Artrites
Artrite Reumatoide
Epidemiologia
A artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória crônica, autoimune e sistêmica que acomete aproximadamente 1% da população brasileira. Apresenta nítida predileção pelo sexo feminino, especialmente mulheres em idade adulta.
Características Epidemiológicas
- Prevalência: cerca de 1% da população geral
- Sexo: predomínio feminino (proporção 3:1 mulher/homem)
- Faixa etária: mais comum entre 25 e 55 anos (meia-idade)
- Fatores genéticos: associação com HLA-DRB1 e HLA-DR4 (antígenos leucocitários humanos)
- Fatores ambientais: forte relação com tabagismo
💡 Dica de ouro para provas: Na reumatologia, a maioria das doenças predomina no sexo feminino. Memorize as exceções importantes:
- Mais comum em homens: Espondilite Anquilosante e Gota
- Proporção igual entre sexos: Artrite Reativa (Síndrome de Reiter) e Artrite Psoriásica
Patogênese
A artrite reumatoide possui etiologia idiopática com importante participação imunológica. O processo fisiopatológico central envolve inflamação crônica da membrana sinovial, levando progressivamente à destruição articular irreversível.
Mecanismos Imunológicos
A doença caracteriza-se pela presença de autoanticorpos e citocinas pró-inflamatórias que perpetuam o processo inflamatório:
Marcadores Sorológicos
- Fator Reumatoide (FR):
- Presente em 70-80% dos pacientes
- Autoanticorpo do tipo IgM dirigido contra a porção Fc da IgG autóloga
- Títulos elevados associados a pior prognóstico
- Anti-peptídeo citrulinado cíclico (Anti-CCP):
- Detectado em 70-80% dos casos
- Maior especificidade diagnóstica (~96%) comparado ao FR
- Títulos altos indicam doença mais agressiva e pior evolução
- Citocinas pró-inflamatórias:
- TNF-α, IL-1, IL-6 são os principais mediadores inflamatórios
- Constituem alvos das terapias biológicas (infliximabe, etanercepte, adalimumabe)
Fisiopatologia da Destruição Articular
🧠 Conceito fundamental: AR = SINOVITE CRÔNICA → DESTRUIÇÃO ARTICULAR
Para compreender a fisiopatologia, é essencial revisar a anatomia articular:
- Êntese: ponto de inserção do tendão no osso
- Membrana sinovial: estrutura que produz líquido sinovial para lubrificação articular
- Diartroses: articulações sinoviais com ampla mobilidade (joelhos, cotovelos, tornozelos, pequenas articulações de mãos e pés)
O alvo primário da inflamação na AR é a membrana sinovial (bolsa sinovial) das articulações diartrodiais. A sequência fisiopatológica ocorre da seguinte forma:
- Inflamação crônica e recorrente da membrana sinovial (sinovite)
- Formação de pannus (tecido de granulação inflamatório)
- Invasão e destruição progressiva da cartilagem articular
- Erosão óssea justarticular
- Redução do espaço articular
- Comprometimento de tendões e ligamentos
- Deformidades articulares e subluxações
A artrite reumatoide é a ÚNICA artropatia inflamatória que causa destruição articular progressiva e irreversível. Outras doenças autoimunes (como lúpus eritematoso sistêmico) podem causar artrite, mas não levam à destruição óssea.
Manifestações Clínicas
A artrite reumatoide é considerada uma "doença sistêmica com marco articular", caracterizada por sinovite persistente que evolui para deformidade articular progressiva.
Padrão de Acometimento Articular
💡 Regra de ouro: "Mãos, pés, punhos e pronto!"
O quadro articular típico apresenta as seguintes características:
- Distribuição: pequenas articulações periféricas
- Padrão: poliartrite aditiva (acúmulo progressivo de articulações acometidas)
- Simetria: acometimento bilateral e simétrico
- Instalação: insidiosa (progressiva ao longo de semanas a meses)
- Rigidez matinal: duração superior a 1 hora (característica marcante e diferencial)
Articulações Mais Acometidas
- Metacarpofalangeanas (MCF)
- Interfalangeanas proximais (IFP)
- Punhos
- Metatarsofalangeanas (MTF)
🚨 Muito importante: As articulações interfalangeanas distais (IFD) são POUPADAS na AR! Se houver acometimento inflamatório das IFD, considerar diagnósticos alternativos como osteoartrose ou artrite psoriásica.
Deformidades Articulares Características
A sinovite crônica leva ao desenvolvimento de deformidades típicas que auxiliam no diagnóstico clínico:
Deformidades das Mãos
- Desvio ulnar: desvio dos dedos em direção ao lado ulnar (medial) da mão
- Deformidade em pescoço de cisne: hiperextensão da articulação interfalangeana proximal (IFP) + flexão da articulação interfalangeana distal (IFD)
- Deformidade em botoeira (boutonnière): flexão da IFP + hiperextensão da IFD
Deformidades dos Punhos
- Deformidade em dorso de camelo: proeminência dorsal do punho associada a saliência das articulações metacarpofalangeanas
- Síndrome do túnel do carpo: compressão do nervo mediano secundária à sinovite, manifestando-se com parestesias em território mediano
Deformidades dos Joelhos
- Cisto de Baker: protrusão da cápsula articular posterior em direção à fossa poplítea
- Pode romper e drenar pela panturrilha
- Atenção: pode simular trombose venosa profunda (TVP) ao exame clínico
Deformidades dos Pés
- Desvio lateral dos dedos
- Subluxação das cabeças metatarsais
- Hálux valgo
Acometimento do Esqueleto Axial
O esqueleto axial geralmente é poupado na AR, com uma importante exceção: coluna cervical.
🚨 Emergência reumatológica: Aproximadamente 10% dos pacientes desenvolvem acometimento da articulação atlanto-axial (C1-C2), o que representa uma complicação grave e potencialmente fatal.
Complicações Cervicais
1. Subluxação Atlanto-Axial
A artrite entre C1 e C2 pode evoluir com deslizamento de C1 sobre C2, com risco de compressão medular alta.
- Manifestações clínicas:
- Torcicolo de repetição
- Crepitação à movimentação cervical (flexão e extensão)
- Sintomas neurológicos (casos avançados)
- Diagnóstico radiológico:
- RX cervical em perfil (todo paciente com AR deve realizar)
- Distância entre processo odontoide e atlas > 3mm = instabilidade atlanto-axial
- Conduta:
- Uso imediato de colar cervical
- Avaliação neurocirúrgica para tratamento definitivo (cirurgia)
2. Cricoaritenoidite
Inflamação da articulação cricoaritenóidea da laringe, manifestando-se inicialmente com rouquidão. Pode evoluir com processo inflamatório intenso levando à insuficiência respiratória aguda por obstrução de via aérea.
Achados Radiológicos
As alterações radiográficas típicas da AR incluem:
- Erosões ósseas justarticulares
- Redução do espaço articular
- Osteopenia justarticular
- Subluxações articulares
- Destruição de tendões e ligamentos
- Deformidades características (desvio ulnar, pescoço de cisne, botoeira, dorso de camelo)
Manifestações Extra-articulares
As manifestações extra-articulares ocorrem principalmente em pacientes com doença mais grave e estão associadas a altos títulos de FR e anti-CCP, indicando pior prognóstico.
🧠 Conceito importante: A AR pode formar nódulos reumatoides inflamatórios e causar vasculite em praticamente qualquer órgão ou tecido do organismo.
Mnemônico "PEGUEI NOSJO DE VASCA"
💡 Memorize:
- PE - Pericardite (mais comum de todas) e aterosclerose acelerada
- NO - Nódulos reumatoides (em qualquer lugar, mais comuns na face extensora do antebraço)
- SJO - Sjögren (manifestação ocular mais comum – xeroftalmia)
- DE - Derrame pleural (exsudato com glicose < 25mg/dL)
- VAS - Vasculite (em qualquer lugar do corpo)
- CA - Caplan (AR + pneumoconiose dos mineradores de carvão)
Manifestações por Sistema
Manifestações Cutâneas
- Nódulos subcutâneos reumatoides: mais comuns na região olecraniana (face extensora do antebraço)
- Vasculite cutânea: pode variar de lesões leves (púrpura palpável) até necrose com perda de falanges
Manifestações Cardíacas
- Pericardite: manifestação cardíaca mais comum
- Aterogênese acelerada (risco cardiovascular aumentado)
- Nódulos cardíacos (podem causar arritmias)
- Vasculite de artérias coronárias
Manifestações Pulmonares
- Derrame pleural: manifestação pulmonar mais comum
- Características: exsudato com glicose muito baixa (< 25 mg/dL)
- Nódulos pulmonares no parênquima
- Doença pulmonar intersticial
- Vasculite de artéria pulmonar
- Síndrome de Caplan: associação entre AR + nódulos reumatoides pulmonares + pneumoconiose dos mineradores de carvão
🔬 Síndrome de Caplan: Embora rara, é frequentemente cobrada em provas de residência. Trata-se da associação entre artrite reumatoide, nódulos reumatoides pulmonares e pneumoconiose dos trabalhadores expostos ao carvão.
