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Tuberculose

A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa crônica, de grande relevância global, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, também conhecido como Bacilo de Koch (BK).


Conceitos Iniciais e Etiologia

Etiologia e Epidemiologia

O agente etiológico da tuberculose é o Mycobacterium tuberculosis, um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR). A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente um quarto da população mundial esteja infectada pelo bacilo, o que ressalta a magnitude do problema de saúde pública.

A transmissão ocorre principalmente pela via respiratória, através de gotículas eliminadas por pacientes com a forma pulmonar da doença, especialmente os bacilíferos. É uma doença com prevalência em ambientes urbanos, onde a aglomeração de pessoas facilita a propagação. O Mycobacterium tuberculosis é caracterizado por sua alta infectividade (capacidade de infectar muitas pessoas) e baixa patogenicidade (poucos dos infectados desenvolvem a doença).

🧠 Lembre-se: Estar infectado pelo bacilo é diferente de estar doente com tuberculose. Apenas o paciente bacilífero (com a doença ativa e eliminando bacilos) transmite a infecção.

Um paciente bacilífero pode infectar, em média, de 10 a 15 pessoas ao longo de um ano. A doença mantém um perfil predominantemente urbano, afetando mais as periferias de grandes cidades e regiões subdesenvolvidas, onde as condições de moradia e saneamento favorecem a aglomeração e a transmissão.

Diagnóstico da Infecção Latente: Teste Tuberculínico (PPD)

Diferentemente da maioria das infecções, onde a imunidade humoral (produção de anticorpos) se estabelece rapidamente, a tuberculose depende fundamentalmente da imunidade celular. Esta, por sua vez, leva um tempo consideravelmente maior para se desenvolver, variando de 3 a 8 semanas após o primeiro contato com o bacilo. Uma vez estabelecida, a imunidade celular gera uma memória imunológica duradoura.

Para detectar se um indivíduo foi infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, utiliza-se o Teste Tuberculínico, mais conhecido como PPD (Purified Protein Derivative). Neste teste, antígenos bacilares são injetados intradermicamente. A presença de uma reação de hipersensibilidade tardia, caracterizada por uma lesão endurada de base eritematosa com diâmetro maior que 5mm, lida entre 24 e 48 horas após a aplicação, indica que houve infecção prévia e que o sistema imune desenvolveu memória contra o bacilo. Um PPD menor que 5mm geralmente indica ausência de infecção.

🧪 High Yield Note: O PPD avalia a resposta imune celular à infecção pelo Mycobacterium tuberculosis. Um resultado reator (≥ 5mm) significa que o indivíduo foi infectado em algum momento da vida, não necessariamente que está com a doença ativa.

Fisiopatologia da Primoinfecção

Primeiro Contato com o Bacilo

A primoinfecção refere-se ao primeiro contato do organismo com o Mycobacterium tuberculosis. Após a inalação, o bacilo atinge os alvéolos pulmonares, onde é fagocitado pelos macrófagos alveolares. Contudo, esses macrófagos são inicialmente incapazes de destruir o bacilo, que encontra um ambiente propício para sua proliferação intracelular. Com a ruptura dos macrófagos, novos bacilos são liberados, infectando outros macrófagos e perpetuando o ciclo.

Nesta fase inicial, sem uma defesa imunológica específica pronta, ocorre a disseminação linfo-hematogênica. Os bacilos podem seguir dois caminhos:

⚠️ Atenção: A vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guérin) não impede a infecção pelo Mycobacterium tuberculosis nem o desenvolvimento da doença em si. Sua principal função é proteger contra as formas graves e disseminadas da tuberculose, como a tuberculose miliar e a meningite tuberculosa, especialmente em crianças.

Desenvolvimento da Imunidade Celular e Formação do Granuloma

A disseminação bacilar ocorre até que o sistema imune desenvolva uma resposta específica, que leva de 3 a 8 semanas. Esta resposta é mediada pela imunidade celular, envolvendo linfócitos T que secretam citocinas (como o IFN-gama) e ativam macrófagos. Estes macrófagos ativados se unem, formando células multinucleadas gigantes (células de Langerhans), que, juntamente com linfócitos e outras células inflamatórias, cercam o bacilo.

Nesse processo de contenção, forma-se uma estrutura característica da tuberculose: o granuloma. No centro do granuloma, devido à intensa atividade inflamatória e à tentativa de destruir o bacilo, surge uma área de necrose tecidual com aspecto esbranquiçado e consistência de queijo, conhecida como necrose caseosa.

