e congestão sistêmica
Tosse/Secreção Tosse seca ou mínima Tosse produtiva crônica
Sons pulmonares Tórax silencioso Roncos e sibilos
💡 Dica: A maioria dos pacientes com DPOC não se encaixa perfeitamente em um dos estereótipos ("Pink Puffer" ou "Blue Bloater"), apresentando um quadro misto que reflete a coexistência de bronquite obstrutiva crônica e enfisema.

Taxonomia (GOLD 2025)

A classificação GOLD 2025 propõe uma nova taxonomia para a DPOC, buscando identificar diferentes fenótipos e etiologias:

Fatores de Risco

Os fatores de risco para o desenvolvimento da DPOC são múltiplos e interagem entre si:

🔎 Diagnóstico Diferencial: Suspeite de deficiência de alfa-1-antitripsina em pacientes jovens, não tabagistas, com enfisema predominantemente basal e/ou história familiar. A conduta nesses casos inclui a reposição de alfa-1-antitripsina.

Manifestações Clínicas

Sinais e Sintomas

A DPOC se manifesta por uma série de sinais e sintomas que refletem a obstrução do fluxo aéreo e suas consequências sistêmicas:

Mecanismos Fisiopatológicos dos Sintomas

A obstrução crônica ao fluxo de ar na DPOC leva a:

⚠️ Atenção: Ao oxigenar um paciente com DPOC e retenção crônica de CO2, o objetivo é apenas atenuar a hipoxemia, e não corrigi-la por completo. A administração excessiva de oxigênio pode suprimir o estímulo respiratório hipóxico, levando à hipoventilação e piora da hipercapnia.

A hipoxemia crônica é um fator chave para o desenvolvimento de Cor Pulmonale, que é a falência do ventrículo direito devido à hipertensão arterial pulmonar. Isso se manifesta clinicamente por turgência jugular, hepatomegalia e edema em membros inferiores.


Achados Radiológicos

Os exames de imagem, como a radiografia de tórax, podem revelar sinais característicos da DPOC, especialmente do enfisema:


Diagnóstico da DPOC

O diagnóstico da DPOC é estabelecido fundamentalmente pela espirometria, um exame que avalia a função pulmonar. O achado característico é a obstrução do fluxo aéreo, que não é totalmente reversível após a administração de um broncodilatador.

Critérios Espirométricos

🧠 Conceito Chave: O diagnóstico de DPOC exige uma relação VEF1/CVF < 0,7 pós-broncodilatador, indicando obstrução do fluxo aéreo que não reverte completamente.

Avaliação do Paciente com DPOC

A avaliação completa do paciente com DPOC vai além do diagnóstico espirométrico, englobando a gravidade da obstrução, a intensidade dos sintomas e o risco de exacerbações, conforme as diretrizes do GOLD.

Classificação da Gravidade da Obstrução (GOLD)

A gravidade da obstrução do fluxo aéreo é classificada com base no Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) pós-broncodilatador, expresso como porcentagem do valor previsto.

Estágio GOLD Gravidade VEF1 Pós-Broncodilatador (% do Previsto)
GOLD I Leve ≥ 80%
GOLD II Moderada 50% - 79%
GOLD III Grave 30% - 49%
GOLD IV Muito Grave < 30%
⚠️ Atenção: A classificação GOLD da gravidade da obstrução utiliza o VEF1 após o broncodilatador.

Classificação da Intensidade dos Sintomas

A avaliação dos sintomas é crucial para a classificação e manejo da DPOC. O GOLD prioriza dois escores principais, que podem ser preenchidos pelo próprio paciente:

Pacientes com CAT > 10 ou mMRC ≥ 2 são considerados mais sintomáticos. Existe também o Questionário Respiratório de St. George (SGRQ), com ponto de corte de 25 pontos, mas mMRC e CAT são os mais utilizados na prática e em provas.

Escala mMRC para Dispneia

Categoria mMRC Descrição da Dispneia
0 Dispneia apenas com grandes esforços.
1 Dispneia se andar rápido no plano ou subir uma pequena colina.
2 Anda mais devagar do que pessoas da mesma idade devido à falta de ar, ou para respirar ao caminhar no plano no seu próprio ritmo.
3 Para respirar após andar menos de 100 metros ou alguns minutos no plano.
4 Não sai de casa devido à dispneia ou sente falta de ar ao se vestir/despir.

