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Colagenoses

As colagenoses representam um grupo de doenças inflamatórias multissistêmicas de caráter idiopático e autoimune. Nelas, o sistema imunológico do paciente produz autoanticorpos que atacam componentes do próprio tecido conjuntivo. Os principais representantes desse grupo incluem:


Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)

Introdução

O Lúpus Eritematoso Sistêmico é o protótipo das doenças inflamatórias autoimunes. Caracteriza-se por um padrão de surtos e remissões, com acometimento de múltiplos órgãos e sistemas. É mais prevalente em mulheres em idade fértil, especialmente da raça negra.

O LES é conhecido como a doença das "ITES" e "PENIAS", indicando a ampla gama de manifestações inflamatórias e hematológicas que pode apresentar:

Como uma doença inflamatória crônica, o LES pode apresentar sintomas gerais como febre, artralgia, mialgia, inapetência e anemia da doença crônica, além de alopecia. No entanto, o lúpus é notório por sua capacidade de afetar praticamente qualquer órgão ou sistema, daí a máxima: "Lúpus pode tudo..."

🧠 Lembre-se: O diagnóstico do LES é feito pela combinação de critérios clínicos e a presença de autoanticorpos específicos. O tratamento geralmente envolve corticosteroides, com ou sem imunossupressores.

Patogenia

A etiologia exata do LES é idiopática, mas sabe-se que pacientes que desenvolvem a doença possuem uma predisposição genética e são influenciados por fatores ambientais. Os principais fatores associados à patogenia incluem:

💡 Dica para Prova: O principal fator desencadeante do LES é a luz ultravioleta. Cerca de 70% dos casos são precipitados ou exacerbados pela exposição solar. A irradiação UV pode induzir alterações no DNA celular, tornando as células "estranhas" e desencadeando a produção de autoanticorpos em indivíduos predispostos.

Autoanticorpos no LES

A produção de autoanticorpos é uma característica central do LES. Esses anticorpos podem ser direcionados contra componentes do núcleo, citoplasma ou membrana das células. A identificação desses autoanticorpos é fundamental para o diagnóstico e acompanhamento da doença.

1. Anti-Nucleares (FAN)

O Fator Antinuclear (FAN) não é um único anticorpo, mas sim um grupo de autoanticorpos que reagem com componentes nucleares e, por vezes, citoplasmáticos. É o teste de triagem mais sensível para o LES.

🔬 Observação: Embora o FAN seja um grupo de anticorpos, na prática clínica, quando nos referimos a "FAN positivo", estamos indicando a presença de autoanticorpos antinucleares.

2. Anti-DNA Nativo (anti-dsDNA)

Este é um dos anticorpos mais importantes no LES, especialmente para monitoramento da atividade da doença e envolvimento renal.

💡 Dica para Prova: O anti-dsDNA é o anticorpo que mais cai em provas de residência devido à sua alta especificidade, correlação com a atividade da doença e forte associação com a nefrite lúpica.

3. Anti-Histona

Este anticorpo é o marcador clássico do lúpus induzido por drogas.

⚠️ Atenção: O anti-histona é o segundo anticorpo mais cobrado em provas, principalmente por sua relação com o lúpus induzido por drogas e a ausência de nefrite.

4. Anti-ENA (Antígenos Nucleares Extraíveis)

Os Anti-ENA são anticorpos direcionados contra antígenos nucleares que podem ser extraídos do núcleo celular. Incluem diversos subtipos, cada um com associações clínicas específicas.

💡 Dica para Prova: O anti-Ro/SSA é o segundo anticorpo mais importante a ser lembrado devido às suas diversas e marcantes associações clínicas.

5. Anti-Citoplasmáticos (Anti-P)

6. Anti-Membrana

Esses anticorpos são direcionados contra componentes da membrana celular, resultando em citopenias.

7. Antifosfolipídeo

Os anticorpos antifosfolipídeos são cruciais no LES devido à sua associação com a Síndrome Antifosfolipíde (SAF) e eventos trombóticos.

🔬 Texto: Se uma paciente com LES e anticorpos antifosfolipídeos estiver em uso de heparina, a avaliação clínica é fundamental: se houver trombose, a causa provável é a SAF; se houver sangramento, a heparina ou outra coagulopatia deve ser investigada.