🔬 Conceito Chave: O granuloma caseoso é a marca histopatológica da tuberculose. Ele representa a forma como o organismo tenta conter a infecção, mantendo o bacilo em um estado latente, em um ambiente inóspito (pH ácido, baixa oxigenação). Para fins de prova, é frequentemente considerado patognomônico.

Controle da Infecção e Nódulo de Ghon

É crucial entender que o organismo humano é incapaz de eliminar completamente o bacilo. A imunidade celular consegue apenas controlar a infecção, mantendo o bacilo em um estado de latência dentro dos granulomas caseosos. Esses granulomas podem se formar em qualquer parte do corpo para onde o bacilo se disseminou inicialmente, mas são mais numerosos e evidentes nos pulmões, por ser a porta de entrada e o local de maior carga bacilar.

Com o passar dos anos, os granulomas pulmonares podem sofrer calcificação. Quando um granuloma calcificado atinge um tamanho maior (por exemplo, > 6-8mm), ele pode ser visível em radiografias de tórax como uma opacidade lobular, sendo denominado Nódulo de Ghon. Este nódulo é um sinal de que o indivíduo teve uma boa resposta imune e conseguiu controlar a infecção. A associação do Nódulo de Ghon com linfadenopatia hilar adjacente calcificada é conhecida como Complexo de Ranke.

Evolução Pós-Primoinfecção

A evolução da primoinfecção depende da eficácia da resposta imune celular:


Formas Clínicas da Tuberculose

Tuberculose Pulmonar Primária

A tuberculose pulmonar primária ocorre quando o indivíduo desenvolve a doença ativa logo após o primeiro contato com o bacilo, devido a uma resposta imune celular insuficiente. É mais comum em crianças pequenas (geralmente menores de 4 anos), mas pode ocorrer em adultos imunocomprometidos.

🔎 Diagnóstico Diferencial: A TB pulmonar primária pode ser confundida com pneumonias atípicas, pois seus sintomas são menos exuberantes e a resposta aos antibióticos convencionais é ausente. A suspeita deve surgir em casos de pneumonia arrastada em crianças ou imunocomprometidos.

Tuberculose Miliar

A tuberculose miliar é uma forma grave e disseminada da doença, considerada uma complicação da tuberculose pulmonar primária. Ela indica um comprometimento imune grave do paciente, onde o bacilo se replica sem controle e se espalha amplamente pelo corpo via hematogênica, assemelhando-se a um quadro de sepse.

🚨 Emergência: A tuberculose miliar é uma emergência médica e requer tratamento imediato. A vacina BCG é crucial na prevenção desta forma grave e da meningite tuberculosa.

Tuberculose Pulmonar Pós-Primária (Reativação/Reinfecção)

Esta é a forma mais comum de tuberculose em adultos e adolescentes. Ocorre anos ou décadas após a primoinfecção, quando bacilos latentes (contidos nos granulomas) são reativados devido a uma queda na imunidade do hospedeiro, ou, menos frequentemente, por uma nova infecção (reinfecção).

Fatores que podem levar à reativação incluem: imunodepressão (ex: HIV/AIDS, diabetes, neoplasias), uso de corticoterapia ou outros imunossupressores, estresse físico ou emocional, alcoolismo, desnutrição, entre outros.

💡 Dica de Prova: Na reativação, a resposta imunológica é imediata, pois já existe memória imunológica. No entanto, essa resposta exacerbada pode causar maior dano tecidual, levando à formação de cavernas.

Diferentemente da TB primária, a TB pós-primária é um processo mais localizado, e a presença de adenopatia associada não é comum. A lesão característica é de erosão ou escavação, resultado da agressão imunológica ao bacilo no local do granuloma reativado.

⚠️ Atenção: A ausência de adenopatia associada é um ponto importante para diferenciar a TB pós-primária da TB primária, onde a disseminação linfática é uma característica marcante.
Característica Tuberculose Primária Tuberculose Pós-Primária
Paciente Típico Crianças pequenas (< 4 anos) Adultos e adolescentes
Momento da Doença Logo após o primeiro contato Anos após o primeiro contato (reativação/reinfecção)
Imunidade Inadequada/deficiente no primeiro contato Queda da imunidade pré-existente
Quadro Clínico Pneumonia arrastada, síndrome gripal Tosse crônica, febre vespertina, sudorese noturna, perda ponderal
Radiologia Adenomegalia hilar, infiltrado alveolar (Complexo de Ranke) Cavitações, infiltrados em ápices e segmentos superiores
Transmissão Paucibacilar (não transmite) Bacilífera (transmite)
Adenopatia Associada Comum Não comum

Diagnóstico da Tuberculose

O diagnóstico da tuberculose (TB) é um processo complexo que, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde (MS), pode ser estabelecido pela presença de pelo menos dois dos três critérios principais: clínica sugestiva, achados radiológicos compatíveis e confirmação laboratorial por escarro. É importante ressaltar que, em algumas situações, o diagnóstico pode ser fechado sem a necessidade de confirmação laboratorial.

