Colagenoses
As colagenoses representam um grupo de doenças inflamatórias multissistêmicas de caráter idiopático e autoimune. Nelas, o sistema imunológico do paciente produz autoanticorpos que atacam componentes do próprio tecido conjuntivo. Os principais representantes desse grupo incluem:
- Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
- Esclerodermia
- Miopatias Inflamatórias Idiopáticas
- Síndrome de Sjögren
- Doença Mista do Tecido Conjuntivo
Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
Introdução
O Lúpus Eritematoso Sistêmico é o protótipo das doenças inflamatórias autoimunes. Caracteriza-se por um padrão de surtos e remissões, com acometimento de múltiplos órgãos e sistemas. É mais prevalente em mulheres em idade fértil, especialmente da raça negra.
O LES é conhecido como a doença das "ITES" e "PENIAS", indicando a ampla gama de manifestações inflamatórias e hematológicas que pode apresentar:
- "ITES": Dermatite, Serosite (pleurite, pericardite), Nefrite, Artrite, Vasculite, Cerebrite.
- "PENIAS": Anemia, Leucopenia, Linfopenia, Plaquetopenia.
Como uma doença inflamatória crônica, o LES pode apresentar sintomas gerais como febre, artralgia, mialgia, inapetência e anemia da doença crônica, além de alopecia. No entanto, o lúpus é notório por sua capacidade de afetar praticamente qualquer órgão ou sistema, daí a máxima: "Lúpus pode tudo..."
🧠 Lembre-se: O diagnóstico do LES é feito pela combinação de critérios clínicos e a presença de autoanticorpos específicos. O tratamento geralmente envolve corticosteroides, com ou sem imunossupressores.
Patogenia
A etiologia exata do LES é idiopática, mas sabe-se que pacientes que desenvolvem a doença possuem uma predisposição genética e são influenciados por fatores ambientais. Os principais fatores associados à patogenia incluem:
- Deficiências de Complemento: Principalmente de C2 e C4.
- Alelos HLA: Associação com HLA-DR2 e HLA-DR3.
- Fatores Hormonais: Níveis elevados de estrogênio.
- Fatores Demográficos: Raça negra.
- Fatores Ambientais: Tabagismo, certos medicamentos, microrganismos e, crucialmente, a luz ultravioleta.
💡 Dica para Prova: O principal fator desencadeante do LES é a luz ultravioleta. Cerca de 70% dos casos são precipitados ou exacerbados pela exposição solar. A irradiação UV pode induzir alterações no DNA celular, tornando as células "estranhas" e desencadeando a produção de autoanticorpos em indivíduos predispostos.
Autoanticorpos no LES
A produção de autoanticorpos é uma característica central do LES. Esses anticorpos podem ser direcionados contra componentes do núcleo, citoplasma ou membrana das células. A identificação desses autoanticorpos é fundamental para o diagnóstico e acompanhamento da doença.
1. Anti-Nucleares (FAN)
O Fator Antinuclear (FAN) não é um único anticorpo, mas sim um grupo de autoanticorpos que reagem com componentes nucleares e, por vezes, citoplasmáticos. É o teste de triagem mais sensível para o LES.
- Sensibilidade: O FAN é positivo em aproximadamente 98% dos pacientes com LES, tornando-o um excelente teste de rastreamento. Um FAN negativo torna o diagnóstico de LES altamente improvável (mas não impossível, como veremos com o anti-Ro/SSA).
- Especificidade: Sua especificidade é baixa, pois pode ser positivo em outras doenças autoimunes, infecções e até em indivíduos saudáveis (especialmente em baixos títulos).
🔬 Observação: Embora o FAN seja um grupo de anticorpos, na prática clínica, quando nos referimos a "FAN positivo", estamos indicando a presença de autoanticorpos antinucleares.
2. Anti-DNA Nativo (anti-dsDNA)
Este é um dos anticorpos mais importantes no LES, especialmente para monitoramento da atividade da doença e envolvimento renal.
- Especificidade: É um dos anticorpos mais específicos para o LES (junto com o anti-Sm).
- Prevalência: Presente em cerca de 70% dos pacientes com LES.
- Atividade da Doença: Seus títulos estão diretamente relacionados à atividade da doença. Um aumento nos títulos de anti-dsDNA frequentemente indica um surto ou exacerbação.
- Nefrite Lúpica: Fortemente associado à nefrite lúpica. Pacientes com anti-dsDNA positivo têm maior probabilidade de desenvolver ou apresentar nefrite.
- Padrão do FAN: Geralmente associado ao padrão homogêneo no FAN.
💡 Dica para Prova: O anti-dsDNA é o anticorpo que mais cai em provas de residência devido à sua alta especificidade, correlação com a atividade da doença e forte associação com a nefrite lúpica.
3. Anti-Histona
Este anticorpo é o marcador clássico do lúpus induzido por drogas.
- Lúpus Induzido por Drogas: Presente em aproximadamente 95% dos pacientes com lúpus induzido por drogas.
- Acometimento Renal: Diferente do LES idiopático, o lúpus induzido por drogas e a presença de anti-histona não causam nefrite lúpica.
- Padrão do FAN: Associado ao padrão homogêneo no FAN.
- Principais Drogas Associadas: Procainamida, hidralazina, quinidina, isoniazida, carbamazepina, metildopa, sulfassalazina, anti-TNF e inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA).
⚠️ Atenção: O anti-histona é o segundo anticorpo mais cobrado em provas, principalmente por sua relação com o lúpus induzido por drogas e a ausência de nefrite.
4. Anti-ENA (Antígenos Nucleares Extraíveis)
Os Anti-ENA são anticorpos direcionados contra antígenos nucleares que podem ser extraídos do núcleo celular. Incluem diversos subtipos, cada um com associações clínicas específicas.
- Anti-Sm (Smith):
- Especificidade: É o mais específico para o LES (junto com o anti-dsDNA).
- Prevalência: Presente em cerca de 30% dos pacientes com LES.
- Padrão do FAN: Associado ao padrão salpicado.
- Anti-RNP (Ribonucleoproteína):
- Associação: Fortemente associado à Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC).
- Prevalência: Presente em cerca de 40% dos pacientes com LES.
- Padrão do FAN: Associado ao padrão salpicado.
- Anti-La/SSB:
- Associação: Característico da Síndrome de Sjögren.
- Prevalência: Presente em cerca de 10% dos pacientes com LES.
- Nefrite Lúpica: Pacientes com anti-La/SSB positivo geralmente não apresentam nefrite lúpica.
- Coexistência: Raramente coexiste com anti-dsDNA.
- Anti-Ro/SSA:
- Associação: É um anticorpo com múltiplas associações clínicas importantes:
- Característico da Síndrome de Sjögren.
- Relacionado à fotossensibilidade (pacientes com anti-Ro/SSA positivo frequentemente desenvolvem lesões cutâneas após exposição solar).
- Associado ao Lúpus Cutâneo Subagudo (lesões anulares ou pápulo-escamosas).
- Causa do Lúpus Neonatal e Bloqueio Atrioventricular Total (BAVT) congênito em recém-nascidos de mães com LES ou Sjögren.
- Pode estar presente em pacientes com LES e FAN negativo (cerca de 2% dos casos de LES).
- Prevalência: Presente em cerca de 30% dos pacientes com LES.
💡 Dica para Prova: O anti-Ro/SSA é o segundo anticorpo mais importante a ser lembrado devido às suas diversas e marcantes associações clínicas.
