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Artrites


Artrite Reumatoide

Epidemiologia

A artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória crônica, autoimune e sistêmica que acomete aproximadamente 1% da população brasileira. Apresenta nítida predileção pelo sexo feminino, especialmente mulheres em idade adulta.

Características Epidemiológicas

💡 Dica de ouro para provas: Na reumatologia, a maioria das doenças predomina no sexo feminino. Memorize as exceções importantes:

Patogênese

A artrite reumatoide possui etiologia idiopática com importante participação imunológica. O processo fisiopatológico central envolve inflamação crônica da membrana sinovial, levando progressivamente à destruição articular irreversível.

Mecanismos Imunológicos

A doença caracteriza-se pela presença de autoanticorpos e citocinas pró-inflamatórias que perpetuam o processo inflamatório:

Marcadores Sorológicos

Fisiopatologia da Destruição Articular

🧠 Conceito fundamental: AR = SINOVITE CRÔNICA → DESTRUIÇÃO ARTICULAR

Para compreender a fisiopatologia, é essencial revisar a anatomia articular:

O alvo primário da inflamação na AR é a membrana sinovial (bolsa sinovial) das articulações diartrodiais. A sequência fisiopatológica ocorre da seguinte forma:

  1. Inflamação crônica e recorrente da membrana sinovial (sinovite)
  2. Formação de pannus (tecido de granulação inflamatório)
  3. Invasão e destruição progressiva da cartilagem articular
  4. Erosão óssea justarticular
  5. Redução do espaço articular
  6. Comprometimento de tendões e ligamentos
  7. Deformidades articulares e subluxações
A artrite reumatoide é a ÚNICA artropatia inflamatória que causa destruição articular progressiva e irreversível. Outras doenças autoimunes (como lúpus eritematoso sistêmico) podem causar artrite, mas não levam à destruição óssea.

Manifestações Clínicas

A artrite reumatoide é considerada uma "doença sistêmica com marco articular", caracterizada por sinovite persistente que evolui para deformidade articular progressiva.

Padrão de Acometimento Articular

💡 Regra de ouro: "Mãos, pés, punhos e pronto!"

O quadro articular típico apresenta as seguintes características:

Articulações Mais Acometidas
🚨 Muito importante: As articulações interfalangeanas distais (IFD) são POUPADAS na AR! Se houver acometimento inflamatório das IFD, considerar diagnósticos alternativos como osteoartrose ou artrite psoriásica.

Deformidades Articulares Características

A sinovite crônica leva ao desenvolvimento de deformidades típicas que auxiliam no diagnóstico clínico:

Deformidades das Mãos
Deformidades dos Punhos
Deformidades dos Joelhos
Deformidades dos Pés

Acometimento do Esqueleto Axial

O esqueleto axial geralmente é poupado na AR, com uma importante exceção: coluna cervical.

🚨 Emergência reumatológica: Aproximadamente 10% dos pacientes desenvolvem acometimento da articulação atlanto-axial (C1-C2), o que representa uma complicação grave e potencialmente fatal.
Complicações Cervicais
1. Subluxação Atlanto-Axial

A artrite entre C1 e C2 pode evoluir com deslizamento de C1 sobre C2, com risco de compressão medular alta.

2. Cricoaritenoidite

Inflamação da articulação cricoaritenóidea da laringe, manifestando-se inicialmente com rouquidão. Pode evoluir com processo inflamatório intenso levando à insuficiência respiratória aguda por obstrução de via aérea.

Achados Radiológicos

As alterações radiográficas típicas da AR incluem:

Manifestações Extra-articulares

As manifestações extra-articulares ocorrem principalmente em pacientes com doença mais grave e estão associadas a altos títulos de FR e anti-CCP, indicando pior prognóstico.

🧠 Conceito importante: A AR pode formar nódulos reumatoides inflamatórios e causar vasculite em praticamente qualquer órgão ou tecido do organismo.

Mnemônico "PEGUEI NOSJO DE VASCA"

💡 Memorize:

Manifestações por Sistema

Manifestações Cutâneas
Manifestações Cardíacas
Manifestações Pulmonares
🔬 Síndrome de Caplan: Embora rara, é frequentemente cobrada em provas de residência. Trata-se da associação entre artrite reumatoide, nódulos reumatoides pulmonares e pneumoconiose dos trabalhadores expostos ao carvão.
Manifestações Neurológicas
Manifestações Oculares
Sistema Manifestação Mais Comum Outras Manifestações
Cardíaco Pericardite Aterosclerose acelerada, nódulos cardíacos, vasculite coronariana
Pulmonar Derrame pleural (glicose < 25mg/dL) Nódulos, doença intersticial, Síndrome de Caplan
Ocular Síndrome de Sjögren (xeroftalmia) Episclerite, esclerite, escleromalácia, uveíte
Cutâneo Nódulos reumatoides (região olecraniana) Vasculite cutânea (leve a grave)
Neurológico Síndrome do túnel do carpo Mielopatia C1-C2, vasculite de vasa nervorum, neuropatia periférica

Critérios de Mau Prognóstico

Determinadas características clínicas e laboratoriais indicam maior probabilidade de evolução desfavorável da doença, com maior risco de destruição articular acelerada e manifestações extra-articulares graves.