Padrões do FAN

Ao solicitar o FAN, o resultado não se limita ao título (ex: 1:80), mas também inclui o padrão de fluorescência observado na imunofluorescência indireta (IFI) em células Hep-2. A interpretação desses padrões pode fornecer pistas sobre os autoanticorpos presentes.

A IFI em células Hep-2 é o método padrão para o FAN. Detalhes mais específicos dos padrões incluem:

Manifestações Clínicas e Laboratoriais do LES

As manifestações do LES são extremamente variadas e podem ser classificadas quanto à gravidade do acometimento sistêmico.

1. Pele e Mucosas

  1. Rash Malar ("Asa de Borboleta"): Eritema em face, poupando o sulco nasolabial.
  2. Fotossensibilidade: Reação cutânea exagerada à exposição solar, a manifestação cutânea mais comum.
  3. Lúpus Discoide: Lesões eritematosas, elevadas, com escamas aderentes, que podem deixar cicatrizes fibróticas e alopecia cicatricial, principalmente em pavilhão auricular e couro cabeludo.
  4. Úlceras Orais: Semelhantes a aftas, mas geralmente indolores.
  5. Alopecia Não Cicatricial: Queda de cabelo difusa, reversível com o controle da doença.
  6. Fenômeno de Raynaud: Alteração da coloração dos dedos (palidez, cianose, rubor) em resposta ao frio ou estresse.
  7. Livedo Reticular: Padrão reticulado e violáceo na pele, frequentemente associado à Síndrome Antifosfolipíde.
Tipos de Lúpus Cutâneo:

2. Articulações

  1. Artrite Não Erosiva: Acometimento de 2 ou mais articulações, geralmente migratória, simétrica e afetando pequenas articulações (lembrando a artrite reumatoide, mas sem promover deformidade articular significativa ou erosões ósseas).

É muito mais comum o paciente com LES apresentar apenas artralgia (dor articular) do que uma artrite inflamatória franca. Se houver deformidade articular no LES, deve-se pensar na Artropatia de Jaccoud.

🔬 Artropatia de Jaccoud: Caracteriza-se por deformidades articulares reversíveis, decorrentes de frouxidão ligamentar e não de destruição óssea ou cartilaginosa (diferente da artrite reumatoide, onde as deformidades são fixas e erosivas). O realinhamento da articulação é possível na artropatia de Jaccoud.

3. Serosas

  1. Pleurite ou Derrame Pleural: A pleurite é a manifestação serosítica mais comum.
  2. Pericardite ou Derrame Pericárdico: A pericardite também é frequente.

4. Hematológico

  1. Citopenias ("Penias"):
  2. Risco Aumentado de Síndrome Antifosfolipíde (SAF).
💡 Dica: Embora o LES possa causar anemia hemolítica ou ferropriva, a anemia da doença crônica é o tipo mais comum de anemia observada nesses pacientes.

5. Renal

  1. Proteinúria: Presença de proteínas na urina, indicando lesão glomerular.
  2. Cilindros Celulares: Encontrados no exame de urina (EAS), são marcadores de nefrite ativa.
  3. Imunofluorescência Renal: O padrão "Full-House" é patognomônico da nefrite lúpica, caracterizado pela deposição concomitante de três complementos (C1q, C3, C4) e duas imunoglobulinas (IgG, IgA, IgM).

6. Neurológico

  1. Convulsões ou Psicose: Devem ser atribuídas ao LES após exclusão de outras causas (ex: hiponatremia, uso de altas doses de corticoides).
  2. Delirium.
  3. Neuropatia Periférica, Mononeurite Múltipla, Mielite.