5. Anti-Citoplasmáticos (Anti-P)
- Anti-P (Anti-Ribossomal P):
- Associação: Fortemente relacionado à psicose lúpica e outras manifestações neuropsiquiátricas do LES.
- Clínica: Sua presença deve ser investigada em pacientes com LES que desenvolvem alucinações, delírios ou outras alterações psiquiátricas.
6. Anti-Membrana
Esses anticorpos são direcionados contra componentes da membrana celular, resultando em citopenias.
- Anti-Hemácia: Associado à anemia hemolítica.
- Anti-Linfócito: Associado à linfopenia.
- Anti-Plaqueta: Associado à plaquetopenia.
- Anti-Neurônio: Associado a convulsões e outras manifestações neurológicas.
7. Antifosfolipídeo
Os anticorpos antifosfolipídeos são cruciais no LES devido à sua associação com a Síndrome Antifosfolipíde (SAF) e eventos trombóticos.
- Componentes: Incluem o Anticoagulante Lúpico, Anti-β2-Glicoproteína 1 e Anticardiolipina.
- Associação Clínica: Fortemente relacionados a eventos trombóticos (arteriais e venosos) e complicações obstétricas (abortos de repetição).
- VDRL Falso Positivo: A presença de anticorpos antifosfolipídeos pode levar a um VDRL falso positivo (geralmente em baixos títulos, < 1:8) na ausência de sífilis. Para diferenciar, um teste treponêmico específico (FTA-ABS) deve ser solicitado.
- Paradoxo do Anticoagulante Lúpico: O Anticoagulante Lúpico, apesar do nome, está associado a trombose in vivo. No laboratório (in vitro), ele alarga o tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPA), simulando um estado de anticoagulação. Portanto, a combinação de trombose + TTPA alargado deve levantar a suspeita de LES com anticorpos antifosfolipídeos.
🔬 Texto: Se uma paciente com LES e anticorpos antifosfolipídeos estiver em uso de heparina, a avaliação clínica é fundamental: se houver trombose, a causa provável é a SAF; se houver sangramento, a heparina ou outra coagulopatia deve ser investigada.
Padrões do FAN
Ao solicitar o FAN, o resultado não se limita ao título (ex: 1:80), mas também inclui o padrão de fluorescência observado na imunofluorescência indireta (IFI) em células Hep-2. A interpretação desses padrões pode fornecer pistas sobre os autoanticorpos presentes.
- Padrão Nuclear Homogêneo: Associado a anti-histona e anti-DNA nativo.
- Padrão Nuclear Pontilhado/Salpicado: Associado a anti-ENA (Sm, Ro, La, RNP).
A IFI em células Hep-2 é o método padrão para o FAN. Detalhes mais específicos dos padrões incluem:
- Nuclear Pontilhado Fino Denso: Comum em pacientes jovens sem comorbidades, relacionado a anti-LEDP75 ou DFS70.
- Nuclear Pontilhado Fino (não denso): Relacionado a anti-Ro/La, anti-Scl70, entre outros.
- Nuclear Pontilhado Grosso: Associado a anti-Sm, anti-U1RNP.
- Nuclear Homogêneo: Associado a anti-DNA, anti-histona, anti-nucleossomo.
Manifestações Clínicas e Laboratoriais do LES
As manifestações do LES são extremamente variadas e podem ser classificadas quanto à gravidade do acometimento sistêmico.
- LES "Brando": Sintomas constitucionais (febre, perda de peso) + acometimento de pele, mucosas, articulações e/ou serosas.
- LES "Moderado": Acometimento hematológico adicionado às manifestações do LES brando.
- LES "Grave": Acometimento renal e/ou neuropsiquiátrico, indicando maior risco de morbimortalidade.
1. Pele e Mucosas
- Rash Malar ("Asa de Borboleta"): Eritema em face, poupando o sulco nasolabial.
- Fotossensibilidade: Reação cutânea exagerada à exposição solar, a manifestação cutânea mais comum.
- Lúpus Discoide: Lesões eritematosas, elevadas, com escamas aderentes, que podem deixar cicatrizes fibróticas e alopecia cicatricial, principalmente em pavilhão auricular e couro cabeludo.
- Úlceras Orais: Semelhantes a aftas, mas geralmente indolores.
- Alopecia Não Cicatricial: Queda de cabelo difusa, reversível com o controle da doença.
- Fenômeno de Raynaud: Alteração da coloração dos dedos (palidez, cianose, rubor) em resposta ao frio ou estresse.
- Livedo Reticular: Padrão reticulado e violáceo na pele, frequentemente associado à Síndrome Antifosfolipíde.
Tipos de Lúpus Cutâneo:
- Lúpus Cutâneo Agudo: Reação de hipersensibilidade à fotoexposição, manifestando-se como rash malar ou fotossensibilidade.
- Lúpus Cutâneo Subagudo: Lesões anulares ou pápulo-escamosas.
- Lúpus Cutâneo Crônico: Inclui o lúpus discoide (com cicatriz atrófica e deformidades), e o lúpus profundo (paniculite lúpica).
2. Articulações
- Artrite Não Erosiva: Acometimento de 2 ou mais articulações, geralmente migratória, simétrica e afetando pequenas articulações (lembrando a artrite reumatoide, mas sem promover deformidade articular significativa ou erosões ósseas).
É muito mais comum o paciente com LES apresentar apenas artralgia (dor articular) do que uma artrite inflamatória franca. Se houver deformidade articular no LES, deve-se pensar na Artropatia de Jaccoud.
🔬 Artropatia de Jaccoud: Caracteriza-se por deformidades articulares reversíveis, decorrentes de frouxidão ligamentar e não de destruição óssea ou cartilaginosa (diferente da artrite reumatoide, onde as deformidades são fixas e erosivas). O realinhamento da articulação é possível na artropatia de Jaccoud.
3. Serosas
- Pleurite ou Derrame Pleural: A pleurite é a manifestação serosítica mais comum.
- Pericardite ou Derrame Pericárdico: A pericardite também é frequente.
4. Hematológico
- Citopenias ("Penias"):
- Anemia Hemolítica (Coombs direto positivo).
- Leucopenia (< 4.000/mm³).
- Linfopenia.
- Plaquetopenia (< 100.000/mm³).
- Risco Aumentado de Síndrome Antifosfolipíde (SAF).
💡 Dica: Embora o LES possa causar anemia hemolítica ou ferropriva, a anemia da doença crônica é o tipo mais comum de anemia observada nesses pacientes.
5. Renal
- Proteinúria: Presença de proteínas na urina, indicando lesão glomerular.
- Cilindros Celulares: Encontrados no exame de urina (EAS), são marcadores de nefrite ativa.
- Imunofluorescência Renal: O padrão "Full-House" é patognomônico da nefrite lúpica, caracterizado pela deposição concomitante de três complementos (C1q, C3, C4) e duas imunoglobulinas (IgG, IgA, IgM).
6. Neurológico
- Convulsões ou Psicose: Devem ser atribuídas ao LES após exclusão de outras causas (ex: hiponatremia, uso de altas doses de corticoides).
- Delirium.
- Neuropatia Periférica, Mononeurite Múltipla, Mielite.
7. Imunológico
- FAN Positivo: O mais sensível para o diagnóstico.
- Anticorpos Específicos Positivos: Anti-dsDNA, Anti-Sm, Antifosfolipídeo (os mais específicos).
- Aumento dos Títulos de Anti-dsDNA: Indica atividade da doença.
