Hipertensão Arterial Pulmonar
Definição
A Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) é uma condição hemodinâmica e fisiopatológica complexa, caracterizada por uma elevação persistente da pressão nas artérias pulmonares. De acordo com as diretrizes mais recentes, é definida por uma pressão arterial pulmonar média (PAPm) superior a 20 mmHg em repouso, confirmada por cateterismo cardíaco direito. É importante ressaltar que, historicamente, o limiar de 25 mmHg era utilizado.
🧠 Conceito Chave: A definição atual de HAP é PAPm > 20 mmHg, medida por cateterismo cardíaco direito.
Etiologia: Classificação Clínica da Hipertensão Pulmonar
A classificação da hipertensão pulmonar em grupos etiológicos é crucial para o entendimento da fisiopatologia, diagnóstico diferencial e direcionamento terapêutico. Este é um tema de grande relevância e frequentemente cobrado em provas de residência médica.
⚠️ Atenção: Dominar os grupos de classificação da Hipertensão Pulmonar é fundamental para as provas de residência!
Grupo I: Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP)
Este grupo compreende as formas de hipertensão pulmonar que afetam primariamente as pequenas artérias pulmonares, levando a um aumento da resistência vascular pulmonar. É o grupo que responde às terapias específicas para HAP.
- 1.1. HAP Idiopática: Diagnosticada quando não há causa identificável após uma investigação completa.
- 1.2. HAP Hereditária: Associada a mutações genéticas, sendo a mais comum no gene BMPR2 (Receptor de Proteína Morfogenética Óssea tipo 2), embora outras mutações também possam estar envolvidas.
- 1.3. HAP Induzida por Drogas ou Toxinas: Causada por exposição a certas substâncias, como anorexígenos (fenfluramina, dexfenfluramina), anfetaminas, cocaína e, em alguns casos, inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) em gestantes.
- 1.4. HAP Associada a:
- 1.4.1. Doenças do Tecido Conectivo: Principalmente Esclerose Sistêmica (esclerodermia), Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Doença Mista do Tecido Conectivo (DMTC) e Síndrome de Sjögren.
- 1.4.2. Infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV).
- 1.4.3. Hipertensão Portal: Decorrente de doenças hepáticas crônicas, como a cirrose.
- 1.4.4. Doença Cardíaca Congênita: Com shunts sistêmico-pulmonares significativos (e.g., comunicação interatrial, comunicação interventricular, persistência do canal arterial) que podem evoluir para a Síndrome de Eisenmenger.
- 1.4.5. Esquistossomose: Uma das causas mais prevalentes de HAP em regiões endêmicas.
Grupo II: Hipertensão Pulmonar Devida à Doença Cardíaca Esquerda
Representa a causa mais comum de hipertensão pulmonar, resultando de pressões elevadas nas câmaras esquerdas do coração que se transmitem retrogradamente para a circulação pulmonar, elevando a pressão capilar pulmonar (PCAP).
- Disfunção Ventricular Sistólica: Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr).
- Disfunção Ventricular Diastólica: Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp).
- Doenças Valvares: Estenose ou insuficiência mitral e/ou aórtica.
Grupo III: Hipertensão Pulmonar Secundária à Doença Pulmonar e/ou Hipóxia
Desenvolve-se em resposta a doenças que afetam o parênquima pulmonar ou causam hipoxemia crônica, levando à vasoconstrição pulmonar hipóxica e remodelamento vascular.
- Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
- Doenças Intersticiais Pulmonares (DIP): Como fibrose pulmonar idiopática.
- Distúrbios de Hipoventilação: Incluindo apneia obstrutiva do sono e síndrome de hipoventilação por obesidade.
- Exposição Crônica a Grandes Altitudes.
Grupo IV: Hipertensão Pulmonar Tromboembólica Crônica (HPTEC)
Resulta da obstrução persistente das artérias pulmonares por trombos organizados que não se resolvem completamente após um ou mais episódios de embolia pulmonar aguda. É a única forma de hipertensão pulmonar potencialmente curável por cirurgia (tromboendarterectomia pulmonar).
Grupo V: Hipertensão Pulmonar com Mecanismos Multifatoriais ou Não Esclarecidos
Inclui uma variedade de condições onde a etiologia da HP é complexa, multifatorial ou ainda não totalmente compreendida.
- Anemia Hemolítica Crônica: Como na anemia falciforme.
- Sarcoidose.
- Neurofibromatose.
- Doenças Metabólicas: Doença de Gaucher, glicogenoses.
- Compressão Extravascular: Por tumores ou adenopatias.
Manifestações Clínicas
Os sintomas da HAP são frequentemente inespecíficos no início e tendem a progredir com o avanço da doença, refletindo a disfunção do ventrículo direito e a redução do débito cardíaco.
- Dispneia aos Esforços: É o sintoma mais comum e geralmente o primeiro a surgir, progredindo de leve a grave com a evolução da doença.