⚠️ Fatores de mau prognóstico na AR:

Síndrome de Felty

A Síndrome de Felty representa uma complicação grave da artrite reumatoide de longa evolução, caracterizada pela tríade clássica:

🚨 Tríade da Síndrome de Felty:
  1. Artrite reumatoide de longa duração
  2. Esplenomegalia
  3. Neutropenia (< 2.000 neutrófilos/mm³)
Características da Síndrome de Felty
Fisiopatologia

A síndrome resulta de esplenomegalia com hiperesplenismo:

💡 Resumo para fixação rápida:

Diagnóstico

O diagnóstico da artrite reumatoide é baseado em critérios clínicos, laboratoriais e de imagem. Os critérios de classificação ACR/EULAR (American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism) são amplamente utilizados e atribuem pontos a diferentes características, sendo que uma pontuação total maior ou igual a 6 estabelece o diagnóstico de AR.

Critérios Diagnósticos (ACR/EULAR)

Domínio Características Pontuação
Acometimento Articular
(desconsiderar IFD)
  • 1 articulação grande
  • 2-10 articulações grandes
  • 1-3 articulações pequenas
  • 4-10 articulações pequenas
  • > 10 articulações (sendo pelo menos 1 pequena)
  • 0
  • 1
  • 2
  • 3
  • 5
Sorologia
(FR e/ou anti-CCP)
  • Ambos negativos
  • Baixos títulos (acima do limite superior da normalidade, mas ≤ 3x)
  • Altos títulos (> 3x o limite superior da normalidade)
  • 0
  • 2
  • 3
Reagentes de Fase Aguda
(VHS/PCR)
  • Ambos normais
  • Aumentados (VHS > 30 mm/h ou PCR > 0,5 mg/dL)
  • 0
  • 1
Duração da Artrite
  • < 6 semanas
  • > 6 semanas
  • 0
  • 1
🧠 Lembre-se: O Fator Reumatoide (FR) e o Anti-CCP são marcadores diagnósticos e prognósticos, mas NÃO são indicadores de atividade da doença. Os parâmetros que refletem o grau de atividade inflamatória da AR são a Velocidade de Hemossedimentação (VHS) e a Proteína C Reativa (PCR).

Em um contexto de prova, algumas características clínicas e laboratoriais são altamente sugestivas de artrite reumatoide, mesmo antes da aplicação formal dos critérios:

🔎 Características-chave para o diagnóstico de AR:

Diagnóstico Diferencial: Síndrome Reumatoide

A "Síndrome Reumatoide" refere-se a quadros clínicos que mimetizam a artrite reumatoide, mas que não preenchem todos os critérios diagnósticos para AR. A principal causa é a poliartrite viral.

Etiologia

A principal causa de síndrome reumatoide é a poliartrite viral, que pode ser desencadeada por diversos vírus, incluindo:

Diagnóstico

O diagnóstico da poliartrite viral é feito por exclusão de outras causas de artrite e pela sorologia viral específica.

Tratamento

O tratamento é primariamente sintomático, utilizando analgésicos e anti-inflamatórios não esteroides (AINES). A poliartrite viral é geralmente uma condição autolimitada.

Tratamento

Historicamente, o tratamento da artrite reumatoide focava apenas no alívio sintomático com AINES e corticoides. No entanto, essas drogas não modificam a evolução da doença nem previnem a destruição articular. Atualmente, a abordagem visa controlar a inflamação, prevenir danos estruturais e melhorar a função, utilizando as Drogas Modificadoras da Evolução da Doença (DMARDs).

Abordagem Terapêutica

O tratamento moderno da AR preconiza a associação de DMARDs com medicamentos sintomáticos, especialmente nas fases iniciais ou de exacerbação.

Sintomáticos

Utilizados para alívio rápido da dor e inflamação, mas não alteram o curso da doença:

Drogas Modificadoras da Evolução da Doença (DMARDs)

São a base do tratamento da AR, pois atuam nos mecanismos imunológicos da doença, prevenindo a progressão da lesão articular.