- Queda dos Níveis de Complemento: Redução de C3, C4 e CH50, indicando consumo de complemento na atividade da doença.
- Coombs Direto Positivo: Indicativo de anemia hemolítica autoimune.
- Aumento de PCR/VHS: Marcadores inflamatórios, embora o VHS seja mais consistentemente elevado no LES do que o PCR (que pode ser normal mesmo em doença ativa, exceto em serosite ou infecção).
🔬 Exames Complementares Úteis: Para o diagnóstico e acompanhamento inicial do LES, os exames complementares mais relevantes incluem: Radiografia de Tórax (para serosite), Hemograma Completo (para citopenias), Urina EAS (para nefrite) e Dosagem de Autoanticorpos específicos.
Nefrite Lúpica
A nefrite lúpica é uma complicação renal comum e potencialmente grave do LES, resultante da deposição de imunocomplexos nos glomérulos. O diagnóstico e a classificação precisos são cruciais para guiar o tratamento e monitorar a progressão da doença.
Indicações de Biópsia Renal
A biópsia renal é fundamental para o diagnóstico histopatológico e a classificação da nefrite lúpica, sendo indicada nas seguintes situações:
- Proteinúria isolada: Quando a proteinúria é ≥ 1,0 g/24h (ou relação proteinúria/creatininúria ≥ 1,0).
- Proteinúria associada a outros achados: Proteinúria ≥ 0,5 g/24h (ou relação p/c ≥ 0,5) em conjunto com hematúria dismórfica glomerular e/ou presença de cilindros.
- Perda inexplicável da Taxa de Filtração Glomerular (TFG): Qualquer diminuição da TFG que não possa ser atribuída a outras causas.
Classificação da Nefrite Lúpica (ISN/RPS 2003)
A classificação histopatológica da nefrite lúpica é essencial para a estratificação de risco e decisão terapêutica. As classes IV e V são particularmente relevantes para provas de residência devido à sua frequência e gravidade.
- Classe I: Nefrite Lúpica Mesangial Mínima
- Glomérulos com aspecto normal à microscopia óptica (MO).
- Imunofluorescência (IF) positiva, indicando deposição de imunocomplexos no mesângio.
- Geralmente assintomática clinicamente.
- Classe II: Nefrite Lúpica Proliferativa Mesangial
- Proliferação de células mesangiais visível à MO.
- Pode manifestar-se com hematúria e/ou proteinúria microscópica.
- Classe III: Nefrite Lúpica Proliferativa Focal
- Proliferação endocapilar ou extracapilar afetando menos de 50% dos glomérulos.
- Pode apresentar hematúria e/ou proteinúria (geralmente não nefrótica, ou seja, < 3,5 g/24h).
- Classe IV: Nefrite Lúpica Proliferativa Difusa (!!!)
- Mais comum e mais grave.
- Proliferação endocapilar ou extracapilar afetando mais de 50% dos glomérulos.
- Pode cursar com síndrome nefrítica, com ou sem síndrome nefrótica, e tem potencial para evoluir para glomerulonefrite rapidamente progressiva (GNRP).
- Frequentemente associada a altos títulos de anticorpos anti-DNA de dupla hélice (anti-dsDNA) e consumo de complemento (C3 e C4 baixos).
- Classe V: Nefrite Lúpica Membranosa (!!!)
- Caracterizada por espessamento difuso da parede capilar glomerular devido à deposição de imunocomplexos subepiteliais.
- Principalmente associada à síndrome nefrótica e proteinúria maciça.
- Exceção importante: Pode apresentar níveis de complemento sérico normais e anti-dsDNA negativo, o que a diferencia de outras formas de nefrite lúpica.
- Aumenta o risco de trombose de veia renal.
- Classe VI: Nefrite Lúpica Esclerótica Avançada
- Mais de 90% dos glomérulos esclerosados.
- Representa um estágio final da doença renal, com eventual necessidade de terapia de substituição renal.
⚠️ High Yield Notes: Nefrite Lúpica
- 🔎 Nefrite Membranosa (Classe V): Biópsia compatível + síndrome nefrótica pura. Pode ter complemento normal e anti-DNA negativo. Cuidado com trombose de veia renal!
- 🚨 Nefrite Proliferativa Difusa (Classe IV): Mais comum e mais grave, geralmente com síndrome nefrítica (pode ter nefrótica associada). Anti-DNA positivo e consumo de complemento são típicos.
- 💡 Lembre-se: O padrão da nefrite lúpica é ter anti-DNA positivo e consumo de complemento, mas a Classe V é uma exceção importante a ser lembrada.
| Característica Principal |
Classe de Nefrite Lúpica |
| Síndrome Nefrótica Pura |
V (Membranosa) |
| Síndrome Nefrítica +/- Nefrótica |
IV (Proliferativa Difusa) |
| Síndrome Nefrítica Leve + Proteinúria Não Nefrótica |
III (Proliferativa Focal) |
Síndrome Lúpus-Like (Lúpus Fármaco-Induzido)
O lúpus fármaco-induzido é uma condição que mimetiza o LES, desencadeada pela exposição a certas drogas. É importante reconhecê-lo para a correta abordagem terapêutica.
- Apresentação Clínica: Geralmente um quadro de lúpus mais brando, com acometimento menos grave e, notavelmente, poupa o rim e o sistema nervoso central (SNC).
- Marcador Imunológico: Caracteristicamente associado à presença de anticorpos anti-histona positivos.
- Complemento: Os níveis de complemento sérico são geralmente normais.
- Proporção Sexual: Diferente do LES idiopático, o acometimento é proporcional entre homens e mulheres (aproximadamente 1:1).
- Principais Drogas Envolvidas:
- Procainamida: Maior risco de indução.
- Hidralazina: Mais comum.
- Difenil-hidantoína (Fenitoína) / D-penicilamina.
- Outras drogas importantes incluem: quinidina, isoniazida, carbamazepina, metildopa, sulfassalazina, anti-TNF e inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA).
- Tratamento: A abordagem principal consiste em suspender a droga causadora. Um curso breve de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) ou corticosteroides (CTC) pode ser utilizado para controlar sintomas graves, como serosite.
🚨 Atenção: Eventos Isquêmicos no LES
O LES pode estar associado a eventos isquêmicos por diferentes mecanismos:
- VASCULITE CEREBRAL LÚPICA: Uma causa rara, mas direta, de isquemia cerebral.
- ENDOCARDITE DE LIBMAN-SACKS: Uma forma rara de endocardite não infecciosa que afeta as válvulas cardíacas (especialmente a mitral), com formação de êmbolos imunes que podem se soltar e causar eventos isquêmicos.
- TROMBOSE DE ARTÉRIA CEREBRAL POR SAF: A Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF), frequentemente associada ao LES, é uma causa importante de trombose arterial e venosa, incluindo acidentes vasculares cerebrais.
Critérios Diagnósticos EULAR/ACR (2019) para LES
Os critérios de classificação do LES foram atualizados em 2019 pela Liga Europeia Contra o Reumatismo (EULAR) e o Colégio Americano de Reumatologia (ACR) para melhorar a sensibilidade e especificidade diagnóstica. É fundamental conhecer a estrutura e os pontos de corte.
Critério de Entrada Obrigatório
Para que um paciente seja classificado como LES, é mandatório que apresente:
- Fator Antinuclear (FAN) com título ≥ 1:80 em células HEp-2 ou um teste equivalente positivo.
- Se o FAN for ausente, o paciente não pode ser classificado como LES. Se presente, os critérios adicionais devem ser aplicados.