7. Imunológico

  1. FAN Positivo: O mais sensível para o diagnóstico.
  2. Anticorpos Específicos Positivos: Anti-dsDNA, Anti-Sm, Antifosfolipídeo (os mais específicos).
  3. Aumento dos Títulos de Anti-dsDNA: Indica atividade da doença.
  4. Queda dos Níveis de Complemento: Redução de C3, C4 e CH50, indicando consumo de complemento na atividade da doença.
  5. Coombs Direto Positivo: Indicativo de anemia hemolítica autoimune.
  6. Aumento de PCR/VHS: Marcadores inflamatórios, embora o VHS seja mais consistentemente elevado no LES do que o PCR (que pode ser normal mesmo em doença ativa, exceto em serosite ou infecção).
🔬 Exames Complementares Úteis: Para o diagnóstico e acompanhamento inicial do LES, os exames complementares mais relevantes incluem: Radiografia de Tórax (para serosite), Hemograma Completo (para citopenias), Urina EAS (para nefrite) e Dosagem de Autoanticorpos específicos.

Nefrite Lúpica

A nefrite lúpica é uma complicação renal comum e potencialmente grave do LES, resultante da deposição de imunocomplexos nos glomérulos. O diagnóstico e a classificação precisos são cruciais para guiar o tratamento e monitorar a progressão da doença.

Indicações de Biópsia Renal

A biópsia renal é fundamental para o diagnóstico histopatológico e a classificação da nefrite lúpica, sendo indicada nas seguintes situações:

Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS 2003)

A classificação histopatológica da nefrite lúpica é essencial para a estratificação de risco e decisão terapêutica. As classes IV e V são particularmente relevantes para provas de residência devido à sua frequência e gravidade.

⚠️ High Yield Notes: Nefrite Lúpica
Característica Principal Classe de Nefrite Lúpica
Síndrome Nefrótica Pura V (Membranosa)
Síndrome Nefrítica +/- Nefrótica IV (Proliferativa Difusa)
Síndrome Nefrítica Leve + Proteinúria Não Nefrótica III (Proliferativa Focal)

Síndrome Lúpus-Like (Lúpus Fármaco-Induzido)

O lúpus fármaco-induzido é uma condição que mimetiza o LES, desencadeada pela exposição a certas drogas. É importante reconhecê-lo para a correta abordagem terapêutica.

🚨 Atenção: Eventos Isquêmicos no LES

O LES pode estar associado a eventos isquêmicos por diferentes mecanismos:

Critérios Diagnósticos EULAR/ACR (2019) para LES

Os critérios de classificação do LES foram atualizados em 2019 pela Liga Europeia Contra o Reumatismo (EULAR) e o Colégio Americano de Reumatologia (ACR) para melhorar a sensibilidade e especificidade diagnóstica. É fundamental conhecer a estrutura e os pontos de corte.

Critério de Entrada Obrigatório

Para que um paciente seja classificado como LES, é mandatório que apresente:

Critérios Adicionais (Pontuação ≥ 10 para Classificação)

Após o critério de entrada, os seguintes pontos devem ser considerados para os critérios adicionais:

Domínios e Critérios Clínicos Escore Domínios e Critérios Imunológicos Escore
Constitucional Anticorpos Antifosfolipídeos
Febre (> 38,3°C) 2 Anticardiolipina ou Anti-B2GP1 ou Anticoagulante Lúpico 2
Hematológico Complemento
Leucopenia (< 4000/mm³) 3 C3 ou C4 baixo 3
Trombocitopenia (< 100.000/mm³) 4 C3 e C4 baixos 4
Hemólise Autoimune 4 Anticorpos Específicos para LES
Neuropsiquiátrico Anti-dsDNA ou Anti-Sm 6
Delirium 2
Psicose 3
Crise Epiléptica 5
Mucocutâneo
Alopécia não cicatricial 2
Úlceras orais 2
Lúpus cutâneo subagudo ou discoide 4
Lúpus cutâneo agudo 6
Serosite
Derrame pleural ou pericárdico 5
Pericardite aguda 6
Musculoesquelético
Envolvimento articular 6
Renal
Proteinúria > 0,5 g/24h 4
Nefrite lúpica classe II ou V (biópsia) 8
Nefrite lúpica classe III ou IV (biópsia) 10
💡 Pontuação Total: Classifique como Lúpus Eritematoso Sistêmico se a pontuação total for ≥ 10, após o critério de entrada do FAN positivo.

