Vasculites
Introdução às Vasculites
As vasculites representam um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por um processo de inflamação vascular que ocorre em um contexto de inflamação sistêmica. É crucial entender que não se trata apenas de uma inflamação localizada no vaso, mas sim de uma resposta inflamatória generalizada que, por mecanismos ainda não totalmente elucidados, desencadeia o acometimento vascular.
🧠 Conceito Chave: Vasculite é inflamação sistêmica que culmina em inflamação do vaso, não o contrário.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica das vasculites é bastante variada e depende diretamente do calibre dos vasos sanguíneos acometidos, bem como dos órgãos que esses vasos irrigam. Os sintomas podem ser divididos em manifestações de inflamação sistêmica e inflamação vascular.
- Inflamação Sistêmica: Geralmente se manifesta com sintomas constitucionais inespecíficos, como febre, anorexia, astenia (fadiga intensa) e emagrecimento.
- Inflamação Vascular: As manifestações são específicas do calibre do vaso afetado:
- Grandes Calibres: Ocorre isquemia tecidual seletiva no território irrigado pelo vaso. O sintoma clássico é a claudicação, que pode ser em membros, mandíbula ou outros locais, dependendo da artéria envolvida.
- Médios Calibres: A inflamação pode levar à formação de aneurismas e quadros de angina em órgãos específicos. Os aneurismas surgem devido ao enfraquecimento da parede vascular em pontos específicos, levando à dilatação. A angina reflete a isquemia do órgão suprido.
- Pequenos Calibres: Caracteriza-se por um aumento significativo da permeabilidade vascular, permitindo o extravasamento de hemácias para a pele, resultando em púrpura palpável. A quantidade de hemácias extravasadas é suficiente para criar uma elevação perceptível ao toque.
Epidemiologia Geral
Em geral, as vasculites são mais comuns no sexo masculino. Contudo, há uma exceção importante: as vasculites de grande calibre tendem a predominar no sexo feminino.
Diagnóstico das Vasculites
O diagnóstico das vasculites envolve a combinação de marcadores inflamatórios, testes sorológicos específicos e, em muitos casos, a avaliação direta do vaso acometido.
Marcadores Inflamatórios
A maioria das vasculites apresenta um padrão de inflamação sistêmica que pode ser detectado por exames laboratoriais inespecíficos, mas que são importantes para a suspeita diagnóstica:
- ↑ VHS e PCR: Elevação da velocidade de hemossedimentação e da proteína C reativa, indicando atividade inflamatória.
- Anemia Normocítica e Normocrômica: Anemia de doença crônica, comum em processos inflamatórios prolongados.
- Leucocitose: Aumento do número de leucócitos.
- ↑ Plaquetas: Trombocitose reacional.
🧪 Dica de Prova: A presença desses achados inespecíficos é comum, mas a menção de ANCA em uma questão facilita muito o diagnóstico diferencial.
Anticorpos Anticitoplasma de Neutrófilos (ANCA)
O ANCA é um marcador sorológico crucial para algumas vasculites de pequenos vasos. Sua positividade frequentemente sugere a possibilidade de Síndrome Pulmão-Rim.
- Existem três vasculites primárias que classicamente cursam com ANCA positivo: Granulomatose com Poliangeíte (Wegener), Poliangeíte Microscópica e Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss).
- Os padrões de ANCA podem ser:
- C-ANCA (padrão citoplasmático): Associado principalmente à Granulomatose com Poliangeíte (Wegener).
- P-ANCA (padrão perinuclear): Associado à Poliangeíte Microscópica e Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss).
⚠️ Atenção: No passado, ANCA positivo era quase diagnóstico. Hoje, sabemos que pode haver falsos positivos.
Para aumentar a fidedignidade diagnóstica, outros exames são associados:
- C-ANCA + Anti-Proteinase 3 (PR3): Fortemente sugestivo de Granulomatose com Poliangeíte (Wegener).
- P-ANCA + Anti-Mieloperoxidase (MPO): Fortemente sugestivo de Poliangeíte Microscópica ou Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss).
🔎 Diagnóstico Diferencial:
- C-ANCA+ pode ser encontrado em usuários de cocaína e portadores de cirrose alcoólica.
- P-ANCA+ pode ser encontrado em pacientes com Doença Inflamatória Intestinal, especialmente Retocolite Ulcerativa.
É importante notar que, na Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss), a lesão glomerular é clinicamente menos expressiva, diferentemente da Poliangeíte Microscópica e da Granulomatose com Poliangeíte (Wegener), que podem manifestar a grave Síndrome Pulmão-Rim.
