Fibrose Cística (FC)
1. Conceitos Iniciais
Aspectos Gerais
A Fibrose Cística é uma doença de herança autossômica recessiva, o que significa que um indivíduo precisa herdar duas cópias do gene mutado (uma de cada pai) para desenvolver a condição. A mutação mais frequentemente identificada é a F508DEL, responsável por uma parcela significativa dos casos. É crucial que, ao diagnosticar um caso, os irmãos do paciente também sejam investigados devido ao padrão de herança.
🧬 Lembre-se: A herança autossômica recessiva implica que pais portadores assintomáticos têm 25% de chance de ter um filho afetado a cada gestação.
Padrão de Herança Autossômica Recessiva na Fibrose Cística
| Genótipo dos Pais |
Genótipo dos Filhos |
Probabilidade |
| Pai Carreador (Mm) x Mãe Carreadora (Mm) |
MM (Saudável) |
25% |
| Pai Carreador (Mm) x Mãe Carreadora (Mm) |
Mm (Carreador) |
50% |
| Pai Carreador (Mm) x Mãe Carreadora (Mm) |
mm (Fibrose Cística) |
25% |
A doença é causada por um defeito na proteína CFTR (Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator), que atua como um canal de cloro na membrana celular. Essa disfunção compromete o transporte iônico transmembrana, afetando a composição das secreções exócrinas.
Fisiopatologia
O defeito na proteína CFTR leva a uma cascata de eventos patológicos:
- Acúmulo Intracelular de Cloro e Sódio: A falha no transporte de cloro para fora da célula resulta em seu acúmulo, e o sódio o acompanha para manter o equilíbrio eletroquímico.
- Deslocamento de Água para o Intracelular: O aumento da concentração de íons no meio intracelular atrai água por osmose, desidratando o meio extracelular.
- Ressecamento das Secreções e Obstrução Glandular: As secreções mucosas tornam-se anormalmente espessas e viscosas devido à falta de água, dificultando seu fluxo e causando obstrução de ductos e glândulas (pancreáticos, biliares, brônquicos).
- Inflamação e Fibrose com Perda de Função: A obstrução crônica e a estase de secreções favorecem infecções e processos inflamatórios persistentes, que, ao longo do tempo, levam à fibrose e à perda progressiva da função dos órgãos afetados.
Triagem Neonatal
A triagem para Fibrose Cística é realizada através do Teste do Pezinho, que busca identificar níveis elevados de IRT (Tripsina Imunorreativa). O protocolo de triagem segue os seguintes passos:
- Alteração no Teste do Pezinho: Se o resultado inicial indicar IRT alterada, o teste deve ser repetido em até 30 dias de vida do recém-nascido.
- Alteração Confirmada: Caso a alteração persista na repetição, o próximo passo diagnóstico é a realização do Teste do Suor.
💡 Dica: A detecção precoce via triagem neonatal é fundamental para iniciar o tratamento antes do surgimento de danos irreversíveis.
2. Diagnóstico
O diagnóstico definitivo da Fibrose Cística é primariamente estabelecido pelo Teste do Suor, complementado pela pesquisa de mutações genéticas.
Teste do Suor
Considerado o padrão-ouro para o diagnóstico, o Teste do Suor mede a concentração de cloro no suor. Um resultado positivo é caracterizado por:
- Cloro Aumentado (> 60 mEq/L) em duas amostras coletadas em ocasiões distintas.
A interpretação dos resultados do Teste do Suor é crucial:
- Valores < 29 mEq/L: Não é Fibrose Cística.
- Valores entre 30-59 mEq/L: Considerado um valor intermediário. Nesses casos, é imprescindível pesquisar mutações genéticas para confirmar ou excluir o diagnóstico.
🔎 Atenção: Após um teste de suor positivo ou intermediário, a pesquisa de mutações genéticas é essencial para definir a terapêutica, especialmente para avaliar a elegibilidade para o uso de moduladores da CFTR.
3. Manifestações Clínicas
A Fibrose Cística é uma doença multissistêmica, com manifestações variadas que afetam principalmente os sistemas respiratório, gastrointestinal e as glândulas sudoríparas.
Manifestações Respiratórias
O envolvimento pulmonar é a principal causa de morbidade e mortalidade na FC. As características incluem:
- Tosse persistente: Frequentemente produtiva, com expectoração de muco espesso.
- Infecções respiratórias recorrentes: Causadas por patógenos específicos, como Staphylococcus aureus (comum em crianças), Pseudomonas aeruginosa (principal patógeno em adultos, associado a pior prognóstico) e Burkholderia cepacia (associada a infecções graves e de difícil tratamento).
- Sinusopatia crônica: Inflamação dos seios paranasais.
- Pólipos nasais: Crescimentos benignos na mucosa nasal, comuns em pacientes com FC.
- Bronquiectasias: Dilatações irreversíveis dos brônquios, resultado da inflamação e infecção crônicas, levando ao acúmulo de muco e mais infecções.
- Exacerbações pulmonares: Episódios de piora aguda dos sintomas respiratórios, exigindo intensificação do tratamento.
