Tuberculose
A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa crônica, de grande relevância global, causada pelo Mycobacterium tuberculosis, também conhecido como Bacilo de Koch (BK).
Conceitos Iniciais e Etiologia
Etiologia e Epidemiologia
O agente etiológico da tuberculose é o Mycobacterium tuberculosis, um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR). A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente um quarto da população mundial esteja infectada pelo bacilo, o que ressalta a magnitude do problema de saúde pública.
A transmissão ocorre principalmente pela via respiratória, através de gotículas eliminadas por pacientes com a forma pulmonar da doença, especialmente os bacilíferos. É uma doença com prevalência em ambientes urbanos, onde a aglomeração de pessoas facilita a propagação. O Mycobacterium tuberculosis é caracterizado por sua alta infectividade (capacidade de infectar muitas pessoas) e baixa patogenicidade (poucos dos infectados desenvolvem a doença).
🧠 Lembre-se: Estar infectado pelo bacilo é diferente de estar doente com tuberculose. Apenas o paciente bacilífero (com a doença ativa e eliminando bacilos) transmite a infecção.
Um paciente bacilífero pode infectar, em média, de 10 a 15 pessoas ao longo de um ano. A doença mantém um perfil predominantemente urbano, afetando mais as periferias de grandes cidades e regiões subdesenvolvidas, onde as condições de moradia e saneamento favorecem a aglomeração e a transmissão.
Diagnóstico da Infecção Latente: Teste Tuberculínico (PPD)
Diferentemente da maioria das infecções, onde a imunidade humoral (produção de anticorpos) se estabelece rapidamente, a tuberculose depende fundamentalmente da imunidade celular. Esta, por sua vez, leva um tempo consideravelmente maior para se desenvolver, variando de 3 a 8 semanas após o primeiro contato com o bacilo. Uma vez estabelecida, a imunidade celular gera uma memória imunológica duradoura.
Para detectar se um indivíduo foi infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, utiliza-se o Teste Tuberculínico, mais conhecido como PPD (Purified Protein Derivative). Neste teste, antígenos bacilares são injetados intradermicamente. A presença de uma reação de hipersensibilidade tardia, caracterizada por uma lesão endurada de base eritematosa com diâmetro maior que 5mm, lida entre 24 e 48 horas após a aplicação, indica que houve infecção prévia e que o sistema imune desenvolveu memória contra o bacilo. Um PPD menor que 5mm geralmente indica ausência de infecção.
🧪 High Yield Note: O PPD avalia a resposta imune celular à infecção pelo Mycobacterium tuberculosis. Um resultado reator (≥ 5mm) significa que o indivíduo foi infectado em algum momento da vida, não necessariamente que está com a doença ativa.
Fisiopatologia da Primoinfecção
Primeiro Contato com o Bacilo
A primoinfecção refere-se ao primeiro contato do organismo com o Mycobacterium tuberculosis. Após a inalação, o bacilo atinge os alvéolos pulmonares, onde é fagocitado pelos macrófagos alveolares. Contudo, esses macrófagos são inicialmente incapazes de destruir o bacilo, que encontra um ambiente propício para sua proliferação intracelular. Com a ruptura dos macrófagos, novos bacilos são liberados, infectando outros macrófagos e perpetuando o ciclo.
Nesta fase inicial, sem uma defesa imunológica específica pronta, ocorre a disseminação linfo-hematogênica. Os bacilos podem seguir dois caminhos:
- Via Linfática: Drenagem para os linfonodos hilares e mediastinais.
- Via Sanguínea: Atingem a corrente sanguínea através dos capilares alveolares, podendo se espalhar para qualquer parte do organismo (peritônio, ossos, meninges, rins, fígado, retina, etc.), além de permanecerem nos pulmões.
⚠️ Atenção: A vacina BCG (Bacilo de Calmette e Guérin) não impede a infecção pelo Mycobacterium tuberculosis nem o desenvolvimento da doença em si. Sua principal função é proteger contra as formas graves e disseminadas da tuberculose, como a tuberculose miliar e a meningite tuberculosa, especialmente em crianças.
Desenvolvimento da Imunidade Celular e Formação do Granuloma
A disseminação bacilar ocorre até que o sistema imune desenvolva uma resposta específica, que leva de 3 a 8 semanas. Esta resposta é mediada pela imunidade celular, envolvendo linfócitos T que secretam citocinas (como o IFN-gama) e ativam macrófagos. Estes macrófagos ativados se unem, formando células multinucleadas gigantes (células de Langerhans), que, juntamente com linfócitos e outras células inflamatórias, cercam o bacilo.
Nesse processo de contenção, forma-se uma estrutura característica da tuberculose: o granuloma. No centro do granuloma, devido à intensa atividade inflamatória e à tentativa de destruir o bacilo, surge uma área de necrose tecidual com aspecto esbranquiçado e consistência de queijo, conhecida como necrose caseosa.
🔬 Conceito Chave: O granuloma caseoso é a marca histopatológica da tuberculose. Ele representa a forma como o organismo tenta conter a infecção, mantendo o bacilo em um estado latente, em um ambiente inóspito (pH ácido, baixa oxigenação). Para fins de prova, é frequentemente considerado patognomônico.
Controle da Infecção e Nódulo de Ghon
É crucial entender que o organismo humano é incapaz de eliminar completamente o bacilo. A imunidade celular consegue apenas controlar a infecção, mantendo o bacilo em um estado de latência dentro dos granulomas caseosos. Esses granulomas podem se formar em qualquer parte do corpo para onde o bacilo se disseminou inicialmente, mas são mais numerosos e evidentes nos pulmões, por ser a porta de entrada e o local de maior carga bacilar.
Com o passar dos anos, os granulomas pulmonares podem sofrer calcificação. Quando um granuloma calcificado atinge um tamanho maior (por exemplo, > 6-8mm), ele pode ser visível em radiografias de tórax como uma opacidade lobular, sendo denominado Nódulo de Ghon. Este nódulo é um sinal de que o indivíduo teve uma boa resposta imune e conseguiu controlar a infecção. A associação do Nódulo de Ghon com linfadenopatia hilar adjacente calcificada é conhecida como Complexo de Ranke.
Evolução Pós-Primoinfecção
A evolução da primoinfecção depende da eficácia da resposta imune celular:
- 90% dos primoinfectados: Desenvolvem uma imunidade celular adequada e conseguem controlar a infecção, resultando em infecção latente. Esses indivíduos não desenvolvem a doença ativa e não são transmissores.
- 10% dos primoinfectados: Apresentam imunidade celular inadequada ou deficiente, evoluindo para a doença ativa. Esta pode se manifestar como:
- Tuberculose Primária: Adoecimento logo após o primeiro contato.
- Tuberculose Pós-Primária: Adoecimento anos após o contato inicial, geralmente por reativação de bacilos latentes ou por uma nova infecção (reinfecção).
Formas Clínicas da Tuberculose
Tuberculose Pulmonar Primária
A tuberculose pulmonar primária ocorre quando o indivíduo desenvolve a doença ativa logo após o primeiro contato com o bacilo, devido a uma resposta imune celular insuficiente. É mais comum em crianças pequenas (geralmente menores de 4 anos), mas pode ocorrer em adultos imunocomprometidos.
- Quadro Clínico:
- Pneumonia "arrastada" que não responde a antibióticos comuns.
- Infiltrado pulmonar persistente.