DMARDs Convencionais (sintéticos)
💊 Atenção ao MTX: Devido ao risco de mielotoxicidade, é fundamental prescrever ácido fólico concomitantemente (geralmente 5 mg/semana, em dia diferente do MTX) para reduzir os efeitos adversos.
Drogas Biológicas (DMARDs biológicos)

São medicamentos que agem em alvos moleculares específicos do sistema imunológico.

⚠️ Risco de infecções: O uso de drogas biológicas aumenta o risco de reativação de infecções latentes, como tuberculose (TB) e hepatite B. É obrigatório rastrear tuberculose latente (com PPD/IGRA e radiografia de tórax) e hepatite B antes de iniciar qualquer terapia biológica.

Ordem de Retirada na Remissão

Quando o paciente atinge a remissão da doença, a retirada gradual dos medicamentos deve seguir uma ordem específica para minimizar o risco de recidiva:


Artrite Idiopática Juvenil

A Artrite Idiopática Juvenil (AIJ) é a doença reumática crônica mais comum na infância, caracterizada por artrite persistente em crianças e adolescentes.

Conceitos Iniciais

A AIJ é definida por:

💡 Epidemiologia: Assim como a AR em adultos, a AIJ é mais comum em mulheres (meninas).

Formas Clínicas

A AIJ é classificada em diferentes subtipos, cada um com características clínicas e prognósticas distintas.

Forma Oligoarticular (< 4 articulações)

👁️‍🗨️ Atenção ocular: Se o Fator Antinuclear (FAN) for positivo, há um risco elevado de uveíte anterior crônica, uma complicação ocular grave que pode levar à cegueira. Nesses casos, o paciente deve ser referenciado para acompanhamento oftalmológico regular, independentemente da forma clínica da AIJ.

Doença de Still (Forma Sistêmica)

É a forma mais grave da AIJ, caracterizada por manifestações sistêmicas proeminentes, além da artrite.

🚨 Síndrome de Ativação Macrofágica (SAM):

A Doença de Still apresenta um risco de até 40% de desenvolver SAM, uma complicação rara, mas potencialmente fatal. A SAM é uma síndrome de hiperinflamação grave, decorrente de uma ativação excessiva e descontrolada de macrófagos e linfócitos T.

Achados clínicos e laboratoriais da SAM:

Forma Poliarticular (> 4 articulações)

Esta forma da AIJ é clinicamente semelhante à artrite reumatoide do adulto.

👁️‍🗨️ Atenção ocular: Assim como na forma oligoarticular, se o FAN for positivo, há risco de uveíte anterior crônica, exigindo acompanhamento oftalmológico.

Preditores de Mau Prognóstico

Alguns fatores indicam um curso mais agressivo da AIJ e maior risco de danos articulares e funcionais a longo prazo:


Espondiloartropatias Soronegativas

As espondiloartropatias soronegativas (EpA) representam um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias crônicas que compartilham características clínicas, genéticas e patogênicas. São denominadas "soronegativas" pela ausência do Fator Reumatoide (FR) no soro dos pacientes.

Características Comuns das Espondiloartropatias

Este grupo de doenças é unificado por diversos fatores:

As principais doenças que compõem este grupo são:

Espondilite Anquilosante

Introdução

A Espondilite Anquilosante (EA) é o protótipo das espondiloartropatias e a mais frequentemente abordada em exames. É frequentemente descrita como o "oposto" da Artrite Reumatoide (AR) em muitos aspectos fundamentais.

Característica Artrite Reumatoide (AR) Espondilite Anquilosante (EA)
Epidemiologia Mulheres de meia-idade Homens jovens (pico: 23 anos)
Alvo da Inflamação Membrana sinovial (sinovite) Êntese (entesite)
Destruição Articular? Sim (erosões, pannus) Não (mas há calcificação e fusão)
Articulações Acometidas Diartroses (pequenas articulações periféricas) Esqueleto axial (sacroilíacas, coluna)

Clínica e Imagem

A EA é caracterizada por um processo ascendente e calcificante. A queixa inicial mais comum é desconforto lombar, que geralmente se manifesta por volta dos 40 anos, com caráter crônico e persistente por mais de 3 meses. É classicamente associada a rigidez matinal que melhora com a movimentação e piora com o repouso.

Acometimento Articular
Semiologia

Manobras específicas podem auxiliar na avaliação do comprometimento da coluna e sacroilíacas:

Exames de Imagem
Imagem ilustrativa de sacroileíte em exame de imagem.
Progressão da Doença
Imagem ilustrativa de coluna em bambu.

Manifestações Extra-articulares

A EA pode apresentar manifestações sistêmicas importantes:

Imagem ilustrativa de uveíte anterior.