Manifestações Gastrointestinais
O sistema digestório é frequentemente afetado devido à insuficiência pancreática e à obstrução de ductos:
- Íleo meconial: Obstrução intestinal por mecônio espesso no recém-nascido, sendo um sinal patognomônico da FC em cerca de 10-20% dos casos.
- Síndrome da obstrução intestinal distal (SOID): Obstrução parcial ou completa do intestino delgado distal por fezes espessas, comum em crianças mais velhas e adultos.
- Insuficiência pancreática exócrina: A obstrução dos ductos pancreáticos impede a liberação de enzimas digestivas, levando à má absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis. Pode evoluir com diabetes mellitus relacionado à fibrose cística (DMFC) devido ao comprometimento das células beta pancreáticas.
- Doença biliar: Obstrução dos ductos biliares, podendo levar a cirrose biliar focal ou multifocal.
Manifestações de Glândulas Sudoríparas
O defeito na CFTR nas glândulas sudoríparas impede a reabsorção de cloro e sódio, resultando em suor com alta concentração de sal:
- Desidratação e Hiponatremia: Em climas quentes ou durante exercícios, a perda excessiva de sal pelo suor pode levar à desidratação e baixos níveis de sódio no sangue.
- Alcalose metabólica e hipoclorêmica: A perda de cloro e sódio pode desequilibrar o balanço ácido-base e eletrolítico.
- Pele com sabor salgado: Um sinal clássico e frequentemente notado pelos pais.
🧠 Conceito Chave: A disfunção da proteína CFTR é a raiz de todas as manifestações clínicas, desde o muco espesso até o suor salgado.
4. Tratamento
O tratamento da Fibrose Cística é complexo e multidisciplinar, visando controlar os sintomas, prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida do paciente. É adaptado às necessidades individuais e à gravidade da doença.
Tratamento do Quadro Pulmonar
O manejo das manifestações pulmonares é fundamental para retardar a progressão da doença:
- Limpeza das Secreções: Essencial para remover o muco espesso e prevenir infecções. Inclui:
- Fisioterapia respiratória: Técnicas de desobstrução brônquica, drenagem postural, percussão e vibração.
- Inalação com solução hipertônica (NaCl 7%): Ajuda a hidratar as vias aéreas e fluidificar o muco.
- Mucolíticos (ex: Dornase alfa): Enzima que quebra o DNA presente no muco, reduzindo sua viscosidade.
- Controle da Inflamação: Protocolos específicos para modular a resposta inflamatória crônica:
- Azitromicina: Usada em ciclos intermitentes, possui efeitos anti-inflamatórios e antimicrobianos contra Pseudomonas.
- Tobramicina inalatória: Utilizada de forma intervalada para controlar a colonização crônica por Pseudomonas aeruginosa.
- Tratamento das Exacerbações: Episódios agudos de piora requerem intervenção rápida:
- Geralmente necessitam de internação hospitalar.
- Administração de antibióticos parenterais, escolhidos com base nas culturas de escarro ou lavado broncoalveolar coletadas ambulatorialmente.
Terapia de Reposição Enzimática
Para pacientes com insuficiência pancreática exócrina, a reposição de enzimas é vital:
- Administração de enzimas pancreáticas (lipase, amilase, protease) antes ou durante as refeições para auxiliar na digestão e absorção de nutrientes.
Moduladores da CFTR
Representam um avanço significativo no tratamento, atuando diretamente na proteína CFTR:
- São uma opção terapêutica para determinadas mutações específicas do gene CFTR.
- Podem melhorar a função da proteína, aumentando o transporte de cloro e reduzindo a viscosidade das secreções.
- Exemplos incluem ivacaftor, lumacaftor/ivacaftor, tezacaftor/ivacaftor e elexacaftor/tezacaftor/ivacaftor.
💊 Tratamento Alvo: Os moduladores da CFTR são a terapia mais promissora, pois abordam a causa subjacente da doença, e não apenas os sintomas.
Outras Medidas de Suporte
Complementam o tratamento principal, visando o bem-estar geral e a prevenção de deficiências:
- Suporte nutricional: Dieta hipercalórica e hiperproteica para combater a má absorção e o baixo peso.
- Reposição de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K): Essencial devido à má absorção de gorduras.
- Prevenção de distúrbios hidroeletrolíticos: Reposição de sódio, especialmente em climas quentes ou durante atividade física intensa, para evitar desidratação e hiponatremia.
🚨 High Yield Notes - Fibrose Cística:
- Herança: Autossômica Recessiva (mutação F508DEL mais comum).
- Defeito: Proteína CFTR (canal de cloro).
- Triagem: Teste do Pezinho (IRT) → Teste do Suor.
- Diagnóstico 🧪: Teste do Suor (Cloro > 60 mEq/L em 2 amostras).
- Patógenos Pulmonares 🦠: S. aureus, P. aeruginosa, B. cepacia.
- GI 🍎: Íleo meconial, Insuficiência Pancreática Exócrina (pode levar a Diabetes).
- Glândulas Sudoríparas 💧: Suor salgado, risco de desidratação e hiponatremia.
- Tratamento 💊: Fisioterapia respiratória, mucolíticos, ATB, enzimas pancreáticas, moduladores da CFTR (para mutações específicas).