Teste de Avaliação da DPOC (CAT)

O CAT é um questionário de 8 itens, cada um pontuado de 0 a 5, totalizando um escore de 0 a 40. Um escore mais alto indica um impacto mais significativo da DPOC na qualidade de vida do paciente. Os itens avaliam aspectos como tosse, catarro, aperto no peito, dispneia, limitações em atividades domésticas, confiança para sair de casa, sono e energia.

💡 Dica de Prova: Lembre-se que CAT > 10 ou mMRC ≥ 2 indicam um paciente mais sintomático.

Classificação Integrada (GOLD 2025)

A classificação integrada do GOLD 2025 combina a gravidade da obstrução espirométrica (GOLD I-IV), o histórico de exacerbações e a intensidade dos sintomas (mMRC ou CAT) para categorizar os pacientes em três grupos: A, B ou E.

Esta classificação visa identificar pacientes com maior risco de exacerbações e/ou maior carga sintomática, permitindo uma abordagem terapêutica mais personalizada.

Critérios para os Grupos A, B e E:

🚨 Atenção à Mudança GOLD 2025: A classificação GOLD 2025 simplificou a categorização para A, B e E, focando no risco de exacerbações e na carga sintomática, com o VEF1 (GOLD I-IV) sendo um fator de risco, mas não o único determinante dos grupos A, B ou E.

Tabela de Classificação Integrada GOLD 2025

Risco de Exacerbações Intensidade dos Sintomas
Pouco Sintomático
(mMRC 0-1 ou CAT < 10)
Muito Sintomático
(mMRC ≥ 2 ou CAT ≥ 10)
Alto Risco
(≥ 2 exacerbações/ano OU 1 com internação)
Grupo E
Baixo Risco
(0-1 exacerbação/ano, sem internação)
Grupo A Grupo B

Em resumo, o Grupo E engloba todos os pacientes com alto risco de exacerbações, independentemente da intensidade dos sintomas. Para pacientes com baixo risco de exacerbações, a distinção entre Grupo A e B é feita pela intensidade dos sintomas: Grupo A para os pouco sintomáticos e Grupo B para os muito sintomáticos.


Tratamento da DPOC

O tratamento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) visa aliviar os sintomas, reduzir a frequência e a gravidade das exacerbações, melhorar a qualidade de vida e a capacidade de exercício, e diminuir a mortalidade. A abordagem terapêutica é individualizada e baseada na classificação de risco e sintomatologia do paciente, conforme as diretrizes GOLD (Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease).

Abordagem Terapêutica Inicial Baseada na Classificação GOLD

Independentemente do grupo GOLD, algumas medidas são fundamentais para todos os pacientes com DPOC:

💡 Dica: A reabilitação pulmonar é especialmente indicada para pacientes nos grupos B e E, visando melhorar a capacidade de exercício e reduzir a dispneia.

Grupo A (Baixa sintomatologia, baixo risco de exacerbação)

Caracteriza-se por 0 a 1 exacerbação por ano, sem hospitalizações, e baixa carga de sintomas.

Grupo B (Alta sintomatologia, baixo risco de exacerbação)

Pacientes com alta carga de sintomas, mas com 0 a 1 exacerbação por ano e sem hospitalizações.

Grupo E (Alta sintomatologia, alto risco de exacerbação)

Pacientes com alta carga de sintomas e alto risco de exacerbações (mais de 2 exacerbações por ano ou pelo menos 1 com internação hospitalar).

Corticoide Inalatório (CI) na DPOC: Critérios de Uso

A decisão de incluir o corticoide inalatório no esquema terapêutico da DPOC deve ser cuidadosamente avaliada, considerando o perfil de risco do paciente para exacerbações e o risco de efeitos adversos, como pneumonia.

Indicação para CI Critérios
💊 Fortemente Indicado
  • História de hospitalização por exacerbação prévia.
  • Duas ou mais exacerbações moderadas no ano.
  • Eosinofilia > 300 células/µL.
  • História de asma concomitante.
💊 A Favor do Uso
  • Uma exacerbação moderada no ano.
  • Eosinófilos entre 100-300 células/µL.
⚠️ Contra o Uso
  • Episódios repetidos de pneumonia.
  • Eosinófilos < 100 células/µL.
  • História de infecção por micobactéria.