Avaliação do Vaso Acometido
A confirmação diagnóstica ideal seria a biópsia do vaso afetado. No entanto, nem sempre é viável (ex: biópsia da aorta). Nesses casos, métodos de imagem são utilizados:
- Biópsia: De vaso ou tecido, quando acessível e seguro.
- Exames de Imagem: Para vasos "nobres" ou de difícil acesso, como angiografia, angio-TC, angio-RNM ou ecocardiograma (ECO).
🚨 Emergência: A principal causa de Síndrome Pulmão-Rim não vasculítica é a Leptospirose!
Classificação das Vasculites (Chapel Hill)
A classificação de Chapel Hill categoriza as vasculites primárias com base no calibre predominante dos vasos acometidos, o que auxilia na compreensão das manifestações clínicas.
| Predomínio de Vasos |
Exemplos |
Quadro Clínico Típico |
| Grandes Vasos |
Arterite de Takayasu, Arterite Temporal (de Células Gigantes) |
Claudicação, redução de pulso, sopros, assimetria de pressão arterial. |
| Médios Vasos |
Poliarterite Nodosa (PAN), Doença de Kawasaki |
Livedo reticular, nódulos subcutâneos, mononeurite múltipla, microaneurismas, angina. |
| Pequenos Vasos |
Poliangeíte Microscópica*, Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss), Granulomatose com Poliangeíte (Wegener)*, Crioglobulinemia, Púrpura de Henoch-Schönlein |
Púrpura palpável, hemorragia alveolar*, glomerulonefrite*, uveíte. |
| Calibre Variável |
Doença de Behçet, Tromboangeíte Obliterante (Doença de Buerger) |
Clínica muito variável, dependendo do vaso e órgão afetado. |
(*) Vasculites que podem gerar Síndrome Pulmão-Rim: Poliangeíte Microscópica e Granulomatose com Poliangeíte (Wegener).
💡 Dica: Dentre as vasculites primárias, a Doença de Buerger é a única que não é considerada "primária" no sentido estrito de uma doença autoimune sistêmica, estando fortemente associada ao tabagismo.
Arterite Temporal ou de Células Gigantes
A Arterite Temporal é uma vasculite de grandes vasos que afeta predominantemente artérias cranianas e seus ramos.
Epidemiologia
Acomete principalmente o sexo feminino, geralmente com mais de 50 anos, com uma idade média de apresentação em torno dos 75 anos.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico é característico e inclui:
- Cefaleia: Geralmente unilateral, pulsátil, na região temporal.
- Espessamento da Artéria Temporal: A artéria pode estar endurecida e dolorosa à palpação.
- Hipersensibilidade do Escalpo: Dor no couro cabeludo, muitas vezes ao pentear os cabelos.
- Claudicação da Mandíbula: Dor e cansaço na mandíbula ao mastigar.
- Polimialgia Reumática: Uma síndrome inflamatória que cursa com dor e rigidez nas cinturas escapular e pélvica, acompanhando a arterite temporal em cerca de 40% dos casos.
Os vasos mais comumente acometidos são a artéria temporal, mandibular, oftálmica e central da retina. O acometimento da artéria central da retina pode levar à amaurose (perda súbita da visão), que é a complicação mais temida e uma urgência oftalmológica.
💡 Dicas para a Prova:
- Febre de Origem Obscura: Após exclusão de neoplasias e infecções, a suspeita de arterite temporal deve levar à biópsia da artéria temporal.
- Resposta Dramática ao Tratamento: A melhora dos sintomas com corticoide é um forte indicativo.
Achados Laboratoriais
O principal achado laboratorial é a elevação expressiva do VHS (Velocidade de Hemossedimentação), frequentemente acima de 40-50 mm/h, sendo uma marca da doença.
Diagnóstico
O padrão-ouro para o diagnóstico é a biópsia da artéria temporal. Alternativamente, o USG Doppler da artéria temporal pode mostrar o sinal do "halo" (edema da parede vascular).
💊 Tratamento Urgente: Não se deve esperar o resultado da biópsia para iniciar o tratamento, especialmente se houver suspeita de acometimento ocular.
Tratamento
O tratamento é baseado em corticosteroides e pode incluir:
- Prednisona: Em doses elevadas, com resposta geralmente dramática.
- Pulsoterapia com Corticoide: Indicada em casos de amaurose ou iminência de perda visual, devido à urgência oftalmológica.