- Sintomas inespecíficos como síndrome gripal, tosse menos intensa, febre baixa, prostração e indisposição.
- Radiologia:
- Adenomegalia hilar unilateral (frequentemente no lado direito), associada a um infiltrado alveolar (formando o Complexo Primário ou de Ranke).
- Transmissão:
- É uma forma paucibacilar, ou seja, a carga bacilar é baixa, e o paciente geralmente não transmite a doença.
🔎 Diagnóstico Diferencial: A TB pulmonar primária pode ser confundida com pneumonias atípicas, pois seus sintomas são menos exuberantes e a resposta aos antibióticos convencionais é ausente. A suspeita deve surgir em casos de pneumonia arrastada em crianças ou imunocomprometidos.
Tuberculose Miliar
A tuberculose miliar é uma forma grave e disseminada da doença, considerada uma complicação da tuberculose pulmonar primária. Ela indica um comprometimento imune grave do paciente, onde o bacilo se replica sem controle e se espalha amplamente pelo corpo via hematogênica, assemelhando-se a um quadro de sepse.
- Pacientes de Risco: Crianças menores de 2 anos, imunodeprimidos (HIV/AIDS, uso de imunossupressores) e indivíduos não vacinados com BCG.
- Quadro Clínico: Sintomas sistêmicos graves, como febre alta, perda de peso acentuada, hepatoesplenomegalia, entre outros, dependendo dos órgãos acometidos.
- Radiologia: O achado clássico no raio-X de tórax são micronódulos pulmonares difusos e bilaterais, que lembram grãos de milho (daí o nome "miliar").
🚨 Emergência: A tuberculose miliar é uma emergência médica e requer tratamento imediato. A vacina BCG é crucial na prevenção desta forma grave e da meningite tuberculosa.
Tuberculose Pulmonar Pós-Primária (Reativação/Reinfecção)
Esta é a forma mais comum de tuberculose em adultos e adolescentes. Ocorre anos ou décadas após a primoinfecção, quando bacilos latentes (contidos nos granulomas) são reativados devido a uma queda na imunidade do hospedeiro, ou, menos frequentemente, por uma nova infecção (reinfecção).
Fatores que podem levar à reativação incluem: imunodepressão (ex: HIV/AIDS, diabetes, neoplasias), uso de corticoterapia ou outros imunossupressores, estresse físico ou emocional, alcoolismo, desnutrição, entre outros.
- Quadro Clínico Clássico:
- Tosse crônica (por mais de 3 semanas, com ou sem expectoração).
- Febre vespertina (aumento da temperatura no final da tarde).
- Sudorese noturna (suores intensos durante o sono).
- Perda ponderal (emagrecimento inexplicável).
- Outros sintomas como dor torácica, dispneia e hemoptise podem estar presentes.
- Radiologia:
- Caracteriza-se por cavitações, infiltrados ou nódulos, predominantemente nos segmentos apicais e posteriores dos lobos superiores (segmentos 1 e 2) e no segmento superior do lobo inferior (segmento 6). Essas áreas são favorecidas pela maior tensão de oxigênio e menor drenagem linfática.
- Transmissão:
- As formas cavitárias são altamente bacilíferas e, portanto, os pacientes são transmissores da doença.
💡 Dica de Prova: Na reativação, a resposta imunológica é imediata, pois já existe memória imunológica. No entanto, essa resposta exacerbada pode causar maior dano tecidual, levando à formação de cavernas.
Diferentemente da TB primária, a TB pós-primária é um processo mais localizado, e a presença de adenopatia associada não é comum. A lesão característica é de erosão ou escavação, resultado da agressão imunológica ao bacilo no local do granuloma reativado.
- Complicação: Uma complicação importante das cavernas pulmonares residuais após o tratamento da TB é a colonização por fungos, formando a bola fúngica (aspergiloma).
- Atenção para prova: Suspeitar de aspergiloma em pacientes com histórico de TB tratada que desenvolvem um novo quadro de tosse, hemoptise ou outros sintomas respiratórios.
⚠️ Atenção: A ausência de adenopatia associada é um ponto importante para diferenciar a TB pós-primária da TB primária, onde a disseminação linfática é uma característica marcante.
| Característica |
Tuberculose Primária |
Tuberculose Pós-Primária |
| Paciente Típico |
Crianças pequenas (< 4 anos) |
Adultos e adolescentes |
| Momento da Doença |
Logo após o primeiro contato |
Anos após o primeiro contato (reativação/reinfecção) |
| Imunidade |
Inadequada/deficiente no primeiro contato |
Queda da imunidade pré-existente |
| Quadro Clínico |
Pneumonia arrastada, síndrome gripal |
Tosse crônica, febre vespertina, sudorese noturna, perda ponderal |
| Radiologia |
Adenomegalia hilar, infiltrado alveolar (Complexo de Ranke) |
Cavitações, infiltrados em ápices e segmentos superiores |
| Transmissão |
Paucibacilar (não transmite) |
Bacilífera (transmite) |
| Adenopatia Associada |
Comum |
Não comum |
Diagnóstico da Tuberculose
O diagnóstico da tuberculose (TB) é um processo complexo que, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde (MS), pode ser estabelecido pela presença de pelo menos dois dos três critérios principais: clínica sugestiva, achados radiológicos compatíveis e confirmação laboratorial por escarro. É importante ressaltar que, em algumas situações, o diagnóstico pode ser fechado sem a necessidade de confirmação laboratorial.
💡 Lembre-se: O diagnóstico da TB pode ser estabelecido com 2 dos 3 critérios: (1) clínica, (2) raio-X e (3) escarro. Em casos específicos, o critério clínico-epidemiológico pode ser suficiente!
Critério Clínico-Epidemiológico
Este critério permite o diagnóstico da tuberculose sem a necessidade de confirmação laboratorial, especialmente quando há forte suspeita clínica e radiológica. É fundamental para iniciar o tratamento precocemente e evitar a progressão da doença.
Manifestações Clínicas e Radiológicas
- Sintomas Clínicos:
- Tosse persistente por mais de 3 semanas.
- Febre vespertina (geralmente no final da tarde).
- Sudorese noturna intensa.
- Perda de peso inexplicável.
- Inapetência (falta de apetite).
- Achados Radiológicos (Radiografia de Tórax):
- Tuberculose Primária: Frequentemente manifesta-se como adenomegalia hilar unilateral.
- Tuberculose Pós-Primária (Reativação): Caracteriza-se pela presença de cavitações, geralmente nos lobos superiores.
💊 Atenção: Se a clínica e o raio-X forem positivos e altamente sugestivos de TB, o Ministério da Saúde autoriza o início do tratamento mesmo sem a confirmação laboratorial imediata, visando a agilidade terapêutica.
Critério Laboratorial (Microbiológico do Escarro)
A confirmação laboratorial é crucial para identificar o Mycobacterium tuberculosis e avaliar a sensibilidade aos fármacos. Existem diferentes métodos, cada um com suas particularidades e tempos de resposta.
Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB)
O TRM-TB representa um avanço significativo no diagnóstico da TB, sendo atualmente o teste de escolha devido à sua rapidez e alta acurácia.
- Acurácia: Possui melhor acurácia e maior sensibilidade em comparação com a baciloscopia tradicional.
- Tempo de Resultado: O resultado é liberado em aproximadamente 2 horas, permitindo um início rápido do tratamento.
- Risco Biológico: Apresenta menor risco de exposição para os profissionais que realizam o teste.