Reabilitação Pulmonar

Programas de reabilitação pulmonar, que incluem fisioterapia respiratória e exercícios físicos supervisionados, são fortemente indicados para pacientes nos Grupos B e E. Esses programas comprovadamente melhoram a dispneia, a capacidade de exercício e a qualidade de vida.

Oxigenoterapia Domiciliar

A oxigenoterapia domiciliar de longo prazo é uma intervenção crucial para pacientes com hipoxemia crônica, com o objetivo de reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida.

🧠 Lembre-se: A oxigenoterapia domiciliar, quando bem indicada, reduz a mortalidade. Para ser eficaz, deve ser utilizada por pelo menos 15 horas por dia. A gasometria arterial para indicação deve ser colhida fora dos períodos de exacerbação, quando o paciente estiver estável, para refletir sua condição basal.

Novidades GOLD 2025 no Manejo Terapêutico

As diretrizes GOLD 2025 trazem atualizações importantes, especialmente para pacientes que já estão em tratamento com LABA + CI, uma combinação comum na prática clínica.

Outras Considerações Terapêuticas

Teofilina de Liberação Longa

A teofilina, uma metilxantina broncodilatadora de uso oral, deve ser evitada no tratamento de manutenção da DPOC (e também em exacerbações) devido à sua alta incidência de efeitos adversos, como arritmias cardíacas. Seu uso é restrito a situações em que outras opções terapêuticas não estão disponíveis ou são impraticáveis (por exemplo, por questões de custo ou impossibilidade de uso de medicação inalatória).

Agentes Antioxidantes e Mucolíticos

O uso regular de agentes como erdosteína, carbocisteína e N-acetilcisteína pode reduzir o risco de exacerbações em pacientes que não estão recebendo corticoides inalatórios. Os antileucotrienos, por sua vez, ainda não foram adequadamente testados em pacientes com DPOC.

Medidas que Aumentam a Sobrevida na DPOC

É fundamental conhecer as intervenções que comprovadamente impactam a sobrevida dos pacientes com DPOC:

⚠️ Atenção: Até o momento, não há dados conclusivos de que drogas como o corticoide inalatório isolado e os broncodilatadores de longa ação (LABA/LAMA) sejam capazes de aumentar a sobrevida por si só, embora melhorem significativamente os sintomas e reduzam exacerbações.

Manejo da Exacerbação da DPOC

A exacerbação da DPOC é um evento agudo que representa uma piora significativa dos sintomas respiratórios basais do paciente, exigindo frequentemente uma mudança na terapia regular.

Definição e Etiologia

Segundo o GOLD 2025, uma exacerbação da DPOC é um evento caracterizado por piora da dispneia e/ou tosse com expectoração nos últimos 14 dias, que pode ser acompanhada por taquipneia e/ou taquicardia. Frequentemente, está associada a inflamação local e sistêmica, desencadeada por infecção, poluição ou outro insulto à via aérea.

Sinais Cardinais da Exacerbação

Os três sinais cardinais que indicam uma exacerbação são:

Conduta na Exacerbação: Abordagem ABCD

A abordagem terapêutica de uma exacerbação da DPOC pode ser resumida pelo mnemônico ABCD:

A - Antibiótico

B - Broncodilatador Inalatório de Ação Curta

C - Corticoide Sistêmico

D - Dar Oxigênio e Checar Vitamina D

🚨 Emergência: Na DPOC descompensada, a presença de confusão mental ou redução leve do sensório não contraindica necessariamente a VNI. Essas alterações podem estar relacionadas à carbonarcose e podem ser rapidamente revertidas com a melhora da ventilação alveolar e a queda da PaCO2.
🧠 Conceito Chave: Ao nebulizar um paciente com DPOC, utilize ar comprimido e não oxigênio. Pacientes com DPOC são frequentemente retentores crônicos de CO2, e seu drive respiratório depende da hipoxemia. A hiperóxia pode reduzir a ventilação e agravar a hipercapnia.

Resumo das Principais Causas e Fatores de Risco