Manifestações Neurológicas
- Síndrome do túnel do carpo (compressão do nervo mediano)
- Mielopatia por subluxação atlanto-axial (C1-C2)
- Vasculite da vasa nervorum
- Neuropatia periférica
Manifestações Oculares
- Síndrome de Sjögren secundária: manifestação ocular mais comum (xeroftalmia - olho seco)
- Episclerite (inflamação superficial da esclera)
- Esclerite (inflamação profunda da esclera)
- Escleromalácia perfurante (complicação grave de episclerite não tratada)
- Uveíte anterior
| Sistema |
Manifestação Mais Comum |
Outras Manifestações |
| Cardíaco |
Pericardite |
Aterosclerose acelerada, nódulos cardíacos, vasculite coronariana |
| Pulmonar |
Derrame pleural (glicose < 25mg/dL) |
Nódulos, doença intersticial, Síndrome de Caplan |
| Ocular |
Síndrome de Sjögren (xeroftalmia) |
Episclerite, esclerite, escleromalácia, uveíte |
| Cutâneo |
Nódulos reumatoides (região olecraniana) |
Vasculite cutânea (leve a grave) |
| Neurológico |
Síndrome do túnel do carpo |
Mielopatia C1-C2, vasculite de vasa nervorum, neuropatia periférica |
Critérios de Mau Prognóstico
Determinadas características clínicas e laboratoriais indicam maior probabilidade de evolução desfavorável da doença, com maior risco de destruição articular acelerada e manifestações extra-articulares graves.
⚠️ Fatores de mau prognóstico na AR:
- Soropositividade para Fator Reumatoide (especialmente títulos elevados)
- Soropositividade para Anti-CCP (especialmente títulos elevados)
- Presença de manifestações extra-articulares
- Erosões ósseas precoces (nos primeiros 2 anos de doença)
- Positividade para HLA-DRB1
- Síndrome de Felty
Síndrome de Felty
A Síndrome de Felty representa uma complicação grave da artrite reumatoide de longa evolução, caracterizada pela tríade clássica:
🚨 Tríade da Síndrome de Felty:
- Artrite reumatoide de longa duração
- Esplenomegalia
- Neutropenia (< 2.000 neutrófilos/mm³)
Características da Síndrome de Felty
- Ocorre em pacientes com AR de longa evolução (geralmente > 10 anos)
- Presença de manifestações extra-articulares
- FR e anti-CCP fortemente positivos (altos títulos)
- Representa doença em "estágio avançado" ou "fim de linha"
Fisiopatologia
A síndrome resulta de esplenomegalia com hiperesplenismo:
- O baço aumentado entra em estado de hiperesplenismo
- Ocorre destruição aumentada de células sanguíneas pelo baço
- Neutropenia é a manifestação hematológica predominante
- Pode evoluir para pancitopenia (anemia + plaquetopenia + neutropenia)
- Risco significativamente aumentado de infecções devido à neutropenia
💡 Resumo para fixação rápida:
- Epidemiologia: mulheres 25-55 anos, HLA-DRB1, tabagismo
- Fisiopatologia: sinovite crônica → destruição articular
- Clínica: poliartrite simétrica de pequenas articulações (mãos, pés, punhos), rigidez matinal > 1h
- Deformidades: desvio ulnar, pescoço de cisne, botoeira, dorso de camelo
- IFD poupada! (se acometida → pensar osteoartrose ou artrite psoriásica)
- Exceção axial: C1-C2 (subluxação atlanto-axial = emergência!)
- Extra-articular: nódulos e vasculite em qualquer lugar (mnemônico: PEGUEI NOSJO DE VASCA)
- Mau prognóstico: FR+, anti-CCP+, erosões precoces, extra-articular, Síndrome de Felty
Diagnóstico
O diagnóstico da artrite reumatoide é baseado em critérios clínicos, laboratoriais e de imagem. Os critérios de classificação ACR/EULAR (American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism) são amplamente utilizados e atribuem pontos a diferentes características, sendo que uma pontuação total maior ou igual a 6 estabelece o diagnóstico de AR.
Critérios Diagnósticos (ACR/EULAR)
| Domínio |
Características |
Pontuação |
Acometimento Articular (desconsiderar IFD) |
- 1 articulação grande
- 2-10 articulações grandes
- 1-3 articulações pequenas
- 4-10 articulações pequenas
- > 10 articulações (sendo pelo menos 1 pequena)
|
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Sorologia (FR e/ou anti-CCP) |
- Ambos negativos
- Baixos títulos (acima do limite superior da normalidade, mas ≤ 3x)
- Altos títulos (> 3x o limite superior da normalidade)
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Reagentes de Fase Aguda (VHS/PCR) |
- Ambos normais
- Aumentados (VHS > 30 mm/h ou PCR > 0,5 mg/dL)
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| Duração da Artrite |
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🧠 Lembre-se: O Fator Reumatoide (FR) e o Anti-CCP são marcadores diagnósticos e prognósticos, mas NÃO são indicadores de atividade da doença. Os parâmetros que refletem o grau de atividade inflamatória da AR são a Velocidade de Hemossedimentação (VHS) e a Proteína C Reativa (PCR).
Em um contexto de prova, algumas características clínicas e laboratoriais são altamente sugestivas de artrite reumatoide, mesmo antes da aplicação formal dos critérios:
🔎 Características-chave para o diagnóstico de AR:
- Poliartrite simétrica (acometimento de múltiplas articulações em ambos os lados do corpo)
- Fator Reumatoide e/ou Anti-CCP positivos
- Evolução insidiosa e intermitente com duração superior a 6 semanas
- VHS e/ou Proteína C Reativa elevados
Diagnóstico Diferencial: Síndrome Reumatoide
A "Síndrome Reumatoide" refere-se a quadros clínicos que mimetizam a artrite reumatoide, mas que não preenchem todos os critérios diagnósticos para AR. A principal causa é a poliartrite viral.
Etiologia
A principal causa de síndrome reumatoide é a poliartrite viral, que pode ser desencadeada por diversos vírus, incluindo:
- Rubéola
- Vírus da Hepatite B (HBV)
- Vírus da Hepatite C (HCV)
- Parvovírus B19
- Chikungunya, entre outros.
Diagnóstico
O diagnóstico da poliartrite viral é feito por exclusão de outras causas de artrite e pela sorologia viral específica.
Tratamento
O tratamento é primariamente sintomático, utilizando analgésicos e anti-inflamatórios não esteroides (AINES). A poliartrite viral é geralmente uma condição autolimitada.
Tratamento
Historicamente, o tratamento da artrite reumatoide focava apenas no alívio sintomático com AINES e corticoides. No entanto, essas drogas não modificam a evolução da doença nem previnem a destruição articular. Atualmente, a abordagem visa controlar a inflamação, prevenir danos estruturais e melhorar a função, utilizando as Drogas Modificadoras da Evolução da Doença (DMARDs).
Abordagem Terapêutica
O tratamento moderno da AR preconiza a associação de DMARDs com medicamentos sintomáticos, especialmente nas fases iniciais ou de exacerbação.
Sintomáticos
Utilizados para alívio rápido da dor e inflamação, mas não alteram o curso da doença:
- Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINES): aliviam a dor e a rigidez.
- Corticoides em dose baixa: potentes anti-inflamatórios, usados para controle de surtos ou como ponte até o efeito dos DMARDs.
Drogas Modificadoras da Evolução da Doença (DMARDs)
São a base do tratamento da AR, pois atuam nos mecanismos imunológicos da doença, prevenindo a progressão da lesão articular.
DMARDs Convencionais (sintéticos)
- Metotrexato (MTX):
- Escolha inicial na maioria dos pacientes.
- Dose típica: 7,5 mg uma vez por semana.
- Efeitos colaterais: hepatotoxicidade e mielotoxicidade.
- Hidroxicloroquina (HCQ):
- Geralmente para casos mais leves ou em combinação.
- Efeito colateral: toxicidade retiniana (requer acompanhamento oftalmológico regular).
- Leflunomida:
- Alternativa ao MTX ou em combinação.
- Efeito colateral: diarreia crônica.
- Sulfassalazina:
- Utilizada em monoterapia ou combinação.
💊 Atenção ao MTX: Devido ao risco de mielotoxicidade, é fundamental prescrever ácido fólico concomitantemente (geralmente 5 mg/semana, em dia diferente do MTX) para reduzir os efeitos adversos.
Drogas Biológicas (DMARDs biológicos)
São medicamentos que agem em alvos moleculares específicos do sistema imunológico.
- Inibidores de TNF-alfa:
- Infliximabe
- Etanercepte
- Adalimumabe
- Golimumabe
- Certolizumabe pegol
- Não-inibidores de TNF-alfa:
- Rituximabe (anti-CD20): depleção de linfócitos B.
- Abatacepte (modulador de coestimulação de linfócitos T).
- Tocilizumabe (inibidor de IL-6).
- Sarilumabe (inibidor de IL-6).
- Anakinra (inibidor de IL-1).
⚠️ Risco de infecções: O uso de drogas biológicas aumenta o risco de reativação de infecções latentes, como tuberculose (TB) e hepatite B. É obrigatório rastrear tuberculose latente (com PPD/IGRA e radiografia de tórax) e hepatite B antes de iniciar qualquer terapia biológica.