- Resistência à Rifampicina: É capaz de detectar a presença de resistência à rifampicina, um dos principais fármacos do esquema terapêutico, o que é fundamental para guiar o tratamento.
🔎 High Yield: O TRM-TB é o teste de escolha e é o único que avalia a resistência à rifampicina já no diagnóstico inicial, impactando diretamente a escolha do esquema terapêutico.
Baciloscopia do Escarro (BAAR)
A baciloscopia, que detecta bacilos álcool-ácido resistentes (BAAR), é um método tradicional e amplamente disponível. Requer a coleta de, no mínimo, duas amostras de escarro em momentos distintos do dia (geralmente uma no momento da consulta e outra na manhã seguinte). O resultado costuma ficar pronto em 24 a 48 horas.
Cultura do Escarro
A cultura do escarro é considerada o padrão ouro para o diagnóstico laboratorial da TB, pois permite a identificação definitiva do bacilo e a realização de testes de sensibilidade a todas as drogas. No entanto, seu principal inconveniente é o tempo prolongado para obtenção do resultado, que pode variar de 20 a 30 dias. É indicada principalmente para:
- Casos duvidosos, onde outros métodos não foram conclusivos.
- Avaliação da presença de resistência a determinadas drogas durante o tratamento ou em casos de falência terapêutica.
- Populações vulneráveis, como imunodeprimidos e crianças, onde a carga bacilar pode ser menor.
| Método Diagnóstico |
Vantagens |
Desvantagens |
Indicações Principais |
| TRM-TB |
Alta acurácia, rápido (2h), detecta resistência à rifampicina. |
Custo mais elevado, nem sempre disponível em todos os serviços. |
Diagnóstico inicial, suspeita de resistência. |
| Baciloscopia (BAAR) |
Rápido (24-48h), baixo custo, amplamente disponível. |
Menor sensibilidade, não detecta resistência. |
Triagem, monitoramento de tratamento. |
| Cultura |
Padrão ouro, identifica espécie, testa sensibilidade a todas as drogas. |
Demorado (20-30 dias). |
Casos duvidosos, falência terapêutica, resistência, populações vulneráveis. |
Diagnóstico em Crianças (Menores de 10 anos)
O diagnóstico da TB em crianças é particularmente desafiador, pois elas frequentemente apresentam formas paucibacilíferas (com baixa carga de bacilos) e têm dificuldade em expectorar escarro. Por isso, métodos adaptados são necessários.
Critério Microbiológico Auxiliar
Em crianças, especialmente as internadas, a cultura do lavado gástrico pode ser utilizada como método auxiliar. Isso ocorre porque crianças pequenas, ao tossir, tendem a deglutir o bacilo, que se acumula no estômago. A coleta do lavado gástrico permite a obtenção de material para cultura, aumentando as chances de isolamento do Mycobacterium tuberculosis.
Critério por Sistema de Pontuação
Para crianças, o Ministério da Saúde preconiza um sistema de pontuação que considera diversos fatores clínicos, epidemiológicos e radiológicos para auxiliar no diagnóstico, especialmente quando a confirmação laboratorial é difícil.
- Contato com TB nos últimos 2 anos: 15 pontos
- História de sintomas arrastados (> 2 semanas): 10 pontos
- Imagem (RX de tórax) alterada (> 2 semanas): 15 pontos
- PPD (teste tuberculínico) > 10 mm ou latente: 10 pontos
- Desnutrição (peso < percentil 10): 5 pontos
🧠 Interpretação da Pontuação:
- > 30 pontos: Tuberculose possível → iniciar tratamento.
- > 40 pontos: Tuberculose muito provável.
Formas Extrapulmonares da Tuberculose
A tuberculose pode afetar diversos órgãos além dos pulmões, resultando em manifestações clínicas variadas. É crucial reconhecer essas formas, pois o diagnóstico pode ser mais complexo e as sequelas, mais graves.
⚠️ Conceito Chave: Nenhuma das formas extrapulmonares da tuberculose é considerada bacilífera, ou seja, o paciente não transmite a doença por essas vias.
Tuberculose Pleural
A tuberculose pleural é a forma extrapulmonar mais comum no Brasil em adultos imunocompetentes. No entanto, em pacientes HIV-positivos ou crianças, a forma extrapulmonar mais prevalente é a tuberculose ganglionar.
Geralmente afeta adultos jovens e se manifesta com febre, emagrecimento e dor torácica pleurítica, que piora com a respiração profunda.
Características do Líquido Pleural
A análise do líquido pleural é fundamental para o diagnóstico da TB pleural, apresentando um perfil exsudativo característico:
- Aspecto: Amarelo-citrino.
- Natureza: Exsudato (relação proteína pleural/sérica > 0,5; LDH pleural/sérica > 0,6; LDH pleural > 2/3 do limite superior do LDH sérico).
- Glicose: Baixa, pois a intensa atividade inflamatória e o metabolismo das células de defesa consomem a glicose presente no líquido ("toda guerra imune consome glicose").
- Celularidade:
- Predomínio de polimorfonucleares (PNM) pode ocorrer apenas no início do quadro, mas é raramente observado no momento do diagnóstico.
- O padrão clássico e persistente é o predomínio linfomonocitário (mononuclear), refletindo a resposta imune crônica à infecção por micobactérias.
- Ausência de Eosinófilos e Células Mesoteliais: Este é um achado distintivo e de grande valor diagnóstico diferencial, especialmente em relação a derrames neoplásicos ou parapneumônicos.
- Adenosina Deaminase (ADA): Níveis de ADA no líquido pleural acima de 40 U/L são extremamente sugestivos de tuberculose pleural.
A presença de características do líquido pleural altamente sugestivas de TB, como um exsudato linfomonocitário com ADA elevado e ausência de eosinófilos/células mesoteliais, pode autorizar o início do tratamento sem a necessidade de biópsia, agilizando a conduta.
Diagnóstico da Tuberculose Pleural
A confirmação bacteriológica da TB pleural é frequentemente difícil devido à baixa carga bacilar no líquido pleural.
- Baciloscopia do Líquido Pleural: Positiva em menos de 5% dos casos.
- Cultura do Líquido Pleural: Positiva em menos de 40% dos casos.
- Padrão Ouro: A biópsia pleural, com análise histopatológica e cultura do tecido, é considerada o padrão ouro, com positividade de até 90% dos casos. Revela granulomas com necrose caseosa.
Devido à baixa sensibilidade dos métodos bacteriológicos diretos no líquido pleural, a dosagem de ADA e a biópsia pleural são ferramentas diagnósticas cruciais. Se a clínica for compatível e o ADA estiver significativamente elevado, o tratamento pode ser iniciado empiricamente.
| Método Diagnóstico |
Sensibilidade/Positividade |
Comentários |
| Baciloscopia do Líquido Pleural |
< 5% |
Baixa carga bacilar, raramente positiva. |
| Cultura do Líquido Pleural |
< 40% |
Melhor que baciloscopia, mas ainda limitada. |
| ADA no Líquido Pleural (> 40 U/L) |
Alta sensibilidade e especificidade |
Extremamente sugestivo, pode guiar início do tratamento. |
| Biópsia Pleural |
Até 90% |
Padrão ouro, identifica granulomas e permite cultura tecidual. |
Tuberculose Meníngea
A tuberculose meníngea é uma forma grave da doença, mais comum em crianças não vacinadas e imunodeprimidos. É a forma de TB que mais deixa sequelas neurológicas, sendo uma emergência médica.