O Que Mudou nos Critérios Diagnósticos (EULAR/ACR 2019)

É crucial estar ciente das modificações em relação aos critérios anteriores para evitar erros em provas:

🧠 Resumo das Mudanças:

1. Critério de Entrada Obrigatório:

2. Critérios Aditivos:

Tratamento do Lúpus Eritematoso Sistêmico

O tratamento do LES é individualizado, dependendo da gravidade e dos órgãos acometidos. No entanto, algumas medidas são universais e a hidroxicloroquina é a base do tratamento para a maioria dos pacientes.

Para Todos os Pacientes

LES Brando (Acometimento de pele, mucosa, articulações, serosas)

💊 Dica Terapêutica: A talidomida é uma opção eficaz para o tratamento do lúpus discoide refratário.

LES Moderado (Citopenias sanguíneas)

LES Grave (Acometimento renal ou do SNC)


Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF)

A Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF) é uma trombofilia adquirida, autoimune, caracterizada pela ocorrência de tromboses (arteriais ou venosas) e/ou morbidade gestacional, na presença de anticorpos antifosfolipídeos persistentes.

Conceitos Iniciais

Diagnóstico (Critérios de Sydney Revisados)

O diagnóstico da SAF requer a presença de pelo menos um critério clínico e um critério laboratorial.

Critérios Clínicos:

Critérios Laboratoriais (repetir em > 12 semanas):

A presença de um ou mais dos seguintes anticorpos, detectados em duas ou mais ocasiões, com pelo menos 12 semanas de intervalo:

⚠️ Atenção: Pontos Chave na SAF

Tratamento da Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo

O tratamento da SAF visa prevenir eventos trombóticos e complicações gestacionais, sendo a anticoagulação a pedra angular da terapia.

Pacientes Assintomáticos (apenas anticorpos positivos)

Pacientes Sintomáticos (com histórico de trombose)

Gestantes Atuais com Perda Fetal Prévia

💊 Lembre-se: Os novos anticoagulantes orais (DOACs/NOACs) não fazem parte do esquema terapêutico padrão para SAF, pois ainda não há estudos suficientes que comprovem sua eficácia e segurança nesse contexto, especialmente na prevenção de tromboses arteriais e complicações gestacionais.

Síndrome de Sjögren

Conceitos Iniciais

A Síndrome de Sjögren é uma doença autoimune sistêmica que se manifesta primariamente por um infiltrado linfocitário em glândulas exócrinas, especialmente as salivares e lacrimais, resultando na clássica "síndrome seca". É mais prevalente em mulheres brancas, geralmente entre 30 e 40 anos, e atualmente é considerada mais comum que o LES, embora frequentemente subdiagnosticada. O acometimento principal são as glândulas exócrinas do rosto, levando a xerostomia (boca seca) e xeroftalmia (olho seco), daí o apelido de "doença seca".

🧠 Conceito Chave: Sjögren é a "doença seca" por excelência, marcada pela infiltração linfocitária em glândulas exócrinas.

Manifestações Clínicas

A apresentação clínica da Síndrome de Sjögren é dominada pela síndrome seca, mas pode envolver uma série de manifestações extraglandulares:

⚠️ Atenção: A presença de cáries é um achado muito comum e relevante em provas para Sjögren.
🚨 Alerta: Pacientes com Sjögren têm um risco significativamente aumentado (até 40x) de desenvolver Linfoma Não-Hodgkin de células B da zona marginal extranodal, especialmente se houver nodulação ou aumento persistente da parótida.
💡 Dica de Prova: Sjögren com nodulação *fora* da parótida sugere pseudolinfoma, que é uma reação inflamatória da doença, não um tumor maligno.

Formas da Doença

Achados Laboratoriais

Diagnóstico

O diagnóstico da Síndrome de Sjögren baseia-se na combinação de achados clínicos e laboratoriais, incluindo a presença de autoanticorpos específicos ou biópsia positiva, juntamente com sinais objetivos de secura:

Representação de testes diagnósticos para Síndrome de Sjögren

Tratamento

O tratamento da Síndrome de Sjögren é predominantemente sintomático e visa aliviar a secura e controlar as manifestações sistêmicas:


Esclerodermia ou Esclerose Sistêmica

Conceitos Iniciais

A Esclerodermia, cujo termo significa "pele dura" (esclero = pele; dermia = fibrose), é mais precisamente denominada Esclerose Sistêmica, pois não se restringe apenas à fibrose cutânea. É uma doença autoimune caracterizada por fibrose da pele e de órgãos internos, além de disfunção vascular e autoimunidade. Existem outras condições que causam fibrose cutânea, mas a Esclerose Sistêmica é definida pelo acometimento sistêmico.