- AAS (Ácido Acetilsalicílico): Utilizado para prevenção de trombos, especialmente na artéria central da retina, visando evitar a amaurose.
🧠 Lembre-se: A Polimialgia Reumática, quando associada, também responde dramaticamente ao tratamento com corticoides.
Arterite de Takayasu
A Arterite de Takayasu é uma vasculite granulomatosa crônica que afeta a aorta e seus principais ramos, sendo mais comum em jovens.
Epidemiologia
Predomina no sexo feminino e em pacientes jovens, geralmente com idade inferior a 40 anos.
Manifestações Clínicas
Os sintomas resultam da estenose ou oclusão dos grandes vasos:
- Claudicação: Dor e cansaço em membros superiores (ex: ao pentear o cabelo) devido ao acometimento da artéria subclávia.
- Pulsos e Pressões Assimétricos: Diferença significativa de pulsos e pressão arterial entre os membros superiores.
- Sopros: Audíveis sobre a subclávia, carótida e aorta, indicando estenose vascular.
- Hipertensão Renovascular: Pode ocorrer devido à estenose das artérias renais, que são ramos da aorta.
🧠 Mecanismo: A Takayasu tem predileção pela artéria subclávia, carótida e aorta, o que explica a claudicação de membros superiores, assimetria de pulsos e a hipertensão renovascular.
Diagnóstico
O diagnóstico é feito por exames de imagem que visualizam os vasos acometidos:
- Angiografia, Angio-TC ou Angio-RNM: São os métodos de escolha para identificar estenoses, oclusões e aneurismas na aorta e seus ramos.
Tratamento
O tratamento visa controlar a inflamação e restaurar o fluxo sanguíneo:
- Prednisona: Corticoide em doses elevadas para controlar a inflamação.
- Metotrexato (MTX): Pode ser utilizado como agente poupador de corticoide ou para acelerar a remissão.
- Angioplastia: Procedimentos de revascularização (em artérias renais, carótidas ou subclávias) devem ser realizados somente após a remissão da doença, confirmada por VHS e PCR normais, para evitar reestenose.
Vasculites de Grandes Vasos - Takayasu vs. Temporal
| Característica |
Arterite de Takayasu |
Arterite Temporal (de Células Gigantes) |
| Idade e Sexo |
Mulher jovem (< 40 anos) |
Mulher idosa (> 50 anos, média 75 anos) |
| Artérias Afetadas |
Aorta e seus ramos (subclávia, carótida, renal) |
Temporal, oftálmica, mandibular, central da retina |
| Claudicação |
Membros superiores (braços) |
Mandíbula |
| Lesão Grave |
Hipertensão renovascular |
Cegueira/Amaurose |
| Detalhes Clínicos |
Coarctação reversa (pulsos e PA assimétricos nos MMSS), sopros |
Cefaleia, hipersensibilidade do escalpo, ↑↑VHS, febre indeterminada, associação com Polimialgia Reumática (40%) |
| Diagnóstico |
Angiografia/Angio-TC/Angio-RNM |
Biópsia da temporal (padrão-ouro), USG Doppler |
| Tratamento |
Corticoides +/- MTX, revascularização (após remissão) |
Corticoides (resposta dramática), pulsoterapia (amaurose), AAS |
Doença de Kawasaki
A Doença de Kawasaki é uma vasculite de médios vasos que afeta predominantemente crianças, sendo a principal causa de doença cardíaca adquirida na infância.
Epidemiologia
Acomete principalmente crianças, com maior incidência no sexo masculino.
Clínica e Diagnóstico
O diagnóstico é clínico e requer a presença de febre prolongada (critério obrigatório) associada a pelo menos quatro dos cinco critérios adicionais:
- Febre > 5 dias (critério obrigatório).
- Congestão conjuntival bilateral: Hiperemia não exsudativa.
- Alterações em lábios e cavidade oral: Lábios eritematosos, fissurados, "língua em framboesa", eritema difuso da orofaringe.
- Linfonodomegalia cervical não-supurativa: Geralmente unilateral, maior que 1,5 cm.
- Exantema polimorfo: Rash cutâneo de diversas morfologias.
- Eritema e edema palmo-plantar: Com descamação periungueal na fase de convalescença.
🔎 Diagnóstico:
- Kawasaki Incompleta: Febre + menos de 4 critérios, mas com alta suspeita clínica e/ou evidência de inflamação.
- Aneurisma Coronariano: A presença de aneurisma coronariano fecha o diagnóstico, mesmo sem todos os critérios clínicos. É a complicação mais temida, embora reversível na maioria dos casos.
Achados Laboratoriais
A maioria das vasculites não altera o complemento, mas na Doença de Kawasaki, pode haver elevação do C3, sendo uma exceção.
Complicação
A principal complicação (mais temida) é o aneurisma coronariano, que pode levar a infarto do miocárdio, arritmias e morte súbita.
Exames Complementares
O ecocardiograma é fundamental e de realização obrigatória para monitorar o acometimento coronariano:
- No momento do diagnóstico.
- 2-3 semanas após o diagnóstico.
- 6-8 semanas após o diagnóstico.
Se aneurismas forem identificados, o ecocardiograma deve ser realizado semanalmente. Na maioria dos casos, aneurismas pequenos podem regredir. Se o ecocardiograma não for conclusivo, a angiografia coronariana (cateterismo) pode ser indicada.
Tratamento
O tratamento precoce é crucial para prevenir complicações cardíacas:
- Fase Aguda (idealmente até o 10º dia de febre):
- Imunoglobulina Venosa (IVIG): Dose única de 2g/kg. Se a febre persistir após a primeira dose, pode-se repetir.
- AAS (Ácido Acetilsalicílico): Em dose anti-inflamatória (30-50 ou 80-100 mg/kg/dia) até 48 horas após a resolução da febre.
- Fase Convalescente:
- AAS: Em dose antiagregante (3-5 mg/kg/dia) por 4-6 semanas.
- Fase Crônica (se houver aneurisma coronariano):
- AAS: Em dose antiagregante (3-5 mg/kg/dia) por tempo prolongado.
💊 Tratamento Avançado: Estudos recentes sugerem o uso de Infliximab para casos refratários à terapia padrão.
Poliarterite Nodosa (PAN)
A Poliarterite Nodosa é uma vasculite necrosante de médios vasos, que pode afetar múltiplos órgãos, mas classicamente poupa os pulmões.
Epidemiologia
Acomete predominantemente homens mais velhos, geralmente na faixa etária de 40 a 60 anos.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico é multissistêmico e pode incluir:
- Hipertensão Renovascular: Devido ao acometimento das artérias renais, com formação de aneurismas renais.
- Retenção Azotêmica: Elevação de ureia e creatinina, indicando disfunção renal.
- Sintomas Gastrointestinais: Como angina mesentérica (dor abdominal pós-prandial), náuseas, vômitos, diarreia, e até perfuração intestinal.
- Dor Testicular: Característica angina testicular, que pode ocorrer após relação sexual.
- Mononeurite Múltipla: Acometimento de múltiplos nervos periféricos, levando a fraqueza e parestesias em diferentes territórios.
- Livedo Reticular: Padrão de pele rendilhado, arroxeado, devido a alterações no fluxo sanguíneo cutâneo.
🧠 Perfil Clássico: "É o homem mais velho que sente dor abdominal após comer, dor no testículo após relação sexual, mononeurite múltipla e livedo reticular."
Achados Laboratoriais
Uma associação importante é a positividade para sorologia de Hepatite B (HBsAg e HBeAg positivos) em 10-30% dos casos, o que sugere uma vasculite secundária à infecção.
Diagnóstico
O diagnóstico é confirmado pela demonstração da vasculite:
- Biópsia: De pele, testículo ou músculo, revelando inflamação necrosante de médios vasos.
- Angiografia Mesentérica: O achado de múltiplos microaneurismas mesentéricos é um forte indicativo e frequentemente uma dica em provas.
Tratamento
O tratamento da PAN geralmente envolve uma combinação de imunossupressores:
- Prednisona: Corticoide em doses elevadas.
- Ciclofosfamida: Um potente imunossupressor, frequentemente usado em conjunto com corticoides para indução da remissão ("dupla dinâmica").
- Tratamento da Hepatite B: Se a infecção estiver presente, o tratamento antiviral é essencial.
⚠️ Atenção: A Poliarterite Nodosa (PAN) poupa o pulmão! Se houver acometimento pulmonar, deve-se pensar em Poliangeíte Microscópica ou outras vasculites de pequenos vasos.
Poliangeíte Microscópica
A Poliangeíte Microscópica é uma vasculite necrosante de pequenos vasos, frequentemente associada à Síndrome Pulmão-Rim.
Epidemiologia
Assim como a PAN, acomete predominantemente homens mais velhos. É frequentemente descrita como "a prima da PAN, mas que pegou pulmão", indicando similaridades clínicas, mas com o diferencial do acometimento pulmonar.