Características Clínicas e do LCR
Diferente de outras meningites bacterianas agudas, a TB meníngea apresenta um curso mais arrastado e insidioso:
- Meningite Subaguda: O quadro clínico evolui de forma mais lenta, com sintomas que se arrastam por semanas, em contraste com a apresentação aguda de outras meningites.
- Acometimento de Pares Cranianos: A inflamação na base do encéfalo pode afetar diversos pares cranianos (II, III, IV, VII), sendo o VI par craniano (abducente) o mais frequentemente acometido, causando estrabismo.
- Líquido Cefalorraquidiano (LCR):
- Proteinorraquia Elevada: A inflamação aumenta a permeabilidade da barreira hematoencefálica, levando ao extravasamento de proteínas para o LCR.
- Glicose Baixa: Consumo de glicose pelos bacilos e células inflamatórias.
- Celularidade: Inicialmente, pode haver predomínio de polimorfonucleares, mas rapidamente evolui para predomínio linfomonocitário, similar ao que ocorre na TB pleural.
- Tomografia Computadorizada (TC): Pode evidenciar hidrocefalia, resultante do espessamento do LCR e acúmulo de proteínas na base do encéfalo, que obstrui a reabsorção do LCR pelas granulações aracnoides.
A natureza subaguda da doença e a resposta imune deficiente podem levar a lesões nos pares cranianos e à hidrocefalia, que contribuem para as sequelas neurológicas.
Diagnóstico da Tuberculose Meníngea
O diagnóstico da TB meníngea também é desafiador, mas a cultura do LCR tem uma positividade relativamente boa.
- Baciloscopia do LCR: Positiva em cerca de 15% dos casos, devido à baixa carga bacilar.
- Cultura do LCR: Positiva em até 80% dos casos, sendo o principal método de confirmação laboratorial. A biópsia cerebral é muito invasiva e raramente necessária.
- TRM-TB no LCR: Positivo em 30-80% dos casos, oferecendo um diagnóstico mais rápido.
| Método Diagnóstico |
Sensibilidade/Positividade |
Comentários |
| Baciloscopia do LCR |
~15% |
Baixa sensibilidade, não exclui o diagnóstico. |
| Cultura do LCR |
~80% |
Principal método de confirmação, porém demorado. |
| TRM-TB no LCR |
30-80% |
Mais rápido que a cultura, útil para início precoce do tratamento. |
Tratamento
Resumo dos Esquemas Terapêuticos
O tratamento da tuberculose (TB) é complexo e exige adesão rigorosa para garantir a cura e prevenir o desenvolvimento de resistência. Os esquemas terapêuticos são padronizados e adaptados conforme a forma da doença e a idade do paciente.
- Esquema Básico: Utiliza RIPE por 6 meses (2 meses de RIPE + 4 meses de RI).
- Pacientes Pediátricos (< 10 anos): Não se prescreve etambutol no esquema básico devido ao risco de neurite óptica.
- Tuberculose Meníngea/Osteoarticular: O tratamento é prolongado para 12 meses (2 meses de RIPE + 10 meses de RI).
- Tuberculose Meníngea: Requer a adição de corticosteroides nos primeiros 1-3 meses para mitigar sequelas neurológicas.
- Acompanhamento: É fundamental realizar o Tratamento Diretamente Observado (TDO) e baciloscopias mensais para monitorar a resposta e a adesão.
🧠 Conceito Chave: A rifampicina e a isoniazida são as drogas mais potentes e essenciais no tratamento da TB, sendo a rifampicina a mais importante. A ausência ou resistência a ela prolonga significativamente o tratamento.
Esquema Básico: RIPE 6 Meses
Este é o esquema padrão para a maioria dos casos de tuberculose, consistindo em uma fase intensiva e uma fase de manutenção. A combinação de fármacos em dose fixa combinada (DFC) visa otimizar a adesão e reduzir a seleção de resistência.
- Fase Intensiva (2 meses): Rifampicina (R), Isoniazida (I), Pirazinamida (P) e Etambutol (E) - RIPE.
- Fase de Manutenção (4 meses): Rifampicina (R) e Isoniazida (I) - RI.
Para pacientes entre 3 meses e 16 anos com formas não graves da doença, uma nova nota técnica (Abril/2024) permite um esquema de 2 meses de RIPE seguido por 2 meses de RI.
Indicações
- Casos novos de tuberculose pulmonar e extrapulmonar (exceto meníngea e osteoarticular), independentemente da infecção pelo HIV.
- Retratamento em casos de recidiva (reaparecimento da doença após cura) ou retorno após abandono com doença ativa.
⚠️ Atenção Pediátrica: Em crianças com menos de 10 anos, o etambutol deve ser evitado devido ao elevado risco de neurite óptica, que pode manifestar-se como "visão turva".
O tempo total de tratamento na fase de manutenção pode ser estendido por mais 3 meses em situações específicas, como evolução clínica desfavorável, pacientes imunossuprimidos ou conforme orientação de especialistas em casos de TB extrapulmonar complexa.
É crucial solicitar cultura e Teste de Sensibilidade aos Antimicrobianos (TSA) para todos os casos de retratamento ou quando a baciloscopia permanece positiva ao final do segundo mês de tratamento, a fim de identificar possíveis resistências.
| Esquema |
Faixa de Peso |
Unidade/Dose |
Duração |
| RHZE 150/75/400/275mg (comprimido em dose fixa combinada) |
20kg a 35kg |
2 comprimidos |
2 meses (fase intensiva) |
| 36kg a 50kg |
3 comprimidos |
| 51kg a 70kg |
4 comprimidos |
| Acima de 70kg |
5 comprimidos |
| RH 300/150mg ou 150/75mg (comprimido em dose fixa combinada) |
20kg a 35kg |
1 comprimido de 300/150mg ou 2 comprimidos de 150/75mg |
4 meses (fase de manutenção) |
| 36kg a 50kg |
1 comprimido de 300/150mg + 1 comprimido de 150/75mg ou 3 comprimidos de 150/75mg |
| 51kg a 70kg |
2 comprimidos de 300/150mg ou 4 comprimidos de 150/75mg |
| Acima de 70kg |
2 comprimidos de 300/150mg + 1 comprimido de 150/75mg ou 5 comprimidos de 150/75mg |
Tuberculose Meníngea e Osteoarticular
Para formas mais graves e com potencial de sequelas significativas, como a tuberculose meníngea e osteoarticular, o esquema terapêutico é prolongado para 12 meses, mantendo a mesma combinação de fármacos.
- Fase Intensiva (2 meses): Rifampicina (R), Isoniazida (I), Pirazinamida (P) e Etambutol (E) - RIPE.
- Fase de Manutenção (10 meses): Rifampicina (R) e Isoniazida (I) - RI.
Manejo da Tuberculose Meníngea
💊 Tratamento Adjuvante: Na tuberculose meníngea, a administração de corticosteroides é mandatório nos primeiros 1 a 3 meses de tratamento. Isso visa reduzir a inflamação e, consequentemente, o risco de complicações neurológicas graves e sequelas. As opções incluem prednisona (1-2 mg/kg/dia por 4 semanas) ou dexametasona (0,3-0,4 mg/kg/dia IV em casos graves, por 4-8 semanas, com desmame gradual).
A internação hospitalar é obrigatória para pacientes com tuberculose meníngea, permitindo um monitoramento rigoroso e manejo adequado das possíveis complicações.