Ordem de Retirada na Remissão
Quando o paciente atinge a remissão da doença, a retirada gradual dos medicamentos deve seguir uma ordem específica para minimizar o risco de recidiva:
- 1º: AINE
- 2º: Corticoide
- 3º: Imunobiológico
- 4º: DMARD convencional
Artrite Idiopática Juvenil
A Artrite Idiopática Juvenil (AIJ) é a doença reumática crônica mais comum na infância, caracterizada por artrite persistente em crianças e adolescentes.
Conceitos Iniciais
A AIJ é definida por:
- Início da artrite antes dos 16 anos de idade.
- Presença de artrite em uma ou mais articulações.
- Duração da artrite por pelo menos 6 semanas.
- Exclusão de outras formas específicas de artrite crônica juvenil.
💡 Epidemiologia: Assim como a AR em adultos, a AIJ é mais comum em mulheres (meninas).
Formas Clínicas
A AIJ é classificada em diferentes subtipos, cada um com características clínicas e prognósticas distintas.
Forma Oligoarticular (< 4 articulações)
- É a forma mais comum de AIJ, representando 50-60% dos casos.
- Tipicamente afeta meninas com menos de 6 anos.
- Geralmente apresenta Fator Reumatoide negativo e VHS normal (devido ao baixo número de articulações acometidas).
👁️🗨️ Atenção ocular: Se o Fator Antinuclear (FAN) for positivo, há um risco elevado de uveíte anterior crônica, uma complicação ocular grave que pode levar à cegueira. Nesses casos, o paciente deve ser referenciado para acompanhamento oftalmológico regular, independentemente da forma clínica da AIJ.
Doença de Still (Forma Sistêmica)
É a forma mais grave da AIJ, caracterizada por manifestações sistêmicas proeminentes, além da artrite.
- Artrite (pode ser oligo ou poliarticular).
- Febre alta diária (picos febris vespertinos ou noturnos).
- Rash cutâneo de cor salmão: erupção maculopapular transitória, principalmente no tronco e raiz dos membros, que aparece e desaparece com a febre.
- Linfonodomegalia (aumento dos gânglios linfáticos).
- Hepatoesplenomegalia (aumento do fígado e do baço).
- Serosite (pericardite, pleurite).
🚨 Síndrome de Ativação Macrofágica (SAM):
A Doença de Still apresenta um risco de até 40% de desenvolver SAM, uma complicação rara, mas potencialmente fatal. A SAM é uma síndrome de hiperinflamação grave, decorrente de uma ativação excessiva e descontrolada de macrófagos e linfócitos T.
Achados clínicos e laboratoriais da SAM:
- Hepatoesplenomegalia
- Pancitopenia (anemia, leucopenia, plaquetopenia)
- Disfunção hepática (icterícia, transaminases elevadas)
- Hiperferritinemia (níveis de ferritina extremamente altos, > 10.000 ng/mL)
- Hipofibrinogenemia (redução do fibrinogênio, que pode levar a uma "redução paradoxal de VHS")
- Hipertrigliceridemia
- Atividade das células natural killer (NK) diminuída
- Níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias
- Pleocitose liquórica
Forma Poliarticular (> 4 articulações)
Esta forma da AIJ é clinicamente semelhante à artrite reumatoide do adulto.
- Acomete mais de 4 articulações.
- Tipicamente afeta meninas com mais de 10 anos.
- O Fator Reumatoide pode ser positivo ou negativo (variável).
- A VHS geralmente está elevada.
👁️🗨️ Atenção ocular: Assim como na forma oligoarticular, se o FAN for positivo, há risco de uveíte anterior crônica, exigindo acompanhamento oftalmológico.
Preditores de Mau Prognóstico
Alguns fatores indicam um curso mais agressivo da AIJ e maior risco de danos articulares e funcionais a longo prazo:
- Fator Reumatoide positivo (especialmente na forma poliarticular).
- Anti-CCP positivo.
- Presença de nódulos subcutâneos.
- Idade jovem ao início da doença (especialmente em formas sistêmicas ou poliarticulares graves).
- Número elevado de articulações inflamadas no início ou durante o curso da doença.
- Acometimento de quadril ou coluna cervical.
Espondiloartropatias Soronegativas
As espondiloartropatias soronegativas (EpA) representam um grupo heterogêneo de doenças inflamatórias crônicas que compartilham características clínicas, genéticas e patogênicas. São denominadas "soronegativas" pela ausência do Fator Reumatoide (FR) no soro dos pacientes.
Características Comuns das Espondiloartropatias
Este grupo de doenças é unificado por diversos fatores:
- Acometimento axial: Predominância de inflamação nas articulações da coluna vertebral e sacroilíacas.
- Entesite proeminente: Inflamação no local de inserção de tendões, ligamentos e cápsulas articulares nos ossos (êntenes).
- Tendência à hereditariedade: Forte componente genético.
- Ausência de Fator Reumatoide (FR): Característica definidora do grupo.
- Associação com HLA-B27: Presença do antígeno leucocitário humano HLA-B27 em uma parcela significativa dos pacientes (85% na artrite reativa, 60% na artrite psoriásica).
- Idade de início mais jovem: Geralmente afetam pacientes mais jovens, com pico de incidência em torno dos 40-45 anos.
As principais doenças que compõem este grupo são:
- Espondilite Anquilosante (EA)
- Artrite Reativa (ARe)
- Artrite Psoriásica (AP)
- Artropatia Enteropática (associada a Doença Inflamatória Intestinal)
Espondilite Anquilosante
Introdução
A Espondilite Anquilosante (EA) é o protótipo das espondiloartropatias e a mais frequentemente abordada em exames. É frequentemente descrita como o "oposto" da Artrite Reumatoide (AR) em muitos aspectos fundamentais.
| Característica |
Artrite Reumatoide (AR) |
Espondilite Anquilosante (EA) |
| Epidemiologia |
Mulheres de meia-idade |
Homens jovens (pico: 23 anos) |
| Alvo da Inflamação |
Membrana sinovial (sinovite) |
Êntese (entesite) |
| Destruição Articular? |
Sim (erosões, pannus) |
Não (mas há calcificação e fusão) |
| Articulações Acometidas |
Diartroses (pequenas articulações periféricas) |
Esqueleto axial (sacroilíacas, coluna) |
Clínica e Imagem
A EA é caracterizada por um processo ascendente e calcificante. A queixa inicial mais comum é desconforto lombar, que geralmente se manifesta por volta dos 40 anos, com caráter crônico e persistente por mais de 3 meses. É classicamente associada a rigidez matinal que melhora com a movimentação e piora com o repouso.
Acometimento Articular
- Entesite de quadril: Quase 100% dos pacientes manifestam a doença inicialmente no quadril. A inflamação progride de forma ascendente para a coluna vertebral.
- Calcificação: O processo inflamatório crônico na êntese leva à ossificação de ligamentos e cápsulas articulares, resultando em calcificação.
- Sacroileíte: A articulação sacroilíaca é a mais acometida em 100% dos casos, sendo a sacroileíte um sinônimo para o processo inflamatório da EA.
- Entesite periférica: Embora o acometimento axial seja predominante, manifestações periféricas como o esporão de calcâneo são comuns e podem auxiliar no diagnóstico. É importante lembrar que o esporão de calcâneo não é exclusivo da EA, podendo ocorrer em outras espondiloartropatias soronegativas e até em condições mecânicas.
Semiologia
Manobras específicas podem auxiliar na avaliação do comprometimento da coluna e sacroilíacas:
- Manobra de Patrick (Fabere): Avalia a articulação sacroilíaca.
- Teste de Schober: Avalia a flexibilidade da coluna lombar. É considerado positivo se a distensão da pele for inferior a 15 cm.
Exames de Imagem
- Radiografia (RX): Detecta calcificações e alterações estruturais em fases mais tardias da doença.
- Ressonância Magnética (RNM): É o método mais sensível para detectar inflamação precoce (edema ósseo) nas articulações sacroilíacas, mesmo antes da calcificação.
Progressão da Doença
- Sindesmose: Processo de fusão óssea entre vértebras, resultado da calcificação dos ligamentos.
- Sindesmófitos: Pontes ósseas que se formam entre as vértebras, visíveis na radiografia.
- Coluna em bambu: Aspecto radiográfico característico da fusão completa da coluna vertebral, que se torna rígida e suscetível a fraturas.
- Postura de esquiador (cifose acentuada): Deformidade postural grave com flexão anterior do tronco e campo de visão baixo, que pode ser confundida com outras condições neurológicas.
Manifestações Extra-articulares
A EA pode apresentar manifestações sistêmicas importantes:
- Uveíte anterior: A principal manifestação extra-articular, ocorrendo em cerca de 30% dos casos, com caráter recorrente.
- Insuficiência valvar aórtica: Acomete cerca de 10% dos pacientes.
- Doença Inflamatória Intestinal (DII): Colite ulcerativa ou doença de Crohn.
- Fibrose pulmonar do lobo superior: Rara (< 1%).
