Introdução à Pneumologia
Introdução à Espirometria
Definição e Aplicações Clínicas
A espirometria é uma ferramenta diagnóstica fundamental na pneumologia, empregada para avaliar a função pulmonar basal, auxiliar no diagnóstico de diversas patologias respiratórias e cardíacas, monitorar a progressão de doenças e a resposta ao tratamento, além de identificar indivíduos com risco de desenvolver disfunção respiratória. Em condições como a asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), a avaliação clínica isolada possui uma sensibilidade inferior a 50% para detectar obstrução. Consequentemente, os testes de função pulmonar, como a espirometria, são indispensáveis tanto para o diagnóstico preciso quanto para o acompanhamento longitudinal desses pacientes.
🧠 Conceito Chave: A espirometria é crucial porque os achados clínicos isolados frequentemente subestimam a presença e a gravidade da obstrução em doenças como asma e DPOC.
Preparo do Paciente e Procedimento
Para garantir a fidedignidade dos resultados espirométricos, é imprescindível que o paciente siga algumas orientações pré-exame:
- ⚠️ Atenção: O uso de qualquer medicação broncodilatadora deve ser cessado nas últimas 24 a 48 horas antes do procedimento.
- Procedimento: A manobra espirométrica consiste em uma inspiração máxima seguida de uma expiração forçada máxima e prolongada.
A espirometria mede os volumes e fluxos aéreos derivados de manobras inspiratórias e expiratórias, que podem ser forçadas ou lentas. Diversos parâmetros são calculados, sendo os mais relevantes para a prática clínica e para provas de residência os seguintes:
Parâmetros Espirométricos Essenciais
Volumes e Capacidades Pulmonares
- Capacidade Pulmonar Total (CPT): Representa a quantidade máxima de ar contida nos pulmões após uma inspiração máxima.
- Capacidade Vital (CV): Corresponde ao maior volume de ar que pode ser mobilizado em uma única expiração. Pode ser obtida por manobras forçadas (CVF) ou lentas (CVL).
- Volume Residual (VR): É o volume de ar que permanece nos pulmões mesmo após uma exalação máxima e completa.
- Capacidade Vital Forçada (CVF): Refere-se ao volume total de ar expelido durante uma manobra expiratória forçada, partindo da CPT até o VR.
Fluxos Aéreos
- Volume Expiratório Forçado no Primeiro Segundo (VEF1): É a quantidade de ar eliminada no primeiro segundo da manobra expiratória forçada. É considerado um dos parâmetros mais úteis e clinicamente significativos para avaliação da função pulmonar.
- Pico de Fluxo Expiratório (PFE): Indica o fluxo máximo de ar atingido durante a manobra de CVF. Sua dependência do esforço do paciente o torna um bom indicador da colaboração na fase inicial da expiração.
- Relação VEF1/CV (Índice de Tiffeneau): É a razão entre o VEF1 e a Capacidade Vital (CVF ou CVL). Este índice é crucial para o diagnóstico de distúrbios obstrutivos.
- Fluxo Expiratório Forçado Intermediário (FEF25-75%): Representa o fluxo expiratório forçado médio obtido durante a manobra de CVF, especificamente na faixa intermediária entre 25% e 75% da CVF.
Curva Fluxo-Volume
A curva fluxo-volume é uma representação gráfica do fluxo de ar gerado durante a manobra de CVF, plotado contra a variação de volume. Geralmente, é seguida por uma manobra inspiratória forçada, registrada de maneira similar. Os fluxos no início da expiração, próximos ao PFE, são considerados a porção esforço-dependente da curva, pois podem ser aumentados com maior esforço do paciente. Por outro lado, os fluxos após a expiração dos primeiros 30% da CVF são máximos mesmo com um esforço expiratório modesto, caracterizando a porção relativamente esforço-independente da curva.
Interpretação da Espirometria: Obstrução vs. Restrição
Para as provas de residência, a compreensão dos valores normais e, principalmente, do Índice de Tiffeneau é fundamental para diferenciar os padrões obstrutivos e restritivos.