💡 Lembre-se: O diagnóstico da TB pode ser estabelecido com 2 dos 3 critérios: (1) clínica, (2) raio-X e (3) escarro. Em casos específicos, o critério clínico-epidemiológico pode ser suficiente!

Critério Clínico-Epidemiológico

Este critério permite o diagnóstico da tuberculose sem a necessidade de confirmação laboratorial, especialmente quando há forte suspeita clínica e radiológica. É fundamental para iniciar o tratamento precocemente e evitar a progressão da doença.

Manifestações Clínicas e Radiológicas

💊 Atenção: Se a clínica e o raio-X forem positivos e altamente sugestivos de TB, o Ministério da Saúde autoriza o início do tratamento mesmo sem a confirmação laboratorial imediata, visando a agilidade terapêutica.

Critério Laboratorial (Microbiológico do Escarro)

A confirmação laboratorial é crucial para identificar o Mycobacterium tuberculosis e avaliar a sensibilidade aos fármacos. Existem diferentes métodos, cada um com suas particularidades e tempos de resposta.

Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB)

O TRM-TB representa um avanço significativo no diagnóstico da TB, sendo atualmente o teste de escolha devido à sua rapidez e alta acurácia.

🔎 High Yield: O TRM-TB é o teste de escolha e é o único que avalia a resistência à rifampicina já no diagnóstico inicial, impactando diretamente a escolha do esquema terapêutico.

Baciloscopia do Escarro (BAAR)

A baciloscopia, que detecta bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR), é um método tradicional e amplamente disponível. Requer a coleta de, no mínimo, duas amostras de escarro em momentos distintos do dia (geralmente uma no momento da consulta e outra na manhã seguinte). O resultado costuma ficar pronto em 24 a 48 horas.

Cultura do Escarro

A cultura do escarro é considerada o padrão ouro para o diagnóstico laboratorial da TB, pois permite a identificação definitiva do bacilo e a realização de testes de sensibilidade a todas as drogas. No entanto, seu principal inconveniente é o tempo prolongado para obtenção do resultado, que pode variar de 20 a 30 dias. É indicada principalmente para:

Método Diagnóstico Vantagens Desvantagens Indicações Principais
TRM-TB Alta acurácia, rápido (2h), detecta resistência à rifampicina. Custo mais elevado, nem sempre disponível em todos os serviços. Diagnóstico inicial, suspeita de resistência.
Baciloscopia (BAAR) Rápido (24-48h), baixo custo, amplamente disponível. Menor sensibilidade, não detecta resistência. Triagem, monitoramento de tratamento.
Cultura Padrão ouro, identifica espécie, testa sensibilidade a todas as drogas. Demorado (20-30 dias). Casos duvidosos, falência terapêutica, resistência, populações vulneráveis.

Diagnóstico em Crianças (Menores de 10 anos)

O diagnóstico da TB em crianças é particularmente desafiador, pois elas frequentemente apresentam formas paucibacilíferas (com baixa carga de bacilos) e têm dificuldade em expectorar escarro. Por isso, métodos adaptados são necessários.

Critério Microbiológico Auxiliar

Em crianças, especialmente as internadas, a cultura do lavado gástrico pode ser utilizada como método auxiliar. Isso ocorre porque crianças pequenas, ao tossir, tendem a deglutir o bacilo, que se acumula no estômago. A coleta do lavado gástrico permite a obtenção de material para cultura, aumentando as chances de isolamento do Mycobacterium tuberculosis.

Critério por Sistema de Pontuação

Para crianças, o Ministério da Saúde preconiza um sistema de pontuação que considera diversos fatores clínicos, epidemiológicos e radiológicos para auxiliar no diagnóstico, especialmente quando a confirmação laboratorial é difícil.

🧠 Interpretação da Pontuação:

Formas Extrapulmonares da Tuberculose

A tuberculose pode afetar diversos órgãos além dos pulmões, resultando em manifestações clínicas variadas. É crucial reconhecer essas formas, pois o diagnóstico pode ser mais complexo e as sequelas, mais graves.

⚠️ Conceito Chave: Nenhuma das formas extrapulmonares da tuberculose é considerada bacilífera, ou seja, o paciente não transmite a doença por essas vias.