Diagnóstico
O diagnóstico da EA é clínico e radiológico, com ênfase na detecção precoce. Os critérios de classificação ASAS (Assessment of SpondyloArthritis International Society) são amplamente utilizados.
Critérios de Classificação ASAS para Espondiloartrite Axial
Para pacientes com dor lombar ≥ 3 meses e idade de início < 45 anos:
- Sacroileíte pela imagem (RX ou RNM) + ≥ 1 característica de Espondiloartrite (EpA)
OU
- HLA-B27 positivo + ≥ 2 características de EpA
Características de Espondiloartrite (Critérios Comemorativos)
- Dor lombar de ritmo inflamatório (melhora com movimento)
- Artrite
- Entesite (especialmente no calcâneo)
- Uveíte anterior
- Dactilite ("dedo em salsicha")
- Psoríase
- Doença de Crohn ou Colite Ulcerativa
- Boa resposta a AINES
- História familiar de EpA
- HLA-B27 (se não usado como critério principal)
- PCR elevada (descartadas outras causas)
🧠 Lembre-se: Não é necessário decorar todos os critérios, mas entender o perfil do paciente: jovem, com dor lombar crônica inflamatória, sacroileíte e/ou HLA-B27 positivo, e algumas manifestações associadas.
Tratamento
O tratamento da EA visa controlar a inflamação, aliviar a dor, manter a mobilidade e prevenir deformidades.
Tríade Básica
- AINES: São a primeira linha de tratamento, especialmente a Indometacina, devido à sua eficácia na dor inflamatória axial.
- Fisioterapia: Essencial para manter a mobilidade e a postura.
- Natação: Exercício de baixo impacto que promove a flexibilidade da coluna.
Terapias Avançadas
- Anti-TNF alfa: Indicados para pacientes que não respondem adequadamente aos AINES. Exemplos: Infliximabe, Etanercepte, Adalimumabe.
- Secuquinumabe (anti-IL17): Outra opção para casos refratários.
⚠️ O que NÃO usar:
- Prednisona (corticoides sistêmicos): Devem ser evitados na EA, pois não são eficazes no acometimento axial e podem levar à redução da massa óssea, um risco já presente em alguns pacientes com EA.
- Metotrexato: Não é eficaz no acometimento axial da EA.
Artrite Reativa
Introdução
A Artrite Reativa (ARe) é uma espondiloartropatia que se desenvolve como uma resposta da articulação a uma infecção bacteriana distante, ou seja, a bactéria não está presente na articulação inflamada. O grande protótipo é a Síndrome de Reiter.
Agentes Infecciosos Comuns
- Infecções intestinais (pós-disentéricas):
- Shigella
- Salmonella
- Yersinia
- Campylobacter
- Infecções genitais (pós-venéreas):
- Chlamydia trachomatis (principal)
A história típica envolve uma infecção à distância, seguida por um período de 1 a 4 semanas, e então o desenvolvimento de mono ou oligoartrite assimétrica de grandes articulações, comumente joelhos e tornozelos.
Clínica
A Síndrome de Reiter é a apresentação clássica da artrite reativa, caracterizada pela tríade:
- Artrite
- Uretrite/Cervicite
- Conjuntivite
Existem duas formas principais:
- Pós-disentérica (epidêmica): Mais comum em crianças.
- Pós-venérea (endêmica): Mais comum em adultos.
💡 Proporção entre sexos: Diferente da AR e EA, a artrite reativa tem uma proporção de acometimento igual entre homens e mulheres (1:1).
Outras Manifestações Associadas
- Dactilite: "Dedo em salsicha".
- Balanite circinada: Lesões eritematosas e descamativas na glande.
- Uveíte anterior.
- Úlceras orais.
- Ceratoderma blenorrágico: Lesões pustulosas hiperceratóticas nas palmas das mãos e plantas dos pés.
- Sacroileíte (geralmente assimétrica).
Padrão de Acometimento Articular
O padrão característico da artrite reativa é uma oligo ou monoartrite assimétrica, afetando predominantemente grandes articulações, sendo o joelho a mais comum.
🚨 Ponto de atenção na emergência: A principal causa de monoartrite no Brasil é a artrite infecciosa (séptica), geralmente por
Staphylococcus aureus. A artrite reativa é a segunda causa mais comum. Em todo paciente com monoartrite, é
mandatório realizar a punção articular para análise do líquido sinovial.
- Se houver microrganismos: Artrite infecciosa.
- Se não houver microrganismos: Artrite reativa (após exclusão de outras causas).
Diagnóstico
O diagnóstico da artrite reativa é essencialmente clínico. Não existem autoanticorpos específicos para dosar no sangue. A exclusão de artrite infecciosa é crucial. A presença das manifestações extra-articulares (ceratoderma blenorrágico, balanite circinada, dactilite, uveíte anterior, sacroileíte assimétrica) auxilia no diagnóstico.
Tratamento
O tratamento inicial é com AINES. O prognóstico da artrite reativa é geralmente bom, com um curso autolimitado que dura alguns meses. Em casos de refratariedade, a sequência terapêutica pode incluir:
- AINES
- Corticoides intra-articulares
- Corticoides sistêmicos
- DMARDs convencionais (Sulfassalazina, Metotrexato)
- Anti-TNF alfa
Se houver infecção ativa subjacente, o tratamento com antibióticos apropriados é fundamental.
Artrite Psoriásica
Introdução
A Artrite Psoriásica (AP) é uma espondiloartropatia inflamatória crônica que afeta pacientes com psoríase cutânea ou ungueal. É caracterizada pela associação de artrite e psoríase, embora a artrite possa, em alguns casos (15%), preceder as manifestações cutâneas.
Clínica
A psoríase é um quadro cutâneo com lesões eritematodescamativas em áreas como couro cabeludo, cotovelos, joelhos, umbigo, glúteos e pés. O acometimento das unhas (onicodistrofia psoriásica) é também uma característica importante e pode ser um diferencial.
Padrões de Acometimento Articular
A AP é notável pela sua grande variabilidade de apresentação articular, podendo mimetizar outras artrites. Existem 5 formas principais:
- Poliartrite simétrica: Semelhante à AR, mas sem os critérios diagnósticos específicos para AR.
- Artrite axial: Acometimento da coluna e sacroilíacas, semelhante à EA, mas sem os critérios completos de EA.
- Oligoartrite assimétrica: Acometimento de poucas articulações de forma assimétrica, semelhante à artrite reativa.
- Artrite das IFD (interfalangeanas distais): Acometimento das articulações distais dos dedos, que são classicamente poupadas na AR e podem ser confundidas com osteoartrose.
- Artrite mutilante: Forma mais grave e destrutiva, levando a deformidades severas como "mãos em binóculo" ou "dedos em telescópio".
Outras Manifestações
- Entesite: Inflamação das êntenes.
- Tenossinovite: Inflamação da bainha dos tendões.
- Dactilite: "Dedo em salsicha", inflamação difusa de um dedo inteiro.
- Lesões ungueais: Pitting (depressões puntiformes), onicólise (descolamento da unha), hiperceratose subungueal.
Diagnóstico
O diagnóstico da artrite psoriásica é clínico, baseado na presença de psoríase e artrite. O Fator Reumatoide negativo e a presença de HLA-B27 positivo podem ser achados de suporte.
🧠 Dica para provas: Em geral, o paciente terá a associação de artrite + psoríase. A variabilidade do padrão articular é uma característica marcante, mas a presença da psoríase é o elo diagnóstico.
Tratamento
O tratamento da AP visa controlar a inflamação articular e cutânea, aliviar os sintomas e prevenir a progressão da doença.
- Formas leves: AINES.
- Formas moderadas a graves:
- Metotrexato: DMARD convencional de primeira linha.
- Inibidores de TNF-alfa: Drogas biológicas eficazes tanto para o acometimento articular quanto cutâneo.