Diagnóstico

O diagnóstico da EA é clínico e radiológico, com ênfase na detecção precoce. Os critérios de classificação ASAS (Assessment of SpondyloArthritis International Society) são amplamente utilizados.

Critérios de Classificação ASAS para Espondiloartrite Axial

Para pacientes com dor lombar ≥ 3 meses e idade de início < 45 anos:

Características de Espondiloartrite (Critérios Comemorativos)
🧠 Lembre-se: Não é necessário decorar todos os critérios, mas entender o perfil do paciente: jovem, com dor lombar crônica inflamatória, sacroileíte e/ou HLA-B27 positivo, e algumas manifestações associadas.

Tratamento

O tratamento da EA visa controlar a inflamação, aliviar a dor, manter a mobilidade e prevenir deformidades.

Tríade Básica
Terapias Avançadas
⚠️ O que NÃO usar:

Artrite Reativa

Introdução

A Artrite Reativa (ARe) é uma espondiloartropatia que se desenvolve como uma resposta da articulação a uma infecção bacteriana distante, ou seja, a bactéria não está presente na articulação inflamada. O grande protótipo é a Síndrome de Reiter.

Agentes Infecciosos Comuns

A história típica envolve uma infecção à distância, seguida por um período de 1 a 4 semanas, e então o desenvolvimento de mono ou oligoartrite assimétrica de grandes articulações, comumente joelhos e tornozelos.

Clínica

A Síndrome de Reiter é a apresentação clássica da artrite reativa, caracterizada pela tríade:

Existem duas formas principais:

💡 Proporção entre sexos: Diferente da AR e EA, a artrite reativa tem uma proporção de acometimento igual entre homens e mulheres (1:1).
Outras Manifestações Associadas
Padrão de Acometimento Articular

O padrão característico da artrite reativa é uma oligo ou monoartrite assimétrica, afetando predominantemente grandes articulações, sendo o joelho a mais comum.

🚨 Ponto de atenção na emergência: A principal causa de monoartrite no Brasil é a artrite infecciosa (séptica), geralmente por Staphylococcus aureus. A artrite reativa é a segunda causa mais comum. Em todo paciente com monoartrite, é mandatório realizar a punção articular para análise do líquido sinovial.

Diagnóstico

O diagnóstico da artrite reativa é essencialmente clínico. Não existem autoanticorpos específicos para dosar no sangue. A exclusão de artrite infecciosa é crucial. A presença das manifestações extra-articulares (ceratoderma blenorrágico, balanite circinada, dactilite, uveíte anterior, sacroileíte assimétrica) auxilia no diagnóstico.

Imagem ilustrativa de ceratoderma blenorrágico.

Tratamento

O tratamento inicial é com AINES. O prognóstico da artrite reativa é geralmente bom, com um curso autolimitado que dura alguns meses. Em casos de refratariedade, a sequência terapêutica pode incluir:

Se houver infecção ativa subjacente, o tratamento com antibióticos apropriados é fundamental.

Artrite Psoriásica

Introdução

A Artrite Psoriásica (AP) é uma espondiloartropatia inflamatória crônica que afeta pacientes com psoríase cutânea ou ungueal. É caracterizada pela associação de artrite e psoríase, embora a artrite possa, em alguns casos (15%), preceder as manifestações cutâneas.

Clínica

A psoríase é um quadro cutâneo com lesões eritematodescamativas em áreas como couro cabeludo, cotovelos, joelhos, umbigo, glúteos e pés. O acometimento das unhas (onicodistrofia psoriásica) é também uma característica importante e pode ser um diferencial.

Imagem ilustrativa de onicodistrofia psoriásica (unhas com pitting, onicólise).
Padrões de Acometimento Articular

A AP é notável pela sua grande variabilidade de apresentação articular, podendo mimetizar outras artrites. Existem 5 formas principais:

Outras Manifestações

Diagnóstico

O diagnóstico da artrite psoriásica é clínico, baseado na presença de psoríase e artrite. O Fator Reumatoide negativo e a presença de HLA-B27 positivo podem ser achados de suporte.

🧠 Dica para provas: Em geral, o paciente terá a associação de artrite + psoríase. A variabilidade do padrão articular é uma característica marcante, mas a presença da psoríase é o elo diagnóstico.

Tratamento

O tratamento da AP visa controlar a inflamação articular e cutânea, aliviar os sintomas e prevenir a progressão da doença.