- Fadiga e Fraqueza: Causadas pela diminuição do débito cardíaco e pela inadequada perfusão tecidual.
- Síncope: Especialmente durante o esforço físico, indicando falha do ventrículo direito em manter o débito cardíaco adequado para as demandas metabólicas.
- Precordialgia: Pode ocorrer devido à isquemia do ventrículo direito, que está sob grande sobrecarga.
- Edema de Membros Inferiores: Sinal de insuficiência ventricular direita avançada e congestão sistêmica.
- Sinais de Insuficiência Ventricular Direita ao Exame Físico:
- Desdobramento Fixo e Hiperfonese de B2: Principalmente do componente pulmonar (P2), que se torna mais audível devido à hipertensão na artéria pulmonar.
- Sopro de Insuficiência Tricúspide: Resultante da dilatação do anel tricúspide devido à sobrecarga do ventrículo direito.
- Movimento Paraesternal Esquerdo (Impulso Ventricular Direito Palpável): Indicativo de hipertrofia e dilatação do ventrículo direito.
- B4 (Quarta Bulha Cardíaca): Pode ser audível, refletindo a sobrecarga de pressão do ventrículo direito e a dificuldade de enchimento.
- Hepatomegalia e Ascite: Em casos mais graves de congestão sistêmica.
Exames Complementares
O diagnóstico da HAP requer uma investigação detalhada, combinando exames de imagem, eletrocardiográficos e, fundamentalmente, hemodinâmicos para confirmação e diferenciação etiológica.
🔎 Diagnóstico Essencial: O Cateterismo Cardíaco Direito é o único exame que confirma o diagnóstico de HAP e é crucial para diferenciar a HAP pré-capilar da pós-capilar, orientando a terapia.
Tratamento
O tratamento da HAP é complexo e individualizado, visando melhorar a capacidade funcional, a qualidade de vida e, principalmente, a sobrevida dos pacientes. A estratégia terapêutica é frequentemente guiada pela resposta ao teste de reatividade vasomotora pulmonar.
Teste de Reatividade Vasomotora Pulmonar
Este teste é realizado durante o cateterismo cardíaco direito e consiste na administração de agentes vasodilatadores de curta ação (como óxido nítrico inalatório, epoprostenol intravenoso ou adenosina) para avaliar a resposta hemodinâmica da circulação pulmonar.
🧪 Teste Crucial: O teste de reatividade vasomotora pulmonar é fundamental para definir a estratégia terapêutica inicial em pacientes com HAP do Grupo I.
| Resposta ao Teste |
Critério de Positividade |
Opções Terapêuticas |
| Positivo |
Caracterizado por uma queda da PAPm ≥ 10 mmHg, atingindo uma PAPm ≤ 40 mmHg, com débito cardíaco inalterado ou aumentado. |
💊 Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC): Pacientes reatores têm um prognóstico significativamente melhor e respondem bem a altas doses de BCC orais, como Nifedipino ou Diltiazem. |
| Negativo ou Refratário |
Não atende aos critérios de positividade (queda da PAPm < 10 mmHg ou não atingindo PAPm ≤ 40 mmHg). |
💊 Terapias Específicas para HAP: A escolha depende da classe funcional do paciente e da gravidade da doença, podendo ser monoterapia ou terapia combinada.
- Antagonistas do Receptor de Endotelina (ARE): Bloqueiam a ação da endotelina-1, um potente vasoconstritor e promotor de remodelamento. Exemplos: Ambrisentan, Bosentan, Macitentan.
- Inibidores da Fosfodiesterase-5 (iPDE5): Aumentam os níveis de GMPc, promovendo vasodilatação. Exemplos: Sildenafil, Tadalafil.
- Análogos de Prostaciclina e Agonistas do Receptor de Prostaciclina: As prostaciclinas são potentes vasodilatadores e inibidores da proliferação celular. Exemplos: Epoprostenol (IV contínuo), Iloprost (inalatório), Treprostinil (IV, SC, inalatório, oral), Selexipag (oral).
- Estimuladores da Guanilato Ciclase Solúvel (sGC): Sensibilizam a sGC ao óxido nítrico e estimulam-na diretamente, aumentando o GMPc. Exemplo: Riociguat (especialmente útil em HPTEC inoperável ou persistente/recorrente pós-cirurgia).
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Além das terapias específicas, o tratamento de suporte é fundamental e inclui:
- Diuréticos: Para controle de edemas e sobrecarga volêmica.
- Oxigenoterapia: Para pacientes com hipoxemia.
- Anticoagulação: Especialmente recomendada em HAP idiopática e HPTEC, devido ao risco aumentado de trombose in situ.
- Reabilitação Pulmonar: Para melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida.
Em casos avançados e refratários ao tratamento medicamentoso, o transplante pulmonar (ou coração-pulmão) pode ser uma opção terapêutica, oferecendo a chance de melhora significativa da sobrevida e qualidade de vida.