Introdução à Reumatologia
Classificação das Doenças Reumatológicas
A Reumatologia estuda processos inflamatórios que acometem o sistema musculoesquelético e tecido conjuntivo. Para fins didáticos e organizacionais, as doenças reumatológicas podem ser categorizadas em quatro compartimentos principais, cada um refletindo o tipo de tecido primariamente afetado pelo processo inflamatório.
Organização em quatro compartimentos clínicos
- 📌 Primeiro compartimento – Artrites: processos inflamatórios que afetam primariamente as articulações, levando a edema, dor e perda funcional articular.
- 📌 Segundo compartimento – Colagenoses: doenças autoimunes sistêmicas que acometem o tecido conjuntivo de forma difusa, como lúpus eritematoso sistêmico, esclerose sistêmica e dermatomiosite.
- 📌 Terceiro compartimento – Vasculites: processos inflamatórios que têm como alvo primário a parede dos vasos sanguíneos, podendo ser classificadas conforme o calibre vascular acometido.
- 📌 Quarto compartimento – Miscelânea: agrupa entidades reumatológicas que não se encaixam adequadamente nos três primeiros grupos, incluindo fibromialgia, osteoartrose e outras condições.
💡 Conceito fundamental: O conceito central da Reumatologia é o processo inflamatório. Identificar qual estrutura está inflamada (articulação, tecido conjuntivo ou vaso) auxilia no raciocínio diagnóstico e na classificação da doença.
Marcadores Inflamatórios: VHS e Proteína C‑reativa (PCR)
Fundamentos dos marcadores inflamatórios
A avaliação laboratorial da atividade inflamatória é essencial na abordagem das doenças reumatológicas. Dois exames são classicamente utilizados:
• Velocidade de Hemossedimentação (VHS): teste simples e economicamente acessível que quantifica, em milímetros por hora, a velocidade com que as hemácias se depositam no fundo do tubo após uma hora de repouso. Valores superiores a 20 mm/h sugerem resposta inflamatória sistêmica, embora essa alteração seja inespecífica e possa ocorrer em infecções, neoplasias e processos autoimunes.
• Proteína C‑reativa (PCR): proteína de fase aguda sintetizada pelos hepatócitos em resposta direta a mediadores inflamatórios (principalmente IL-6). Sua elevação é mais rápida e específica que o VHS, refletindo de forma direta a intensidade do processo inflamatório.
Mecanismo fisiopatológico da elevação do VHS
Durante processos inflamatórios, o fígado aumenta a produção de proteínas de fase aguda, incluindo PCR, fibrinogênio, ferritina, haptoglobina e ceruloplasmina. Essas proteínas plasmáticas neutralizam as cargas negativas presentes na superfície das hemácias (potencial zeta), facilitando sua aproximação e formação de agregados (rouleaux). Com as hemácias agregadas, a sedimentação torna-se mais rápida, elevando o VHS.
⚠️ Diferença essencial: O VHS é um marcador indireto de inflamação, pois depende de alterações secundárias na sedimentação eritrocitária. A PCR, por outro lado, é um marcador direto, pois sua síntese hepática responde imediatamente aos estímulos inflamatórios. A associação de ambos os testes aumenta a sensibilidade e especificidade na detecção de processos inflamatórios ativos.
| Parâmetro |
VHS |
PCR |
| Tipo de marcador |
Indireto (por sedimentação) |
Direto (proteína de fase aguda) |
| Velocidade de resposta |
Mais lenta (horas a dias) |
Mais rápida (6-8 horas) |
| Especificidade |
Baixa (várias causas) |
Maior (mais específica para inflamação) |
| Custo |
Baixo |
Moderado |
| Valor de referência |
< 20 mm/h |
< 5-10 mg/L (variável) |
Diferenciação Clínica: Artrite versus Artralgia
Definições e critérios diagnósticos
A distinção entre artrite e artralgia é fundamental na abordagem semiológica das queixas articulares:
• Artralgia: termo que designa dor articular isolada, sem evidência objetiva de processo inflamatório à inspeção ou palpação. Não há aumento do volume articular, derrame ou sinais flogísticos detectáveis clinicamente.
• Artrite: caracteriza-se pela presença de edema articular (aumento de volume), que pode decorrer de derrame sinovial ou espessamento da membrana sinovial. O critério diagnóstico essencial é o aumento de volume articular, independentemente da presença de calor, rubor ou dor.
🧠 Ponto de ouro para provas: "Artrite é igual a edema articular". Se há aumento do volume da articulação ao exame físico, trata-se de artrite, mesmo na ausência de hiperemia ou hipertermia local. A dor isolada, sem edema, configura apenas artralgia.