Manejo da Tuberculose Osteoarticular
A tuberculose osteoarticular segue o mesmo esquema medicamentoso prolongado (RIPE por 12 meses), porém, diferentemente da forma meníngea, não há indicação para o uso de corticosteroides adjuvantes.
| Esquema |
Faixa de Peso |
Unidade/Dose |
Duração |
| RHZE 150/75/400/275 mg (comprimido em dose fixa combinada) |
20 kg a 35 kg |
2 comprimidos |
2 meses (fase intensiva) |
| 36 kg a 50 kg |
3 comprimidos |
| 51 kg a 70 kg |
4 comprimidos |
| Acima de 70 kg |
5 comprimidos |
| RH 300/150 mg ou 150/75 mg (comprimido em dose fixa combinada) |
20 a 35 kg |
1 comprimido de 300/150 mg ou 2 comprimidos de 150/75 mg |
10 meses (fase de manutenção) |
| 36 kg a 50 kg |
1 comprimido de 300/150 mg + 1 comprimido de 150/75 mg ou 3 comprimidos de 150/75 mg |
| 51 kg a 70 kg |
2 comprimidos de 300/150 mg ou 4 comprimidos de 150/75 mg |
| Acima de 70 kg |
2 comprimidos de 300/150 mg + 1 comprimido de 150/75 mg ou 5 comprimidos de 150/75 mg |
Efeitos Adversos dos Fármacos Antituberculose
Efeitos Adversos Gerais e Hepatotoxicidade
A maioria dos fármacos antituberculose pode causar intolerância gastrointestinal (náuseas, vômitos, epigastralgia), que geralmente é leve e pode ser manejada com ajustes no horário da medicação ou sintomáticos.
Um dos efeitos adversos mais sérios e comuns é a hepatotoxicidade, especialmente associada à rifampicina (R), isoniazida (I) e pirazinamida (P). A pirazinamida é considerada a mais hepatotóxica, seguida pela isoniazida, enquanto a rifampicina é a menos proeminente nesse aspecto.
Manejo da Hepatotoxicidade
🚨 Alerta de Hepatotoxicidade: O tratamento com RIPE deve ser interrompido imediatamente por 30 dias se o paciente apresentar icterícia, ou se as transaminases (AST/ALT) estiverem 3 vezes acima do limite superior da normalidade (LSN) com sintomas, ou 5 vezes acima do LSN, mesmo sem sintomas.
- Se houver melhora clínica e laboratorial: A reintrodução dos fármacos deve ser gradual, começando por etambutol (E) e pirazinamida (P), depois isoniazida (I) e, por último, rifampicina (R), com intervalos de 3 a 7 dias entre cada droga para identificar o agente causador.
- Se não houver melhora ou em casos graves: É necessário modificar o esquema terapêutico, utilizando drogas de segunda linha como capreomicina, etambutol e levofloxacino (CEL).
Efeitos Adversos Específicos por Fármaco
Rifampicina (R)
- Coloração alaranjada da urina, suor e lágrimas (orientar o paciente).
- Reações de hipersensibilidade, como rash cutâneo e nefrite intersticial aguda (NIA).
- Citopenias (trombocitopenia, leucopenia, anemia hemolítica).
- Síndrome "flu-like" (sintomas semelhantes à gripe).
Isoniazida (I)
- Neuropatia periférica: É um efeito comum, causado por deficiência de piridoxina (vitamina B6).
- Síndrome lúpus-like.
- Cefaleia e alterações de comportamento (euforia, insônia, depressão leve, ansiedade, sonolência).
- Febre.
💊 Prevenção: Para prevenir a neuropatia periférica induzida pela isoniazida, a suplementação de piridoxina (vitamina B6) na dose de 50mg/dia é a conduta recomendada.
Pirazinamida (P)
- Hiperuricemia: Pode precipitar crises de gota.
- Rabdomiólise (com mioglobinúria e insuficiência renal em casos graves).
- Dor articular.
Etambutol (E)
- Neurite óptica: Principal efeito adverso, manifestando-se como diminuição da acuidade visual, discromatopsia (dificuldade em distinguir cores, especialmente verde-vermelho) e escotomas.
Estreptomicina (S) - Aminoglicosídeo
- Nefrotoxicidade (dano renal).
- Ototoxicidade (dano auditivo e vestibular).
Etionamida
Reações Adversas Menores e Condutas
| Efeitos Adversos |
Medicamentos Envolvidos |
Condutas |
| Intolerância digestiva (náusea, vômito, epigastralgia) |
Etambutol, Isoniazida, Pirazinamida, Rifampicina |
Reformular o horário da administração (duas horas após o café da manhã). Considerar medicação sintomática. Avaliar função hepática. |
| Suor/urina de cor avermelhada |
Rifampicina |
Orientar o paciente sobre a benignidade do sintoma. |
| Prurido e exantema leve |
Isoniazida, Rifampicina |
Medicar com anti-histamínico. |
| Dor articular |
Isoniazida, Pirazinamida |
Medicar com analgésicos ou anti-inflamatórios não hormonais. |
| Neuropatia periférica |
Isoniazida (comum), Etambutol (incomum) |
Medicar com piridoxina (vitamina B6) 50mg/dia e avaliar evolução. |
| Hiperuricemia (com ou sem sintomas) |
Etambutol, Pirazinamida |
Orientar dieta hipopurínica e medicar com alopurinol ou colchicina, se necessário. |
| Cefaleia e mudança de comportamento (euforia, insônia, depressão leve, ansiedade, sonolência) |
Isoniazida |
Orientar o paciente. |
| Febre |
Isoniazida, Rifampicina |
Orientar e medicar com antitérmico. |
Reações Adversas Maiores e Condutas
| Efeitos Adversos |
Medicamentos Envolvidos |
Condutas |
| Exantema ou hipersensibilidade de moderada a grave |
Etambutol, Isoniazida, Rifampicina |
Suspender o tratamento. Encaminhar para referência de TB. Testar droga a droga em casos leves. Substituir por esquema especial em casos graves. |
| Psicose, crise convulsiva, encefalopatia tóxica ou coma |
Isoniazida |
Suspender a isoniazida. Encaminhar à referência de TB para avaliar esquema especial. |
| Neurite óptica |
Etambutol |
Suspender o etambutol. Encaminhar à referência de TB para avaliar esquema especial. |
| Hepatotoxicidade (icterícia, AST/ALT > 3x LSN com sintomas ou > 5x LSN) |
Isoniazida, Pirazinamida, Rifampicina |
Suspender o tratamento. Encaminhar à referência de TB. |
| Trombocitopenia, leucopenia, eosinofilia, anemia hemolítica, agranulocitose, vasculite |
Rifampicina |
Suspender o tratamento. Encaminhar à referência de TB. |
| Nefrite intersticial |
Rifampicina |
Suspender o tratamento. Encaminhar para a referência de TB. |
| Rabdomiólise com mioglobinúria e insuficiência renal |
Pirazinamida |
Suspender o tratamento. Encaminhar para a referência de TB. |
Acompanhamento do Tratamento da Tuberculose
O acompanhamento adequado do paciente com tuberculose é crucial para o sucesso terapêutico e para a interrupção da cadeia de transmissão. Ele envolve monitoramento laboratorial, clínico e a adesão ao tratamento.
