Sarcoidose
Conceitos Iniciais
A sarcoidose é uma doença inflamatória sistêmica crônica, de etiologia multifatorial, caracterizada pela formação de granulomas não caseosos em diversos órgãos e tecidos do corpo. Embora possa afetar qualquer órgão, os pulmões e o sistema linfático são os mais frequentemente envolvidos.
🧠 Epidemiologia e Etiologia: Predomina em mulheres negras entre 20 e 40 anos. Sua etiologia é complexa, envolvendo uma predisposição genética com influência de fatores ambientais que desencadeiam uma resposta imune exagerada.
Quadro Clínico
As manifestações clínicas da sarcoidose são extremamente variadas, dependendo dos órgãos acometidos e da cronicidade da doença. Pode apresentar-se de forma aguda, com sintomas súbitos e autolimitados, ou crônica, com progressão insidiosa e potencial para disfunção orgânica.
Forma Aguda
A apresentação aguda da sarcoidose é frequentemente autolimitada e tem um prognóstico geralmente favorável.
Síndrome de Löfgren
Esta síndrome é uma apresentação clássica da sarcoidose aguda, caracterizada por uma tríade de achados. Seu diagnóstico é clínico e não requer biópsia.
- Adenopatia Hilar Bilateral: Aumento dos linfonodos hilares em ambos os pulmões, visível em exames de imagem.
- Eritema Nodoso: Lesões cutâneas dolorosas, avermelhadas e elevadas, tipicamente localizadas na região anterior das pernas.
- Artrite ou Artralgia Migratória: Dor e inflamação nas articulações, que podem mudar de localização.
- Sintomas Constitucionais: Frequentemente acompanhada de febre.
🔎 Síndrome de Löfgren: Lembre-se da tríade adenopatia hilar bilateral + eritema nodoso + artrite/artralgia (com ou sem febre). É uma forma aguda com bom prognóstico!
Síndrome de Heerfordt-Waldenström (Febre Uveoparotídea)
Outra forma de apresentação aguda, embora menos comum que a Síndrome de Löfgren.
- Uveíte Anterior: Inflamação da úvea anterior do olho.
- Paralisia Facial: Geralmente unilateral, devido ao acometimento do nervo facial.
- Aumento das Glândulas Parótidas: Parotidite, que pode ser uni ou bilateral.
Forma Crônica
A sarcoidose crônica pode ser progressiva e levar a danos orgânicos irreversíveis. Os sintomas são mais insidiosos e persistentes.
Acometimento Pulmonar
É a manifestação mais comum e, frequentemente, a mais grave, presente em cerca de 90% dos pacientes. Pode levar a dispneia, tosse seca e desconforto torácico. Apresenta-se de três maneiras principais:
- Crônica (65% dos casos): Caracterizada por adenopatia hilar e pneumopatia intersticial, predominantemente em lobos superiores. Causa distúrbio ventilatório restritivo, tosse seca, dispneia e desconforto torácico, além de sintomas constitucionais como febre, fadiga e perda de peso. Pode evoluir para fibrose.
- Aguda (5% dos casos): Apresenta-se como a Síndrome de Löfgren.
- Assintomática (30% dos casos): Detectada incidentalmente em exames de imagem, como radiografias de tórax.
⚠️ Pulmão: É o órgão mais afetado e a principal causa de morbidade. Fique atento à pneumopatia intersticial e adenopatia hilar!
Acometimento Cutâneo
É a segunda forma mais comum de manifestação, ocorrendo em cerca de 25-30% dos pacientes. As lesões podem ser variadas:
- Eritema Nodoso: Erupções cutâneas dolorosas e com coceira na parte inferior das pernas (mais comum na forma aguda).
- Erupções Maculopapulosas: Lesões avermelhadas e elevadas, mais comuns na face, mas também encontradas nas costas, braços, pescoço e couro cabeludo.
- Lúpus Pérnio: Lesões violáceas, infiltrativas e desfigurantes, que afetam principalmente o nariz, bochechas e orelhas. Indica doença crônica e grave.
- Nódulos Subcutâneos: Pequenas massas sob a pele.
Acometimento Ocular
É a terceira forma mais comum, afetando cerca de 20-25% dos pacientes. A uveíte anterior é a manifestação mais frequente, podendo causar olhos secos, visão turva, dor e fotofobia. Outras formas incluem uveíte posterior e panuveíte, que podem levar à perda visual se não tratadas.
Outros Acometimentos Orgânicos
Estadiamento Radiológico Pulmonar (Classificação de Scadding)
Esta classificação é utilizada para avaliar a extensão do acometimento pulmonar na radiografia de tórax, auxiliando no prognóstico e manejo da doença.
- Estágio 0: Radiografia de tórax normal, sem evidência de doença pulmonar ou linfonodal.
- Estágio 1: Presença de adenopatia hilar bilateral isolada, sem infiltrado parenquimatoso.
- Estágio 2: Adenopatia hilar bilateral associada a infiltrado parenquimatoso pulmonar.
- Estágio 3: Doença parenquimatosa pulmonar difusa sem adenopatia hilar.