Tuberculose Pleural

A tuberculose pleural é a forma extrapulmonar mais comum no Brasil em adultos imunocompetentes. No entanto, em pacientes HIV-positivos ou crianças, a forma extrapulmonar mais prevalente é a tuberculose ganglionar.

Geralmente afeta adultos jovens e se manifesta com febre, emagrecimento e dor torácica pleurítica, que piora com a respiração profunda.

Características do Líquido Pleural

A análise do líquido pleural é fundamental para o diagnóstico da TB pleural, apresentando um perfil exsudativo característico:

A presença de características do líquido pleural altamente sugestivas de TB, como um exsudato linfomonocitário com ADA elevado e ausência de eosinófilos/células mesoteliais, pode autorizar o início do tratamento sem a necessidade de biópsia, agilizando a conduta.

Diagnóstico da Tuberculose Pleural

A confirmação bacteriológica da TB pleural é frequentemente difícil devido à baixa carga bacilar no líquido pleural.

Devido à baixa sensibilidade dos métodos bacteriológicos diretos no líquido pleural, a dosagem de ADA e a biópsia pleural são ferramentas diagnósticas cruciais. Se a clínica for compatível e o ADA estiver significativamente elevado, o tratamento pode ser iniciado empiricamente.

Método Diagnóstico Sensibilidade/Positividade Comentários
Baciloscopia do Líquido Pleural < 5% Baixa carga bacilar, raramente positiva.
Cultura do Líquido Pleural < 40% Melhor que baciloscopia, mas ainda limitada.
ADA no Líquido Pleural (> 40 U/L) Alta sensibilidade e especificidade Extremamente sugestivo, pode guiar início do tratamento.
Biópsia Pleural Até 90% Padrão ouro, identifica granulomas e permite cultura tecidual.

Tuberculose Meníngea

A tuberculose meníngea é uma forma grave da doença, mais comum em crianças não vacinadas e imunodeprimidos. É a forma de TB que mais deixa sequelas neurológicas, sendo uma emergência médica.

Características Clínicas e do LCR

Diferente de outras meningites bacterianas agudas, a TB meníngea apresenta um curso mais arrastado e insidioso:

A natureza subaguda da doença e a resposta imune deficiente podem levar a lesões nos pares cranianos e à hidrocefalia, que contribuem para as sequelas neurológicas.

Diagnóstico da Tuberculose Meníngea

O diagnóstico da TB meníngea também é desafiador, mas a cultura do LCR tem uma positividade relativamente boa.

Método Diagnóstico Sensibilidade/Positividade Comentários
Baciloscopia do LCR ~15% Baixa sensibilidade, não exclui o diagnóstico.
Cultura do LCR ~80% Principal método de confirmação, porém demorado.
TRM-TB no LCR 30-80% Mais rápido que a cultura, útil para início precoce do tratamento.

Tratamento

Resumo dos Esquemas Terapêuticos

O tratamento da tuberculose (TB) é complexo e exige adesão rigorosa para garantir a cura e prevenir o desenvolvimento de resistência. Os esquemas terapêuticos são padronizados e adaptados conforme a forma da doença e a idade do paciente.

🧠 Conceito Chave: A rifampicina e a isoniazida são as drogas mais potentes e essenciais no tratamento da TB, sendo a rifampicina a mais importante. A ausência ou resistência a ela prolonga significativamente o tratamento.

Esquema Básico: RIPE 6 Meses

Este é o esquema padrão para a maioria dos casos de tuberculose, consistindo em uma fase intensiva e uma fase de manutenção. A combinação de fármacos em dose fixa combinada (DFC) visa otimizar a adesão e reduzir a seleção de resistência.

Para pacientes entre 3 meses e 16 anos com formas não graves da doença, uma nova nota técnica (Abril/2024) permite um esquema de 2 meses de RIPE seguido por 2 meses de RI.

Indicações

⚠️ Atenção Pediátrica: Em crianças com menos de 10 anos, o etambutol deve ser evitado devido ao elevado risco de neurite óptica, que pode manifestar-se como "visão turva".

O tempo total de tratamento na fase de manutenção pode ser estendido por mais 3 meses em situações específicas, como evolução clínica desfavorável, pacientes imunossuprimidos ou conforme orientação de especialistas em casos de TB extrapulmonar complexa.

É crucial solicitar cultura e Teste de Sensibilidade aos Antimicrobianos (TSA) para todos os casos de retratamento ou quando a baciloscopia permanece positiva ao final do segundo mês de tratamento, a fim de identificar possíveis resistências.