Monitoramento Laboratorial e Clínico
Baciloscopia e Cultura
- Baciloscopia Mensal: Recomenda-se a realização de baciloscopia de escarro mensalmente. Caso não seja possível, deve-se realizá-la, no mínimo, no 2º, 4º e 6º mês de tratamento.
- ⚠️ Atenção: O Teste Rápido Molecular (TRM) não é indicado para o acompanhamento da resposta ao tratamento. Sua função principal é o diagnóstico rápido e a detecção de resistência à rifampicina.
- Baciloscopia Positiva no 2º Mês: Se a baciloscopia permanecer positiva ao final do segundo mês de tratamento, é imperativo solicitar uma cultura para micobactérias com Teste de Sensibilidade Antimicrobiana (TSA) e TRM para avaliar a possível resistência à rifampicina. Além disso, a fase intensiva do tratamento deve ser prolongada por mais 30 dias.
Diagnóstico Clínico e Radiológico
Para pacientes cujo diagnóstico inicial de tuberculose foi estabelecido sem a realização de baciloscopia (por exemplo, formas extrapulmonares ou paucibacilares), o seguimento deve ser conduzido com base na avaliação clínica e em radiografias de tórax, realizadas no 2º e 6º mês de tratamento.
Tratamento Diretamente Observado (TDO)
O TDO é uma estratégia fundamental para garantir a adesão e o sucesso do tratamento. Ao final do esquema terapêutico, é convencionado que o paciente deve ter recebido um mínimo de:
- 24 tomadas observadas na fase de ataque.
- 48 tomadas observadas na fase de manutenção.
💡 Dica Importante: Após aproximadamente 15 dias de tratamento eficaz, o paciente com tuberculose pulmonar bacilífera geralmente deixa de ser infectante, reduzindo significativamente o risco de transmissão.
Conceitos Essenciais em Tuberculose
A compreensão de termos específicos é vital para a correta classificação e manejo dos casos de tuberculose.
Definições de Casos e Retratamento
- Caso Novo ou Virgem de Tratamento (VT): Refere-se a pacientes que nunca foram submetidos ao tratamento para tuberculose ou que o fizeram por um período inferior a 30 dias.
- Retratamento: Aplica-se a pacientes que já foram tratados para TB por mais de 30 dias e que necessitam de um novo esquema terapêutico. Isso pode ocorrer por:
- Recidiva após Cura (RC).
- Reingresso após Abandono (RA).
Em casos de retratamento, é essencial coletar baciloscopia de escarro, cultura com TSA e realizar TRM antes de reiniciar o esquema.
- Reingresso após Abandono: Caracteriza-se pelo paciente que, após iniciar o tratamento para tuberculose, deixa de comparecer à Unidade Básica de Saúde (UBS) por mais de 30 dias consecutivos, contados a partir da data marcada para seu retorno ou da última tomada supervisionada.
Classificação da Tuberculose Resistente
A resistência aos fármacos antituberculose é um desafio global e exige esquemas terapêuticos específicos.
- TB Multirresistente (MDR): Caracteriza-se pela resistência do bacilo à rifampicina (R) e à isoniazida (I) simultaneamente.
- TB Polirresistente: Define-se pela resistência do bacilo à rifampicina (R) ou à isoniazida (I), associada à resistência a outro fármaco, mas sem a combinação de R e I.
- TB Super-resistente (TBXDR - Extensively Drug-Resistant Tuberculosis): É a forma mais grave de resistência, onde o bacilo é resistente à rifampicina (R) e à isoniazida (I), além de apresentar resistência a uma fluoroquinolona e a um dos três fármacos injetáveis de segunda linha (amicacina, canamicina e capreomicina).
| Tipo de Resistência |
Características |
| Monorresistência |
Resistência a apenas um fármaco, que não seja a rifampicina. |
| Resistência à Rifampicina |
Resistência isolada à rifampicina. |
| Polirresistência |
Resistência a dois ou mais fármacos, mas que não inclui a combinação de rifampicina e isoniazida. |
| Multirresistência (MDR) |
Resistência à rifampicina E à isoniazida. |
| Super-resistência (XDR) |
MDR + resistência a uma fluoroquinolona + resistência a um injetável de segunda linha (amicacina, canamicina ou capreomicina). |
Critérios de Falência Terapêutica
A falência do tratamento da tuberculose é uma situação grave que indica a necessidade de reavaliação e modificação do esquema terapêutico. Os principais critérios são:
- BAAR (+) ao final do tratamento: Persistência de baciloscopia positiva ao término do esquema.
- BAAR (+2/+3) até o 4º mês: Baciloscopia com alta positividade (++/+++) que se mantém até o quarto mês de tratamento.
- BAAR que volta a ser (+) e se mantém por 2 meses consecutivos: Reaparecimento da positividade da baciloscopia após um período de negativação, mantendo-se por dois meses seguidos.
🚨 Conduta em Caso de Falência: Diante de um quadro de falência, é mandatório realizar cultura para micobactérias com Teste de Sensibilidade Antimicrobiana (TSA) para guiar a escolha do novo esquema de tratamento.
🔎 Lembrete: A cultura para micobactérias com TSA é obrigatória para populações vulneráveis (como pessoas vivendo com HIV, indígenas, privados de liberdade, em situação de rua) antes mesmo de iniciar o tratamento, devido ao maior risco de resistência.
Esquemas de Tratamento para Intolerância e Resistência
O manejo da tuberculose com intolerância a fármacos ou resistência exige a adaptação dos esquemas terapêuticos padrão.
Manejo da Intolerância a Fármacos
Em situações de intolerância a um dos fármacos de primeira linha, o esquema deve ser ajustado:
- Intolerância à Rifampicina (R): Esquema de 2 meses com Levofloxacino (L), Isoniazida (I), Pirazinamida (P), Etambutol (E) e Capreomicina/Amicacina (C/A), seguido de 10 meses com Levofloxacino (L), Isoniazida (I) e Etambutol (E) – 2LIPEC/A + 10LIE.
- Intolerância à Isoniazida (I): Esquema de 2 meses com Rifampicina (R), Levofloxacino (L), Pirazinamida (P) e Etambutol (E), seguido de 4 meses com Levofloxacino (L), Etambutol (E) e Rifampicina (R) – 2RLPE/4LER.
- Intolerância à Pirazinamida (P): Esquema de 2 meses com Rifampicina (R), Isoniazida (I) e Etambutol (E), seguido de 7 meses com Rifampicina (R) e Isoniazida (I) – 2RIE/7RI.
- Intolerância ao Etambutol (E): Esquema de 2 meses com Rifampicina (R), Isoniazida (I) e Pirazinamida (P), seguido de 4 meses com Rifampicina (R) e Isoniazida (I) – 2RIP/4RI.
Regras Gerais dos Esquemas Terapêuticos
- Ausência de Rifampicina (R) ou Isoniazida (I): Qualquer esquema que não contenha rifampicina ou isoniazida deverá incluir 4 drogas.
- Esquemas sem Rifampicina (R): A duração total do tratamento será de 12 meses.
- Esquemas sem Isoniazida (I): A duração total do tratamento será de 9 meses.
- Substituição da Isoniazida (I): Em casos de intolerância ou resistência, a isoniazida é frequentemente substituída por Levofloxacino (L).
- Ausência de Etambutol (E) ou Pirazinamida (P): Esquemas que não incluem etambutol ou pirazinamida geralmente não necessitam de droga adicional.
