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Micoses Pulmonares


Conceitos Iniciais

As micoses pulmonares representam um grupo de infecções fúngicas que afetam o sistema respiratório, com uma fisiopatologia que guarda notável semelhança com a da tuberculose.

Imagine o seguinte cenário: um indivíduo inala esporos de um fungo pela primeira vez. Sem imunidade prévia específica, o fungo pode se disseminar por via linfo-hematogênica nas primeiras três semanas, atingindo linfonodos, pulmões, rins, glândulas suprarrenais e outros órgãos. Em cerca de 90% dos casos, um sistema imunológico competente consegue controlar essa infecção primária. O fungo é então isolado em um granuloma, uma estrutura celular complexa composta por linfócitos e macrófagos, com um centro de necrose caseosa. Nesse ambiente de baixo pH e ausência de oxigênio, o fungo não consegue proliferar ativamente, permanecendo em estado latente.

No entanto, em aproximadamente 10% dos indivíduos, a imunidade inicial não é suficiente para conter a infecção, resultando em uma forma aguda da doença logo no primeiro contato. Além disso, naqueles 90% que controlaram a infecção primária, anos mais tarde, uma alteração na imunidade (por exemplo, imunossupressão) pode levar à reativação do fungo. Essa reativação pode ocorrer em qualquer local onde o fungo estava latente, mas é particularmente comum nos pulmões, a porta de entrada original, manifestando-se com sinais e sintomas respiratórios de evolução arrastada.

🧠 Conceito Chave: A fisiopatologia das micoses pulmonares, especialmente a primoinfecção, disseminação e reativação, é análoga à da tuberculose.

Paracoccidioidomicose

A paracoccidioidomicose é uma micose sistêmica que frequentemente mimetiza quadros clínicos de tuberculose, mas com uma história epidemiológica distinta. É crucial pensar nela quando a apresentação clínica é compatível com TB, mas a exposição não se encaixa nos padrões típicos.

Agente Etiológico e Epidemiologia

💡 Dica de Prova: Pense em paracoccidioidomicose em pacientes com quadro pulmonar crônico e história de exposição rural/agrícola. O fungo é termodimórfico.

Formas Clínicas

Forma Aguda/Juvenil

Esta forma é menos comum, representando menos de 10% dos casos, e geralmente afeta crianças e adultos jovens com menos de 30 anos. Pode manifestar-se em até 45 dias após o contato inicial com o patógeno, com acometimento equivalente em ambos os sexos.

🧪 Exame: A eosinofilia pode ser um marcador laboratorial importante na forma aguda/juvenil da paracoccidioidomicose.

Forma Crônica

A forma crônica é a mais prevalente, correspondendo a mais de 90% dos casos, e acomete predominantemente homens adultos com mais de 30 anos. Acredita-se que o estrógeno exerça um efeito protetor nas mulheres, o que explica a menor incidência feminina.

🔎 Diagnóstico Diferencial: A presença de lesões mucocutâneas tipo "estomatite moriforme" é um forte indicativo de paracoccidioidomicose crônica e ajuda a diferenciá-la da TB pulmonar.

É importante notar que existem casos em que não há lesões cutâneas, e o paciente apresenta apenas a forma pulmonar, tornando o diagnóstico diferencial com tuberculose ainda mais desafiador. Embora menos comum, manifestações cutâneas também podem ocorrer na forma aguda da doença. Além disso, a coinfecção por Paracoccidioides e Mycobacterium tuberculosis é possível, e em pacientes imunodeprimidos, pode haver uma apresentação mista dos sintomas das formas aguda e crônica.

Exames Diagnósticos

O diagnóstico da paracoccidioidomicose exige a identificação do agente etiológico, ou seja, "tem que procurar o bicho!".

🔬 Exame: A microscopia direta, revelando o fungo com aspecto "em roda de leme", é um método diagnóstico rápido e de alta relevância.

Tratamento

O tratamento da paracoccidioidomicose é prolongado e deve ser individualizado conforme a gravidade da doença.

É fundamental realizar o acompanhamento sorológico de forma concomitante ao tratamento e observar a melhora dos achados clínico-radiológicos para determinar a duração adequada da terapia, podendo-se suspender ou prolongar o tratamento conforme a evolução do paciente.

💊 Tratamento: Itraconazol é a primeira linha para casos leves/moderados. Anfotericina B é reservada para casos graves, seguida por Itraconazol.

Histoplasmose

A histoplasmose é uma micose sistêmica causada pelo Histoplasma capsulatum, com manifestações clínicas que variam desde quadros assintomáticos até doença disseminada grave, especialmente em imunodeprimidos.

Agente Etiológico e Epidemiologia

⚠️ Atenção: A histoplasmose é frequentemente associada a cavernas (morcegos) e galinheiros. Não é contagiosa.

Formas Clínicas

Forma Aguda

Geralmente se manifesta até 3 semanas após a exposição. A maioria dos casos é assintomática ou autolimitada.

Forma Crônica

Esta forma é restrita aos pulmões e é mais comum em pacientes com fatores de risco pulmonares preexistentes.

Forma Disseminada

É a forma mais grave da doença e o risco é significativamente maior em pacientes imunodeprimidos (ex: HIV/AIDS, transplantados, uso de imunossupressores).

🚨 Emergência: A forma disseminada é grave, especialmente em imunodeprimidos, podendo causar pancitopenia, encefalite e lesões destrutivas em órgãos.

Diagnóstico

Assim como na paracoccidioidomicose, o diagnóstico da histoplasmose requer a identificação do fungo ou de seus componentes ("tem que procurar o bicho!").