Esquema Faixa de Peso Unidade/Dose Duração
RHZE 150/75/400/275mg (comprimido em dose fixa combinada) 20kg a 35kg 2 comprimidos 2 meses (fase intensiva)
36kg a 50kg 3 comprimidos
51kg a 70kg 4 comprimidos
Acima de 70kg 5 comprimidos
RH 300/150mg ou 150/75mg (comprimido em dose fixa combinada) 20kg a 35kg 1 comprimido de 300/150mg ou 2 comprimidos de 150/75mg 4 meses (fase de manutenção)
36kg a 50kg 1 comprimido de 300/150mg + 1 comprimido de 150/75mg ou 3 comprimidos de 150/75mg
51kg a 70kg 2 comprimidos de 300/150mg ou 4 comprimidos de 150/75mg
Acima de 70kg 2 comprimidos de 300/150mg + 1 comprimido de 150/75mg ou 5 comprimidos de 150/75mg

Tuberculose Meníngea e Osteoarticular

Para formas mais graves e com potencial de sequelas significativas, como a tuberculose meníngea e osteoarticular, o esquema terapêutico é prolongado para 12 meses, mantendo a mesma combinação de fármacos.

Manejo da Tuberculose Meníngea

💊 Tratamento Adjuvante: Na tuberculose meníngea, a administração de corticosteroides é mandatório nos primeiros 1 a 3 meses de tratamento. Isso visa reduzir a inflamação e, consequentemente, o risco de complicações neurológicas graves e sequelas. As opções incluem prednisona (1-2 mg/kg/dia por 4 semanas) ou dexametasona (0,3-0,4 mg/kg/dia IV em casos graves, por 4-8 semanas, com desmame gradual).

A internação hospitalar é obrigatória para pacientes com tuberculose meníngea, permitindo um monitoramento rigoroso e manejo adequado das possíveis complicações.

Manejo da Tuberculose Osteoarticular

A tuberculose osteoarticular segue o mesmo esquema medicamentoso prolongado (RIPE por 12 meses), porém, diferentemente da forma meníngea, não há indicação para o uso de corticosteroides adjuvantes.

Esquema Faixa de Peso Unidade/Dose Duração
RHZE 150/75/400/275 mg (comprimido em dose fixa combinada) 20 kg a 35 kg 2 comprimidos 2 meses (fase intensiva)
36 kg a 50 kg 3 comprimidos
51 kg a 70 kg 4 comprimidos
Acima de 70 kg 5 comprimidos
RH 300/150 mg ou 150/75 mg (comprimido em dose fixa combinada) 20 a 35 kg 1 comprimido de 300/150 mg ou 2 comprimidos de 150/75 mg 10 meses (fase de manutenção)
36 kg a 50 kg 1 comprimido de 300/150 mg + 1 comprimido de 150/75 mg ou 3 comprimidos de 150/75 mg
51 kg a 70 kg 2 comprimidos de 300/150 mg ou 4 comprimidos de 150/75 mg
Acima de 70 kg 2 comprimidos de 300/150 mg + 1 comprimido de 150/75 mg ou 5 comprimidos de 150/75 mg

Efeitos Adversos dos Fármacos Antituberculose

Efeitos Adversos Gerais e Hepatotoxicidade

A maioria dos fármacos antituberculose pode causar intolerância gastrointestinal (náuseas, vômitos, epigastralgia), que geralmente é leve e pode ser manejada com ajustes no horário da medicação ou sintomáticos.

Um dos efeitos adversos mais sérios e comuns é a hepatotoxicidade, especialmente associada à rifampicina (R), isoniazida (I) e pirazinamida (P). A pirazinamida é considerada a mais hepatotóxica, seguida pela isoniazida, enquanto a rifampicina é a menos proeminente nesse aspecto.

Manejo da Hepatotoxicidade

🚨 Alerta de Hepatotoxicidade: O tratamento com RIPE deve ser interrompido imediatamente por 30 dias se o paciente apresentar icterícia, ou se as transaminases (AST/ALT) estiverem 3 vezes acima do limite superior da normalidade (LSN) com sintomas, ou 5 vezes acima do LSN, mesmo sem sintomas.

Efeitos Adversos Específicos por Fármaco

Rifampicina (R)

Isoniazida (I)

💊 Prevenção: Para prevenir a neuropatia periférica induzida pela isoniazida, a suplementação de piridoxina (vitamina B6) na dose de 50mg/dia é a conduta recomendada.