- Estágio 4: Fibrose pulmonar estabelecida, com distorção da arquitetura pulmonar e formação de cistos ou bronquiectasias.
Diagnóstico
O diagnóstico da sarcoidose é de exclusão e baseia-se em um tripé fundamental.
🔎 Tripé Diagnóstico:
- Clínica compatível com envolvimento multissistêmico.
- Evidência radiológica (RX/TC de tórax com adenopatia hilar e/ou infiltrado parenquimatoso).
- Biópsia de tecido afetado demonstrando granuloma não caseoso estéril (excluindo outras causas de granulomas).
Biópsia
A biópsia é crucial para confirmar a presença de granulomas não caseosos e excluir outras condições granulomatosas (como tuberculose, infecções fúngicas, beriliose, etc.).
- Qual órgão biopsiar? Deve-se priorizar o órgão de mais fácil acesso que apresente acometimento (ex: pele, linfonodo periférico).
- Se indisponível: O pulmão é uma opção comum, geralmente por broncoscopia com biópsia transbrônquica.
- Exceção: A biópsia não é necessária para o diagnóstico da Síndrome de Löfgren, que é diagnosticada clinicamente.
Exames Laboratoriais Complementares
Embora não sejam diagnósticos por si só, alguns exames laboratoriais podem apoiar a suspeita de sarcoidose e monitorar a atividade da doença.
- Líquido de Lavado Broncoalveolar (LBA): Uma relação CD4/CD8 > 4 é sugestiva de sarcoidose pulmonar, mas não é patognomônica.
- Enzima Conversora da Angiotensina (ECA): Níveis séricos aumentados são encontrados em cerca de 60-80% dos pacientes com sarcoidose ativa, mas não são específicos e podem estar elevados em outras condições.
- Metabolismo do Cálcio: Hipercalcemia e hipercalciúria são achados importantes, resultantes da produção excessiva de 1,25-di-hidroxivitamina D pelos macrófagos nos granulomas.
- Hemograma: Pode haver linfopenia (redução de linfócitos).
- Outros: Hiperglobulinemia (aumento das globulinas séricas) também pode ser observada.
Tratamento
O tratamento da sarcoidose é individualizado e depende da gravidade dos sintomas, dos órgãos envolvidos e do risco de disfunção orgânica. Muitos casos, especialmente as formas agudas e assintomáticas, podem regredir espontaneamente e não necessitam de tratamento farmacológico imediato.
Indicações de Tratamento
O tratamento é reservado para pacientes sintomáticos ou com acometimento de órgãos vitais que ameacem a função ou a vida. A decisão de tratar deve considerar o risco-benefício dos medicamentos.
| Situação Clínica |
Indicação de Tratamento |
| Acometimento Ocular |
Uveíte (anterior, posterior, panuveíte) com risco de perda visual. |
| Acometimento Neurológico |
Meningite, paralisia facial, neuropatias, lesões parenquimatosas (neurossarcoidose). |
| Acometimento Cardíaco |
Bloqueios atrioventriculares, arritmias, insuficiência cardíaca. |
| Acometimento Renal |
Hipercalcemia persistente, nefrocalcinose, insuficiência renal. |
| Acometimento Pulmonar |
Doença progressiva (estágios 2-4) com sintomas (dispneia, tosse) ou disfunção pulmonar significativa. |
| Acometimento Cutâneo |
Lúpus pérnio, lesões desfigurantes ou ulcerativas. |
| Hipercalcemia |
Sintomática ou persistente, mesmo sem acometimento renal grave. |
| Sintomas Constitucionais |
Febre persistente, fadiga debilitante, perda de peso significativa que afetem a qualidade de vida. |
Terapia de Primeira Linha
💊 Padrão-ouro: Os corticosteroides orais são a droga de escolha para o tratamento da sarcoidose ativa. A Prednisona (geralmente 20-40 mg/dia) é o medicamento padrão. O tratamento inicial dura tipicamente 4-6 semanas, seguido de reavaliação e desmame gradual da dose conforme a resposta clínica e a tolerância do paciente.
Casos Refratários ou Intolerância a Corticoides
Para pacientes que não respondem adequadamente aos corticosteroides, que desenvolvem efeitos adversos intoleráveis ou que necessitam de doses elevadas por tempo prolongado, outras opções terapêuticas são consideradas:
- Imunossupressores: Metotrexato e Azatioprina são as drogas mais frequentemente utilizadas como poupadores de corticoide ou em casos refratários.
- Agentes Biológicos: Inibidores de TNF-alfa (ex: infliximabe, adalimumabe) podem ser considerados em casos muito selecionados e refratários, especialmente na neurossarcoidose ou sarcoidose cardíaca.
Pacientes Oligossintomáticos ou Assintomáticos
💡 Conduta: Pacientes com doença oligossintomática (poucos sintomas) ou assintomática, especialmente aqueles com doença pulmonar estágio 1, geralmente requerem apenas acompanhamento clínico regular. Muitos desses casos podem regredir espontaneamente sem a necessidade de tratamento farmacológico.