Epidemiologia

É mais comum em mulheres de meia-idade (30-50 anos), com uma proporção de 4:1 em relação aos homens.

Fisiopatologia

A Esclerose Sistêmica é impulsionada por uma resposta autoimune que leva à produção de autoanticorpos e à ativação de linfócitos T, resultando em fibrose progressiva. Diferente de outras colagenoses com surtos e remissões, o padrão de ataque na esclerodermia é monofásico e contínuo. A fisiopatologia envolve uma interação complexa entre:

Os órgãos mais frequentemente acometidos por necrose e fibrose são a pele, esôfago, rins e pulmões, embora o trato gastrointestinal e outros sistemas também possam ser afetados.

Manifestações Clínicas

Pele

Ilustração de manifestações cutâneas da esclerodermia

Rim

⚠️ Atenção: O uso de corticosteroides é CONTRAINDICADO na crise renal esclerodérmica, pois pode piorar o quadro e agravar a hipertensão.

Esôfago

Pulmão

O acometimento pulmonar é a principal causa de morte na esclerodermia e pode se manifestar de duas formas principais:

🔎 Diagnóstico por Imagem:

Formas Clínicas

Formas Localizadas

Afetam predominantemente a pele, sem acometimento significativo de órgãos internos. Não são consideradas Esclerose Sistêmica:

Formas Sistêmicas

Caracterizadas pelo acometimento de órgãos internos, além da pele.

Característica Esclerose Sistêmica Cutânea Limitada Esclerose Sistêmica Cutânea Difusa
Fisiopatologia Predominante Polo vascular Polo fibrótico
Acometimento da Pele Apenas extremidades distais dos membros, pescoço e face; evolução lenta Qualquer parte do corpo; evolução rápida
Fenômeno de Raynaud Pode anteceder o quadro cutâneo em anos Antecede o quadro cutâneo em no máximo 1 ano
Síndrome CREST Comum Calcinose menos comum, sintomas viscerais mais proeminentes
Acometimento Pulmonar Predomínio de Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) Predomínio de fibrose pulmonar (DPI)
Acometimento Renal Raramente acometido Crise renal esclerodérmica em ~15% dos casos
Autoanticorpos Típicos Anticentrômero Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70), Anti-RNA Polimerase III

Autoanticorpos Específicos

O Fator Antinúcleo (FAN) é positivo em 90-95% dos casos de Esclerose Sistêmica, mas os anticorpos específicos são cruciais para o diagnóstico e prognóstico:

Diagnóstico

O diagnóstico da Esclerose Sistêmica é clínico, complementado por exames laboratoriais e de imagem. Os critérios de classificação ACR/EULAR de 2013 auxiliam no diagnóstico precoce:

Critério (ACR/EULAR 2013) Pontuação
Espessamento cutâneo de ambas as mãos, proximal às articulações metacarpofalangeanas 9
Espessamento cutâneo dos dedos (pontuar apenas o maior escore)
    Edema de dedos (puffy fingers) 2
    Esclerodactilia 4
Fenômeno de Raynaud 3
Lesões de polpas digitais (pontuar apenas o maior escore)
    Ulcerações de polpas digitais 2
    Pitting scars (cicatrizes puntiformes) 3
Telangiectasias 2
Anticorpos específicos (escore máximo 3)
    Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70) 3
    Anticentrômero 3
    Anti-RNA Polimerase III 3
Capilaroscopia alterada 2
Hipertensão arterial pulmonar ou doença intersticial pulmonar 2

Classifica como portador de Esclerose Sistêmica se pelo menos 9 pontos.