Característica Artrite Reumatoide Espondilite Anquilosante Artrite Reativa Artrite Psoriásica
Fisiopatologia Sinovite crônica Entesite crônica Resposta a infecção à distância Variável
Padrão articular Mãos, pés, punhos
Bilateral/simétrico
Axial ascendente
Calcificante
Mono/oligoartrite assimétrica
Grandes articulações (joelho)
Qualquer padrão
+ IFD
+ Mutilante
Epidemiologia Mulheres 3:1
40-60 anos
Homens jovens
Pico: 23 anos
H = M
Adultos jovens
H = M
30-50 anos
HLA-B27 Negativo 90-95% positivo 80-85% positivo 50-60% positivo
Fator Reumatoide Positivo (70-80%) Negativo Negativo Negativo
Manifestação característica Nódulos reumatoides
Deformidades em mãos
Sacroileíte bilateral
"Coluna em bambu"
Tríade de Reiter
Ceratoderma blenorrágico
Psoríase
Alterações ungueais
Uveíte Rara 30% (recorrente) Possível 7-20%
Dactilite Não Rara Comum Comum (30-40%)
Prognóstico Crônico progressivo Crônico progressivo Autolimitado (3-6 meses) Variável
Tratamento 1ª linha Metotrexato AINE + Fisioterapia AINE AINE (leve)
Metotrexato (moderado/grave)
Papel dos biológicos Anti-TNF, Anti-CD20, Anti-IL-6 Anti-TNF, Anti-IL-17 Raramente necessário Anti-TNF, Anti-IL-17, Anti-IL-12/23

Resumo High Yield para Provas de Residência

🎯 Espondilite Anquilosante

Paciente típico: Homem jovem (< 30 anos), dor lombar crônica (> 3 meses), melhora com movimento, rigidez matinal

Achado patognomônico: Sacroileíte bilateral simétrica

Complicação mais temida: Fratura vertebral ("coluna em bambu")

Manifestação extra-articular mais comum: Uveíte anterior recorrente (30%)

Tratamento: AINE (indometacina) + Fisioterapia + Natação → Anti-TNF se refratário

NÃO usar: Corticoide sistêmico, Metotrexato
🎯 Artrite Reativa

Paciente típico: Adulto jovem, monoartrite de joelho, história de diarreia ou uretrite 1-4 semanas antes

Tríade de Reiter: Artrite + Conjuntivite + Uretrite

Achados patognomônicos: Balanite circinada, Ceratoderma blenorrágico

Diagnóstico diferencial crucial: Artrite séptica (punção articular obrigatória!)

Prognóstico: BOM! Autolimitada (3-6 meses)

Tratamento: AINE + ATB se Chlamydia ativa
🎯 Artrite Psoriásica

Paciente típico: Adulto com psoríase cutânea + artrite (qualquer padrão)

Padrão característico: Acometimento de IFD + alterações ungueais (pitting nail)

Forma mais grave: Artrite mutilante ("dedos em telescópio", "mãos em binóculo")

Diagnóstico diferencial: AR (FR negativo!), Osteoartrite (processo inflamatório!)

Tratamento: Leve (AINE) → Moderado/Grave (Metotrexato ou Anti-TNF)
💡 Dicas Finais Para Prova

FR negativo + HLA-B27 positivo + Jovem + Axial = Espondiloartropatia!

Monoartrite aguda = SEMPRE puncionar! (1º artrite séptica, 2º artrite reativa)

Lombalgia que melhora com movimento = Inflamatória (espondilite)

Lombalgia que piora com movimento = Mecânica (hérnia, tumor)

Esporão de calcâneo = Qualquer espondiloartropatia!

Dactilite = Artrite reativa ou psoriásica

Uveíte recorrente = Espondilite anquilosante
🧠 Conceito unificador: Todas as espondiloartropatias compartilham: soronegatividade para fator reumatoide, predileção por envolvimento axial, entesite proeminente, associação com HLA-B27 e potencial para manifestações extra-articulares (especialmente uveíte anterior). A diferenciação baseia-se principalmente no padrão clínico, manifestações associadas e contexto epidemiológico.

Artrite Gotosa

A artrite gotosa, comumente conhecida como gota, é uma condição inflamatória articular causada pelo depósito de cristais de urato monossódico. Este fenômeno ocorre devido a um desequilíbrio na relação entre a concentração de ácido úrico no sangue e sua capacidade de solubilização.

🧠 Conceito Central: A gota surge quando a concentração de ácido úrico no sangue excede seu limite de solubilidade, levando à formação e precipitação de cristais.

Introdução e Fisiopatologia Básica

Imagine uma solução onde a quantidade de soluto (ácido úrico) excede a capacidade do solvente (sangue) de mantê-lo dissolvido. Quando isso acontece, o soluto precipita, formando cristais. No contexto da gota, um aumento na concentração de ácido úrico no sangue (hiperuricemia) leva à formação de cristais de urato monossódico, que se depositam em diversas estruturas, principalmente nas articulações.