Manifestações Clínicas
O quadro clínico é caracterizado por uma vasculite de pequenos vasos que frequentemente se manifesta como Síndrome Pulmão-Rim:
- Acometimento Pulmonar: Cursa com capilarite pulmonar, que pode levar à hemoptise (sangramento pulmonar).
- Acometimento Renal: Afeta os glomérulos, resultando em glomerulonefrite rapidamente progressiva com crescentes.
Diagnóstico
O principal marcador sorológico é o P-ANCA positivo (anti-MPO). Lembre-se: P de Poliangeíte Microscópica = P-ANCA.
🚨 Síndrome Pulmão-Rim: Diagnósticos Diferenciais
A Síndrome Pulmão-Rim (caracterizada por hemoptise e glomerulonefrite) é uma emergência médica com diversas causas:
- Poliangeíte Microscópica: Associada a pANCA.
- Granulomatose com Poliangeíte (Wegener): Associada a cANCA.
- Síndrome de Goodpasture: Caracterizada por anticorpos anti-membrana basal glomerular (anti-MBG); pANCA pode estar positivo concomitantemente.
- Leptospirose: História de mialgia, exposição a enchentes ou cultivo de arroz.
- Lúpus Eritematoso Sistêmico: Presença de FAN (Fator Antinuclear), rash cutâneo e outros critérios lúpicos.
Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss)
🧠 Conceito Chave: É a vasculite sistêmica fortemente associada à asma brônquica.
Epidemiologia
- Acomete predominantemente homens.
- Faixa etária comum: entre 30 e 50 anos.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica é bastante característica e envolve múltiplos sistemas:
- Pulmonares: Asma de início tardio ou agravamento de asma preexistente, frequentemente grave e de difícil controle. Infiltrados pulmonares migratórios são achados radiológicos típicos.
- Neurológicas: Mononeurite múltipla, que se manifesta como dor e fraqueza em áreas inervadas por nervos periféricos específicos.
- Gastrointestinais: Gastroenterite eosinofílica, que pode causar dor abdominal, diarreia e sangramento.
- Cardíacas: Miocardite eosinofílica, uma complicação grave e frequentemente a principal causa de óbito.
- Cutâneas: Livedo reticular e nódulos subcutâneos podem estar presentes, embora menos proeminentes que os sintomas acima.
⚠️ Atenção: A miocardite eosinofílica é uma complicação de alta morbimortalidade e deve ser ativamente investigada.
Síndrome Pulmão-Rim
Embora seja uma vasculite ANCA-associada, a Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (GEPA) apresenta uma síndrome pulmão-rim com características distintas:
- Acometimento Pulmonar: Principalmente manifestado pela asma.
- Acometimento Renal: Glomerulonefrite de padrão proliferativo focal e segmentar (GESF) geralmente branda. A insuficiência renal pode ocorrer, mas é menos comum e menos grave do que em outras vasculites ANCA-associadas.
Achados Laboratoriais
- P-ANCA: Positivo em cerca de 40-60% dos casos.
- Eosinofilia: Marcante, com contagem de eosinófilos superior a 1000 células/mm³ ou representando mais de 10% dos leucócitos.
- IgE: Níveis séricos elevados de imunoglobulina E.
Diagnóstico
O diagnóstico definitivo é estabelecido pela biópsia, preferencialmente pulmonar, que revela a presença de granulomas eosinofílicos, vasculite de pequenos vasos e infiltrados eosinofílicos extravasculares.
Tratamento
A terapia inicial para casos moderados a graves geralmente envolve a combinação de:
- Corticosteroides: Prednisona em altas doses.
- Imunossupressores: Ciclofosfamida, especialmente em casos com acometimento de órgãos vitais.
Poliangeíte com Granulomatose (Wegener)
Epidemiologia
- Acomete homens e mulheres em proporções semelhantes.
- Pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais comum em adultos de meia-idade.
Manifestações Clínicas
Caracteriza-se por uma tríade clássica de acometimento de vias aéreas superiores, pulmões e rins:
- Vias Aéreas Superiores (VAS): Sinusite crônica, rinorreia purulenta, otite média, úlceras orais, perfurações do septo nasal e deformidade em "nariz em sela" devido à destruição cartilaginosa. Exoftalmia pode ocorrer devido a massas granulomatosas retro-orbitárias.
- Pulmonares: Hemoptise (devido a granulomas pulmonares que podem necrosar e formar cavidades), tosse, dispneia e infiltrados pulmonares.
- Renais: Glomerulonefrite rapidamente progressiva (GNRP) com formação de crescentes, que pode levar rapidamente à insuficiência renal.
- Outros: Febre, perda de peso, artralgias e lesões cutâneas (púrpura palpável, nódulos).
🔎 Diagnóstico Diferencial: A presença de febre, emagrecimento, hemoptise e cavidades pulmonares pode mimetizar tuberculose. Em regiões endêmicas, a tuberculose deve ser sempre a primeira hipótese a ser excluída.
Síndrome Pulmão-Rim
Na Poliangeíte com Granulomatose (GPA), a síndrome pulmão-rim é tipicamente grave:
- Acometimento Pulmonar: Hemoptise, frequentemente associada a granulomas necrosantes e cavitações.
- Acometimento Renal: Glomerulonefrite proliferativa com crescentes (GESF grave), que pode evoluir rapidamente para insuficiência renal terminal.
Achados Laboratoriais
- C-ANCA: Positivo em cerca de 90% dos casos com doença ativa e generalizada, com padrão citoplasmático (anti-PR3).
Diagnóstico
O diagnóstico é confirmado por biópsia, preferencialmente de vias aéreas superiores ou pulmão, que revela a presença de granulomas necrosantes, vasculite de pequenos e médios vasos e inflamação granulomatosa.
Tratamento
O tratamento é similar ao da GEPA para casos graves:
- Corticosteroides: Prednisona em altas doses.
- Imunossupressores: Ciclofosfamida. Outras opções incluem rituximabe, especialmente para indução de remissão ou em pacientes refratários.
Vasculites ANCA-Associadas e Síndrome Pulmão-Rim
É fundamental diferenciar as vasculites ANCA-associadas, especialmente no contexto da síndrome pulmão-rim, que se manifesta com hemorragia alveolar e glomerulonefrite.
| Vasculite |
ANCA Típico |
Acometimento Pulmonar Chave |
Acometimento Renal Chave |
| Poliangeíte Microscópica (PAM) |
P-ANCA (anti-MPO) |
Hemoptise (hemorragia alveolar) |
GESF grave (com crescentes) |
| Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss) |
P-ANCA (anti-MPO) |
Asma, infiltrados migratórios |
GESF branda |
| Poliangeíte com Granulomatose (Wegener) |
C-ANCA (anti-PR3) |
Hemoptise (granulomas necrosantes) |
GESF grave (com crescentes) |
Púrpura de Henoch-Schönlein (Vasculite por IgA)
Epidemiologia
- É a vasculite mais comum na infância, acometendo principalmente jovens com menos de 20 anos, e mais frequentemente crianças abaixo de 5 anos.
- Classificada como uma vasculite leucocitoclástica, caracterizada pela destruição dos vasos por leucócitos, predominantemente neutrófilos.
Fatores Precipitantes e Clínica
Frequentemente, a doença é precedida por uma infecção de vias aéreas superiores (IVAS) ou vacinação, evoluindo com uma tétrade clássica de manifestações:
- Púrpura Palpável: Lesões cutâneas elevadas, não trombocitopênicas, que não desaparecem à digitopressão, localizadas predominantemente em membros inferiores e nádegas.
- Poliartralgia/Artrite Não Deformante: Dor e inflamação nas articulações, que tendem a ser migratórias e não causam deformidades permanentes.
- Angina Mesentérica: Dor abdominal tipo cólica, diarreia e, em casos mais graves, sangramento gastrointestinal.
- Glomerulonefrite com Hematúria: Acometimento renal com hematúria macro ou microscópica, proteinúria, e depósitos de IgA no rim, similar à nefropatia por IgA (doença de Berger).
💡 Dica: Pense na Púrpura de Henoch-Schönlein como uma "doença de Berger sistêmica", onde a deposição de IgA se manifesta em múltiplos órgãos.
Achados Laboratoriais
- IgA-1: Níveis séricos elevados.
- Complemento: Geralmente normal.
- Plaquetas: Contagem normal ou até mesmo aumentada, um ponto crucial para diferenciar de púrpuras trombocitopênicas.
⚠️ Atenção: Púrpura palpável com plaquetas normais ou elevadas é um forte indicativo de Henoch-Schönlein. Se as plaquetas estiverem baixas, deve-se considerar outras causas de púrpura, como a púrpura trombocitopênica.
Diagnóstico
O diagnóstico é primariamente clínico. A biópsia renal é reservada para casos graves ou atípicos, revelando aumento de IgA e leucocitoclasia.
Critérios Diagnósticos
- Critérios ACR (American College of Rheumatology) - > 2 presentes:
- Púrpura palpável.
- Idade < 20 anos.
- Dor abdominal.
- Biópsia compatível (vasculite leucocitoclástica com depósitos de IgA).
- Critérios EULAR (European League Against Rheumatism) - Púrpura palpável + 1 dos seguintes:
- Dor abdominal.
- Artrite/artralgia.
- Biópsia compatível.
Complicações
- Renais: Glomerulonefrite grave, similar à doença de Berger, com potencial para elevada morbimortalidade.
- Gastrointestinais: Invaginação intestinal (mais comum na região íleo-ileal), sangramento e perfuração.
- Neurológicas: Convulsões, cefaleia e alterações comportamentais.
- Genitais: Orquite, epididimite e torção testicular.
Tratamento
O tratamento é principalmente de suporte. Corticosteroides (Prednisona) são indicados para complicações graves, como acometimento renal progressivo, dor abdominal intensa ou hemorragia gastrointestinal significativa.
Vasculite Crioglobulinêmica
Também classificada como uma vasculite leucocitoclástica, a vasculite crioglobulinêmica é caracterizada pela presença de crioglobulinas, imunoglobulinas que precipitam em baixas temperaturas.
Manifestações Clínicas
A apresentação clínica é variada e muitas vezes desencadeada por estresse físico ou infecções:
- Cutâneas: Púrpura palpável, que pode evoluir para úlceras cutâneas, e livedo reticular.
- Articulares: Poliartralgia.
- Renais: Glomerulonefrite branda.
- Neurológicas: Neuropatia periférica.
💡 Dica Mnemônica: "Estressou, faz púrpura" – A vasculite crioglobulinêmica frequentemente se manifesta após eventos estressores como infecções (ex: pneumonia) ou traumas.
Achados Laboratoriais e Diagnóstico
O diagnóstico pode ser clínico, mas os exames laboratoriais são cruciais para a confirmação e identificação da causa subjacente:
- Complemento: Redução dos níveis de complemento, especialmente C4 (< 8 mg/dL). Esta é uma exceção notável, pois a maioria das vasculites não afeta o complemento.
- Hepatite C (HCV): Sorologia positiva para HCV em mais de 90% dos casos, sendo a principal causa de crioglobulinemia mista.
- Crioglobulina: Detecção de crioglobulinas no soro.
- Fator Reumatoide (FR): Frequentemente positivo.
Tratamento
O tratamento envolve duas abordagens principais:
- Imunossupressão/Plasmaférese: Para controlar a inflamação e remover as crioglobulinas circulantes.
- Tratamento da Causa Subjacente: Erradicação do vírus da Hepatite C é fundamental, dada sua forte associação.
🚨 High Yield Note: Complemento nas Vasculites
Em geral, as vasculites não alteram os níveis de complemento. As duas exceções importantes são:
- Doença de Kawasaki: Aumento do complemento.
- Vasculite Crioglobulinêmica: Redução do complemento (especialmente C4).
Tromboangeíte Obliterante (Doença de Buerger)
🧠 Conceito Chave: "Homem jovem, tabagista, que perde as extremidades."
Epidemiologia
- Acomete homens jovens ou adultos.
- Fortemente associada ao tabagismo, sendo praticamente exclusiva de fumantes.
Manifestações Clínicas
Caracteriza-se por inflamação e trombose de artérias e veias de pequeno e médio calibre, principalmente nas extremidades:
- Necrose de Extremidades: Isquemia e necrose digital (dedos das mãos e pés), podendo afetar outras extremidades, incluindo o pênis.
- Claudicação: Dor nos membros durante o exercício, que melhora com o repouso.
- Fenômeno de Raynaud: Espasmo dos vasos sanguíneos que causa palidez, cianose e rubor nos dedos.
- Tromboflebite Migratória: Inflamação e trombose de veias superficiais, que aparecem e desaparecem em diferentes locais.
🔎 Diferencial Importante: Na doença de Buerger, os pulsos distais dos membros são acometidos, enquanto os pulsos proximais (ex: poplíteo, femoral) permanecem normais. Isso a diferencia da aterosclerose, onde o acometimento vascular é geralmente mais proximal e difuso.
Vasos Acometidos
Principalmente os vasos distais dos membros superiores e inferiores.
Diagnóstico
A angiografia é o exame de escolha, revelando um padrão característico de vasos espiralados, aspecto em "saca-rolha" ou "contas de rosário", e ausência de aterosclerose proximal.
Tratamento
Não há tratamento farmacológico específico para a doença. A medida mais crucial e eficaz é a cessação completa e permanente do tabagismo, que pode interromper a progressão da doença.
Doença de Behçet
Epidemiologia
- Acomete homens e mulheres em proporções semelhantes (1:1).
- Faixa etária comum: entre 25 e 35 anos.
Manifestações Clínicas
É uma vasculite sistêmica crônica e recorrente, caracterizada por uma tríade de úlceras orais e genitais recorrentes, e lesões oculares, além de outras manifestações:
- Úlceras Orais Recorrentes: Lesões dolorosas na boca, semelhantes a aftas, que cicatrizam sem deixar marcas.
- Úlceras Genitais/Escrotais: Lesões dolorosas nos órgãos genitais, que podem deixar cicatrizes.
- Lesões Oculares: Uveíte anterior ou pan-uveíte, hipópio (acúmulo de leucócitos na câmara anterior do olho), neovascularização, que podem levar à cegueira.
- Cutâneas: Eritema nodoso, pseudofoliculite (lesões semelhantes à acne) e patergia.
- Patergia: É uma hipersensibilidade cutânea inespecífica, onde uma pequena lesão (ex: picada de agulha) desencadeia uma pápula ou pústula inflamatória em 24-48 horas.
- Articulares: Artrite não deformante.
Vasos Acometidos
Pode afetar vasos de qualquer calibre, mas um achado importante são os aneurismas pulmonares, que, se romperem, podem causar hemoptise maciça e fatal.
Achados Laboratoriais
- ASCA: Anticorpos anti-Saccharomyces cerevisiae (ASCA) podem ser positivos, mas não são específicos para Behçet. É importante notar que não é um ANCA.
⚠️ Atenção: Não confunda ASCA com ANCA! O ASCA é mais associado a doenças inflamatórias intestinais, mas pode ser encontrado na Doença de Behçet.
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado nos critérios de classificação. A arteriografia pulmonar pode ser útil para identificar aneurismas pulmonares.
Tratamento
O tratamento é complexo e visa controlar os sintomas e prevenir danos aos órgãos, sendo muitas vezes empírico devido à natureza da doença e à falta de ensaios clínicos robustos:
- Corticosteroides: Prednisona para manifestações graves.
- Imunossupressores: Ciclofosfamida pode ser utilizada.
- Colchicina: Especialmente para lesões oculares e articulares.
- Talidomida: Para lesões cutâneas e úlceras orais/genitais refratárias.
A doença de Behçet é caracterizada por "picos e vales", o que dificulta a avaliação da eficácia do tratamento.
Vasculites - Pontos Chave para Prova
| Vasculite |
Clínica Chave |
| Arterite Temporal (de Células Gigantes) |
Cefaleia unilateral, claudicação de mandíbula, amaurose fugaz, polimialgia reumática associada. |
| Arterite de Takayasu |
Claudicação de membros superiores, pulsos assimétricos ou ausentes, diferença de pressão arterial entre os braços. |
| Doença de Kawasaki |
Febre prolongada (obrigatório), conjuntivite bilateral, lesões orais (língua em framboesa), linfonodomegalia cervical, exantema polimorfo, edema e descamação de extremidades. |
| Tromboangeíte Obliterante (Buerger) |
Isquemia/necrose de extremidades, tabagismo intenso, pulsos distais ausentes com proximais preservados. |
| Poliarterite Nodosa (PAN) |
Mononeurite múltipla, dor testicular, dor abdominal pós-prandial, livedo reticular, poupa o pulmão. |
| Poliangeíte Microscópica |
Vasculite ANCA-associada, hemoptise (hemorragia alveolar), glomerulonefrite grave (com crescentes). |
| Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (Churg-Strauss) |
Asma grave, infiltrados pulmonares migratórios, eosinofilia proeminente, mononeurite múltipla. |
| Poliangeíte com Granulomatose (Wegener) |
Lesões de vias aéreas superiores (sinusite, nariz em sela), hemoptise, glomerulonefrite rapidamente progressiva. |
| Vasculite Crioglobulinêmica |
Púrpura palpável, plaquetas normais, hepatite C associada, redução do complemento (C4). |
| Púrpura de Henoch-Schönlein |
Púrpura palpável, artralgia, dor abdominal, hematúria (nefropatia por IgA), comum na infância. |
| Doença de Behçet |
Úlceras orais e genitais recorrentes, lesões oculares (uveíte, hipópio), patergia, aneurismas pulmonares. |