Critérios Adicionais (Pontuação ≥ 10 para Classificação)
Após o critério de entrada, os seguintes pontos devem ser considerados para os critérios adicionais:
- Dentro de cada domínio, apenas o critério com maior escore é contabilizado na pontuação total.
- A ocorrência de um critério em apenas uma ocasião é suficiente para sua consideração.
- Os critérios não precisam ocorrer simultaneamente.
- Não se deve considerar um critério se houver uma explicação mais provável para ele que não seja o LES.
| Domínios e Critérios Clínicos |
Escore |
Domínios e Critérios Imunológicos |
Escore |
| Constitucional |
|
Anticorpos Antifosfolipídeos |
|
| Febre (> 38,3°C) |
2 |
Anticardiolipina ou Anti-B2GP1 ou Anticoagulante Lúpico |
2 |
| Hematológico |
|
Complemento |
|
| Leucopenia (< 4000/mm³) |
3 |
C3 ou C4 baixo |
3 |
| Trombocitopenia (< 100.000/mm³) |
4 |
C3 e C4 baixos |
4 |
| Hemólise Autoimune |
4 |
Anticorpos Específicos para LES |
|
| Neuropsiquiátrico |
|
Anti-dsDNA ou Anti-Sm |
6 |
| Delirium |
2 |
|
|
| Psicose |
3 |
|
|
| Crise Epiléptica |
5 |
|
|
| Mucocutâneo |
|
|
|
| Alopécia não cicatricial |
2 |
|
|
| Úlceras orais |
2 |
|
|
| Lúpus cutâneo subagudo ou discoide |
4 |
|
|
| Lúpus cutâneo agudo |
6 |
|
|
| Serosite |
|
|
|
| Derrame pleural ou pericárdico |
5 |
|
|
| Pericardite aguda |
6 |
|
|
| Musculoesquelético |
|
|
|
| Envolvimento articular |
6 |
|
|
| Renal |
|
|
|
| Proteinúria > 0,5 g/24h |
4 |
|
|
| Nefrite lúpica classe II ou V (biópsia) |
8 |
|
|
| Nefrite lúpica classe III ou IV (biópsia) |
10 |
|
|
💡 Pontuação Total: Classifique como Lúpus Eritematoso Sistêmico se a pontuação total for ≥ 10, após o critério de entrada do FAN positivo.
O Que Mudou nos Critérios Diagnósticos (EULAR/ACR 2019)
É crucial estar ciente das modificações em relação aos critérios anteriores para evitar erros em provas:
- Critério de Entrada: A exigência de FAN positivo como critério de entrada é a principal novidade.
- Febre: Agora é um critério específico quando a temperatura é > 38,3°C.
- Úlceras Nasais: Não são mais consideradas nos critérios cutâneos.
- Linfopenia: Foi retirada dos critérios hematológicos.
- Coombs Direto: Não é mais critério na ausência de anemia hemolítica.
- Critérios Neurológicos Específicos: Mononeurite múltipla, mielite e neuropatia craniana/periférica foram retiradas.
- Cilindros Hemáticos: Não são mais considerados nos critérios renais.
- Critérios Imunológicos Retirados: VDRL falso positivo e queda de CH50 não são mais considerados.
🧠 Resumo das Mudanças:
1. Critério de Entrada Obrigatório:
- FAN com título > 1:80 (células HEp-2) ou teste equivalente positivo.
- Se ausente, NÃO classifique como LES. Se presente, aplique os critérios aditivos.
2. Critérios Aditivos:
- Não conte um critério se houver explicação mais provável que LES.
- A ocorrência de um critério em pelo menos uma ocasião é suficiente.
- A classificação de LES requer pelo menos um critério clínico e pontuação ≥ 10.
- Os critérios não precisam ocorrer simultaneamente.
- Dentro de cada domínio, apenas o critério de maior peso é contado na pontuação final.
Tratamento do Lúpus Eritematoso Sistêmico
O tratamento do LES é individualizado, dependendo da gravidade e dos órgãos acometidos. No entanto, algumas medidas são universais e a hidroxicloroquina é a base do tratamento para a maioria dos pacientes.
Para Todos os Pacientes
- Protetor solar: Essencial para prevenir exacerbações cutâneas e sistêmicas.
- Interrupção do tabagismo: Melhora o prognóstico e reduz o risco de comorbidades.
- Hidroxicloroquina (!!!): É a medicação de base para a maioria dos pacientes com LES, independentemente da gravidade, devido aos seus benefícios na redução de surtos, mortalidade e dano orgânico.
- Controle de comorbidades: Manejo de hipertensão, dislipidemia, diabetes, etc.
LES Brando (Acometimento de pele, mucosa, articulações, serosas)
- AINEs: Para dor articular e inflamação leve.
- Corticosteroide tópico: Para lesões cutâneas.
- Corticosteroide sistêmico: Em baixas doses, se houver acometimento de serosa (ex: pleurite, pericardite).
💊 Dica Terapêutica: A talidomida é uma opção eficaz para o tratamento do lúpus discoide refratário.
LES Moderado (Citopenias sanguíneas)
- Corticosteroide sistêmico: Em doses moderadas.
- Imunossupressor: Associado ao corticoide para controle da doença e redução da dose de corticoide. Opções incluem azatioprina, belimumabe e micofenolato de mofetila.
LES Grave (Acometimento renal ou do SNC)
- Corticosteroide (pulsoterapia): Doses altas de metilprednisolona intravenosa para indução rápida da remissão.
- Imunossupressor: Para indução e manutenção da remissão. As opções incluem ciclofosfamida, rituximabe e micofenolato de mofetila.
- Tratamento da Nefrite Lúpica: Geralmente envolve pulsoterapia com metilprednisolona seguida de micofenolato de mofetila ou ciclofosfamida para indução, e micofenolato ou azatioprina para manutenção.
Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF)
A Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (SAF) é uma trombofilia adquirida, autoimune, caracterizada pela ocorrência de tromboses (arteriais ou venosas) e/ou morbidade gestacional, na presença de anticorpos antifosfolipídeos persistentes.
Conceitos Iniciais
- Classificação: Pode ser primária (isolada) ou secundária (associada a outras doenças autoimunes, mais comumente o LES).
- Mecanismo: Os anticorpos antifosfolipídeos atacam fosfolipídeos de membranas celulares, especialmente as endoteliais, promovendo um estado de hipercoagulabilidade que leva a eventos trombóticos arteriais ou venosos e complicações gestacionais.
Diagnóstico (Critérios de Sydney Revisados)
O diagnóstico da SAF requer a presença de pelo menos um critério clínico e um critério laboratorial.
Critérios Clínicos:
- Trombose: Um ou mais episódios de trombose vascular (arterial, venosa ou de pequenos vasos) em qualquer tecido ou órgão, confirmada objetivamente por exames de imagem (ex: Doppler, angiografia) ou histopatologia.
- Morbidade Gestacional:
- Mais de três abortamentos espontâneos consecutivos antes da 10ª semana de gestação, desde que excluídas causas genéticas ou maternas.
- Pelo menos um abortamento espontâneo após a 10ª semana de gestação de um feto morfologicamente normal.
- Pelo menos um parto prematuro antes da 34ª semana de gestação, devido a pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência uteroplacentária (ex: restrição de crescimento intrauterino grave).