Valores de Referência e o Índice de Tiffeneau
Vamos focar nos parâmetros mais importantes para a identificação de distúrbios:
- VEF1 (Volume Expiratório Forçado no 1º Segundo): Valor de referência médio em adultos é de aproximadamente 4 litros.
- CVF (Capacidade Vital Forçada): Valor de referência médio em adultos é de aproximadamente 5 litros.
O Índice de Tiffeneau (VEF1/CVF) é a chave para o diagnóstico de obstrução:
- Normal: VEF1/CVF > 0,75 (para adultos).
- Normal em Crianças: VEF1/CVF > 0,9.
- 🔎 Diagnóstico de Obstrução: Se VEF1/CVF < 0,70 (ou < 70%), indica a presença de doença obstrutiva.
Distúrbios Obstrutivos (Asma, DPOC)
Em doenças obstrutivas, como asma e DPOC, o paciente apresenta dificuldade significativa para expelir o ar dos pulmões. Embora a inspiração seja um processo ativo e consiga, em certa medida, superar a obstrução, a quantidade de ar que entra é reduzida. Contudo, a maior dificuldade reside na expiração, que é um processo passivo e se torna prolongado e, muitas vezes, ativo (com esforço muscular acessório) para vencer a resistência das vias aéreas.
Nesse cenário, tanto o VEF1 quanto a CVF tendem a diminuir. No entanto, o VEF1 cai proporcionalmente mais que a CVF, pois a obstrução se manifesta de forma mais acentuada nos primeiros segundos da expiração forçada. Além disso, a dificuldade em esvaziar os pulmões leva a um aumento do Volume Residual (VR).
💊 Prova Broncodilatadora: Sempre que houver suspeita ou confirmação de doença obstrutiva, a prova broncodilatadora deve ser realizada.
- Positiva: Aumento do VEF1 em mais de 200 mL (valor absoluto) E mais de 12% (valor percentual) em relação ao valor basal.
- Asma: Caracteriza-se por reversibilidade da obstrução, ou seja, a prova broncodilatadora é geralmente positiva.
- DPOC: Apresenta obstrução pouco ou não reversível, resultando em uma prova broncodilatadora negativa ou com reversibilidade mínima.
Distúrbios Restritivos (Pneumopatias Intersticiais Difusas, Silicose, Sarcoidose)
Nos distúrbios restritivos, o pulmão perde sua complacência, tornando-se "duro" ou rígido. A principal dificuldade é encher o pulmão, ou seja, a inspiração é comprometida. Não há obstrução à saída do ar, mas como a quantidade de ar que entra é reduzida, a quantidade de ar que sai também será menor.
Nesses casos, tanto o VEF1 quanto a CVF diminuem. O Índice de Tiffeneau (VEF1/CVF) pode ser variável, pois a redução de VEF1 e CVF pode ser proporcional, dependendo da etiologia e gravidade da doença. Uma característica marcante dos distúrbios restritivos é a diminuição do Volume Residual (VR), já que o pulmão tem menor capacidade de reter ar.
Resumo Comparativo: Obstrução vs. Restrição
Para facilitar a memorização e a diferenciação entre os padrões, observe a tabela a seguir:
| Parâmetro |
Doença Obstrutiva (Asma, DPOC) |
Doença Restritiva (PID, Silicose, Sarcoidose) |
| VEF1 |
↓↓ (Redução acentuada) |
↓ (Redução) |
| CVF |
↓ (Redução) |
↓ (Redução) |
| VEF1/CVF (Tiffeneau) |
↓ (< 70%) |
Variável (Pode ser normal ou ↑) |
| Volume Residual (VR) |
↑ (Aumento) |
↓ (Diminuição) |
| Problema Principal |
🚨 Expiração (dificuldade em expelir ar) |
🚨 Inspiração (dificuldade em encher o pulmão) |
💡 Dica de Prova: Lembre-se que na obstrução há aprisionamento de ar (↑VR), enquanto na restrição há menor volume pulmonar total (↓VR).