Pirazinamida (P)

Etambutol (E)

Estreptomicina (S) - Aminoglicosídeo

Etionamida

Reações Adversas Menores e Condutas

Efeitos Adversos Medicamentos Envolvidos Condutas
Intolerância digestiva (náusea, vômito, epigastralgia) Etambutol, Isoniazida, Pirazinamida, Rifampicina Reformular o horário da administração (duas horas após o café da manhã). Considerar medicação sintomática. Avaliar função hepática.
Suor/urina de cor avermelhada Rifampicina Orientar o paciente sobre a benignidade do sintoma.
Prurido e exantema leve Isoniazida, Rifampicina Medicar com anti-histamínico.
Dor articular Isoniazida, Pirazinamida Medicar com analgésicos ou anti-inflamatórios não hormonais.
Neuropatia periférica Isoniazida (comum), Etambutol (incomum) Medicar com piridoxina (vitamina B6) 50mg/dia e avaliar evolução.
Hiperuricemia (com ou sem sintomas) Etambutol, Pirazinamida Orientar dieta hipopurínica e medicar com alopurinol ou colchicina, se necessário.
Cefaleia e mudança de comportamento (euforia, insônia, depressão leve, ansiedade, sonolência) Isoniazida Orientar o paciente.
Febre Isoniazida, Rifampicina Orientar e medicar com antitérmico.

Reações Adversas Maiores e Condutas

Efeitos Adversos Medicamentos Envolvidos Condutas
Exantema ou hipersensibilidade de moderada a grave Etambutol, Isoniazida, Rifampicina Suspender o tratamento. Encaminhar para referência de TB. Testar droga a droga em casos leves. Substituir por esquema especial em casos graves.
Psicose, crise convulsiva, encefalopatia tóxica ou coma Isoniazida Suspender a isoniazida. Encaminhar à referência de TB para avaliar esquema especial.
Neurite óptica Etambutol Suspender o etambutol. Encaminhar à referência de TB para avaliar esquema especial.
Hepatotoxicidade (icterícia, AST/ALT > 3x LSN com sintomas ou > 5x LSN) Isoniazida, Pirazinamida, Rifampicina Suspender o tratamento. Encaminhar à referência de TB.
Trombocitopenia, leucopenia, eosinofilia, anemia hemolítica, agranulocitose, vasculite Rifampicina Suspender o tratamento. Encaminhar à referência de TB.
Nefrite intersticial Rifampicina Suspender o tratamento. Encaminhar para a referência de TB.
Rabdomiólise com mioglobinúria e insuficiência renal Pirazinamida Suspender o tratamento. Encaminhar para a referência de TB.

Acompanhamento do Tratamento da Tuberculose

O acompanhamento adequado do paciente com tuberculose é crucial para o sucesso terapêutico e para a interrupção da cadeia de transmissão. Ele envolve monitoramento laboratorial, clínico e a adesão ao tratamento.

Monitoramento Laboratorial e Clínico

Baciloscopia e Cultura

Diagnóstico Clínico e Radiológico

Para pacientes cujo diagnóstico inicial de tuberculose foi estabelecido sem a realização de baciloscopia (por exemplo, formas extrapulmonares ou paucibacilares), o seguimento deve ser conduzido com base na avaliação clínica e em radiografias de tórax, realizadas no 2º e 6º mês de tratamento.

Tratamento Diretamente Observado (TDO)

O TDO é uma estratégia fundamental para garantir a adesão e o sucesso do tratamento. Ao final do esquema terapêutico, é convencionado que o paciente deve ter recebido um mínimo de:

💡 Dica Importante: Após aproximadamente 15 dias de tratamento eficaz, o paciente com tuberculose pulmonar bacilífera geralmente deixa de ser infectante, reduzindo significativamente o risco de transmissão.

Conceitos Essenciais em Tuberculose

A compreensão de termos específicos é vital para a correta classificação e manejo dos casos de tuberculose.

Definições de Casos e Retratamento

Classificação da Tuberculose Resistente

A resistência aos fármacos antituberculose é um desafio global e exige esquemas terapêuticos específicos.

Tipo de Resistência Características
Monorresistência Resistência a apenas um fármaco, que não seja a rifampicina.
Resistência à Rifampicina Resistência isolada à rifampicina.
Polirresistência Resistência a dois ou mais fármacos, mas que não inclui a combinação de rifampicina e isoniazida.
Multirresistência (MDR) Resistência à rifampicina E à isoniazida.
Super-resistência (XDR) MDR + resistência a uma fluoroquinolona + resistência a um injetável de segunda linha (amicacina, canamicina ou capreomicina).