Critérios Laboratoriais (repetir em > 12 semanas):
A presença de um ou mais dos seguintes anticorpos, detectados em duas ou mais ocasiões, com pelo menos 12 semanas de intervalo:
- Anticardiolipina (aCL) IgG/IgM: Em títulos moderados a altos (acima do percentil 99).
- Anti-Beta-2-Glicoproteína-1 (anti-B2GP1) IgG/IgM: Em títulos moderados a altos (acima do percentil 99).
- Anticoagulante Lúpico (AL): Detectado por métodos padronizados.
⚠️ Atenção: Pontos Chave na SAF
- 🔎 Livedo Reticular: É uma alteração cutânea característica, embora não diagnóstica, frequentemente observada em pacientes com SAF.
- 💡 VDRL Falso Positivo: Embora historicamente associado, o VDRL falso positivo não é mais um critério diagnóstico para SAF.
- 🧪 Persistência dos Anticorpos: Os anticorpos antifosfolipídeos devem permanecer alterados por um período de 6 a 12 semanas para serem considerados positivos para o diagnóstico. A repetição do exame é obrigatória!
- 🩸 Anemia Hemolítica: Pode ocorrer anemia hemolítica com teste de Coombs positivo em pacientes com SAF.
Tratamento da Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo
O tratamento da SAF visa prevenir eventos trombóticos e complicações gestacionais, sendo a anticoagulação a pedra angular da terapia.
Pacientes Assintomáticos (apenas anticorpos positivos)
- Observação: Em muitos casos, apenas a observação é recomendada.
- AAS em dose antiagregante plaquetária: Alguns autores consideram o uso de ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose (antiagregante) para profilaxia primária, mas não há consenso universal.
Pacientes Sintomáticos (com histórico de trombose)
- Anticoagulação ad eternum: Terapia anticoagulante contínua e por tempo indeterminado.
- Esquema: Geralmente inicia-se com heparina de baixo peso molecular (HBPM) e transição para varfarina.
- INR Alvo: O alvo de RNI (Razão Normalizada Internacional) para varfarina pode variar entre 2-3 ou 2,5-3,5, dependendo da gravidade e recorrência dos eventos trombóticos (há divergência na literatura).
- AAS (80mg/dia): Pode ser associado à anticoagulação em alguns casos, especialmente em pacientes com trombose arterial.
Gestantes Atuais com Perda Fetal Prévia
- Profilaxia Combinada:
- AAS em dose antiagregante: Iniciado precocemente na gestação.
- Heparina profilática: Geralmente HBPM, iniciada assim que a gestação é confirmada e mantida durante toda a gravidez e puerpério.
💊 Lembre-se: Os novos anticoagulantes orais (DOACs/NOACs) não fazem parte do esquema terapêutico padrão para SAF, pois ainda não há estudos suficientes que comprovem sua eficácia e segurança nesse contexto, especialmente na prevenção de tromboses arteriais e complicações gestacionais.
Síndrome de Sjögren
Conceitos Iniciais
A Síndrome de Sjögren é uma doença autoimune sistêmica que se manifesta primariamente por um infiltrado linfocitário em glândulas exócrinas, especialmente as salivares e lacrimais, resultando na clássica "síndrome seca". É mais prevalente em mulheres brancas, geralmente entre 30 e 40 anos, e atualmente é considerada mais comum que o LES, embora frequentemente subdiagnosticada. O acometimento principal são as glândulas exócrinas do rosto, levando a xerostomia (boca seca) e xeroftalmia (olho seco), daí o apelido de "doença seca".
🧠 Conceito Chave: Sjögren é a "doença seca" por excelência, marcada pela infiltração linfocitária em glândulas exócrinas.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica da Síndrome de Sjögren é dominada pela síndrome seca, mas pode envolver uma série de manifestações extraglandulares:
- Síndrome Seca:
- Xeroftalmia: Olhos secos, sensação de areia, ardência.
- Xerostomia: Boca seca, dificuldade para engolir alimentos secos, alterações no paladar.
- Problemas Dentários: Alta incidência de cáries e doença periodontal devido à redução da saliva.
- Outros Ressecamentos: Ressecamento vaginal (dispareunia), pele seca e eczematosa, tosse crônica.
- Aumento de Parótidas: Inchaço bilateral e persistente das glândulas parótidas.
- Manifestações Extraglandulares:
- Artrite: Geralmente não erosiva.
- Doença Pulmonar Intersticial: Pode ocorrer alveolite ou fibrose pulmonar.
- Nefrite Intersticial: Comum, podendo levar à Acidose Tubular Renal (ATR) tipo I.
- Fenômeno de Raynaud: Alteração da coloração dos dedos em resposta ao frio ou estresse.
- Vasculite Cutânea: Púrpura palpável.
- Neuropatias: Parestesias, neuropatia periférica.
⚠️ Atenção: A presença de cáries é um achado muito comum e relevante em provas para Sjögren.
🚨 Alerta: Pacientes com Sjögren têm um risco significativamente aumentado (até 40x) de desenvolver Linfoma Não-Hodgkin de células B da zona marginal extranodal, especialmente se houver nodulação ou aumento persistente da parótida.
💡 Dica de Prova: Sjögren com nodulação *fora* da parótida sugere pseudolinfoma, que é uma reação inflamatória da doença, não um tumor maligno.
Formas da Doença
- Primária: Quando a Síndrome de Sjögren ocorre isoladamente, sem associação com outras doenças autoimunes. Apresenta maior chance de manifestações extraglandulares como Fenômeno de Raynaud, ATR tipo I, vasculite cutânea e Síndrome de Fanconi.
- Secundária: Associada a outras doenças autoimunes, como Artrite Reumatoide (AR), Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Esclerose Sistêmica ou Cirrose Biliar Primária.
Achados Laboratoriais
- Fator Reumatoide (FR): Pode estar positivo em muitos casos.
- Hipergamaglobulinemia Policlonial: Aumento difuso das imunoglobulinas.
- Autoanticorpos Específicos:
- Anti-Ro/SSA: Presente em 60-70% dos pacientes.
- Anti-La/SSB: Presente em 40-50% dos pacientes.
Diagnóstico
O diagnóstico da Síndrome de Sjögren baseia-se na combinação de achados clínicos e laboratoriais, incluindo a presença de autoanticorpos específicos ou biópsia positiva, juntamente com sinais objetivos de secura:
- Critérios Sorológicos/Histopatológicos:
- Anti-Ro/SSA ou Anti-La/SSB positivos, OU
- Biópsia de glândula salivar menor (lábio inferior) positiva: Demonstra infiltrado linfocitário focal.
- Sinais Objetivos de Síndrome Seca:
- Teste de Schirmer: Avalia a produção lacrimal. Considerado positivo se a tira de papel umedece menos de 5 mm em 5 minutos (seco), ou entre 5-10 mm (hipolacrimejamento).
- Corantes Oculares (Verde de Lissamina ou Rosa Bengala): Utilizados para identificar ceratite seca (lesões na córnea e conjuntiva devido à secura). A coloração indica áreas de desvitalização celular.
- Cintilografia de Glândulas Salivares: Avalia a função das glândulas salivares.
Tratamento
O tratamento da Síndrome de Sjögren é predominantemente sintomático e visa aliviar a secura e controlar as manifestações sistêmicas:
- Medidas Gerais para Síndrome Seca:
- Lágrimas Artificiais: Para xeroftalmia.
- Higiene Bucal Rigorosa: Essencial para prevenir cáries e infecções.
- Saliva Artificial: Para xerostomia.