Observações Fisiopatológicas Importantes

💡 Dica para Prova: Mulheres podem desenvolver gota, mas geralmente após a menopausa, quando os níveis de estrogênio diminuem, reduzindo a proteção renal.

Epidemiologia e Fatores de Risco

A gota é uma doença com predileção por um perfil específico de pacientes e está associada a diversos fatores de risco modificáveis e não modificáveis.

⚠️ Atenção: O álcool é um fator de risco duplo, pois tanto aumenta a produção quanto diminui a eliminação do ácido úrico.

Metabolismo do Ácido Úrico

Para entender a gota, é fundamental conhecer a origem e a via de eliminação do ácido úrico no organismo.

Origem do Ácido Úrico

Eliminação do Ácido Úrico

Causas da Hiperuricemia

O aumento dos níveis de ácido úrico no sangue pode ser atribuído a dois mecanismos principais:

Mecanismo Descrição Exemplos/Causas
Superprodução de Ácido Úrico O organismo produz ácido úrico em excesso. Dieta rica em purinas, consumo de álcool, síndromes de lise tumoral, deficiências enzimáticas.
Subeliminação de Ácido Úrico Os rins não conseguem eliminar o ácido úrico de forma eficiente. Insuficiência renal, uso de diuréticos (tiazídicos), obesidade, hipotireoidismo, cetoacidose.

Clínica e História Natural da Gota

A gota é uma doença que evolui em estágios, desde a hiperuricemia assintomática até a forma crônica com formação de tofos.

Ciclo da Gota

Estágios da Gota

  1. Hiperuricemia Assintomática: Níveis elevados de ácido úrico sem manifestações clínicas.
  2. Artrite Gotosa Aguda: Crises inflamatórias articulares súbitas e intensas.
  3. Gota Intercrítica: Períodos assintomáticos entre as crises agudas.
  4. Gota Tofosa Crônica: Formação de depósitos de cristais (tofos) e complicações sistêmicas.

A gota é caracterizada por crises agudas de inflamação seguidas por períodos de remissão. Com o tempo, a repetição das crises pode levar à formação de tofos, que são acúmulos de cristais de urato monossódico cercados por tecido granulomatoso.

🔎 Perfil Típico: O paciente gotoso clássico é um homem adulto, obeso, com histórico de consumo de álcool e dieta rica em carnes vermelhas.

Locais de Depósito do Ácido Úrico

Os cristais de urato monossódico tendem a se depositar em locais com características específicas:

(1) Hiperuricemia Assintomática (> 7 mg/dL)

Nesta fase, ocorre a precipitação de cristais de ácido úrico na circulação, mas sem sintomas articulares. É importante notar que apenas cerca de 5% dos indivíduos com hiperuricemia assintomática evoluem para gota, enquanto a maioria (95%) permanece assintomática por toda a vida. Nos 5% que evoluem, os cristais se acumulam nas articulações, desencadeando uma resposta inflamatória mediada por leucócitos, que fagocitam esses cristais, resultando na artrite gotosa aguda.

(2) Artrite Gotosa Aguda

Caracteriza-se por uma monoartrite aguda, uma reação inflamatória intensa dos leucócitos articulares aos cristais de ácido úrico. Esta crise é frequentemente precipitada por variações abruptas na uricemia ou por trauma articular. A fagocitose dos cristais pelos leucócitos leva à sua morte e à liberação de enzimas lisossômicas, resultando em uma inflamação severa, com dor, vermelhidão, inchaço e calor local, podendo ser acompanhada de febre e calafrios.

Fatores Precipitantes da Crise Aguda
Articulação Mais Acometida

Devido à predileção da gota por locais frios, as articulações mais distais são as mais afetadas.

As crises tendem a ser mais típicas e intensas quanto mais distal for a localização. O acometimento de articulações acima da cintura (punhos, cotovelos) geralmente indica maior gravidade e cronicidade da doença.

🚨 Alerta para Prova: Um homem de meia-idade com inflamação aguda no pé deve ser considerado gota até prova em contrário. Pacientes com hiperuricemia prolongada podem ter uma crise gotosa mesmo com níveis séricos de ácido úrico normais ou baixos durante a crise.

(3) Gota Intercrítica

Este é o período assintomático entre as crises agudas de gota. Durante esta fase, os níveis de ácido úrico podem estar elevados, e os cristais continuam a se depositar, preparando o terreno para futuras crises ou para a evolução para a gota tofosa crônica.

(4) Gota Tofosa Crônica

Esta fase é caracterizada pelo surgimento de tofos gotosos, que são depósitos visíveis e palpáveis de cristais de urato monossódico. Estes tofos podem se formar em cartilagens, articulações, tendões e partes moles. A localização clássica, embora não a mais frequente, é na hélice do pavilhão auricular externo.