Considerações semiológicas adicionais
Embora calor, rubor e dor componham os sinais clássicos de inflamação, eles são auxiliares no diagnóstico de artrite. Em algumas situações (articulações profundas, edema discreto, pacientes obesos), o derrame pode não causar alterações visíveis da coloração da pele. Nesses casos, manobras semiológicas específicas (sinal da tecla, sinal do abaulamento, teste de compressão) auxiliam na detecção do derrame articular.
| Característica |
Artralgia |
Artrite |
| Dor articular |
Presente |
Geralmente presente |
| Edema/derrame |
Ausente |
Presente (critério essencial) |
| Calor local |
Ausente |
Pode estar presente |
| Rubor |
Ausente |
Pode estar presente |
| Significado clínico |
Sintoma inespecífico |
Inflamação articular confirmada |
Marcadores Sorológicos: Fator Reumatoide (FR) e Anti‑CCP
Fator Reumatoide (FR)
O fator reumatoide é um auto-anticorpo da classe IgM direcionado contra a porção Fc das imunoglobulinas G (IgG). Suas características principais incluem:
- 🧪 Detectado em aproximadamente 70% dos pacientes com artrite reumatoide (AR), o que confere sensibilidade moderada.
- 🧪 Apresenta especificidade limitada, uma vez que pode estar presente em diversas outras condições reumatológicas e não reumatológicas.
- 🧪 A maior associação em termos de frequência ocorre com a Síndrome de Sjögren, onde aproximadamente 90% dos pacientes apresentam FR positivo.
- 🧪 Outras causas de positividade: hepatite B crônica, hepatite C, endocardite bacteriana, tuberculose, idade avançada (> 65 anos), crioglobulinemia e algumas neoplasias.
Anticorpo anti-peptídeo citrulinado cíclico (Anti-CCP)
O anti-CCP é um auto-anticorpo direcionado contra peptídeos que contêm o aminoácido citrulina, produto da modificação pós-traducional da arginina. Suas características são:
- 🧪 Especificidade elevada para artrite reumatoide (95-98%), tornando-o o marcador sorológico de maior valor diagnóstico para AR.
- 🧪 Sensibilidade similar à do FR (aproximadamente 70%), porém com especificidade muito superior.
- 🧪 Pode estar positivo em fases precoces da doença, antes mesmo do desenvolvimento de erosões radiográficas, permitindo diagnóstico e tratamento mais precoces.
- 🧪 Sua presença está associada a formas mais agressivas e erosivas de AR, além de pior prognóstico.
- 🧪 Atualmente, o anti-CCP é considerado o marcador sorológico de escolha para o diagnóstico de AR nos critérios classificatórios mais recentes.
🔎 Correlação clínica importante: Embora o FR seja tradicionalmente associado à artrite reumatoide, sua especificidade é baixa. Na prática, a positividade isolada do FR em um paciente sem quadro clínico compatível com AR deve levantar a suspeita de outras condições, especialmente Síndrome de Sjögren. O anti-CCP, por sua alta especificidade, é mais confiável para confirmar o diagnóstico de AR.
| Marcador |
Especificidade |
Sensibilidade |
Doença com maior associação |
Valor prognóstico |
| Fator Reumatoide (FR) |
Baixa a moderada (60-70%) |
≈ 70% |
Síndrome de Sjögren (90%) |
Limitado |
| Anti-CCP |
Alta (95-98%) |
≈ 70% |
Artrite Reumatoide |
Prediz doença erosiva e agressiva |
Associações Genéticas: Sistema HLA e Doenças Reumatológicas
O sistema HLA e predisposição às doenças autoimunes
O sistema de antígenos leucocitários humanos (HLA) desempenha papel fundamental na apresentação antigênica e na regulação da resposta imune. Certos alelos HLA conferem suscetibilidade aumentada para doenças autoimunes específicas:
Principais associações em Reumatologia
- 🧬 HLA-DRB1 (especialmente o epítopo compartilhado): fortemente associado à artrite reumatoide. Aproximadamente 60% dos pacientes com AR apresentam este alelo, e sua presença correlaciona-se com formas mais graves e erosivas da doença.
- 🧬 HLA-B27: alelo estreitamente ligado às espondiloartrites, especialmente a espondilite anquilosante. Cerca de 90% dos pacientes com espondilite anquilosante são HLA-B27 positivos, embora apenas 5% dos portadores do alelo desenvolvam a doença (baixo valor preditivo positivo).
Outras associações HLA relevantes
- 🧬 HLA-DR3 e HLA-DR4: associados ao lúpus eritematoso sistêmico (LES).
- 🧬 HLA-DR4: além da AR, também associado à diabetes mellitus tipo 1.
- 🧬 HLA-B27: além da espondilite anquilosante, também presente em artrite reativa, artrite psoriásica e doença inflamatória intestinal com acometimento axial.
🔎 Mnemônicos para memorização:
- "DR = Doença Reumática (Artrite Reumatoide)"
- "B27 = EsBondilite (Espondilite Anquilosante)"
Esses mnemônicos facilitam a recordação das associações mais cobradas em provas de residência.
| Alelo HLA |
Doença associada |
Frequência nos pacientes |
Implicação clínica |
| HLA-DRB1 (epítopo compartilhado) |
Artrite Reumatoide |
≈ 60% |
Prediz formas mais graves e erosivas |
| HLA-B27 |
Espondilite Anquilosante |
≈ 90% |
Marcador útil, mas não diagnóstico |
| HLA-B27 |
Artrite Reativa |
≈ 60-80% |
Associado a cronicidade |
| HLA-DR3, HLA-DR4 |
Lúpus Eritematoso Sistêmico |
Variável |
Predisposição genética |