- Óculos de Natação à Noite: Podem ajudar a reter a umidade ocular durante o sono.
- Interrupção do Tabagismo: O tabaco agrava o ressecamento.
- Hidratação: Ingestão abundante de líquidos.
- Tratamento Específico:
- Para Artrite: Hidroxicloroquina ou Metotrexato.
- Para Manifestações Sistêmicas Graves (ex: vasculite, doença pulmonar, nefrite): Corticosteroides, podendo ser associados a imunossupressores (como Azatioprina ou Micofenolato de Mofetila) se a resposta aos corticoides for insuficiente.
Esclerodermia ou Esclerose Sistêmica
Conceitos Iniciais
A Esclerodermia, cujo termo significa "pele dura" (esclero = pele; dermia = fibrose), é mais precisamente denominada Esclerose Sistêmica, pois não se restringe apenas à fibrose cutânea. É uma doença autoimune caracterizada por fibrose da pele e de órgãos internos, além de disfunção vascular e autoimunidade. Existem outras condições que causam fibrose cutânea, mas a Esclerose Sistêmica é definida pelo acometimento sistêmico.
Epidemiologia
É mais comum em mulheres de meia-idade (30-50 anos), com uma proporção de 4:1 em relação aos homens.
Fisiopatologia
A Esclerose Sistêmica é impulsionada por uma resposta autoimune que leva à produção de autoanticorpos e à ativação de linfócitos T, resultando em fibrose progressiva. Diferente de outras colagenoses com surtos e remissões, o padrão de ataque na esclerodermia é monofásico e contínuo. A fisiopatologia envolve uma interação complexa entre:
- Disfunção Vascular: Caracterizada por intensa vasoconstrição e dano endotelial, que leva à isquemia tecidual.
- Ativação Imunológica: Produção de autoanticorpos e ativação de células inflamatórias.
- Fibrose: Excesso de produção e deposição de colágeno e outras proteínas da matriz extracelular, resultando em endurecimento e disfunção dos tecidos.
Os órgãos mais frequentemente acometidos por necrose e fibrose são a pele, esôfago, rins e pulmões, embora o trato gastrointestinal e outros sistemas também possam ser afetados.
Manifestações Clínicas
Pele
- Esclerodactilia: Fibrose e endurecimento da pele dos dedos das mãos, que evolui ao longo dos anos. Leva à perda do pregueamento cutâneo, espessamento, pele brilhosa e, em casos crônicos, "mãos em garra". Pode haver úlceras nas pontas dos dedos e reabsorção das falanges distais, encurtando os dedos.
- Espessamento Cutâneo Proximal às Metacarpofalangeanas (MCF): Considerado um achado patognomônico da esclerose sistêmica.
- Fácies Esclerodérmica: Alterações faciais como nariz afilado, microstomia (abertura bucal reduzida) e dentes mais expostos.
- Calcinose: Deposição de cálcio no tecido subcutâneo, visível como nódulos duros.
- Telangiectasias: Pequenas dilatações de vasos sanguíneos, tipicamente observadas na mucosa labial e face.
- Fenômeno de Raynaud: Episódios transitórios de vasoconstrição dos vasos sanguíneos dos dedos (e, ocasionalmente, artelhos, nariz, orelhas), desencadeados por frio, estresse ou tabagismo. Caracteriza-se por três fases clássicas (nem sempre todas presentes):
- Palidez: Devido à vasoconstrição.
- Cianose: Pela persistência da vasoconstrição e acúmulo de sangue desoxigenado.
- Rubor: Após a resolução da vasoconstrição e reperfusão.
Pode ser primário (Doença de Raynaud) ou secundário (associado a doenças autoimunes, como a esclerodermia).
Rim
- Crise Renal Esclerodérmica: Uma emergência médica caracterizada por vasoconstrição difusa do leito renal ("Raynaud do rim"). Manifesta-se por:
- Hipertensão Arterial Grave e de início súbito.
- Insuficiência Renal Aguda Oligúrica.
- Anemia Hemolítica Microangiopática e Plaquetopenia.
É mais característica da forma cutânea difusa da doença.
- Tratamento: A crise renal esclerodérmica é tratada com Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA).
⚠️ Atenção: O uso de corticosteroides é CONTRAINDICADO na crise renal esclerodérmica, pois pode piorar o quadro e agravar a hipertensão.
Esôfago
- Disfagia de Condução e Refluxo Gastroesofágico: Causados pela fibrose e dismotilidade esofágica.
- Este acometimento pode ocorrer em qualquer forma sistêmica da doença, mas é um dos componentes da Síndrome CREST na forma cutânea limitada.
Pulmão
O acometimento pulmonar é a principal causa de morte na esclerodermia e pode se manifestar de duas formas principais:
- Alveolite com Fibrose (Doença Pulmonar Intersticial - DPI):
- Mais comum na forma cutânea difusa.
- Tomografia Computadorizada (TC) de Tórax: Pode mostrar padrão de "vidro fosco" (indicando alveolite, fase inflamatória) ou "favo de mel" (indicando fibrose, fase irreversível).
- Tratamento: Na fase de alveolite (inflamação), utiliza-se imunossupressores. Uma vez instalada a fibrose, o tratamento é limitado, pois não há reversão.
- Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP):
- Mais comum na forma cutânea limitada.
- Radiografia de Tórax: Pode mostrar espessamento do tronco da artéria pulmonar, aumento do ventrículo direito (VD) e sinais de sobrecarga de VD, como turgência jugular.
- Causada por intensa vasoconstrição e remodelamento vascular pulmonar.
🔎 Diagnóstico por Imagem:
- Vidro Fosco: Sugere alveolite (inflamação pulmonar).
- Favo de Mel: Indica fibrose pulmonar (lesão irreversível).
Formas Clínicas
Formas Localizadas
Afetam predominantemente a pele, sem acometimento significativo de órgãos internos. Não são consideradas Esclerose Sistêmica:
- Morfeia: Placas bem delimitadas de esclerose cutânea.
- Esclerodermia Linear: Placas de esclerose cutânea com extensão linear, geralmente nos membros, podendo afetar o crescimento durante a infância.
- Lesão em Golpe de Sabre: Uma variante da esclerodermia linear que afeta a face e o couro cabeludo.
Formas Sistêmicas
Caracterizadas pelo acometimento de órgãos internos, além da pele.
- Esclerose Sistêmica Cutânea Limitada:
- A fibrose cutânea está restrita a regiões distais (distal aos cotovelos e joelhos, pescoço e face). Tronco, abdome e coxas são poupados.
- Fortemente associada à Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP).
- Frequentemente se manifesta como a Síndrome CREST:
- Calcinose
- Raynaud
- Esofagopatia
- eSclerodactilia
- Telangiectasias
- O autoanticorpo mais comum é o Anticentrômero.
- Esclerose Sistêmica Cutânea Difusa:
- A fibrose cutânea pode ocorrer em qualquer parte do corpo (proximal e distal aos cotovelos e joelhos, tronco, face).
- Associada a um maior risco de Alveolite com Fibrose (DPI) e Crise Renal Esclerodérmica.
- Os autoanticorpos mais comuns são o Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70) e o Anti-RNA Polimerase III.
- Esclerose Sistêmica Visceral (Sine Scleroderma):
- Forma rara (menos de 5% dos casos) onde há acometimento de órgãos internos sem fibrose cutânea evidente.