Tuberculose Multirresistente (TB-MDR)
Para casos de TB-MDR (resistência à rifampicina e isoniazida), os esquemas são mais complexos e prolongados:
- Esquema CLEPT (18 meses): Capreomicina, Levofloxacino, Etambutol, Pirazinamida e Terizidona.
- Opção BELELITE (18 meses): Bedaquilina (droga com potencial cardiotóxico), Levofloxacino, Linezolida e Terizidona.
Tipos de Resistência e Condutas Específicas
A seguir, um resumo das condutas para resistências específicas, facilitando a fixação do conteúdo:
| Tipo de Resistência |
Conduta Terapêutica |
| Resistência ao Etambutol (E) |
Seguir com esquema RIP (Rifampicina, Isoniazida, Pirazinamida). |
| Resistência à Pirazinamida (P) |
Seguir com esquema RIE (Rifampicina, Isoniazida, Etambutol) por 9 meses. |
| Resistência à Isoniazida (I) |
Trocar por Levofloxacino (L): 2 meses de RLPE + 4 meses de LER. |
| Resistência à Rifampicina (R) |
Trocar por Capreomicina/Amicacina (C/A) + Levofloxacino (L): 2 meses de LIPEC/A + 10 meses de LIPE. |
| Resistência à Rifampicina (R) e Isoniazida (I) (TB-MDR) |
- Esquema CLEPT (18 meses): Etambutol, Capreomicina/Amicacina, Levofloxacino, Pirazinamida e Terizidona.
- Opção BELELITE (18 meses): Bedaquilina (atenção à cardiotoxicidade), Levofloxacino, Linezolida e Terizidona.
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Controle e Prevenção da Tuberculose
O Brasil adota diversas estratégias para prevenir e controlar a tuberculose, focando na interrupção da transmissão e na proteção das populações vulneráveis.
Estratégias Nacionais de Controle
O Ministério da Saúde (MS) implementa quatro medidas básicas de controle, sendo o tratamento do bacilífero a mais impactante:
- 💊 Tratar o Bacilífero (Medida Principal): O tratamento eficaz de um paciente bacilífero é a medida mais importante, pois ele previne a infecção de aproximadamente 15 pessoas ao longo de um ano. Com 15 dias de tratamento adequado (excluindo casos de resistência), o paciente deixa de ser bacilífero e, consequentemente, de transmitir a doença.
- 🔎 Busca Ativa de Sintomáticos Respiratórios: Investigar qualquer indivíduo com tosse persistente por mais de 3 semanas. Essa busca deve ser intensificada em populações mais vulneráveis, como indígenas, pessoas vivendo com HIV, privados de liberdade, imigrantes e pessoas em situação de rua.
- Notificação e Tratamento Diretamente Observado (TDO): A notificação compulsória dos casos permite o monitoramento epidemiológico, e o TDO assegura a adesão ao tratamento.
- Vacina BCG: Embora não previna a infecção ou o adoecimento pela tuberculose, a vacina BCG é fundamental na prevenção das formas graves da doença em crianças, como a meningite tuberculosa e a TB miliar.
Avaliação de Contactantes
A avaliação de contactantes – pessoas que vivem ou trabalham no mesmo ambiente de um caso bacilífero – é uma estratégia crucial para identificar novos casos e infecções latentes. A abordagem envolve:
- Avaliação Clínica e Radiografia de Tórax: São os primeiros passos na investigação.
Investigação de Doença Ativa
- Sintomáticos e/ou Radiografia de Tórax Alterada: Nesses casos, o foco é avaliar a presença de doença ativa (TB ativa). Deve-se realizar Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TR-TB) e/ou baciloscopia (BAAR).
Investigação de Infecção Latente
- Assintomáticos e Radiografia de Tórax Normal: Para esses indivíduos, o objetivo é avaliar o risco de doença (TB latente), utilizando o Teste Tuberculínico (PPD) ou o Teste de Liberação de Interferon-Gama (IGRA).
Interpretação de PPD e IGRA
- PPD Não Reator (< 5mm) ou IGRA Negativo: Indica que não há infecção no momento da testagem. Recomenda-se repetir o teste em 8 semanas, pois a imunidade específica leva de 3 a 8 semanas para se desenvolver após a exposição. Uma "viragem" (aumento de 10mm no PPD) indica infecção recente.
- PPD Reator (≥ 5mm) ou IGRA Positivo: Indica a presença de infecção. Nesses casos, o tratamento da tuberculose latente deve ser considerado.
🧠 Conceito Chave: O Ministério da Saúde (MS) enfatiza que a vacina BCG não interfere na leitura do PPD. Portanto, um PPD reator em um indivíduo vacinado com BCG deve ser interpretado como infecção por Mycobacterium tuberculosis.
Tratamento da Infecção Latente por Tuberculose (ILTB)
A Infecção Latente por Tuberculose (ILTB) representa um estado em que o indivíduo está infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, mas não apresenta sinais ou sintomas da doença ativa. O tratamento da ILTB é uma estratégia fundamental no controle da tuberculose, visando prevenir a progressão da infecção para a doença ativa, especialmente em grupos de alto risco.
Diagnóstico da Infecção Latente por Tuberculose
O diagnóstico da ILTB é realizado principalmente por meio de dois testes: o Teste Tuberculínico (PPD) e os Interferon Gamma Release Assays (IGRA).
Teste Tuberculínico (PPD)
O PPD, ou Derivado Proteico Purificado do bacilo de Koch, é administrado por inoculação intradérmica. A leitura é realizada entre 48 e 72 horas após a aplicação, podendo ser estendida até 96 horas, medindo-se o maior diâmetro transverso da área de enduração.
- Avaliação inicial: O PPD deve ser avaliado nos contactantes logo no primeiro momento da abordagem.
- Viragem Tuberculínica: Em contatos recentes, é crucial repetir o teste após 8 semanas para identificar a viragem tuberculínica, que indica uma infecção recente.
💡 Dica: A viragem tuberculínica é definida como um aumento de ≥ 10mm na segunda leitura do PPD em relação à primeira, em um período de até 1 ano.
Interferon Gamma Release Assays (IGRA)
Após períodos de desabastecimento de PPD, o Ministério da Saúde passou a aceitar os Interferon Gamma Release Assays (IGRA) como método diagnóstico para ILTB. Estes testes se destacam por sua especificidade superior a 95%.
- Vantagem: O IGRA não sofre interferência da vacinação prévia com BCG, o que o torna útil em populações vacinadas.
- Limitação: É fundamental compreender que o IGRA não distingue entre infecção latente e tuberculose ativa. Portanto, não deve ser utilizado para o diagnóstico de tuberculose ativa.
- Método: É um exame realizado a partir de uma amostra de sangue.
⚠️ Atenção: O IGRA é um excelente teste para diagnosticar infecção, mas sua incapacidade de diferenciar entre ILTB e TB ativa significa que ele não substitui a investigação clínica e radiológica para a doença ativa.
Esquemas Terapêuticos para ILTB
A escolha do esquema terapêutico para a ILTB depende de fatores como idade do paciente, comorbidades e tolerância aos medicamentos. O Ministério da Saúde atualizou as recomendações, priorizando esquemas mais curtos e eficazes.
Esquema Preferencial: Isoniazida + Rifapentina (3HP)
Este esquema, que consiste na administração de isoniazida e rifapentina uma vez por semana durante 3 meses (total de 12 doses), é atualmente o tratamento preferencial para diversas populações.
- Posologia: Doses semanais (12 doses) administradas 1x/semana por 3 meses.