Critérios de Falência Terapêutica

A falência do tratamento da tuberculose é uma situação grave que indica a necessidade de reavaliação e modificação do esquema terapêutico. Os principais critérios são:

🚨 Conduta em Caso de Falência: Diante de um quadro de falência, é mandatório realizar cultura para micobactérias com Teste de Sensibilidade Antimicrobiana (TSA) para guiar a escolha do novo esquema de tratamento.
🔎 Lembrete: A cultura para micobactérias com TSA é obrigatória para populações vulneráveis (como pessoas vivendo com HIV, indígenas, privados de liberdade, em situação de rua) antes mesmo de iniciar o tratamento, devido ao maior risco de resistência.

Esquemas de Tratamento para Intolerância e Resistência

O manejo da tuberculose com intolerância a fármacos ou resistência exige a adaptação dos esquemas terapêuticos padrão.

Manejo da Intolerância a Fármacos

Em situações de intolerância a um dos fármacos de primeira linha, o esquema deve ser ajustado:

Regras Gerais dos Esquemas Terapêuticos

Tuberculose Multirresistente (TB-MDR)

Para casos de TB-MDR (resistência à rifampicina e isoniazida), os esquemas são mais complexos e prolongados:

Tipos de Resistência e Condutas Específicas

A seguir, um resumo das condutas para resistências específicas, facilitando a fixação do conteúdo:

Tipo de Resistência Conduta Terapêutica
Resistência ao Etambutol (E) Seguir com esquema RIP (Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida).
Resistência à Pirazinamida (P) Seguir com esquema RIE (Rifampicina, Isoniazida, Etambutol) por 9 meses.
Resistência à Isoniazida (I) Trocar por Levofloxacino (L): 2 meses de RLPE + 4 meses de LER.
Resistência à Rifampicina (R) Trocar por Capreomicina/Amicacina (C/A) + Levofloxacino (L): 2 meses de LIPEC/A + 10 meses de LIPE.
Resistência à Rifampicina (R) e Isoniazida (I) (TB-MDR)
  • Esquema CLEPT (18 meses): Etambutol, Capreomicina/Amicacina, Levofloxacino, Pirazinamida e Terizidona.
  • Opção BELELITE (18 meses): Bedaquilina (atenção à cardiotoxicidade), Levofloxacino, Linezolida e Terizidona.

Controle e Prevenção da Tuberculose

O Brasil adota diversas estratégias para prevenir e controlar a tuberculose, focando na interrupção da transmissão e na proteção das populações vulneráveis.

Estratégias Nacionais de Controle

O Ministério da Saúde (MS) implementa quatro medidas básicas de controle, sendo o tratamento do bacilífero a mais impactante:

Avaliação de Contactantes

A avaliação de contactantes – pessoas que vivem ou trabalham no mesmo ambiente de um caso bacilífero – é uma estratégia crucial para identificar novos casos e infecções latentes. A abordagem envolve:

Investigação de Doença Ativa

Investigação de Infecção Latente

Interpretação de PPD e IGRA

🧠 Conceito Chave: O Ministério da Saúde (MS) enfatiza que a vacina BCG não interfere na leitura do PPD. Portanto, um PPD reator em um indivíduo vacinado com BCG deve ser interpretado como infecção por Mycobacterium tuberculosis.

Tratamento da Infecção Latente por Tuberculose (ILTB)

A Infecção Latente por Tuberculose (ILTB) representa um estado em que o indivíduo está infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, mas não apresenta sinais ou sintomas da doença ativa. O tratamento da ILTB é uma estratégia fundamental no controle da tuberculose, visando prevenir a progressão da infecção para a doença ativa, especialmente em grupos de alto risco.

Diagnóstico da Infecção Latente por Tuberculose

O diagnóstico da ILTB é realizado principalmente por meio de dois testes: o Teste Tuberculínico (PPD) e os Interferon Gamma Release Assays (IGRA).

Teste Tuberculínico (PPD)

O PPD, ou Derivado Proteico Purificado do bacilo de Koch, é administrado por inoculação intradérmica. A leitura é realizada entre 48 e 72 horas após a aplicação, podendo ser estendida até 96 horas, medindo-se o maior diâmetro transverso da área de enduração.

💡 Dica: A viragem tuberculínica é definida como um aumento de ≥ 10mm na segunda leitura do PPD em relação à primeira, em um período de até 1 ano.
Interferon Gamma Release Assays (IGRA)

Após períodos de desabastecimento de PPD, o Ministério da Saúde passou a aceitar os Interferon Gamma Release Assays (IGRA) como método diagnóstico para ILTB. Estes testes se destacam por sua especificidade superior a 95%.