- O diagnóstico é desafiador, pois as manifestações podem ser inespecíficas (ex: alveolite, DRGE).
| Característica |
Esclerose Sistêmica Cutânea Limitada |
Esclerose Sistêmica Cutânea Difusa |
| Fisiopatologia Predominante |
Polo vascular |
Polo fibrótico |
| Acometimento da Pele |
Apenas extremidades distais dos membros, pescoço e face; evolução lenta |
Qualquer parte do corpo; evolução rápida |
| Fenômeno de Raynaud |
Pode anteceder o quadro cutâneo em anos |
Antecede o quadro cutâneo em no máximo 1 ano |
| Síndrome CREST |
Comum |
Calcinose menos comum, sintomas viscerais mais proeminentes |
| Acometimento Pulmonar |
Predomínio de Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) |
Predomínio de fibrose pulmonar (DPI) |
| Acometimento Renal |
Raramente acometido |
Crise renal esclerodérmica em ~15% dos casos |
| Autoanticorpos Típicos |
Anticentrômero |
Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70), Anti-RNA Polimerase III |
Autoanticorpos Específicos
O Fator Antinúcleo (FAN) é positivo em 90-95% dos casos de Esclerose Sistêmica, mas os anticorpos específicos são cruciais para o diagnóstico e prognóstico:
- Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70):
- Fortemente associado à Doença Pulmonar Intersticial (DPI).
- Padrão na Imunofluorescência (IF): Nuclear pontilhado fino nucleolar.
- Anti-RNA Polimerase III:
- Associado à Crise Renal Esclerodérmica.
- Padrão na IF: Nucleolar.
- Anticentrômero:
- Associado à Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) isolada e à forma cutânea limitada (Síndrome CREST).
- Padrão na IF: Centromérico.
Diagnóstico
O diagnóstico da Esclerose Sistêmica é clínico, complementado por exames laboratoriais e de imagem. Os critérios de classificação ACR/EULAR de 2013 auxiliam no diagnóstico precoce:
- É necessário um escore de 9 ou mais pontos para classificar o paciente como portador de Esclerose Sistêmica.
- O espessamento cutâneo de ambas as mãos, proximal às articulações metacarpofalangeanas, por si só, já confere 9 pontos, sendo um achado patognomônico e suficiente para o diagnóstico.
| Critério (ACR/EULAR 2013) |
Pontuação |
| Espessamento cutâneo de ambas as mãos, proximal às articulações metacarpofalangeanas |
9 |
| Espessamento cutâneo dos dedos (pontuar apenas o maior escore) |
|
| Edema de dedos (puffy fingers) |
2 |
| Esclerodactilia |
4 |
| Fenômeno de Raynaud |
3 |
| Lesões de polpas digitais (pontuar apenas o maior escore) |
|
| Ulcerações de polpas digitais |
2 |
| Pitting scars (cicatrizes puntiformes) |
3 |
| Telangiectasias |
2 |
| Anticorpos específicos (escore máximo 3) |
|
| Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70) |
3 |
| Anticentrômero |
3 |
| Anti-RNA Polimerase III |
3 |
| Capilaroscopia alterada |
2 |
| Hipertensão arterial pulmonar ou doença intersticial pulmonar |
2 |
Classifica como portador de Esclerose Sistêmica se pelo menos 9 pontos.
Exames Complementares
- Capilaroscopia do Leito Ungueal:
- Exame altamente sensível (98% dos pacientes esclerodérmicos apresentam alterações).
- Achados típicos incluem tortuosidade e desaparecimento dos capilares, além de megacapilares e hemorragias.
- É um exame importante para diferenciar o Fenômeno de Raynaud primário (capilaroscopia normal) do secundário (capilaroscopia alterada).
- Espirometria: Pode revelar um padrão restritivo, indicando doença pulmonar intersticial.
- Difusão de Monóxido de Carbono (DLCO): Frequentemente reduzida, mesmo antes de alterações na espirometria, sendo um marcador precoce de acometimento pulmonar.
Tratamento
A Esclerose Sistêmica não tem cura, e o tratamento é focado no manejo das complicações e sintomas específicos de cada órgão acometido:
- Alveolite (DPI): Imunossupressão com Ciclofosfamida ou Micofenolato de Mofetila. Se houver fibrose estabelecida, o tratamento é limitado.
- Crise Renal Esclerodérmica: IECA (Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina). É crucial evitar corticosteroides, que podem agravar o quadro.
- Fenômeno de Raynaud:
- Orientações para evitar fatores desencadeantes (frio, tabagismo, estresse).
- Bloqueadores dos Canais de Cálcio diidropiridínicos (ex: Nifedipino).
- Inibidores da PDE5 (ex: Sildenafil).
- Análogos de prostaciclina ou nitroglicerina tópica em casos graves.
- Esofagopatia: Tratamento do refluxo gastroesofágico com inibidores da bomba de prótons e procinéticos.
- Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP): Bloqueadores dos canais de cálcio (em casos selecionados), Sildenafil, análogos de prostaciclina, antagonistas do receptor de endotelina.
- Acometimento Cutâneo: Metotrexato pode ser utilizado para a fibrose cutânea.
🧠 Resumo Rápido:
- Esclerose Sistêmica Cutânea Difusa: Crise renal, Anti-Topoisomerase I (Anti-Scl-70), Alveolite com fibrose.
- Esclerose Sistêmica Cutânea Limitada: Síndrome CREST, Anticentrômero, Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP).
Miopatias Inflamatórias (Dermatomiosite e Polimiosite)
Conceitos Iniciais
As miopatias inflamatórias idiopáticas, principalmente a Polimiosite (PM) e a Dermatomiosite (DM), são colagenoses autoimunes que afetam primariamente a musculatura esquelética. São mais comuns em mulheres (proporção de 2:1) entre 30 e 50 anos. A patogênese envolve um ataque autoimune aos vasos sanguíneos musculares (DM) ou às próprias fibras musculares (PM), resultando em um processo inflamatório que causa fraqueza muscular proximal e simétrica.
🧠 Conceito Chave: Fraqueza muscular proximal e simétrica é a marca registrada, afetando cinturas escapular e pélvica. Pense em dificuldade para atividades como levantar os braços, subir escadas ou pentear o cabelo.
Manifestações Clínicas
Miosite (Acometimento Muscular)
- Fraqueza Muscular:
- Proximal e Simétrica: Afeta principalmente a cintura escapular (deltoides) e pélvica (coxas).
- Caráter Insidioso: Desenvolve-se gradualmente.
- Músculos Flexores do Pescoço: Fraqueza que dificulta levantar a cabeça do travesseiro.
- Disfagia de Transferência: Dificuldade para engolir devido ao acometimento da musculatura esquelética do esôfago.
- Mialgia: Dor muscular, presente em 20-50% dos casos, mas a fraqueza é a queixa principal.
- Sinais de Alerta:
- Poupa Face e Olhos: Não há paralisia facial ou problemas de movimentação ocular.
- Sensibilidade e Reflexos: Geralmente preservados.
- Outras Manifestações Sistêmicas: Febre, artrite/artralgia, pneumonite/doença pulmonar intersticial (DPI), miocardite.
Síndrome Antissintetase
Um subgrupo de miopatias inflamatórias com um quadro mais agressivo e rápido, caracterizado pela presença de anticorpos antissintetase (o mais clássico é o Anti-Jo-1). A síndrome é definida pela presença de pelo menos dois dos seguintes achados:
- Febre
- Miosite
- Fenômeno de Raynaud
- Artrite
- Doença Pulmonar Intersticial (DPI)
- "Mão de Mecânico" (hiperceratose e fissuras nas laterais dos dedos).