Diagnóstico

O diagnóstico definitivo da gota exige a identificação dos cristais de urato. Embora a história clínica seja sugestiva, a confirmação laboratorial é crucial.

Exame Padrão-Ouro: Artrocentese

A punção articular (artrocentese) é mandatória em casos de monoartrite aguda para excluir outras causas, especialmente a artrite séptica, que pode coexistir com a gota.

🧪 Diagnóstico Essencial: A identificação de cristais de urato monossódico com forte birrefringência negativa no líquido sinovial é o critério diagnóstico definitivo para gota.

Dosagem de Ácido Úrico Sérico

A dosagem sérica de ácido úrico não é diagnóstica durante uma crise aguda. Os níveis podem estar normais ou até baixos, pois o ácido úrico pode ter se depositado nas articulações. Da mesma forma, pacientes com hiperuricemia podem não ter gota, e pacientes com artrite séptica podem ter ácido úrico elevado.

Observações Importantes sobre o Diagnóstico

Diagnóstico Provável (Quando a Punção Não é Possível)

O diagnóstico de gota é provável quando há:

  1. Hiperuricemia documentada.
  2. Quadro clínico característico (episódios de monoartrite aguda autolimitada, presença de tofos, alterações radiográficas típicas).

Alterações Radiográficas

As alterações radiográficas variam conforme a fase da doença:

Fase da Gota Achados Radiográficos
Crise Aguda Apenas aumento de tecidos moles periarticulares.
Gota Tofosa Crônica
  • Erosões em "saca-bocado" (lesões líticas com margens escleróticas e bordas proeminentes, também conhecido como "sinal de Martel").
  • Preservação do espaço articular (em contraste com outras artropatias).
  • Ausência de osteopenia justarticular.

Tratamento

O tratamento da gota visa três objetivos principais: interromper a crise aguda, prevenir recidivas e reduzir a uricemia a longo prazo.

(1) Interromper a Crise Aguda

O objetivo é aliviar a dor e a inflamação rapidamente. É crucial evitar medicamentos que possam causar variações abruptas na uricemia, pois isso pode piorar a crise.

💊 Tratamento Agudo: AINEs, corticosteroides e colchicina são as principais opções. Evitar iniciar AAS durante a crise, pois pode variar a uricemia. Evidências atuais permitem o uso de alopurinol em crises agudas, mas geralmente não é a primeira escolha para interrupção.

(2) Prevenir Recidivas

A profilaxia das crises é indicada, especialmente em pacientes com mais de duas crises por ano ou com presença de tofos.

(3) Redução da Uricemia (Terapia Hipouricemiante)

O objetivo é manter os níveis de ácido úrico abaixo do limite de solubilidade (geralmente < 6 mg/dL, ou < 5 mg/dL em casos de gota tofosa crônica) para prevenir a formação de novos cristais e promover a dissolução dos existentes. Esta terapia é iniciada após o controle da crise aguda e geralmente em associação com colchicina profilática.

Existem duas abordagens principais para reduzir o ácido úrico:

⚠️ Cuidado com Uricosúricos: Medicamentos uricosúricos aumentam a carga de ácido úrico nos rins, podendo precipitar nefrolitíase ou agravar nefropatia. São contraindicados em idosos (> 60 anos), pacientes com nefrolitíase prévia ou qualquer grau de comprometimento renal. Preferencialmente usados em pacientes jovens, com excreção urinária de ácido úrico < 600 mg/24h e sem histórico de cálculos renais.

Na prática, alopurinol e uricosúricos podem ser associados para otimizar o controle da uricemia, dependendo do perfil e das necessidades do paciente. A colchicina profilática é mantida durante o início da terapia hipouricemiante para evitar crises agudas desencadeadas pela mobilização de cristais, sendo suspensa após cerca de 6 meses de uricemia normalizada e estabilizada.

Tratamento da Hiperuricemia Assintomática

Geralmente, a hiperuricemia assintomática não requer tratamento farmacológico, pois a maioria dos pacientes nunca desenvolverá gota. No entanto, existem algumas exceções importantes:

💡 Dica: Lembre-se que a hiperuricemia assintomática só é tratada em situações específicas de alto risco ou níveis muito elevados, principalmente para prevenir complicações renais.

Artrite Séptica

A artrite séptica é uma condição inflamatória articular grave, causada pela invasão de um agente microbiano no espaço sinovial. É considerada uma emergência médica devido ao risco de rápida destruição articular e sequelas permanentes se não tratada prontamente.