- Dose para adultos: 900mg de rifapentina + 900mg de isoniazida por dose semanal.
- Populações indicadas: Inclui adultos, crianças acima de 2 anos, idosos e Pessoas Vivendo com HIV (PVHIV).
| Medicamento |
Posologia Recomendada (Adultos > 14 anos e ≥ 30kg) |
Nº de Comprimidos/Dose Semanal |
Quantitativo Total por Tratamento (12 doses) |
| Rifapentina |
900mg/1x na semana |
6 comprimidos de Rifapentina 150mg/dose |
72 comprimidos de Rifapentina 150mg |
| Isoniazida |
900mg/1x na semana |
3 comprimidos de Isoniazida 300mg/dose |
36 comprimidos de Isoniazida 300mg |
Esquemas Alternativos
Existem outras opções de tratamento para a ILTB, que podem ser utilizadas em situações específicas ou quando o esquema preferencial não é viável.
- Alternativa 1: Isoniazida (6H ou 9H)
- Duração: 6 a 9 meses (180 doses diárias) ou 9 a 12 meses (270 doses diárias).
- Eficácia: O esquema de 270 doses possui melhor eficácia quando comparado com o esquema de 180 doses.
- Consideração: Anteriormente considerado o esquema preferencial.
- Alternativa 2: Rifampicina (4R)
- Duração: 4 a 6 meses (120 doses diárias).
- Populações preferenciais: É o esquema preferencial para crianças menores de 10 anos, indivíduos com mais de 50 anos, pacientes com hepatopatia ou aqueles que apresentam intolerância à isoniazida.
| Esquema de Tratamento |
Medicamentos |
Tempo de Tratamento/Número de Doses |
Observações |
| 6H ou 9H |
Isoniazida (H) |
6 meses/180 doses diárias ou 9 meses/270 doses diárias |
Esquema de 270 doses tem melhor eficácia. |
| 3HPa |
Isoniazida (H) + Rifapentina (P) |
3 meses/12 doses semanais |
Atualmente o esquema preferencial. |
| 4R |
Rifampicina (R) |
4 meses/120 doses diárias |
Preferencial em < 10 anos, > 50 anos, hepatopatia ou intolerância à isoniazida. |
Indicações para o Tratamento da Infecção Latente por Tuberculose
A decisão de tratar a ILTB é baseada na avaliação do risco de progressão para a doença ativa, considerando fatores como exposição, estado imunológico e comorbidades. As indicações são categorizadas conforme a presença ou não de testes diagnósticos e os resultados do PPD ou IGRA.
Indicação de Tratamento Sem PPD ou IGRA Realizados (Alto Risco)
Em algumas situações de altíssimo risco, o tratamento da ILTB é indicado mesmo sem a realização prévia de PPD ou IGRA, devido à iminente exposição ou imunossupressão severa:
- Recém-nascidos: Coabitantes de caso fonte confirmado por critério laboratorial.
- Pessoas Vivendo com HIV (PVHIV):
- Contatos de TB pulmonar com confirmação laboratorial.
- Com contagem de células CD4+ ≤ 350 cel/µl.
- Com registro documental de PPD ≥ 5mm ou IGRA positivo prévio e que não foram submetidas ao tratamento da ILTB na ocasião.
- Com radiografia de tórax apresentando cicatriz radiológica de TB, sem tratamento anterior para TB ativa.
🚨 Alerta: Para PVHIV, a imunossupressão confere um risco tão elevado que a profilaxia pode ser iniciada mesmo sem teste, em cenários específicos.
Indicação de Tratamento com PPD ≥ 5mm ou IGRA Positivo
Para os seguintes grupos, o tratamento da ILTB é indicado se o PPD for ≥ 5mm ou o IGRA for positivo, independentemente da vacinação prévia com BCG:
- Contactantes: Adultos e crianças que tiveram contato com casos de TB ativa.
- PVHIV: Com CD4+ > 350 cel/µl ou sem contagem de CD4+ realizada.
- Alterações Radiológicas: Indivíduos com alterações radiológicas fibróticas sugestivas de sequela de TB (sem tratamento anterior para TB ativa).
- Imunossupressão Medicamentosa:
- Indivíduos em uso de inibidores do TNF-alfa.
- Indivíduos em uso de corticosteroides (≥ 15mg de prednisona por mais de um mês).
- Pré-transplante: Indivíduos em pré-transplante de órgãos que farão terapia imunossupressora.
🧠 Conceito Chave: Um PPD ≥ 5mm é considerado reator em contactantes e imunodeprimidos, indicando a necessidade de tratamento da ILTB.
Indicação de Tratamento com PPD ≥ 10mm ou IGRA Positivo
Para estes grupos, o tratamento da ILTB é indicado se o PPD for ≥ 10mm ou o IGRA for positivo:
- Silicose: Pacientes com silicose.
- Neoplasias:
- Neoplasias de cabeça e pescoço, linfomas e outras neoplasias hematológicas.
- Neoplasias em terapia imunossupressora.
- Insuficiência Renal Crônica (IRC): Pacientes em diálise.
- Diabetes Mellitus: Pacientes com diabetes.
- Baixo Peso: Indivíduos com baixo peso (< 85% do peso ideal).
- Tabagismo: Indivíduos tabagistas (> 1 maço/dia).
- Achados Radiológicos: Indivíduos com calcificação isolada (sem fibrose) na radiografia de tórax.
🔎 Diagnóstico: Um PPD ≥ 10mm é o limiar para indicar tratamento em pacientes com doenças debilitantes que aumentam o risco de reativação.
Indicação de Tratamento por Conversão Tuberculínica
A conversão tuberculínica é um forte indicador de infecção recente e requer tratamento da ILTB:
- Definição: Segunda PPD com incremento de ≥ 10mm em relação à primeira PPD, em um período de até 1 ano.
- Populações:
- Indivíduos contactantes de TB confirmada por critério laboratorial.
- Profissionais de saúde.
- Trabalhadores de instituições de longa permanência.
💊 Tratamento Essencial: Lembre-se, o tratamento da ILTB é sempre indicado, exceto quando há evidência de doença ativa. Em PVHIV, se houver sintomas de TB, o tratamento é para TB ativa (RIPE); se assintomático, o tratamento é para ILTB (isoniazida).
Prevenção da Infecção Latente por Tuberculose em Recém-Nascidos
A prevenção da ILTB em recém-nascidos que são contactantes de casos bacilíferos é uma medida de saúde pública crucial para proteger essa população vulnerável.
Quem Prevenir?
- Recém-nascidos contactantes de casos de tuberculose pulmonar bacilífera.
Como Prevenir?
A estratégia de prevenção envolve a não administração da vacina BCG ao nascer e a quimioprofilaxia com avaliação posterior:
- Não vacinar: A não administração da vacina BCG ao nascer é uma medida crucial neste cenário.
- Quimioprofilaxia inicial: Administrar isoniazida ou rifampicina por três meses.
- Reavaliação com PPD: Após os três meses de quimioprofilaxia, realizar um teste PPD.
- Se PPD ≥ 5mm: Estender o tratamento com isoniazida por mais três meses ou rifampicina por mais um mês. A vacina BCG não deve ser aplicada.
- Se PPD < 5mm: A medicação pode ser suspensa e a vacina BCG deve ser administrada.
👶 Cuidado Pediátrico: A profilaxia em RN contactantes é uma intervenção de alto impacto para evitar a progressão para formas graves de TB na infância.