Dermatomiosite (Manifestações Cutâneas)
A Dermatomiosite se distingue da Polimiosite pela presença de manifestações cutâneas características, muitas delas patognomônicas:
- Heliótropo: Erupção violácea (lilás-avermelhada) e edema nas pálpebras superiores, com ou sem dor ocular. É um achado específico.
- Pápulas de Gottron: Pápulas eritemato-violáceas, elevadas e descamativas, localizadas sobre as articulações (principalmente metacarpofalangeanas e interfalangeanas, mas também cotovelos e joelhos). Também são específicas da DM.
- Rash Malar: Eritema em "asa de borboleta" na face, similar ao lúpus, mas na DM o sulco nasolabial é acometido (diferente do lúpus, que o poupa).
- Rash em "V" (Sinal do Manto): Eritema na região do decote, ombros e parte superior do dorso.
- Sinal do Xale: Eritema na região cervical posterior e ombros.
🚨 Alerta: A Dermatomiosite está fortemente associada a neoplasias (síndrome paraneoplásica), que podem surgir antes, durante ou após o diagnóstico da DM. É mandatório rastrear câncer em pacientes com DM, especialmente de mama, ovário, próstata e pulmão.
Diferenças entre Polimiosite e Dermatomiosite
Embora frequentemente agrupadas, PM e DM possuem diferenças imunopatológicas e clínicas importantes:
| Característica |
Polimiosite (PM) |
Dermatomiosite (DM) |
| Lesão Primária |
Lesão muscular direta (inflamação endomisial) |
Lesão vascular direta (vasculite perimisial), com dano muscular secundário |
| Imunidade Predominante |
Imunidade celular (Linfócitos T CD8+) |
Imunidade humoral (Linfócitos B, complexos de ataque à membrana) |
| Manifestações Cutâneas |
Ausentes |
Presentes (Heliótropo, Pápulas de Gottron, Rash Malar com acometimento do sulco nasolabial, Sinal do Manto, Sinal do Xale) |
| Associação com Neoplasias |
Menor risco |
Maior risco (mama, ovário, próstata, pulmão, pâncreas, bexiga, estômago) |
Diagnóstico
O diagnóstico das miopatias inflamatórias baseia-se em uma combinação de achados clínicos, laboratoriais e histopatológicos:
- Enzimas Musculares Elevadas:
- Creatinoquinase (CPK): O mais sensível e específico, geralmente muito elevado.
- Lactato Desidrogenase (LDH), Transaminase Glutâmico-Oxalacética (TGO), Aldolase.
- Eletroneuromiografia (ENMG): Revela um padrão miopático (potenciais de ação de curta duração e polifásicos), diferenciando de neuropatias.
- Biópsia Muscular: Considerado o padrão-ouro para o diagnóstico.
- Polimiosite: Infiltrado inflamatório de linfócitos T CD8+ dentro dos fascículos musculares (endomisial).
- Dermatomiosite: Infiltrado inflamatório perivascular e perifascicular de linfócitos B e T CD4+, com atrofia perifascicular.
- Ressonância Magnética (RM): Útil para identificar áreas de inflamação muscular para guiar a biópsia e monitorar a resposta ao tratamento.
- Autoanticorpos:
- Anti-Jo-1: O mais comum dos anticorpos antissintetase, associado à Síndrome Antissintetase (DPI, Raynaud, artrite, mão de mecânico) e pior prognóstico.
- Anti-MDA5: Associado à doença pulmonar intersticial rapidamente progressiva.
- Anti-Mi2: Altamente específico para Dermatomiosite clássica.
- Anti-SRP: Associado à Polimiosite e pior prognóstico.
- FAN: Inespecífico, pode estar positivo.
💡 Dica: O VHS (velocidade de hemossedimentação) geralmente *não* está aumentado nas miopatias inflamatórias, o que pode ser uma pegadinha de prova.
Diagnóstico Diferencial (Pegadinhas de Prova)
- Dermatomiosite Juvenil:
- Mesmas características da DM em adultos, mas ocorre em pacientes com menos de 16 anos.
- Calcinose é mais comum, enquanto a associação com neoplasias é menos frequente.
- Miosite por Corpúsculos de Inclusão:
- "Miosite do contra": mais comum em homens idosos.
- Apresenta fraqueza distal e assimétrica (predominantemente em membros inferiores), com dificuldade para correr ou ficar na ponta dos pés.
- Má resposta a corticosteroides.
- Polimialgia Reumática:
- A queixa principal é dor (mialgia) e rigidez matinal nas cinturas escapular e pélvica, e não fraqueza muscular.
- Frequentemente associada à Arterite Temporal.
Tratamento
O tratamento das miopatias inflamatórias visa controlar a inflamação muscular e cutânea, prevenir danos e melhorar a força:
- Corticosteroides: São a base do tratamento, com excelente resposta inicial. Prednisona em doses imunossupressoras (1-2 mg/kg/dia) é comumente utilizada.
- Imunossupressores: Após o controle inicial com corticoides, estes são gradualmente reduzidos e substituídos por imunossupressores como Metotrexato (MTX) ou Azatioprina (AZA) para manutenção e para permitir o desmame do corticoide.
- Imunoglobulina Intravenosa (IVIG): Opção para casos graves ou refratários ao tratamento convencional.
- Medidas Gerais:
- Fisioterapia: Essencial para manter a força e prevenir atrofia.
- Proteção Solar: Para pacientes com Dermatomiosite, devido à fotossensibilidade das lesões cutâneas.
Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC)
Conceitos Iniciais
A Doença Mista do Tecido Conjuntivo (DMTC) é uma síndrome autoimune que se caracteriza pela presença de manifestações clínicas que se sobrepõem a outras colagenoses, como Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), Esclerose Sistêmica, Polimiosite/Dermatomiosite e Síndrome de Sjögren. Apesar de parecer um "overlap" de doenças, a DMTC é considerada uma entidade nosológica independente, definida pela presença de um autoanticorpo específico.
🧠 Conceito Chave: A DMTC é a "bagunça de eventos" com Anti-RNP positivo em altos títulos, combinando características de outras colagenoses.
Critérios Diagnósticos (Alarcón-Segóvia)
O diagnóstico da DMTC requer a presença de um critério sorológico e pelo menos três critérios clínicos, sendo um deles obrigatoriamente miosite ou sinovite:
- Critério Sorológico:
- Anti-RNP em altos títulos (> 1:1200).
- Critérios Clínicos (pelo menos 3, com miosite ou sinovite obrigatórios):
- Mãos edemaciadas (puffy hands).
- Sinovite (inflamação articular).
- Miosite (fraqueza muscular proximal).
- Fenômeno de Raynaud.
- Esclerodactilia (fibrose dos dedos).
Tratamento
O tratamento da DMTC é guiado pelas manifestações clínicas predominantes e sua gravidade:
- Manifestações Cutâneas: Antimaláricos (ex: Hidroxicloroquina).
- Manifestações Leves: Corticosteroides em dose baixa.
- Manifestações Graves (ex: miosite severa, doença pulmonar, vasculite): Imunossupressão com doses mais elevadas de corticosteroides, associados a imunossupressores como Azatioprina ou Metotrexato.
Observações Importantes
- A Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP) é a principal causa de óbito na DMTC.
- Rins e Sistema Nervoso Central (SNC) geralmente não são gravemente comprometidos na DMTC.
- A manifestação neurológica mais comum é a Neuropatia do Trigêmeo.