⚠️ Atenção: O IGRA é um excelente teste para diagnosticar infecção, mas sua incapacidade de diferenciar entre ILTB e TB ativa significa que ele não substitui a investigação clínica e radiológica para a doença ativa.

Esquemas Terapêuticos para ILTB

A escolha do esquema terapêutico para a ILTB depende de fatores como idade do paciente, comorbidades e tolerância aos medicamentos. O Ministério da Saúde atualizou as recomendações, priorizando esquemas mais curtos e eficazes.

Esquema Preferencial: Isoniazida + Rifapentina (3HP)

Este esquema, que consiste na administração de isoniazida e rifapentina uma vez por semana durante 3 meses (total de 12 doses), é atualmente o tratamento preferencial para diversas populações.

Medicamento Posologia Recomendada (Adultos > 14 anos e ≥ 30kg) Nº de Comprimidos/Dose Semanal Quantitativo Total por Tratamento (12 doses)
Rifapentina 900mg/1x na semana 6 comprimidos de Rifapentina 150mg/dose 72 comprimidos de Rifapentina 150mg
Isoniazida 900mg/1x na semana 3 comprimidos de Isoniazida 300mg/dose 36 comprimidos de Isoniazida 300mg
Esquemas Alternativos

Existem outras opções de tratamento para a ILTB, que podem ser utilizadas em situações específicas ou quando o esquema preferencial não é viável.

Esquema de Tratamento Medicamentos Tempo de Tratamento/Número de Doses Observações
6H ou 9H Isoniazida (H) 6 meses/180 doses diárias ou 9 meses/270 doses diárias Esquema de 270 doses tem melhor eficácia.
3HPa Isoniazida (H) + Rifapentina (P) 3 meses/12 doses semanais Atualmente o esquema preferencial.
4R Rifampicina (R) 4 meses/120 doses diárias Preferencial em < 10 anos, > 50 anos, hepatopatia ou intolerância à isoniazida.

Indicações para o Tratamento da Infecção Latente por Tuberculose

A decisão de tratar a ILTB é baseada na avaliação do risco de progressão para a doença ativa, considerando fatores como exposição, estado imunológico e comorbidades. As indicações são categorizadas conforme a presença ou não de testes diagnósticos e os resultados do PPD ou IGRA.

Indicação de Tratamento Sem PPD ou IGRA Realizados (Alto Risco)

Em algumas situações de altíssimo risco, o tratamento da ILTB é indicado mesmo sem a realização prévia de PPD ou IGRA, devido à iminente exposição ou imunossupressão severa:

🚨 Alerta: Para PVHIV, a imunossupressão confere um risco tão elevado que a profilaxia pode ser iniciada mesmo sem teste, em cenários específicos.
Indicação de Tratamento com PPD ≥ 5mm ou IGRA Positivo

Para os seguintes grupos, o tratamento da ILTB é indicado se o PPD for ≥ 5mm ou o IGRA for positivo, independentemente da vacinação prévia com BCG:

🧠 Conceito Chave: Um PPD ≥ 5mm é considerado reator em contactantes e imunodeprimidos, indicando a necessidade de tratamento da ILTB.
Indicação de Tratamento com PPD ≥ 10mm ou IGRA Positivo

Para estes grupos, o tratamento da ILTB é indicado se o PPD for ≥ 10mm ou o IGRA for positivo:

🔎 Diagnóstico: Um PPD ≥ 10mm é o limiar para indicar tratamento em pacientes com doenças debilitantes que aumentam o risco de reativação.
Indicação de Tratamento por Conversão Tuberculínica

A conversão tuberculínica é um forte indicador de infecção recente e requer tratamento da ILTB:

💊 Tratamento Essencial: Lembre-se, o tratamento da ILTB é sempre indicado, exceto quando há evidência de doença ativa. Em PVHIV, se houver sintomas de TB, o tratamento é para TB ativa (RIPE); se assintomático, o tratamento é para ILTB (isoniazida).

Prevenção da Infecção Latente por Tuberculose em Recém-Nascidos

A prevenção da ILTB em recém-nascidos que são contactantes de casos bacilíferos é uma medida de saúde pública crucial para proteger essa população vulnerável.

Quem Prevenir?
Como Prevenir?

A estratégia de prevenção envolve a não administração da vacina BCG ao nascer e a quimioprofilaxia com avaliação posterior:

👶 Cuidado Pediátrico: A profilaxia em RN contactantes é uma intervenção de alto impacto para evitar a progressão para formas graves de TB na infância.