🧪 Exame Rápido: Para agilizar o diagnóstico, especialmente em casos disseminados, a pesquisa de antígeno no sangue ou urina é uma ferramenta valiosa, pois a cultura pode demorar.

Tratamento

O tratamento da histoplasmose varia conforme a forma clínica e a gravidade da doença.

Forma Clínica Tratamento Inicial Duração/Observações
Aguda Leve Autolimitada Se não houver melhora em 1 mês, considerar Itraconazol por 6-12 semanas.
Crônica Pulmonar Itraconazol 12 meses. Opções alternativas: posaconazol, voriconazol, fluconazol.
Disseminada (não grave) Itraconazol 12 meses. Opções alternativas: posaconazol, voriconazol, fluconazol.
Disseminada Grave Anfotericina B 2 semanas, seguido por Itraconazol para completar o tratamento.
💊 Tratamento: Itraconazol é a base do tratamento para formas crônicas e disseminadas não graves. Anfotericina B é reservada para casos graves.

Aspergilose Pulmonar

Introdução à Aspergilose

Definição e Transmissão

A aspergilose é uma infecção fúngica causada predominantemente pelo fungo filamentoso do gênero Aspergillus, sendo o Aspergillus fumigatus responsável por aproximadamente 90% dos casos. A transmissão ocorre principalmente pela via inalatória, através da inalação de esporos fúngicos presentes no ambiente.

Fatores de Risco

Embora a aspergilose possa acometer indivíduos imunocompetentes, ela está fortemente associada a condições de imunossupressão. Os principais fatores de risco incluem:

🧠 Lembre-se: Embora a imunossupressão seja um fator de risco crucial, a aspergilose *não* se restringe a pacientes imunocomprometidos, podendo ocorrer também em indivíduos imunocompetentes, dependendo da forma clínica.

Classificação das Formas Clínicas

A aspergilose manifesta-se em diversas formas clínicas, cada uma com características patogênicas, fatores de risco e abordagens terapêuticas distintas. As principais são:

Forma Clínica Principal Fator Predisponente Característica Essencial
Aspergilose Broncopulmonar Alérgica (ABPA) Asma ou Fibrose Cística Reação de hipersensibilidade ao fungo
Aspergilose Pulmonar Crônica (APC) Doença pulmonar prévia (ex: tuberculose) Colonização e dano pulmonar progressivo
Aspergilose Invasiva (AI) Imunossupressão grave Invasão tecidual e disseminação

Aspergilose Broncopulmonar Alérgica (ABPA)

Conceitos Chave

A ABPA é uma condição de hipersensibilidade pulmonar induzida pela colonização do trato respiratório por Aspergillus, mais comumente em pacientes com asma ou fibrose cística. Não se trata de uma infecção invasiva, mas sim de uma resposta imune exagerada ao fungo.

Manifestações Clínicas

Os pacientes tipicamente apresentam uma exacerbação grave e recorrente da sua doença pulmonar de base (asma ou fibrose cística), com piora da dispneia, tosse produtiva e sibilância.

Achados Laboratoriais

O diagnóstico laboratorial é fundamental e inclui:

⚠️ Atenção: A pesquisa de galactomanana sérica *não* é útil para o diagnóstico de ABPA, sendo relevante apenas para a forma invasiva da doença.

Tratamento

O manejo da ABPA visa controlar a resposta inflamatória e reduzir a carga fúngica:

Aspergilose Pulmonar Crônica (APC)

Conceitos e Fatores de Risco

A APC é uma condição que se desenvolve em pacientes com doença pulmonar estrutural pré-existente, que serve como um nicho para a colonização e crescimento do Aspergillus. O principal fator de risco é a presença de lesão ou doença pulmonar prévia, sendo a tuberculose pulmonar uma causa comum, mas outras condições como enfisema, bronquiectasias ou bolhas também podem predispor.

Formas Clínicas

A APC pode se apresentar de diferentes maneiras:

Quadro Clínico

Muitos pacientes podem ser assintomáticos por longos períodos. Quando presentes, os sintomas são inespecíficos e incluem:

Diagnóstico

O diagnóstico da APC requer uma combinação de achados:

Tratamento

O tratamento varia conforme a forma clínica:

Aspergiloma
Aspergilose Pulmonar Cavitária Crônica

Aspergilose Invasiva (AI)

Conceitos e Fatores de Risco

A AI é uma infecção grave e potencialmente fatal que ocorre quase exclusivamente em pacientes com imunossupressão profunda.

Formas Clínicas e Acometimento

A AI pode afetar múltiplos órgãos, mas o pulmão é o sítio mais comum:

🚨 Alerta: O acometimento pulmonar está presente em aproximadamente 90% dos casos de aspergilose invasiva. Diferente do aspergiloma, na forma invasiva, a bola fúngica é cercada por uma intensa reação inflamatória e necrose tecidual, refletindo a invasão ativa do fungo.

Manifestações Clínicas

A tríade clássica de sintomas, embora nem sempre presente, é um forte indicativo em pacientes de risco:

Outros sintomas podem incluir tosse, dispneia e sinais de acometimento de outros órgãos em casos de disseminação.

Diagnóstico

O diagnóstico da AI é desafiador e exige uma alta suspeição clínica em pacientes de risco:

Tratamento

O tratamento da AI é uma emergência médica e deve ser iniciado prontamente:

Síntese Didática: Entendendo as Formas de Aspergilose

Para facilitar a memorização das principais diferenças entre as formas de aspergilose, podemos usar a seguinte analogia: