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Introdução à Pneumologia


Introdução à Espirometria

Definição e Aplicações Clínicas

A espirometria é uma ferramenta diagnóstica fundamental na pneumologia, empregada para avaliar a função pulmonar basal, auxiliar no diagnóstico de diversas patologias respiratórias e cardíacas, monitorar a progressão de doenças e a resposta ao tratamento, além de identificar indivíduos com risco de desenvolver disfunção respiratória. Em condições como a asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), a avaliação clínica isolada possui uma sensibilidade inferior a 50% para detectar obstrução. Consequentemente, os testes de função pulmonar, como a espirometria, são indispensáveis tanto para o diagnóstico preciso quanto para o acompanhamento longitudinal desses pacientes.

🧠 Conceito Chave: A espirometria é crucial porque os achados clínicos isolados frequentemente subestimam a presença e a gravidade da obstrução em doenças como asma e DPOC.

Preparo do Paciente e Procedimento

Para garantir a fidedignidade dos resultados espirométricos, é imprescindível que o paciente siga algumas orientações pré-exame:

A espirometria mede os volumes e fluxos aéreos derivados de manobras inspiratórias e expiratórias, que podem ser forçadas ou lentas. Diversos parâmetros são calculados, sendo os mais relevantes para a prática clínica e para provas de residência os seguintes:


Parâmetros Espirométricos Essenciais

Volumes e Capacidades Pulmonares

Fluxos Aéreos

Curva Fluxo-Volume

A curva fluxo-volume é uma representação gráfica do fluxo de ar gerado durante a manobra de CVF, plotado contra a variação de volume. Geralmente, é seguida por uma manobra inspiratória forçada, registrada de maneira similar. Os fluxos no início da expiração, próximos ao PFE, são considerados a porção esforço-dependente da curva, pois podem ser aumentados com maior esforço do paciente. Por outro lado, os fluxos após a expiração dos primeiros 30% da CVF são máximos mesmo com um esforço expiratório modesto, caracterizando a porção relativamente esforço-independente da curva.


Interpretação da Espirometria: Obstrução vs. Restrição

Para as provas de residência, a compreensão dos valores normais e, principalmente, do Índice de Tiffeneau é fundamental para diferenciar os padrões obstrutivos e restritivos.

Valores de Referência e o Índice de Tiffeneau

Vamos focar nos parâmetros mais importantes para a identificação de distúrbios:

O Índice de Tiffeneau (VEF1/CVF) é a chave para o diagnóstico de obstrução:

Distúrbios Obstrutivos (Asma, DPOC)

Em doenças obstrutivas, como asma e DPOC, o paciente apresenta dificuldade significativa para expelir o ar dos pulmões. Embora a inspiração seja um processo ativo e consiga, em certa medida, superar a obstrução, a quantidade de ar que entra é reduzida. Contudo, a maior dificuldade reside na expiração, que é um processo passivo e se torna prolongado e, muitas vezes, ativo (com esforço muscular acessório) para vencer a resistência das vias aéreas.

Nesse cenário, tanto o VEF1 quanto a CVF tendem a diminuir. No entanto, o VEF1 cai proporcionalmente mais que a CVF, pois a obstrução se manifesta de forma mais acentuada nos primeiros segundos da expiração forçada. Além disso, a dificuldade em esvaziar os pulmões leva a um aumento do Volume Residual (VR).

💊 Prova Broncodilatadora: Sempre que houver suspeita ou confirmação de doença obstrutiva, a prova broncodilatadora deve ser realizada.

Distúrbios Restritivos (Pneumopatias Intersticiais Difusas, Silicose, Sarcoidose)

Nos distúrbios restritivos, o pulmão perde sua complacência, tornando-se "duro" ou rígido. A principal dificuldade é encher o pulmão, ou seja, a inspiração é comprometida. Não há obstrução à saída do ar, mas como a quantidade de ar que entra é reduzida, a quantidade de ar que sai também será menor.

Nesses casos, tanto o VEF1 quanto a CVF diminuem. O Índice de Tiffeneau (VEF1/CVF) pode ser variável, pois a redução de VEF1 e CVF pode ser proporcional, dependendo da etiologia e gravidade da doença. Uma característica marcante dos distúrbios restritivos é a diminuição do Volume Residual (VR), já que o pulmão tem menor capacidade de reter ar.


Resumo Comparativo: Obstrução vs. Restrição

Para facilitar a memorização e a diferenciação entre os padrões, observe a tabela a seguir:

Parâmetro Doença Obstrutiva (Asma, DPOC) Doença Restritiva (PID, Silicose, Sarcoidose)
VEF1 ↓↓ (Redução acentuada) ↓ (Redução)
CVF ↓ (Redução) ↓ (Redução)
VEF1/CVF (Tiffeneau) ↓ (< 70%) Variável (Pode ser normal ou ↑)
Volume Residual (VR) ↑ (Aumento) ↓ (Diminuição)
Problema Principal 🚨 Expiração (dificuldade em expelir ar) 🚨 Inspiração (dificuldade em encher o pulmão)
💡 Dica de Prova: Lembre-se que na obstrução há aprisionamento de ar (↑VR), enquanto na restrição há menor volume pulmonar total (↓VR).