Conceitos Iniciais

A infecção articular pode ser causada por diversos microrganismos, incluindo bactérias, fungos e vírus, embora as bactérias sejam as mais relevantes clinicamente e em contextos de prova. As principais vias de acesso do agente infeccioso à articulação são:

🧠 Lembre-se: Toda monoartrite aguda deve ser tratada como artrite séptica até que se prove o contrário, exigindo artrocentese imediata.

Etiologia

A etiologia bacteriana é o foco principal para o estudo da artrite séptica, com agentes variando conforme a faixa etária e fatores de risco:

Diagnóstico

O diagnóstico da artrite séptica é fundamentalmente laboratorial, com a artrocentese sendo o procedimento diagnóstico chave.

Artrite Séptica Gonocócica (N. gonorrhoeae)

Esta forma de artrite séptica é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae e possui um perfil epidemiológico e clínico característico.

Epidemiologia

Clínica

A apresentação clínica da artrite gonocócica pode ser dividida em duas fases, embora a sequência não seja obrigatória:

Diagnóstico

Tratamento

Artrite Séptica Não-Gonocócica (S. aureus)

Esta é a forma mais prevalente de artrite séptica, frequentemente causada por Staphylococcus aureus.

Epidemiologia

Clínica

Diagnóstico

Tratamento

Característica Artrite Séptica Gonocócica Artrite Séptica Não-Gonocócica
Agente Etiológico Principal Neisseria gonorrhoeae Staphylococcus aureus
Epidemiologia Adultos jovens sexualmente ativos Crianças, idosos, imunossuprimidos, adultos > 40 anos
Clínica 1ª fase: poliartrite assimétrica e migratória + lesões de pele + tenossinovite. 2ª fase: monoartrite. Inicia com monoartrite. Pode haver porta de entrada.
Tenossinovite Comum (especialmente dactilite) Rara
Hemocultura Positiva em ~10% dos casos Positiva em ~50% dos casos
Cultura Sinovial Positiva em ~30% dos casos Positiva em ~90% dos casos
Tratamento Ceftriaxone (7-14 dias) + cobertura para Clamídia Oxacilina (3-4 semanas) ou Vancomicina
Artrocentese Mandatória Mandatória

Osteoartrose

A osteoartrose, também conhecida como osteoartrite ou doença articular degenerativa, é a artropatia mais prevalente. Caracteriza-se pela degeneração progressiva da cartilagem articular e por alterações ósseas subcondrais, afetando a integridade funcional da articulação.

Conceitos Iniciais

Nesta condição, a cartilagem hialina que reveste as extremidades ósseas nas articulações sinoviais sofre um processo de amolecimento, fissuração e erosão. Com a perda da cartilagem, as superfícies ósseas ficam expostas e se atritam diretamente, levando a sintomas como dor, crepitação e à formação de osteófitos (popularmente "bicos de papagaio"), que são proeminências ósseas nas margens articulares.

🧠 Conceito Central: A osteoartrose é uma doença degenerativa que afeta toda a articulação, com a destruição da cartilagem sendo o evento central, levando a alterações ósseas secundárias.

Fatores de Risco

A osteoartrose é uma doença multifatorial, com diversos elementos contribuindo para seu desenvolvimento e progressão:

🔎 Perfil Clássico: A paciente típica com osteoartrose é uma mulher idosa, com sobrepeso ou obesidade, apresentando dor em articulações de carga.

Quadro Clínico

A osteoartrose manifesta-se com sintomas que refletem a degeneração articular, geralmente sem sinais sistêmicos de inflamação.

Articulações Mais Acometidas

A osteoartrose afeta preferencialmente articulações de carga e aquelas submetidas a estresse repetitivo:

Radiografia

As radiografias são essenciais para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade da osteoartrose, revelando alterações estruturais características:

Diagnóstico

O diagnóstico da osteoartrose é primariamente clínico e radiológico.

💡 Dica Importante: A correlação entre a clínica e os achados radiográficos pode ser pobre. Um paciente pode ter radiografias com alterações significativas e poucos sintomas, ou vice-versa.
⚠️ Atenção para Prova: A presença de Fator Reumatoide (FR) positivo em baixos títulos não exclui o diagnóstico de osteoartrose, pois até 20% dos idosos podem apresentar FR positivo sem ter artrite reumatoide.

Tratamento

O tratamento da osteoartrose é multifacetado, visando aliviar a dor, melhorar a função e retardar a progressão da doença.


Como Revisar Artrites?

Para otimizar a revisão e fixação dos conceitos, é útil categorizar as artrites com base no número de articulações acometidas e suas características distintivas.

Poliartrites (4 ou mais articulações acometidas)

Mono/Oligoartrites (no máximo 3 articulações acometidas)