- Outros DMARDs biológicos (inibidores de IL-17, IL-12/23, PDE4) também podem ser utilizados.
| Característica |
Artrite Reumatoide |
Espondilite Anquilosante |
Artrite Reativa |
Artrite Psoriásica |
| Fisiopatologia |
Sinovite crônica |
Entesite crônica |
Resposta a infecção à distância |
Variável |
| Padrão articular |
Mãos, pés, punhos Bilateral/simétrico |
Axial ascendente Calcificante |
Mono/oligoartrite assimétrica Grandes articulações (joelho) |
Qualquer padrão + IFD + Mutilante |
| Epidemiologia |
Mulheres 3:1 40-60 anos |
Homens jovens Pico: 23 anos |
H = M Adultos jovens |
H = M 30-50 anos |
| HLA-B27 |
Negativo |
90-95% positivo |
80-85% positivo |
50-60% positivo |
| Fator Reumatoide |
Positivo (70-80%) |
Negativo |
Negativo |
Negativo |
| Manifestação característica |
Nódulos reumatoides Deformidades em mãos |
Sacroileíte bilateral "Coluna em bambu" |
Tríade de Reiter Ceratoderma blenorrágico |
Psoríase Alterações ungueais |
| Uveíte |
Rara |
30% (recorrente) |
Possível |
7-20% |
| Dactilite |
Não |
Rara |
Comum |
Comum (30-40%) |
| Prognóstico |
Crônico progressivo |
Crônico progressivo |
Autolimitado (3-6 meses) |
Variável |
| Tratamento 1ª linha |
Metotrexato |
AINE + Fisioterapia |
AINE |
AINE (leve) Metotrexato (moderado/grave) |
| Papel dos biológicos |
Anti-TNF, Anti-CD20, Anti-IL-6 |
Anti-TNF, Anti-IL-17 |
Raramente necessário |
Anti-TNF, Anti-IL-17, Anti-IL-12/23 |
Resumo High Yield para Provas de Residência
🎯 Espondilite Anquilosante
Paciente típico: Homem jovem (< 30 anos), dor lombar crônica (> 3 meses), melhora com movimento, rigidez matinal
Achado patognomônico: Sacroileíte bilateral simétrica
Complicação mais temida: Fratura vertebral ("coluna em bambu")
Manifestação extra-articular mais comum: Uveíte anterior recorrente (30%)
Tratamento: AINE (indometacina) + Fisioterapia + Natação → Anti-TNF se refratário
NÃO usar: Corticoide sistêmico, Metotrexato
🎯 Artrite Reativa
Paciente típico: Adulto jovem, monoartrite de joelho, história de diarreia ou uretrite 1-4 semanas antes
Tríade de Reiter: Artrite + Conjuntivite + Uretrite
Achados patognomônicos: Balanite circinada, Ceratoderma blenorrágico
Diagnóstico diferencial crucial: Artrite séptica (punção articular obrigatória!)
Prognóstico: BOM! Autolimitada (3-6 meses)
Tratamento: AINE + ATB se Chlamydia ativa
🎯 Artrite Psoriásica
Paciente típico: Adulto com psoríase cutânea + artrite (qualquer padrão)
Padrão característico: Acometimento de IFD + alterações ungueais (pitting nail)
Forma mais grave: Artrite mutilante ("dedos em telescópio", "mãos em binóculo")
Diagnóstico diferencial: AR (FR negativo!), Osteoartrite (processo inflamatório!)
Tratamento: Leve (AINE) → Moderado/Grave (Metotrexato ou Anti-TNF)
💡 Dicas Finais Para Prova
FR negativo + HLA-B27 positivo + Jovem + Axial = Espondiloartropatia!
Monoartrite aguda = SEMPRE puncionar! (1º artrite séptica, 2º artrite reativa)
Lombalgia que melhora com movimento = Inflamatória (espondilite)
Lombalgia que piora com movimento = Mecânica (hérnia, tumor)
Esporão de calcâneo = Qualquer espondiloartropatia!
Dactilite = Artrite reativa ou psoriásica
Uveíte recorrente = Espondilite anquilosante
🧠 Conceito unificador: Todas as espondiloartropatias compartilham: soronegatividade para fator reumatoide, predileção por envolvimento axial, entesite proeminente, associação com HLA-B27 e potencial para manifestações extra-articulares (especialmente uveíte anterior). A diferenciação baseia-se principalmente no padrão clínico, manifestações associadas e contexto epidemiológico.
Artrite Gotosa
A artrite gotosa, comumente conhecida como gota, é uma condição inflamatória articular causada pelo depósito de cristais de urato monossódico. Este fenômeno ocorre devido a um desequilíbrio na relação entre a concentração de ácido úrico no sangue e sua capacidade de solubilização.
🧠 Conceito Central: A gota surge quando a concentração de ácido úrico no sangue excede seu limite de solubilidade, levando à formação e precipitação de cristais.
Introdução e Fisiopatologia Básica
Imagine uma solução onde a quantidade de soluto (ácido úrico) excede a capacidade do solvente (sangue) de mantê-lo dissolvido. Quando isso acontece, o soluto precipita, formando cristais. No contexto da gota, um aumento na concentração de ácido úrico no sangue (hiperuricemia) leva à formação de cristais de urato monossódico, que se depositam em diversas estruturas, principalmente nas articulações.
- Baixo Ácido Úrico no Sangue: Facilita a solubilização e previne a formação de cristais.
- Alto Ácido Úrico no Sangue: Favorece a formação e precipitação de cristais.
Observações Fisiopatológicas Importantes
- Potencial de Solubilidade: O ácido úrico tem um limite de solubilidade de aproximadamente 7 mg/dL no plasma. Acima desse valor, a probabilidade de formação de cristais aumenta significativamente.
- Diferença de Gênero: Mulheres tendem a ter níveis mais baixos de ácido úrico do que homens. Isso se deve à ação do estrogênio, que promove a eliminação renal de ácido úrico. Consequentemente, a gota é epidemiologicamente mais prevalente em homens.
💡 Dica para Prova: Mulheres podem desenvolver gota, mas geralmente após a menopausa, quando os níveis de estrogênio diminuem, reduzindo a proteção renal.
Epidemiologia e Fatores de Risco
A gota é uma doença com predileção por um perfil específico de pacientes e está associada a diversos fatores de risco modificáveis e não modificáveis.
- Prevalência: Mais comum em homens entre 40 e 50 anos, com uma proporção de aproximadamente 20:1 em relação às mulheres.
- Fatores de Risco:
- Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS): Existe uma associação estatística bem estabelecida, embora o mecanismo exato não seja totalmente compreendido.
- Obesidade: Dificulta a eliminação renal de ácido úrico.
- Consumo de Álcool: Aumenta a produção de ácido úrico e, simultaneamente, diminui sua eliminação renal.
- Uso de Diuréticos: Especialmente os tiazídicos, que podem aumentar a reabsorção de ácido úrico nos túbulos renais. Outros diuréticos também podem ter esse efeito.
- Dieta Rica em Purinas: Consumo excessivo de carnes vermelhas, frutos do mar e bebidas açucaradas (frutose) pode contribuir para a hiperuricemia.
- Genética: Predisposição familiar para hiperuricemia assintomática.
⚠️ Atenção: O álcool é um fator de risco duplo, pois tanto aumenta a produção quanto diminui a eliminação do ácido úrico.
Metabolismo do Ácido Úrico
Para entender a gota, é fundamental conhecer a origem e a via de eliminação do ácido úrico no organismo.
Origem do Ácido Úrico
- Degradação de Purinas: A principal fonte de ácido úrico é a degradação das purinas, bases nitrogenadas presentes no DNA e RNA das células. A enzima xantina-oxidase desempenha um papel crucial nesse processo, convertendo purinas em ácido úrico.
- Dieta: Embora em menor proporção, a ingestão de alimentos ricos em purinas (como carnes, frutos do mar e cerveja) também contribui para os níveis séricos de ácido úrico.
Eliminação do Ácido Úrico
- Via Renal: Aproximadamente dois terços (2/3) do ácido úrico são eliminados pelos rins através da urina.
- Via Gastrointestinal: O terço restante (1/3) é eliminado pelas fezes.
Causas da Hiperuricemia
O aumento dos níveis de ácido úrico no sangue pode ser atribuído a dois mecanismos principais:
| Mecanismo |
Descrição |
Exemplos/Causas |
| Superprodução de Ácido Úrico |
O organismo produz ácido úrico em excesso. |
Dieta rica em purinas, consumo de álcool, síndromes de lise tumoral, deficiências enzimáticas. |
| Subeliminação de Ácido Úrico |
Os rins não conseguem eliminar o ácido úrico de forma eficiente. |
Insuficiência renal, uso de diuréticos (tiazídicos), obesidade, hipotireoidismo, cetoacidose. |
Clínica e História Natural da Gota
A gota é uma doença que evolui em estágios, desde a hiperuricemia assintomática até a forma crônica com formação de tofos.
Estágios da Gota
- Hiperuricemia Assintomática: Níveis elevados de ácido úrico sem manifestações clínicas.
- Artrite Gotosa Aguda: Crises inflamatórias articulares súbitas e intensas.
- Gota Intercrítica: Períodos assintomáticos entre as crises agudas.
- Gota Tofosa Crônica: Formação de depósitos de cristais (tofos) e complicações sistêmicas.
A gota é caracterizada por crises agudas de inflamação seguidas por períodos de remissão. Com o tempo, a repetição das crises pode levar à formação de tofos, que são acúmulos de cristais de urato monossódico cercados por tecido granulomatoso.
🔎 Perfil Típico: O paciente gotoso clássico é um homem adulto, obeso, com histórico de consumo de álcool e dieta rica em carnes vermelhas.
Locais de Depósito do Ácido Úrico
Os cristais de urato monossódico tendem a se depositar em locais com características específicas:
- Locais Ácidos: Principalmente na urina, o que pode levar à formação de cálculos renais (nefrolitíase).
- Locais Frios: Preferencialmente em articulações distais, com temperaturas mais baixas, desencadeando a artrite.
(1) Hiperuricemia Assintomática (> 7 mg/dL)
Nesta fase, ocorre a precipitação de cristais de ácido úrico na circulação, mas sem sintomas articulares. É importante notar que apenas cerca de 5% dos indivíduos com hiperuricemia assintomática evoluem para gota, enquanto a maioria (95%) permanece assintomática por toda a vida. Nos 5% que evoluem, os cristais se acumulam nas articulações, desencadeando uma resposta inflamatória mediada por leucócitos, que fagocitam esses cristais, resultando na artrite gotosa aguda.