Exames Complementares

Comparação de capilaroscopia normal e alterada na esclerodermia

Tratamento

A Esclerose Sistêmica não tem cura, e o tratamento é focado no manejo das complicações e sintomas específicos de cada órgão acometido:

🧠 Resumo Rápido:

Miopatias Inflamatórias (Dermatomiosite e Polimiosite)

Conceitos Iniciais

As miopatias inflamatórias idiopáticas, principalmente a Polimiosite (PM) e a Dermatomiosite (DM), são colagenoses autoimunes que afetam primariamente a musculatura esquelética. São mais comuns em mulheres (proporção de 2:1) entre 30 e 50 anos. A patogênese envolve um ataque autoimune aos vasos sanguíneos musculares (DM) ou às próprias fibras musculares (PM), resultando em um processo inflamatório que causa fraqueza muscular proximal e simétrica.

🧠 Conceito Chave: Fraqueza muscular proximal e simétrica é a marca registrada, afetando cinturas escapular e pélvica. Pense em dificuldade para atividades como levantar os braços, subir escadas ou pentear o cabelo.

Manifestações Clínicas

Miosite (Acometimento Muscular)

Síndrome Antissintetase

Um subgrupo de miopatias inflamatórias com um quadro mais agressivo e rápido, caracterizado pela presença de anticorpos antissintetase (o mais clássico é o Anti-Jo-1). A síndrome é definida pela presença de pelo menos dois dos seguintes achados:

Dermatomiosite (Manifestações Cutâneas)

A Dermatomiosite se distingue da Polimiosite pela presença de manifestações cutâneas características, muitas delas patognomônicas:

Ilustração de Heliótropo e Pápulas de Gottron
🚨 Alerta: A Dermatomiosite está fortemente associada a neoplasias (síndrome paraneoplásica), que podem surgir antes, durante ou após o diagnóstico da DM. É mandatório rastrear câncer em pacientes com DM, especialmente de mama, ovário, próstata e pulmão.

Diferenças entre Polimiosite e Dermatomiosite

Embora frequentemente agrupadas, PM e DM possuem diferenças imunopatológicas e clínicas importantes:

Característica Polimiosite (PM) Dermatomiosite (DM)
Lesão Primária Lesão muscular direta (inflamação endomisial) Lesão vascular direta (vasculite perimisial), com dano muscular secundário
Imunidade Predominante Imunidade celular (Linfócitos T CD8+) Imunidade humoral (Linfócitos B, complexos de ataque à membrana)
Manifestações Cutâneas Ausentes Presentes (Heliótropo, Pápulas de Gottron, Rash Malar com acometimento do sulco nasolabial, Sinal do Manto, Sinal do Xale)
Associação com Neoplasias Menor risco Maior risco (mama, ovário, próstata, pulmão, pâncreas, bexiga, estômago)

Diagnóstico

O diagnóstico das miopatias inflamatórias baseia-se em uma combinação de achados clínicos, laboratoriais e histopatológicos:

💡 Dica: O VHS (velocidade de hemossedimentação) geralmente *não* está aumentado nas miopatias inflamatórias, o que pode ser uma pegadinha de prova.

Diagnóstico Diferencial (Pegadinhas de Prova)

Tratamento

O tratamento das miopatias inflamatórias visa controlar a inflamação muscular e cutânea, prevenir danos e melhorar a força:


Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC)

Conceitos Iniciais

A Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC) é uma síndrome autoimune que se caracteriza pela presença de manifestações clínicas que se sobrepõem a outras colagenoses, como Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Esclerose Sistêmica, Polimiosite/Dermatomiosite e Síndrome de Sjögren. Apesar de parecer um "overlap" de doenças, a DMTC é considerada uma entidade nosológica independente, definida pela presença de um autoanticorpo específico.

🧠 Conceito Chave: A DMTC é a "bagunça de eventos" com Anti-RNP positivo em altos títulos, combinando características de outras colagenoses.

Critérios Diagnósticos (Alarcón-Segóvia)

O diagnóstico da DMTC requer a presença de um critério sorológico e pelo menos três critérios clínicos, sendo um deles obrigatoriamente miosite ou sinovite:

Tratamento

O tratamento da DMTC é guiado pelas manifestações clínicas predominantes e sua gravidade:

Observações Importantes