(2) Artrite Gotosa Aguda
Caracteriza-se por uma monoartrite aguda, uma reação inflamatória intensa dos leucócitos articulares aos cristais de ácido úrico. Esta crise é frequentemente precipitada por variações abruptas na uricemia ou por trauma articular. A fagocitose dos cristais pelos leucócitos leva à sua morte e à liberação de enzimas lisossômicas, resultando em uma inflamação severa, com dor, vermelhidão, inchaço e calor local, podendo ser acompanhada de febre e calafrios.
- Início: Súbito, geralmente à noite, e extremamente doloroso.
- Caráter: Autolimitado, resolvendo-se espontaneamente em 3 a 10 dias, sem sequelas articulares. No entanto, mais de 90% dos pacientes terão uma nova crise em até 10 anos.
- Acometimento Articular: Tipicamente monoarticular. Em casos de crises repetidas, pode evoluir para um padrão oligo ou poliarticular, especialmente em idosos e transplantados, dificultando o diagnóstico diferencial.
Fatores Precipitantes da Crise Aguda
- Trauma articular
- Libação alcoólica
- Dieta rica em purinas
- Uso de diuréticos tiazídicos
- Variações abruptas nos níveis de ácido úrico (tanto aumento quanto diminuição)
Articulação Mais Acometida
Devido à predileção da gota por locais frios, as articulações mais distais são as mais afetadas.
- Podagra: Inflamação da primeira articulação metatarsofalangeana (do hálux). É a manifestação clínica inicial em 75% a 90% dos casos.
As crises tendem a ser mais típicas e intensas quanto mais distal for a localização. O acometimento de articulações acima da cintura (punhos, cotovelos) geralmente indica maior gravidade e cronicidade da doença.
🚨 Alerta para Prova: Um homem de meia-idade com inflamação aguda no pé deve ser considerado gota até prova em contrário. Pacientes com hiperuricemia prolongada podem ter uma crise gotosa mesmo com níveis séricos de ácido úrico normais ou baixos durante a crise.
(3) Gota Intercrítica
Este é o período assintomático entre as crises agudas de gota. Durante esta fase, os níveis de ácido úrico podem estar elevados, e os cristais continuam a se depositar, preparando o terreno para futuras crises ou para a evolução para a gota tofosa crônica.
(4) Gota Tofosa Crônica
Esta fase é caracterizada pelo surgimento de tofos gotosos, que são depósitos visíveis e palpáveis de cristais de urato monossódico. Estes tofos podem se formar em cartilagens, articulações, tendões e partes moles. A localização clássica, embora não a mais frequente, é na hélice do pavilhão auricular externo.
- Complicações: Além da destruição articular, a gota tofosa crônica pode levar a nefrolitíase e nefropatia por urato.
- Curiosidade Clínica: Em pacientes com grande número de tofos, as manifestações articulares agudas podem ser menos frequentes e menos severas, pois os cristais ficam "aprisionados" nos tecidos granulomatosos dos tofos, com menor liberação para o espaço articular.
Diagnóstico
O diagnóstico definitivo da gota exige a identificação dos cristais de urato. Embora a história clínica seja sugestiva, a confirmação laboratorial é crucial.
Exame Padrão-Ouro: Artrocentese
A punção articular (artrocentese) é mandatória em casos de monoartrite aguda para excluir outras causas, especialmente a artrite séptica, que pode coexistir com a gota.
- Líquido Sinovial:
- Aspecto: Geralmente leitoso ou turvo.
- Leucócitos: Aumentados (inflamatório), com predomínio de neutrófilos.
- Cristais: Presença de cristais de urato monossódico (monourato dissódico) no interior dos leucócitos.
- Microscopia de Luz Polarizada: Revela cristais em forma de bastonete ou agulha, com forte birrefringência negativa. Este é um achado patognomônico.
🧪 Diagnóstico Essencial: A identificação de cristais de urato monossódico com forte birrefringência negativa no líquido sinovial é o critério diagnóstico definitivo para gota.
Dosagem de Ácido Úrico Sérico
A dosagem sérica de ácido úrico não é diagnóstica durante uma crise aguda. Os níveis podem estar normais ou até baixos, pois o ácido úrico pode ter se depositado nas articulações. Da mesma forma, pacientes com hiperuricemia podem não ter gota, e pacientes com artrite séptica podem ter ácido úrico elevado.
Observações Importantes sobre o Diagnóstico
- Ausência de Cristais: Em cerca de 5% dos casos, os cristais podem não ser encontrados na artrocentese, o que não exclui totalmente o diagnóstico de gota.
- Coexistência: A presença de cristais de urato não exclui a possibilidade de outra artropatia associada, como uma artrite séptica. Ambas as condições podem coexistir.
- Repetição da Punção: Não é necessário repetir a artrocentese a cada crise, a menos que haja suspeita de uma patologia diferente ou complicação.
Diagnóstico Provável (Quando a Punção Não é Possível)
O diagnóstico de gota é provável quando há:
- Hiperuricemia documentada.
- Quadro clínico característico (episódios de monoartrite aguda autolimitada, presença de tofos, alterações radiográficas típicas).
Alterações Radiográficas
As alterações radiográficas variam conforme a fase da doença:
| Fase da Gota |
Achados Radiográficos |
| Crise Aguda |
Apenas aumento de tecidos moles periarticulares. |
| Gota Tofosa Crônica |
- Erosões em "saca-bocado" (lesões líticas com margens escleróticas e bordas proeminentes, também conhecido como "sinal de Martel").
- Preservação do espaço articular (em contraste com outras artropatias).
- Ausência de osteopenia justarticular.
|
Tratamento
O tratamento da gota visa três objetivos principais: interromper a crise aguda, prevenir recidivas e reduzir a uricemia a longo prazo.
(1) Interromper a Crise Aguda
O objetivo é aliviar a dor e a inflamação rapidamente. É crucial evitar medicamentos que possam causar variações abruptas na uricemia, pois isso pode piorar a crise.
- Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): São a primeira linha de tratamento. Exemplos incluem indometacina e naproxeno.
- Corticosteroides: Podem ser administrados por via sistêmica (oral ou parenteral) ou local (intra-articular), especialmente quando AINEs são contraindicados ou ineficazes.
- Colchicina: Atua inibindo a migração e a função dos leucócitos intra-articulares, reduzindo a resposta inflamatória. É mais eficaz quando iniciada nas primeiras 24-36 horas da crise.
- Inibidores de IL-1: Em casos refratários, medicamentos como canaquinumabe e anakinra podem ser utilizados.
💊 Tratamento Agudo: AINEs, corticosteroides e colchicina são as principais opções. Evitar iniciar AAS durante a crise, pois pode variar a uricemia. Evidências atuais permitem o uso de alopurinol em crises agudas, mas geralmente não é a primeira escolha para interrupção.
(2) Prevenir Recidivas
A profilaxia das crises é indicada, especialmente em pacientes com mais de duas crises por ano ou com presença de tofos.
- Afastamento de Fatores de Risco: Modificações no estilo de vida são fundamentais, incluindo redução do consumo de álcool, perda de peso, dieta com baixo teor de purinas e, se possível, substituição de diuréticos tiazídicos.
- Colchicina Profilática: Administrada em baixas doses (ex: 0,5 mg 12/12h ou 1 mg/dia) para paralisar os leucócitos e prevenir novas crises. A duração do tratamento profilático com colchicina varia, mas geralmente é mantida por um período após o início da terapia para redução da uricemia (geralmente 3-6 meses após normalização do ácido úrico).
(3) Redução da Uricemia (Terapia Hipouricemiante)
O objetivo é manter os níveis de ácido úrico abaixo do limite de solubilidade (geralmente < 6 mg/dL, ou < 5 mg/dL em casos de gota tofosa crônica) para prevenir a formação de novos cristais e promover a dissolução dos existentes. Esta terapia é iniciada após o controle da crise aguda e geralmente em associação com colchicina profilática.
Existem duas abordagens principais para reduzir o ácido úrico:
- Redução da Síntese de Ácido Úrico:
- Alopurinol: É o medicamento de escolha para a maioria dos pacientes. Atua como inibidor da xantina-oxidase, a enzima responsável pela produção de ácido úrico.
- Febuxostate: Outro inibidor da xantina-oxidase, útil em pacientes intolerantes ou com contraindicações ao alopurinol.
- Aumento da Eliminação Urinária de Ácido Úrico (Uricosúricos):
- Probenecida: Aumenta a excreção renal de ácido úrico.
- Lesinurade: Outro uricosúrico.
⚠️ Cuidado com Uricosúricos: Medicamentos uricosúricos aumentam a carga de ácido úrico nos rins, podendo precipitar nefrolitíase ou agravar nefropatia. São contraindicados em idosos (> 60 anos), pacientes com nefrolitíase prévia ou qualquer grau de comprometimento renal. Preferencialmente usados em pacientes jovens, com excreção urinária de ácido úrico < 600 mg/24h e sem histórico de cálculos renais.
Na prática, alopurinol e uricosúricos podem ser associados para otimizar o controle da uricemia, dependendo do perfil e das necessidades do paciente. A colchicina profilática é mantida durante o início da terapia hipouricemiante para evitar crises agudas desencadeadas pela mobilização de cristais, sendo suspensa após cerca de 6 meses de uricemia normalizada e estabilizada.
Tratamento da Hiperuricemia Assintomática
Geralmente, a hiperuricemia assintomática não requer tratamento farmacológico, pois a maioria dos pacientes nunca desenvolverá gota. No entanto, existem algumas exceções importantes:
- Prevenção da Síndrome de Lise Tumoral: Em pacientes com neoplasias hematológicas (linfomas, leucemias) submetidos à quimioterapia, a rápida destruição celular libera grandes quantidades de purinas, elevando drasticamente o ácido úrico. Isso pode levar à precipitação de cristais nos túbulos renais, causando insuficiência renal aguda oligúrica e hipercalemia. A prevenção inclui:
- Hidratação vigorosa.
- Alopurinol.
- Bicarbonato de sódio para alcalinizar a urina e prevenir a formação de cálculos.
- Níveis Extremos de Uricemia:
- Uricemia > 10 mg/dL em mulheres.
- Uricemia > 13 mg/dL em homens.
- Excreção Elevada de Ácido Úrico: Excreção urinária de ácido úrico > 1.100 mg/24h.
💡 Dica: Lembre-se que a hiperuricemia assintomática só é tratada em situações específicas de alto risco ou níveis muito elevados, principalmente para prevenir complicações renais.
Artrite Séptica
A artrite séptica é uma condição inflamatória articular grave, causada pela invasão de um agente microbiano no espaço sinovial. É considerada uma emergência médica devido ao risco de rápida destruição articular e sequelas permanentes se não tratada prontamente.
Conceitos Iniciais
A infecção articular pode ser causada por diversos microrganismos, incluindo bactérias, fungos e vírus, embora as bactérias sejam as mais relevantes clinicamente e em contextos de prova. As principais vias de acesso do agente infeccioso à articulação são:
- Via Hematogênica: É a rota mais comum, onde o microrganismo alcança a articulação através da corrente sanguínea, a partir de um foco infeccioso distante (ex: infecção cutânea, urinária, respiratória).
- Inoculação Direta: Ocorre por trauma penetrante, procedimentos cirúrgicos articulares, artroscopia ou injeções intra-articulares.
- Contiguidade: Propagação de uma infecção de estruturas adjacentes, como osteomielite, celulite ou abscessos próximos à articulação.
🧠 Lembre-se: Toda monoartrite aguda deve ser tratada como artrite séptica até que se prove o contrário, exigindo artrocentese imediata.
Etiologia
A etiologia bacteriana é o foco principal para o estudo da artrite séptica, com agentes variando conforme a faixa etária e fatores de risco:
- Agente Mais Comum (Geral): O Staphylococcus aureus é o patógeno predominante em todas as faixas etárias, responsável pela maioria dos casos de artrite séptica não-gonocócica.
- Adultos Jovens Sexualmente Ativos (< 40 anos): Nesses indivíduos, a Neisseria gonorrhoeae (gonococo) é uma causa importante, justificando a diferenciação entre artrite séptica gonocócica e não-gonocócica.
Diagnóstico
O diagnóstico da artrite séptica é fundamentalmente laboratorial, com a artrocentese sendo o procedimento diagnóstico chave.
- Artrocentese: É um procedimento mandatório em toda monoartrite aguda para coleta e análise do líquido sinovial, permitindo a identificação do agente etiológico e a caracterização da inflamação.
- Análise do Líquido Articular:
- Aspecto: Geralmente turvo ou purulento.
- Glicose: Baixa, devido ao consumo pelos microrganismos e células inflamatórias.
- Proteínas: Elevadas, refletindo o processo inflamatório.
- Leucócitos: Contagem muito alta, tipicamente entre 20.000 e 100.000/mm³, com um predomínio marcante de neutrófilos (> 75%).
- Coloração de Gram: Pode revelar a presença e morfologia das bactérias (ex: cocos Gram-positivos, diplococos Gram-negativos).
- Cultura: Essencial para o isolamento e identificação do microrganismo, além da realização de antibiograma.
Artrite Séptica Gonocócica (N. gonorrhoeae)
Esta forma de artrite séptica é causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae e possui um perfil epidemiológico e clínico característico.
Epidemiologia
- É mais prevalente em adultos jovens sexualmente ativos.
Clínica
A apresentação clínica da artrite gonocócica pode ser dividida em duas fases, embora a sequência não seja obrigatória:
- 1ª Fase (Gonococcemia Disseminada): Resulta da disseminação do gonococo pela corrente sanguínea, manifestando-se como uma tríade clássica:
- Poliartrite Assimétrica e Migratória: Afeta grandes articulações, com dor que pode mudar de localização.
- Lesões de Pele: Tipicamente vesículas ou pústulas indolores, frequentemente em extremidades.
- Tenossinovite: Inflamação das bainhas dos tendões, com predileção pelos dedos da mão, podendo causar dactilite ("dedos em salsicha").
- 2ª Fase (Artrite Localizada): Nesta fase, o gonococo se estabelece em uma única articulação, resultando em uma monoartrite. É importante notar que esta apresentação monoarticular pode ser a manifestação inicial em até um terço dos casos, sem a fase disseminada prévia.
Diagnóstico
- Líquido Sinovial: A identificação de diplococos Gram-negativos é sugestiva. A cultura do líquido sinovial é positiva em aproximadamente 30% dos casos na fase oligoarticular.
- Hemocultura: Positiva em cerca de 10% dos casos na fase oligoarticular.
- Cultura de Sítios Mucosos: Recomenda-se a coleta de amostras de uretra, cérvix, reto e faringe para cultura, a fim de confirmar a infecção gonocócica primária.
Tratamento
- Antibioticoterapia:
- Ceftriaxone: 1 g, via intravenosa (IV) ou intramuscular (IM), a cada 24 horas, por um período de 7 a 14 dias.
- Cobertura para Clamídia: É prática comum adicionar Azitromicina ou Doxiciclina, devido à alta taxa de coinfecção sexual com Chlamydia trachomatis.
- Drenagem Articular: Pode ser indicada para remover o pus, aliviar a pressão intra-articular e acelerar a resolução clínica, embora seja menos frequentemente necessária do que na forma não-gonocócica.
Artrite Séptica Não-Gonocócica (S. aureus)
Esta é a forma mais prevalente de artrite séptica, frequentemente causada por Staphylococcus aureus.
Epidemiologia
- É o agente mais comum de artrite séptica em adultos com mais de 40 anos, crianças, idosos e pacientes imunossuprimidos.
Clínica
- Início: Geralmente se manifesta diretamente como uma monoartrite aguda, sem a fase poliarticular migratória observada na forma gonocócica.
- Articulações Acometidas: Há predileção por grandes articulações de carga, como joelho, quadril, tornozelo e punho.
- Porta de Entrada: Frequentemente, há uma porta de entrada identificável, como lesões de pele, infecções cutâneas próximas à articulação, uso de drogas intravenosas ou presença de cateteres.
Diagnóstico
- Líquido Sinovial: A identificação de cocos Gram-positivos em cachos é característica. A cultura do líquido sinovial é positiva em até 90% dos casos, e a celularidade pode ser ainda mais elevada, atingindo até 200.000/mm³.
- Hemocultura: Positiva em cerca de 50% dos casos.
Tratamento
- Antibioticoterapia:
- Oxacilina: É o tratamento de escolha, administrado por 3 a 4 semanas.
- Vancomicina: Deve ser utilizada em regiões com alta prevalência de Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) ou em casos de suspeita/confirmação de resistência.
- Drenagem Articular: É um componente crucial do tratamento, visando remover o pus, reduzir a pressão intra-articular e diminuir a carga bacteriana. Pode ser realizada por artrocentese de repetição, artroscopia ou artrotomia.
| Característica |
Artrite Séptica Gonocócica |
Artrite Séptica Não-Gonocócica |
| Agente Etiológico Principal |
Neisseria gonorrhoeae |
Staphylococcus aureus |
| Epidemiologia |
Adultos jovens sexualmente ativos |
Crianças, idosos, imunossuprimidos, adultos > 40 anos |
| Clínica |
1ª fase: poliartrite assimétrica e migratória + lesões de pele + tenossinovite. 2ª fase: monoartrite. |
Inicia com monoartrite. Pode haver porta de entrada. |
| Tenossinovite |
Comum (especialmente dactilite) |
Rara |
| Hemocultura |
Positiva em ~10% dos casos |
Positiva em ~50% dos casos |
| Cultura Sinovial |
Positiva em ~30% dos casos |
Positiva em ~90% dos casos |
| Tratamento |
Ceftriaxone (7-14 dias) + cobertura para Clamídia |
Oxacilina (3-4 semanas) ou Vancomicina |
| Artrocentese |
Mandatória |
Mandatória |
Osteoartrose
A osteoartrose, também conhecida como osteoartrite ou doença articular degenerativa, é a artropatia mais prevalente. Caracteriza-se pela degeneração progressiva da cartilagem articular e por alterações ósseas subcondrais, afetando a integridade funcional da articulação.
Conceitos Iniciais
Nesta condição, a cartilagem hialina que reveste as extremidades ósseas nas articulações sinoviais sofre um processo de amolecimento, fissuração e erosão. Com a perda da cartilagem, as superfícies ósseas ficam expostas e se atritam diretamente, levando a sintomas como dor, crepitação e à formação de osteófitos (popularmente "bicos de papagaio"), que são proeminências ósseas nas margens articulares.
🧠 Conceito Central: A osteoartrose é uma doença degenerativa que afeta toda a articulação, com a destruição da cartilagem sendo o evento central, levando a alterações ósseas secundárias.
Fatores de Risco
A osteoartrose é uma doença multifatorial, com diversos elementos contribuindo para seu desenvolvimento e progressão:
- Idade Avançada: É o fator de risco mais significativo, pois o acúmulo de estresse mecânico e microtraumas ao longo da vida contribui para o desgaste articular.
- Sexo Feminino e Fatores Genéticos: Mulheres são mais frequentemente afetadas, e há uma predisposição familiar em alguns casos.
- Obesidade: Aumenta a carga mecânica sobre as articulações de suporte de peso (especialmente joelhos e quadris), acelerando a degeneração. Há também um componente metabólico e inflamatório associado à obesidade.
- Trauma Articular: Lesões agudas (fraturas intra-articulares) ou microtraumas repetitivos (observados em atletas de alto rendimento ou em certas ocupações) podem predispor à osteoartrose.
- Deformidades Articulares: Anormalidades congênitas ou adquiridas (ex: joelho varo ou valgo) que alteram a biomecânica articular.
🔎 Perfil Clássico: A paciente típica com osteoartrose é uma mulher idosa, com sobrepeso ou obesidade, apresentando dor em articulações de carga.
Quadro Clínico
A osteoartrose manifesta-se com sintomas que refletem a degeneração articular, geralmente sem sinais sistêmicos de inflamação.
- Artralgia Mecânica: A dor é o sintoma predominante. Caracteristicamente, melhora com o repouso e piora com o movimento ou atividade física. Isso a diferencia da dor inflamatória (como na artrite reumatoide), que tende a persistir ou piorar com o repouso.
- Rigidez Pós-Repouso: Presente, mas de curta duração, geralmente menor que 30 minutos (em contraste com a artrite reumatoide, onde a rigidez matinal dura mais de 1 hora).
- Ausência de Manifestações Sistêmicas: Não há febre, fadiga, perda de peso ou outros sintomas constitucionais, que são comuns em doenças inflamatórias sistêmicas.
- Exames Laboratoriais Normais: Marcadores inflamatórios como VHS (velocidade de hemossedimentação) e PCR (proteína C reativa), fator reumatoide (FR) e hemograma são tipicamente normais.
- Dor Uniarticular Progressiva: No início, a dor pode ser localizada em uma única articulação, tornando-se progressivamente mais intensa e, eventualmente, afetando outras articulações.
- Crepitações: Sons de "rangido" ou "estalo" na articulação durante o movimento, resultantes do atrito entre as superfícies ósseas irregulares.
- Atrofia Muscular: Pode ocorrer devido à limitação do uso da articulação afetada pela dor.
- Sinovite Discreta: Em casos avançados, pode haver um componente inflamatório secundário, com sinovite leve, mas não é uma característica predominante.
Articulações Mais Acometidas
A osteoartrose afeta preferencialmente articulações de carga e aquelas submetidas a estresse repetitivo:
- Coluna Vertebral: Principalmente as articulações zigoapofisárias na coluna cervical e lombar.
- Quadris.
- Joelhos.
- Mãos:
- Articulações Interfalangeanas Distais (IFD): Frequentemente acometidas (diferente da artrite reumatoide, que geralmente poupa as IFD). Podem formar os Nódulos de Heberden.
- Articulações Interfalangeanas Proximais (IFP): Podem formar os Nódulos de Bouchard.
- Articulação Carpometacarpiana do Polegar.
- Pés: Articulação metatarsofalangeana do hálux (joanete).
Radiografia
As radiografias são essenciais para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade da osteoartrose, revelando alterações estruturais características:
- Redução do Espaço Articular: O estreitamento do espaço entre os ossos indica a perda da cartilagem articular.
- Osteófitos: Proeminências ósseas nas margens articulares, que são tentativas do osso de reparar o dano.
- Esclerose Subcondral: Aumento da densidade óssea (hipotransparência) abaixo da cartilagem destruída, como resposta ao estresse mecânico.
- Cistos Subcondrais (Geodos): Pequenas formações císticas no osso subcondral.
Diagnóstico
O diagnóstico da osteoartrose é primariamente clínico e radiológico.
- Combinação de Sinais: Baseia-se na presença de sinais radiológicos típicos em conjunto com o quadro clínico característico.
- Líquido Articular: Em caso de artrocentese (raramente necessária), o líquido sinovial é não inflamatório, com baixa celularidade e viscosidade normal.
💡 Dica Importante: A correlação entre a clínica e os achados radiográficos pode ser pobre. Um paciente pode ter radiografias com alterações significativas e poucos sintomas, ou vice-versa.
⚠️ Atenção para Prova: A presença de Fator Reumatoide (FR) positivo em baixos títulos não exclui o diagnóstico de osteoartrose, pois até 20% dos idosos podem apresentar FR positivo sem ter artrite reumatoide.
Tratamento
O tratamento da osteoartrose é multifacetado, visando aliviar a dor, melhorar a função e retardar a progressão da doença.
- Medidas Não Farmacológicas: São a base do tratamento e não devem ser negligenciadas:
- Fisioterapia e Exercícios Terapêuticos: Fortalecimento muscular, melhora da amplitude de movimento e estabilidade articular.
- Dieta e Perda de Peso: Redução da carga sobre as articulações e melhora do perfil metabólico.
- Educação do Paciente: Orientação sobre a doença e estratégias de autogestão.
- Tratamento Sintomático (Farmacológico):
- AINEs Tópicos: Considerados uma excelente opção devido ao menor risco de efeitos adversos sistêmicos (gástricos, renais) em comparação com os orais.
- AINEs Orais: Utilizados para alívio da dor, com cautela devido aos potenciais efeitos colaterais.
- Creme de Capsaicina: Pode proporcionar alívio da dor neuropática associada.
- Duloxetina: Antidepressivo que pode ser eficaz para dor crônica, incluindo a da osteoartrose.
- Opioides: Reservados para casos de dor intensa e refratária, devido ao risco de dependência e efeitos adversos.
- Outras Intervenções:
- Corticoides Intra-articulares: Injeções podem proporcionar alívio temporário da dor e inflamação, mas não alteram a progressão da doença.
- Viscossuplementação (Ácido Hialurônico): Injeções intra-articulares podem melhorar a lubrificação e a função articular em alguns pacientes.
- Artroscopia: Pode ser útil para remover fragmentos de cartilagem ou corpos livres, mas seu papel na osteoartrose é limitado.
- Cirurgia (Prótese Articular): Considerada para casos avançados com grande impotência funcional e dor refratária a todas as outras medidas.
Como Revisar Artrites?
Para otimizar a revisão e fixação dos conceitos, é útil categorizar as artrites com base no número de articulações acometidas e suas características distintivas.
Poliartrites (4 ou mais articulações acometidas)
- Artrite Reumatoide: Aditiva, simétrica, pequenas articulações (mãos e pés), poupa IFD, rigidez matinal > 1h, com manifestações sistêmicas.
- Síndrome Reumatoide: Quadro clínico que mimetiza a artrite reumatoide, mas com etiologia diferente.
- Febre Reumática: Migratória, grandes articulações, associada a infecção estreptocócica prévia.
- Colagenoses (ex: Artrite Lúpica): Migratória, pequenas articulações, geralmente não erosiva, associada a outras manifestações sistêmicas do lúpus.
- Artrite Gonocócica (fase inicial): Poliartrite assimétrica e migratória, frequentemente com lesões cutâneas e tenossinovite.
Mono/Oligoartrites (no máximo 3 articulações acometidas)
- Artrite Idiopática Juvenil: Início antes dos 16 anos, diversas formas de apresentação.
- Artrite Séptica Não-Gonocócica (S. aureus): Monoartrite aguda, geralmente em grandes articulações, com porta de entrada, em crianças, idosos ou imunossuprimidos.
- Artrite Séptica Gonocócica (fase tardia): Monoartrite aguda após fase disseminada, em adultos jovens sexualmente ativos.
- Osteoartrose: Mono/oligoartrite crônica, progressiva, em pacientes > 50 anos, dor mecânica, rigidez < 30 min, sem manifestações sistêmicas.
- Artrite Gotosa: Monoartrite aguda (podagra), início súbito noturno, extremamente dolorosa, autolimitada, associada a hiperuricemia e fatores precipitantes.
- Artrites Reativas (ex: Síndrome de Reiter): Oligoartrite assimétrica de membros inferiores, associada a uretrite e conjuntivite (tríade clássica).